A fábula do “mundo rural”

(António Guerreiro, in Público, 21/01/2022)

António Guerreiro

“Mundo rural” é uma das noções mais pitorescas ouvidas nos debates da campanha eleitoral. Num glossário do discurso político actual, teria lugar certo como expressão do pensamento conservador, que procura as virtudes da tradição e do enraizamento. Daí que tenha sido apropriada pelo dirigente de um partido da direita conservadora, como é o CDS, embora também possa ocorrer nas intervenções de Manuel Alegre (encontramo-la num texto que publicou neste jornal, na passada terça-feira), o qual, em matéria de enraizamentos, conservadorismos e velharias suplanta o CDS em ideologia e ornamento.

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“Mundo rural” não designa a mesma coisa que o campo, não alude à paisagem, não sugere a atitude passiva da contemplação nem corresponde a qualquer espécie de classificação antropológica. O “mundo rural” faz referência a formas de vida, de trabalho e de produção (a agricultura, a pecuária) que dependem de um território e das suas características naturais. E nas construções imaginárias do homem urbano está associado a uma ética, no sentido mais lato deste termo. Acontece, porém, que este “mundo rural” já não existe. Quem ousa hoje pensar que as estufas de Odemira, os olivais intensivos do Alentejo, as vinhas de onde saem vinhos de marca, o enoturismo, as adegas que são mostruários de arquitectura e os pomares de laranjeiras do Algarve e de pêra rocha e maçã na zona Oeste são lugares onde emerge e floresce a vida associada ao “mundo rural”? Aquilo a que os conservadores chamam “mundo rural” já não é povoado por vida digna desse nome: subsistem alguns velhos, que já não trabalham, e uns poucos novos, desejosos de partir, muito mais suburbanos do que rurais. O “mundo rural” é hoje mais um espaço da geografia histórica do capitalismo e das actividades predadoras.

Esta necessidade de usar uma categoria que já não corresponde a nenhuma existência nasce de um modo de percepção próprio da direita. Gilles Deleuze, numa longuíssima entrevista de três horas que deu em 1988 à sua amiga Claire Parnet (na condição de ela ser difundida depois da sua morte), definiu a esquerda e a direita como dois modos opostos de percepção. Ser de direita — disse ele — é seguir a lógica do remetente de uma carta: primeiro está o próprio, depois vem a rua onde mora, a seguir a cidade e finalmente o país; ser de esquerda, pelo contrário, é começar pela percepção do horizonte mais longínquo, isto é, perceber os contornos, e depois aproximarmo-nos progressivamente do que está perto de nós, de tal modo que os problemas distantes são percebidos como próximos. Usando este critério, chegamos à conclusão de que a esquerda é cada vez menos de esquerda, mas que a direita se mantém na sua posição de sempre. O “mundo rural” é o que a direita vê quando se recusa a olhar para o horizonte, de onde vêm nepaleses e paquistaneses para assegurar o que resta da nossa “vida rural”. Sem olhar para o horizonte, a direita não vê que o “mundo rural” de Odemira ou de Beja é feito da mesma substância, sem centro nem periferia, de que são feitos os espaços urbanos. O “mundo rural” não é mais do que parte daquilo a que o arquitecto Rem Koolhaas chamou “cidade genérica”.

O “mundo rural” distingue-se no entanto do junkspace, da cidade genérica feita de detritos urbanos, por estar imediatamente dependente das condições naturais: das temperaturas, da chuva, dos fenómenos meteorológicos. Mas tudo isto, que determina em primeiro lugar as condições da ruralidade, fica cuidadosamente omitido no discurso sobre o “mundo rural”. Não teria graça nenhuma, e implicaria admitir que teríamos de romper radicalmente com os métodos e a lógica económica que nos conduziram até aqui, dizer que o “mundo rural” está a definhar por falta de água e pela extinção das espécies, e reconhecer que o deserto cresce e a vida no “mundo rural” recua ou até se extingue. Não é que isso não esteja bem à mostra para quem queira e saiba ver (sim, há aqui um problema de ponto de vista: não havendo “mundo rural”, também já não há o olhar do mundo rural), mas evitar olhar o horizonte faz parte da ideologia perceptiva, à direita, e, em certa medida, da metodologia eleitoral, à esquerda.

O que podemos apreender desta campanha eleitoral é que falta horizonte ecológico à política e falta mais política ao olhar ecológico.



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Chantagem míope

(Daniel Oliveira, in Expresso, 22/01/2022)

Daniel Oliveira

Há quem defenda que Rui Rio garante as mesmas (ou até mais) condições de governabilidade do que António Costa. Porque nenhum vai conquistar a maioria absoluta ou maioria parlamentar — a ‘geringonça’ é impossível e Rio não se alia ao Chega.

