O tempo não passa sempre da mesma maneira

(Pacheco Pereira, in Público, 26/03/2022)

Pacheco Pereira

Nestes dias comemora-se a ultrapassagem do tempo da ditadura pelo tempo da democracia. Não sei se sou só eu que se estranha com esta situação: olhando a partir do meu tempo “vivido”, a ditadura demorou muito mais tempo do que a democracia. Muito mais tempo, a “longa noite”. E no entanto, eu vivi mais tempo em democracia do que em ditadura e muito mais ainda se deixar de contar a infância. É “parece-me” com todas as limitações dessa subjectividade. E, no entanto, a aceleração da história ou a sua estagnação existem para além do “parece-me”, sendo que o tempo do capitalismo industrial, da sociedade de consumo, dos totalitarismos do século XX, das democracias é sabido que é tido como sendo acelerado, por exemplo comparado com a “lentidão” do tempo medieval. É um terreno historicamente complicado, propício à asneira, mas, na verdade, “parece-me”… Não é ciência, é percepção.

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Olhando para os 48 anos de ditadura, o tempo parece-me muito longo; os 48 anos de democracia um instante incomparável com o anterior. Como é possível? Escrevendo sobre os anos de 1926 a 1974, passo por períodos muito definidos de história, os anos do estertor da República com as últimas tentativas do “reviralho” até 1934, a consolidação do Estado Novo até à guerra, e depois o pós-guerra, fim dos anos 40 e década de 50, até pelo menos o “furacão Delgado” que abre uns anos antes a década de 60, com a Guerra Colonial, os conflitos estudantis e operários e depois a ruptura final com a queda de Salazar, o “caetanismo” e por fim o 25 de Abril. Nenhum historiador consegue escrever sobre estas quase cinco décadas sem fazer distinções entre tempos, mas há constância (ou constâncias) na ditadura, a começar por ser isso mesmo, uma ditadura. Anda tudo devagar.

Por outro lado, os 48 anos de democracia parecem-me muito rápidos. É certo que há os anos de 1975-6, entre o PREC e o 25 de Novembro, e depois a Constituição. Menos lembrado está o grande retorno de África, mas esse esquecimento pode ter a ver com a dificuldade de lembrar a culpa, a dupla culpa da guerra e do modo do fim da guerra. E depois há a queda de Spínola, a ascensão de Eanes e Soares, a ruptura da AD e a morte de Sá Carneiro, a sucessão de governos e presidentes, o vaivém entre o PS e o PSD, Cavaco, Sócrates, Passos, Costa, a “geringonça” e nos últimos anos a entrada no sistema político do populismo do Chega e do anarco-liberalismo da IL.

Como Salazar estava lá e a face do regime era sempre a mesma, tudo parecia “evolução na continuidade”

Por muito que estes diferentes acontecimentos marquem momentos da vida da democracia, parecem ter uma duração curta e ter menor valor estrutural do que os grandes momentos da relação da ditadura com a história do século XX . É também um problema de “pontos sem retorno”. O golpe de 1926, as revoltas do “reviralho”, o grande saneamento de 1926 a 1934, militar e civil, os anos do fascismo lusitano puro com braço ao alto, marchas de verde nas ruas, repressão violenta, a vitória franquista na Guerra Civil de Espanha, o Salazar servidor de dois amos, Hitler e Roosevelt, a “democracia orgânica”, a campanha de Delgado, a perda de Goa, a Guerra Colonial, Marcelo Caetano e o 25 de Abril, tudo foram momentos de mudança qualitativa, pontos em que se pode definir um antes e um depois. Como Salazar estava lá quase todo este tempo, a face do regime era sempre a mesma, tudo parecia “evolução na continuidade”.

Na democracia, também há desses pontos, mas são menos. Um é claramente o 11 de Março e o 25 de Novembro, as eleições de 1975 e a Constituição. Este período é temporalmente curto, de menos de três anos. A seguir a vitória da AD, em 1979, é outro ponto sem retorno pelo facto de, pela primeira vez, haver uma genuína alternância de governo, o mesmo se passando com a sequência da vitória presidencial de Soares e a maioria absoluta de Cavaco. Depois disso há muitos acontecimentos relevantes, mas, à luz dos de 1974- 1989, menos intensos, sentidos como uma sequência normal, em que há mudanças, mas menos dramaticidade. São “pontinhos” sem retorno, mas numa constante de democracia plena, institucionalizada, sem grandes crises de regime, como nos anos do PREC. Aliás, parece que, à medida que os anos de democracia e liberdade vão passando, se instala um consenso de regime mais pacífico, e por isso sentido como uma normal respiração do tempo, como se nada acontecesse. Como se o tempo que nos é exterior, o tempo da história, se tornasse um tempo interior, nosso, subjectivo, mais moldado pelo passar da idade física e por isso medido apenas pelos aniversários. Comparado com 48 anos de claustrofobia e medo, sem liberdade, com polícia política e censura, guerra em África, o tempo da democracia parece mais suportável, menos pesado, logo, mais rápido. Custa menos a passar, há menos “fora” e mais “dentro”.

