A destruição olímpica de Paris

(João Augusto-Silva, in VK, 26/07/2024)


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O triste Petit Roi garantiu que NÃO haverá novo primeiro-ministro francês até DEPOIS das Olimpíadas.

O Petit Roi é agora oficialmente conhecido em toda a França como um incendiário político: incendiando a nação para manter a sua carreira liberal totalitária e apoiada pelos Rothschild.

Ele ordenou a limpeza das ruas de Paris para os ricos, os convidados e diversos atletas de “elite”. O centro da cidade de Paris só pode ser acedido com códigos QR especiais – apenas para convidados. Os restaurantes foram barricados por cercas de ferro em toda a cidade, não acessíveis fora da “Zona”.

Os sem-abrigo foram removidos e levados para campos fora da cidade: limpeza social aprovada não só pelo Petit Roi mas também pela terrivelmente medíocre maire “socialista” de Paris, Anne Hidalgo.

Os estudantes também foram removidos – instruídos a sair por um tempo – pela tecnocracia.

Quarenta e cinco mil policiais e militares invadiram Paris, provando que a cidade NÃO é segura, NÃO é pública e só é habitável dentro de zonas de segurança altamente vigiadas.

Paris transformou-se numa distopia neoliberal tóxica – com o Petit Roi como o Raj local da satrapia: essa é a sua “visão” da sociedade civil.

O único aspecto positivo da ausência de um PM é que o Petit Roi está agora totalmente estabelecido como a VERDADEIRA face da Paris suja, desagradável e desfigurada.


Notre-Dame de Paris

(Ferreira Fernandes, in Diário de Notícias, 16/04/2019)

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Há pedras de quem (eu escrevi o que quero dizer: de quem) se pode dizer: “Tu és pedra e sobre ti há de construir-se uma civilização.” Há pedras assim, do género humano. No primeiro dia que pisei Paris, fará meio século no outono, andei por endereços desencontrados e, ao fim da tarde, a caminho do derradeiro contacto, indo para a Praça de Saint-Michel, dei por ela. Harmonia. Não era exatamente o que eu procurava – começava uma vida sem dinheiro, casa ou documentos – mas encontrei-me com a cara de uma mulher perfeita, a Notre-Dame de Paris.

Pouco depois, num quarto de criada, de um sexto andar recuado, o amigo de um amigo abriu-me, enfim, uma porta e a Notre-Dame tornou-se minha vizinha durante meses. Vista, então, dos cais e das pontes do Sena, ou espreitada da ilha de São Luís e, mais tarde, quando morei anos por outros bairros e, até hoje, quando regresso a Paris, nunca me permiti passar distraído pela catedral. Agora, na tragédia, quando as televisões me mostraram a flecha partir-se como uma torre gémea, senti-me em pecado por nunca lhe ter dado a atenção devida. Mas, tenho de confessar, o meu olhar fascinado foi para a fachada e foi ela que me marcou.

Harmonia, equilíbrio, perfeição. Os três portais de entrada em arcos sucessivos, o friso de pequenas estátuas, a rosácea central e, culminando, as duas torres – a face belíssima da Nossa Senhora de Paris. Eu não sabia, mas Vítor Hugo, exatamente para defender aquela catedral, escreveu sobre a pedra, de certa pedra: “Há duas coisas num edifício, o seu uso e a sua beleza; o uso pertence ao proprietário, a beleza, a todos nós.” Foi o que levou um rapaz de 20 anos, sem gosto particular pelo uso e cerimónias daquele edifício, e a mais de um século das palavras de Hugo, a render-se àquela pedra.

Não tinha calhado eu ler O Corcunda de Notre Dame antes de chegar a Paris, e o seu género conviria mais ao adolescente que eu já não era, mas fui lê-lo – como li Le Paysan de Paris, de Louis Aragon, sobre as passagens cobertas e galerias da capital. No livro de Vítor Hugo soube o que eram as gárgulas dos tetos da catedral. Apressei o que me tinha atrasado sobre a minha nova cidade.

No Louvre, olhei o quadro grandioso de David sobre a coroação de Napoleão, mas interessei-me pelo pormenor de o sacristão, um garoto, ser o único, incluindo o Papa, a não focar o olhar no Imperador com a coroa nas mãos: ele está é fascinado pelo punho do sabre em que se apoia o general Eugène de Beauharnais, de farda magnífica de hussardo. Ah sonhos de glória pessoal, no dia da glória de Napoleão. A cerimónia aconteceu na Notre-Dame, mas um edifício é mais do que o previsto para o seu uso oficial, religioso e até imperial…

Notre-Dame de Paris arde e os jornais falam da gente desolada. Uma mulher com a máquina fotográfica imprestável nas mãos, porque fotografar é testemunhar e ela, que treme e chora, não consegue ser senão ela e a perda que lhe acontece. Um jornal de Londres, o grande The Guardian, olhando o fogo, também só pensa em si próprio: “Que loucura pretendermos que não somos todos europeus…” O fogo devora as flechas e os tetos da Notre-Dame, e cada um, e eu também, com a nossa particular Notre-Dame.

Os trabalhadores imigrados dos supermercados da Rive Droite emocionam-se e as burguesas da ilha de São Luís afligem-se. Georges Moustaki, grego de Alexandria, que morava na ilha, nas traseiras nobres da catedral, haveria de saber fazer uma canção sobre o que une as suas vizinhas ricas e os métèques, que era como Atenas chamava aos seus estrangeiros. Há pedras com alma.

Eis uma boa ocasião para a União Europeia fazer da alma um programa: os deputados europeus eleitos em maio bem poderiam tomar posse no adro da Notre-Dame de Paris. As ideologias que não se perturbem: construída pela monarquia gótica, a Catedral de Notre-Dame foi Templo da Razão, na Revolução Francesa, foi humilhação de um Papa, como já vimos, na sagração do Imperador Napoleão e foi lugar da missa fúnebre do presidente da Union de La Gauche, François Mitterrand. Certas pedras têm mais essa dimensão tão humana: sabem adaptar-se aos tempos.