E porque, tal como o PSD está disponível para viabilizar um governo do PS, o PS fará o mesmo com o PSD, já que Costa se demitirá e os socialistas, sem liderança, não estarão em condições de repetir o cenário de 2015.

Assim, teremos um governo minoritário de dois anos, viabilizado ao centro. O exercício tem fragilidades. PS e PSD não estão igualmente próximos de uma maioria absoluta — uma é difícil, outra é delírio.

O PSD comprometeu-se a uma viabilização de um Governo PS por dois anos, enquanto um Governo minoritário de Rio viabilizado por um PS sem líder teria o prazo de validade de um queijo fresco fora do frigorífico. Os entendimentos com o Chega são tóxicos e com a IL tenderão a puxar o PSD para um nicho social e ideológico perigoso. Só parecem fáceis porque, ao contrário da esquerda, ainda não se confrontaram com a realidade. Só nos Açores, com confusão ao fim de um ano. Por fim, como já vimos com António Costa, há diferenças entre o que é dito em campanha e o que se faz perante os resultados eleitorais.

Mas não deixa de ser verdade que Costa conseguiu o impossível: transformar umas eleições em que tinha mais escolhas do que Rio, por estar mais próximo da maioria absoluta e ter pontes possíveis com o centro-direita e com toda a esquerda (ao contrário de Rio à direita), no oposto. Para pedir a maioria absoluta à custa dos partidos à sua esquerda, Costa foi recuando no que disse depois da queda do Governo — que a correlação de forças determinaria os termos do diálogo. Como uma maioria absoluta do PS, depois de seis anos no poder, só entusiasma os que têm saudades da última que conhecemos, o discurso passou a ser o da impossibilidade de entendimentos, para tirar utilidade ao voto no BE e no PCP.

E, no debate com Rio, Costa tentou o tudo ou nada: ou tem maioria absoluta, ou negociará à peça. Ou lhe dão tudo, ou devolve a crise política. Até apresenta o mesmo Orçamento. Faz aos eleitores o que suspeito que fez aos seus “parceiros”: ou o mantêm no poder sem mais exigências, ou pagam as favas da crise. Subiu ao palco o António Costa que andou pelos bastidores das negociações.

Nos Açores, onde o filho de Carlos César lidera a lista, perguntou: “O que acontece quando nos distraímos e não votamos no PS?” Já votei PS (em Costa), BE, PCP e Livre e estava igualmente atento.

E, como a maioria, lido mal com condescendência de políticos.

Ao substituir um discurso em torno da recuperação económica e social depois da pandemia pela tentativa de encostar os eleitores à parede, Costa exibe o seu calcanhar de Aquiles: a arrogância. E exibe o que seria a maioria absoluta.

Porque precisava da geringonça para sobreviver, Costa contribuiu para criar uma nova realidade política, em que o PS ficou em igualdade de circunstâncias com o PSD na possibilidade de construir maiorias sem depender do seu principal concorrente. Agora, quer reerguer os muros.

Quando, em vez de se concentrar na conquista do voto centrista, Costa usa a chantagem para secar o eleitorado à sua esquerda, não está a tentar regressar ao pré-2015. Está a tentar criar um pós-2022, onde o PS ficaria praticamente sozinho à esquerda. Sem esse flanco a defender, o partido escorregaria para a direita, a sua ala esquerda seria dizimada e toda a política se desequilibraria, ficando a IL e o Chega como únicos partidos com capacidade de atrair o descontentamento ou fazer pressão fora do centrão. Recordo que muitas das medidas de que Costa se gaba não estavam no programa do PS de 2015. Existiram porque existiram BE e PCP. Os partidos que o puseram no poder depois dele não ter conseguido derrotar Passos Coelho e ali o mantiveram por seis anos, não pedindo lugares, mas políticas. Deram bem mais do que receberam, apesar de hoje serem tratados como uns malandros em quem não se pode confiar. Achar que são substituíveis por um partido unipessoal que será engolido pelo PS e por outro que se contenta com meia dúzia de cedências do PS ou do PSD, apenas sublinha a indisponibilidade para dialogar com forças autónomas com peso político.

Se Costa fosse bem-sucedido, e as sondagens não o confirmam, o PS passaria a ter de se entender com a direita sempre que não conquistasse as cada vez mais improváveis maiorias absolutas.