Referi-me muitas vezes a um tempo que é no essencial político, 48 anos de ditadura versus 48 anos de democracia, e cuja rapidez ou lentidão também se manifesta na economia, na cultura e na sociedade, mas aí há fenómenos qualitativamente diferentes com outros “tempos” com outras dependências, quer do bem-estar material, quer das modas, quer da sociabilidade. Mas também aí a claustrofobia e a autarcia paralisavam a mudança e, por isso, o tempo parecia mais lento antes de 1974.

Sendo assim, um dia mais de democracia face à ditadura não me mobiliza muito, seja qual for o balanço das alterações, as coisas que verdadeiramente mudaram foram em 25 de Abril de 1974. A força dessas mudanças, a força de uma revolução, a força da liberdade, a força da democracia fazem-me estar hoje como no dia 26 de Abril, sabendo que no dia anterior tudo tinha mudado. Em bom rigor, começou a haver tempo, dia, manhã, meio-dia, tarde, fim de tarde, crepúsculo, noite e madrugada, e não só noite.

O autor é colunista do PÚBLICO


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O novo Governo

(José Manuel Correia Pinto, in Facebook, 23/03/2022)

Marcelo zangado… Isso não se faz ao PR… 🙂

O novo Governo começa mal. Depois de todo o secretismo acerca dos nomes com receio que viessem a cair nas mãos de Marcelo e delas para a comunicação social, passou se exatamente o contrario: a entrega formal ao Presidente da República dos nomes que compõe o novo Governo foi antecedida da sua publicação na comunicação social, o que levou Marcelo – muito justamente – a cancelar o encontro com Costa.

Entre ter havido um descuido e ter sido feito propositamente, dificilmente se poderá aceitar a tese do descuido, tantas foram as cautelas que rodearam a sua constituição.

Um incidente que trará consequências, de nada valendo minimizá-lo como já se ouviu nalgumas caixas de ressonância do à Governo.

Quanto ao mais, não creio que o Presidente da República bem como muitos outros portugueses estejam particularmente satisfeitos com a composição deste Governo.

Dada a situação política, militar e económica que se vive na Europa, as três pastas mais importantes serão a da Defesa, a dos Negócios Estrangeiros e a da Economia, pastas que deveriam ter sido entregues a nomes que pudessem suprir ou atenuar as insuficiências de António Costa (que são várias) no actual contexto. Considerando que o PM já deu sinais de não se encontrar à vontade na presente situação (algo muito diferente de uma pandemia), talvez fosse exageradamente optimista supor que tivesse consciência das suas insuficiências e se propusesse atenuá-las por via da escolha adequada de personalidades que naquelas pastas pudessem fazer o que ele não tem feito.

O Ministro da Defesa é uma senhora que não tem a menor experiência nem conhecimentos suficientes para saber como mover-se no complexo xadrez em que vai ser chamada a actuar. António Costa deveria ter escolhido um militar, democrata, que saiba fazer analises realistas da situação e tenha uma noção muito clara dos verdadeiros interesses nacionais. Nomes não faltariam, mas Costa como tantos outros receia a convivência com verdadeiros democratas.

Nos Negócios Estrangeiros, a escolha não poderia ser pior. Não apenas por se tratar de uma pessoa com a qual o PR está politicamente incompatibilizado, grave num cargo em que o PR tem amplos poderes, mas também – e principalmente – por já ter dado provas sobejas de que não tem uma noção correcta dos interesses nacionais, actuando antes como um burocrata de Bruxelas ao serviço dos pseudo interesses da instituição em que se considera integrado. Provavelmente, só a escolha de um diplomata experiente, com um passado construído à margem de fáceis consensos e sem receio de defender o interesse nacional poderia preencher as exigências do cargo, ponto é que ele exista.

Finalmente, na Economia exigia se uma pessoa de acção, com grande sentido prático da resposta a dar aos múltiplos problemas que vão surgir, e não um visionário idealista que se propõe alcançar resultados daqui a 10 ou 15 anos. Ficando sem se perceber por que razão Siza Vieira não continua.

Em resumo: Costa deveria ter percebido que a maioria absoluta não lhe garante nada.


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Por quê os EUA e a NATO nunca foram sancionados por iniciarem guerras?

