(Luis Furtado, in Facebook, 02/02/2025, revisão da Estátua)
(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre Carlos Moedas e a sua gestão da Câmara de Lisboa (ver aqui), Pela sua atualidade, e pela justeza das suas considerações sobre o papel de Marcelo no complot que levou à queda do anterior governol, resolvi dar-lhe destaque.
Estátua de Sal, 02/02/2025)
Destaco do texto sobre Moedas: “Quando o PR e a PGR se conluiaram no parágrafo para o homicídio político de António Costa, esperava o PR deixar em coma o PS antes de dissolver a AR para levar o PSD ao poder“.
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Temos aqui uma ótima perspetiva dos meandros do golpe de Estado perpetrado via Ministério Público. que levou à queda do Governo de maioria absoluta do PS. Marcelo Rebelo de Sousa é bem conhecido por falar pelos cotovelos. E também pela sua grande aptidão em linguagem não-verbal, marcadamente codificada, enigmática. No fim de contas, linguagem “vichysoise“. Só que, dada a sua grande inteligência, sabe usar esse tipo de comunicação “cósmica” sem no entanto a tornar tão hermética que, na prática, seja impossível interpretá-la. Na verdade, Marcelo, quando quer, expressa-se bem mesmo sem dizer nada.
Um bom exemplo disso, foi aquele misterioso passeio noturno que Marcelo iniciou a partir do portão principal do Palácio de Belém, no próprio dia, ou no dia a seguir, já não posso precisar, em que Costa se demitiu. Saiu acompanhado por uma oficial, creio que sua ajudante de campo, e, sempre caminhando em passo acelerado, seguido por uma parafernália de jornalistas, ofegantes, a acompanhar as passadas largas dos caminheiros, se esforçavam, debalde, em obter respostas de Marcelo à catadupa de perguntas que lhe iam fazendo, acotovelando-se com as equipas de repórteres da televisão, que os seguiram com as câmaras e respectivos focos de luz, do princípio ao fim do passeio… Seguiu primeiro em direção ao CCB, passando diante da fachada principal, depois percorreu toda a extensão lateral do edifício, do lado da Av. da Índia. Atingidas as traseiras do edifício, contornou-o e, por ruas e ruelas sinuosas chegou finalmente à Rua de Pedrouços. Aí chegado, sempre em diálogo com a sua ajudante de campo, sem dar ouvidos aos jornalistas, voltou a percorrer o lado lateral do CCB; depois passou diante de toda a longa frontaria do Mosteiro dos Jerónimos e, caminhando já na Rua de Belém, mantendo-se sempre indiferente aos jornalistas, atravessou toda a frontaria do Palácio Cor de Rosa, e, já na zona dos pastéis de Belém, entrou com a sua ajudante de campo mais a multidão de repórteres que o seguiam no famoso “Beco do Chão Salgado“.
Desconfio que metade dos repórteres não conseguiu entrar no local, dadas as dimensões escassas do espaço. Mas entraram as câmaras suficientes para que o país visse que Marcelo aí deu uma prolongada lição à sua oficial ajudante de campo sobre o significado do pequeno monumento, em forma de coluna, que se ergue naquele batizado “Beco do Chão Salgado“.
Quem estudou História, sabe que aquele local evoca a execução cruenta, no patíbulo, dos Távoras, por ordem do Marquês de Pombal. Para o Marquês, os Távoras eram um empecilho à modernização que ele queria fazer do país. Representavam o Portugal conservador e velho. Nos antípodas dos seus planos de desenvolvimento. E como é que o Marquês de Pombal conseguiu justificar perante o povo o massacre sangrento dessa família, ao qual nem os criados escaparam?
Simples. O Rei D.José I (cuja estátua equestre foi, e ainda está, colocada no centro do Terreiro do Paço) tinha sofrido um atentado, a tiro, na zona onde hoje se ergue a Igreja da Memória. Resumindo: Aconteceu durante a noite, quando o rei, de natureza libertina, regressava de um dos seus muitos encontros libidinosos que manteve. Vá-se lá saber como… Começaram a circular rumores de que tal atentado havia sido engendrado pelos Távoras. A “comunicação social” da época encarregou-se de acentuar o mais possível esse boato e, assim, o Marquês de Pombal arranjou justificação quanto bastava para o seu ato bárbaro. Vai daí ordenou que fosse levado ao patíbulo, cada um dos elementos da família Távora, sendo que, pela forca, o seu sangue escorreu por todo aquele chão. Então, o Marquês de Pombal, ordenou que se espalhassem abundantes camadas de sal sobre toda aquela zona do enforcamento dos Távoras sob o mote: “Para que no chão daquele local, nem as ervas voltem a nascer“. Foi esta a história que Marcelo Rebelo de Sousa contou à sua ajudante de campo. É esta a história que alguns de nós (quero acreditar que ainda muitos) conhece. E, meus senhores, em passeios noturnos misteriosos e meras coincidências de datas acredita quem quer.
O que Marcelo instintivamente quis dizer ao país, em termos simbólicos, foi que o PS, com a queda do governo, tinha ficado (não digo morto, – Marcelo não tem qualquer paralelo com o Marquês de Pombal -, mas pelo menos em estado de hibernação) debaixo de uma camada de sal. Por muitos e muitos anos!
O grande falhanço de Marcelo foi acreditar que “O povo português em eleições é sábio” – parece que são dele estas palavras -, bem como “sabe de certeza ter bom senso”, nunca lhe passando pela cabeça, por um instante que fosse, aquilo que toda a gente adivinhava: dissolver um governo de maioria absoluta e convocar eleições ‘naquelas circunstâncias’ do tal parágrafo acrescentado com suspeições de corrupção sobre o Primeiro-ministro, que, ninguém espere, nem sentado, que algum dia serão clarificadas (1) – Ver Nota abaixo -, só podia dar fôlego à extrema-direita.
E aí esta ela, a Traquitana 50 em 1 a dar que falar. E a crescer, porque ninguém julgue que o eleitorado do Chega valoriza o Estado de direito democrático. Quais malas qual quê. Ninguém dá por nada!
Estás a ouvir Marcelo? É para ti que falo agora: Se o país está ingovernável e assim se irá manter por muitos e muitos anos, não te ponhas de fora. “O sábio povo português” não era o que julgavas? Está aí, vinda dos abstencionistas, a Traquitana 50 em 1.
Se acreditares que essa fatia do eleitorado votou naquilo com convicção, só demonstras que ainda és mais ingénuo do que simulas. Adeus Marcelo, e muitas vichysoises que a gente curte isso à brava.
Nota:
(1) Mas em que país do mundo é que um órgão institucional, de primeiro plano, como é uma PGR, emitiria um comunicado dirigido a um Primeiro-ministro, ele próprio figura institucional, com remendos? Ainda mais assinado não pela Procuradora, tal como se impunha que fosse, mas sim por dois ilustres desconhecidos elementos do gabinete de imprensa da Procuradoria? Onde é que isto aconteceria? E não se lembrou a Sra. Procuradora de chamar a mulher-a-dias. Seriam, então, não duas mas três as assinaturas…
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