Apesar da sua vista estreita, Costa foi coautor de uma mudança estrutural. Apesar das más relações com Catarina Martins, foi dos governos minoritários mais duradouros. E apesar das boas relações com Jerónimo, houve uma rutura. O que determinará o que cada um fará, incluindo o PS, serão os resultados eleitorais. Os entendimentos à esquerda não são um chá-dançante. São um exercício de tensão em que o PS modera alguns irrealismos do BE e do PCP e estes moderam o imobilismo e a permeabilidade aos interesses do PS. Sem esta tensão, a esquerda condena-se. E, com ela, o próprio PS.


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Coisas que tenho como evidentes

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/01/2022)

Miguel Sousa Tavares

1 Os debates tiveram uma grande virtude, que foi a de, por uma vez, termos assistido a uma discussão sobre política, sobre ideias e ideologias diversas e, consequentemente, sobre diferentes opções económicas e sociais. Coisas determinantes ficaram, todavia, de fora, com destaque para o ambiente e a política externa — num momento crucial de crise na fronteira leste da Europa, envolvendo a NATO, à qual pertencemos. Mas, isso perdoado, os eleitores não se podem queixar de não terem sido esclarecidos e de não terem percebido as diferentes opções em cima da mesa. E, finalmente, o tema dos impostos — do excesso de impostos sobre quem trabalha e produz riqueza — ocupou o primeiro plano das discussões e, tirando o PCP, como seria de esperar, nem a esquerda escapou à discussão, ouvindo-se até Catarina Martins a defender uma suave descida dos escalões intermédios do IRS, do imposto sobre os combustíveis e do IVA sobre a electricidade. Num país em que o Estado cobra 43.000 milhões de euros entre impostos directos e indirectos, sugando a riqueza do país e asfixiando o crescimento, e em que o palco é permanentemente ocupado por economistas das Universidades públicas defensores de mais e mais impostos e despesa, creio que este primeiro passo agora dado na discussão se vai tornar irreversível.

Só por isso vale a pena ir às urnas.

2 Voltar a Córdova é regressar à essência do que é o mundo mediterrânico de onde nós vimos, onde crescemos e aprendemos e que nos cabe defender contra modas e presunções. É certo que ali estamos longe do nosso mar, apenas contemplando um Guadalquivir por estes dias também escasso de água, anunciando uma iminente tragédia ibérica que só loucos e irresponsáveis persistem em não querer ver. Mas longe do azul líquido do mar, esquecemo-nos disso nas ruelas e becos do Barrio Judio, na deslumbrante mesquita, depois feita catedral, nos sucessivos tanques de água que escorre entre laranjais nos jardins do Paço Real, ou nos pátios, depois de pátios e após pátios, do Palácio Viana. Porque esta é a nossa herança romana e árabe: pátios, jardins, terraços, sombras e água que corre, como no Alhambra. E aqui viveram em harmonia durante séculos judeus, muçulmanos e cristãos, até que a Reconquista dos Reis Católicos e a Santa Inquisição reduzisse tudo a um só povo, uma só raça, uma só fé.

Em Córdova também, reúne-se tudo o que faz da Andaluzia uma terra única, de gente única, de tradições e personalidade únicas: ciganos e flamenco, presunto e “embutidos” do porco ibérico morto com todos os requintes necessários a esse milagre gustativo, caça e touradas. Ou seja, tudo aquilo que faz a nossa Inês Surreal e o seu virtuoso PAN, agora putativo parceiro preferencial de António Costa, desatar aos gritos de “barbárie!” e “retrocesso civilizacional”. Há, em Córdova, um museu sobre esse retrocesso civilizacional, que, mesmo os não entendidos como eu, não conseguem visitar sem um estremecimento de emoção e de respeito: o Museu da Tauromaquia. Ali se guardam alguns “trajes de luces” e outra memorabilia, além de fotografias de touros e toureiros que se tornaram imortais na praça de Córdova.

Lá estão as histórias e as fotografias dos “califas de Córdova” — Guerrita, “Lagartijo”, El Galo, Juan Belmonte (considerado o fundador do toureio moderno e o mais elegante de sempre, o homem que nunca se mexia diante do touro), ou Joselito El Galo III, morto pelo “Balader”, um touro vesgo, que investiu ao corpo e não ao capote.