(Robert Bridge, in Resistir, 04/03/2022)

O Ocidente tomou uma posição extrema contra a Rússia por causa de sua invasão na Ucrânia. Essa reação expõe um alto grau de hipocrisia, considerando que as guerras lideradas pelos EUA no exterior nunca receberam a resposta punitiva que mereciam.

Se os eventos atuais na Ucrânia provaram alguma coisa, é que os Estados Unidos e seus parceiros transatlânticos são capazes de atropelar um planeta em estado de choque – no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, para citar alguns dos pontos críticos – com impunidade quase total. Enquanto isso, a Rússia e Vladimir Putin estão sendo retratados em quase todos os media principais como a segunda vinda da Alemanha nazista por suas ações na Ucrânia.

Primeiro, vamos ser claros sobre algo. A hipocrisia e os padrões duplos por si só não justificam a abertura das hostilidades por nenhum país. Por outras palavras, só porque os países do bloco da NATO vêm abrindo caminho de destruição arbitrária em todo o mundo desde 2001 sem sérias consequências, isso não dá à Rússia, ou a qualquer país, licença moral para se comportar de maneira semelhante. Deve haver uma razão convincente para um país autorizar o uso da força, comprometendo-se assim com o que poderia ser considerado “uma guerra justa”. Assim, a pergunta: as ações da Rússia hoje podem ser consideradas “justas” ou, no mínimo, compreensíveis? Deixarei essa resposta para o melhor julgamento do leitor, mas seria útil considerar alguns pormenores importantes.

Só para os consumidores de fast food dos media convencionais seria uma surpresa que Moscou vem alertando sobre a expansão da NATO há mais de uma década. No seu, agora famoso discurso, na Conferência de Segurança de Munique em 2007, Vladimir Putin perguntou de modo pungente aos poderosos globais reunidos à queima-roupa: “por que é necessário colocar infraestrutura militar junto de nossas fronteiras durante essa expansão [da NATO]? Alguém pode responder a esta pergunta?” Mais adiante no discurso, ele disse que a expansão dos ativos militares até a fronteira russa “não está relacionada de forma alguma com as escolhas democráticas de estados individuais”.

Não só as preocupações do líder russo foram recebidas com a quantidade previsível de desrespeito no meio do som ensurdecedor dos grilos, como a NATO concedeu adesão a mais quatro países desde aquele dia (Albânia, Croácia, Montenegro e Macedônia do Norte). Como experiencia mental que até um idiota poderia realizar, imagine a reação de Washington se Moscovo estivesse construindo um bloco militar em expansão contínua na América do Sul, por exemplo.

A verdadeira causa do alarme de Moscovo, no entanto, veio quando os EUA e a NATO começaram a inundar a vizinha Ucrânia com uma deslumbrante variedade de armas refinadas em meio a pedidos de adesão ao bloco militar. O que diabos poderia dar errado? Na cabeça de Moscovo, a Ucrânia começava a representar uma ameaça existencial para a Rússia.

Em dezembro, Moscovo, rapidamente chegando ao fim de sua paciência, entregou rascunhos de tratados aos EUA e à NATO, exigindo que eles interrompessem qualquer expansão militar para o leste, inclusive pela adesão da Ucrânia ou de quaisquer outros estados. Incluiu a declaração explícita de que a NATO “não realizará nenhuma atividade militar no território da Ucrânia ou outros estados da Europa Oriental, Sul do Cáucaso e Ásia Central”. Mais uma vez, as propostas da Rússia foram recebidas com arrogância e indiferença pelos líderes ocidentais.

Embora as pessoas tenham opiniões diferentes sobre as ações chocantes que Moscovo tomou a seguir, ninguém pode dizer que não foi avisado. Afinal, não é como se a Rússia acordasse em 24 de fevereiro e de repente decidisse que era um dia maravilhoso para iniciar uma operação militar no território da Ucrânia. Então, sim, pode-se argumentar que a Rússia se preocupava com sua própria segurança como justificativa para suas ações. Infelizmente, a mesma coisa pode ser mais difícil de dizer para os Estados Unidos e seus subordinados da NATO em relação ao seu comportamento beligerante ao longo das últimas duas décadas.

Considere o exemplo mais notório, a invasão do Iraque em 2003. Essa guerra desastrosa, que os media ocidentais classificaram como uma infeliz “falha de inteligência”, representa um dos atos mais flagrantes de agressão não provocada da memória recente. Sem se aprofundar nos pormenores obscuros, os Estados Unidos, tendo acabado de sofrer os ataques de 11 de setembro, acusaram Saddam Hussein do Iraque de abrigar armas de destruição em massa. No entanto, ao invés de trabalhar em estreita cooperação com os inspetores de armas da ONU, que estavam no Iraque tentando verificar estas alegações, os EUA, juntamente com o Reino Unido, Austrália e Polónia, em 19 de março de 2003 lançaram uma campanha de bombardeio ‘Choque e pavor’ contra o Iraque. Num piscar de olhos, mais de um milhão de iraquianos inocentes sofreram morte, ferimentos ou deslocamento por esta flagrante violação do direito internacional.

O Center for Public Integrity informou que o governo Bush, em seu esforço para aumentar o apoio público à carnificina iminente, fez mais de 900 declarações falsas entre 2001 e 2003 sobre a suposta ameaça do Iraque aos EUA e seus aliados. No entanto, de alguma forma, os media ocidentais, que se tornaram a voz raivosa da agressão militar, não conseguiram encontrar qualquer falha no argumento a favor da guerra – isto é, até depois de as botas e o sangue estarem no terreno, é claro.

Pode-se esperar, num mundo mais perfeito, que os EUA e seus aliados fossem submetidos a algumas duras sanções após esse “erro” prolongado de oito anos contra inocentes. Na verdade, houve sanções, mas não contra os Estados Unidos. Ironicamente, as únicas sanções que resultaram dessa louca aventura militar foram contra a França, um membro da NATO que recusou o convite, juntamente com a Alemanha, para participar do banho de sangue iraquiano. A hiperpotência global não está acostumada a tal rejeição, especialmente de seus supostos amigos.

Os políticos americanos, confiantes no seu divino excepcionalismo, exigiram um boicote ao vinho francês e à água mineral engarrafada devido à oposição “ingrata” do governo francês à guerra no Iraque. Outros agitadores da guerra traíram sua falta de seriedade ao insistir que o popular item de menu conhecido como “French Fries” (batatas fritas) fosse substituído pelo nome “Freedom Fries”. Assim, a falta do Bordeaux francês, juntamente com a tediosa reformulação dos menus dos restaurantes, parece terem sido os únicos inconvenientes reais que os EUA e a NATO sofreram por destruir indiscriminadamente milhões de vidas.

Agora compare essa abordagem de luva de pelica para com os EUA e seus aliados com a situação atual envolvendo a Ucrânia, onde a balança da justiça está claramente pesando contra a Rússia, – apesar dos seus avisos não irracionais de que se sentia ameaçada pelos avanços da NATO. O que quer que uma pessoa possa pensar sobre o conflito que agora ocorre entre a Rússia e a Ucrânia, não se pode negar que a hipocrisia e os padrões duplos que estão sendo levantados contra a Rússia por seus detratores perenes é tão chocante quanto previsível. A diferença hoje, porém, é que as bombas estão explodindo.

Além das severas sanções a indivíduos russos e à economia russa, talvez melhor resumida pelo ministro da Economia francês, que disse que seu país está comprometido em travar “uma guerra económica e financeira total contra a Rússia”, houve um esforço profundamente perturbador para silenciar notícias e informações vindas das fontes russas que possam dar ao público ocidental a opção de examinar as motivações de Moscovo. Na terça-feira, 1º de março, o YouTube decidiu bloquear os canais da RT e do Sputnik para todos os utilizadores europeus, permitindo assim que o mundo ocidental se apoderasse de outro pedaço da narrativa global.

Considerando a maneira como a Rússia foi vilipendiada no “império da mentira”, como Vladimir Putin denominou a terra dos seus perseguidores politicamente motivados, alguns podem acreditar que a Rússia merece as ameaças ininterruptas que agora recebe. Na verdade, nada poderia estar mais longe da verdade. Esse tipo de arrogância global, que se assemelha a algum tipo de campanha irracional de sinalização de virtude agora tão popular nas capitais liberais, além de inflamar desnecessariamente uma situação já volátil, assume que a Rússia está totalmente errada, ponto final.

Uma abordagem tão imprudente, que não deixa espaço para debate, sem espaço para discussão, sem espaço para ver o lado da Rússia nesta situação extremamente complexa, apenas garante mais impasses, se não uma guerra global completa, mais adiante. A menos que o Ocidente esteja buscando ativamente a eclosão da Terceira Guerra Mundial, seria aconselhável parar com a hipocrisia hedionda e os padrões duplos contra a Rússia e ouvir pacientemente suas opiniões e versões dos eventos (mesmo as apresentadas pelos media estrangeiros). Não é tão inacreditável como algumas pessoas podem querer acreditar.

[*] O autor é escritor e jornalista americano, autor de Midnight in the American Empire: How Corporations and Their Political Servants are Destroying the American Dream (Meia noite no império americano: Como as corporações e os seus serviçais políticos estão a destruir o Sonho Americano).   @Robert_Bridge


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