Ou aquele que ainda hoje é venerado em toda a Espanha como o maior toureiro de sempre: Manuel Rodriguéz Sanchéz, vulgo Manolete, nascido em Santa Marina, o bairro dos toureiros de Córdoba, de sangue cigano, feio como uma noite de trovoada, mas adorado por toda a Espanha, dentro e fora da arena. Dizia-se que toureava tão próximo do touro que quando este investia sobre a sua muleta a multidão sustinha a respiração e nem um sopro se ouvia na praça inteira. Toureando ao lado de Luis Miguel Dominguin, outra lenda do toureio espanhol, morreu aos 30 anos de idade na Praça de Linares, confundindo o seu sangue na arena com o do touro “Islero”, que acabara de matar — sim, porque os toureiros também morrem. Morreu “a las cinco en punto de la tarde”, como escreveria no seu imortal poema Federico García Lorca. Morreu aquele sobre quem o então cônsul brasileiro em Sevilha, João Cabral de Melo Neto, talvez o maior poeta brasileiro de sempre, escreveu: “Eu vi Manolo González e Pepe Luíz, de Sevilha/ precisão doce de flor, porém precisa…/ Mas eu vi Manuel Rodriguéz, Manolete, o mais deserto/ o toureiro mais agudo, mais mineral e mais desperto”.

Sim, Manolete, Belmonte, João Cabral, Garcia Lorca, Vale-Inclán, que escreveu que nada é mais profundamente espanhol do que as touradas, Órtega y Gasset, Picasso ou Dalí, que as pintaram, todos sabemos e saberemos quem foram porque fazem parte da nossa cultura. Mas a Inês Surreal e a sua luta pela “civilização”, quem se lembrará dela a não ser António Costa em caso de necessidade? Civilização? Sim, a minha, aquela onde estão as minhas raízes e o meu caminho de casa.

3 Às vezes, há pessoas cuja palavra parece vir de tão fundo do coração — ou da alma, se é que isso existe — que tornam luminoso e imediatamente evidente aquilo que a outros custa tantas palavras a explicar. Pensei nisso ao ler no último número da Revista do Expresso a entrevista da escritora moçambicana Paulina Chiziane, Prémio Camões 2021. Esta mulher, que gosta de passar longas horas diante de uma fogueira e que afirma ter com a língua portuguesa “uma relação de amor, com conflitos, como em todas as histórias de amor”, fez mais, em quatro páginas de entrevista, pelo anti-racismo, pelo pan-africanismo, pelos direitos das mulheres e pela ecologia, do que todas as comissões, feministas encartadas ou movimentos organizados que se ocupam disso. E fê-lo de uma forma tão espontânea e simultaneamente tão meditada, tão bonita e tão desarmante, que todos esses temas aparecem integrados, como se cada um decorresse do outro. Ao ouvi-la, ao pensar bem no que ela diz, não me quedam dúvidas, por exemplo, de que “a construção de África é feminina”. E creio que jamais alguém desarmará de forma tão simples o racismo: Que beleza teria o mundo se apenas houvesse uma raça?”

4 Depois de um encontro infrutífero EUA-Rússia a nível de ministros dos Estrangeiros, depois do encontro NATO-Rússia em Bruxelas e Europa-Rússia em Viena, ambos com idênticos nulos resultados, os “especialistas” — os do lado de cá — continuam a afirmar que a Rússia não cedeu um milímetro e mantém 100.000 soldados na fronteira leste da Ucrânia. Na verdade, até já retirou 10.000 num gesto prévio de boa-vontade não correspondido pelo lado de cá, que continua a enviar armamento para a Ucrânia e a manter planos de exercícios militares conjuntos. Mas se a Rússia não cedeu um milímetro, devíamos perguntar que milímetro cedeu a NATO? E a resposta é zero.

Excitada pelo seu secretário-geral, Jens Tillerman, um Doctor Strangelove ansioso por guerra e por alargar cada vez mais a NATO em direcção à Rússia, até a cercar por todos os lados — agora até sonhando com a inclusão da Suécia e da Finlândia —, o discurso do lado de cá é falar de guerra como se de uma banalidade se tratasse. Antes de nos perguntarmos se a Rússia quer uma guerra no Donbass, devíamos perguntarmo-nos para que quer a NATO expandir-se continuamente em direcção à Rússia? Será isto, como juram, uma estratégia defensiva, face a um inimigo cuja capacidade militar e investimento em defesa é umas 15 vezes inferior ao das forças da NATO? Lembrem-se da mal chamada “Guerra dos Balcãs”, que outra coisa não foi do que o bombardeamento cego de Belgrado para escoar o armamento americano que se estava a tornar obsoleto e que a indústria militar precisava de renovar. Estamos a falar de guerra na Europa: é um assunto demasiado sério para que nos continuem a atirar poeira para os olhos, com a cumplicidade de uma imprensa estranhamente acrítica.

Tudo o que a Rússia pede é a garantia de que nem a Ucrânia nem a Geórgia, nas suas fronteiras, vão aderir à NATO. Em troca, o que a NATO pode exigir à Rússia é a garantia de que não invadirá a Ucrânia. Custa assim tanto evitar a guerra?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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