Quando a política pensa com o penteado

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/07/2019)

Como faltam as ideias, vota-se no penteado…

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Em 1995, a popular jornalista sueca Stina Dabrowski, que já entrevistou Nelson Mandela, Yasser Arafat, Hillary Clinton ou Madonna, fez uma entrevista de meia hora com Margaret Thatcher. No fim, a entrevistadora fez uma proposta à já então ex-primeira-ministra. Queria que ela desse um saltinho no estúdio. Sim, isso mesmo, um saltinho no estúdio. “Um saltinho? Nunca sonharia em fazer tal coisa. Porque o haveria de fazer? Eu dei grandes saltos para o futuro, não dou saltinhos em estúdios.” Mas Stina não desistiu. Queria que a senhora mostrasse o seu lado humano. Thatcher foi clara: “Isso apenas mostra que queremos ser vistos como pessoas normais e ser populares e eu não preciso disso. Não quero perder o respeito das pessoas que me respeitam há tantos anos fazendo uma coisa dessas”.

Insuspeito de gostar de Thatcher gostava deste seu lado: a secura distante que aqui só nos foi dada por Álvaro Cunhal. Os políticos até podem fazer algumas coisas descontraídas. As pessoas dançam e cantam em público, dizem piadas, não estão sempre a discursar. Não têm de ser uns cepos sem emoções. Podem mostrar outras partes de si, desde que se sintam confortáveis com isso. Mas não devem permitir que as coisas cheguem ao ponto em que se transformam em tontinhos. Parece-me evidente que Assunção Cristas está a ultrapassar essas fronteiras. Ao publicar quatro fotos com quatro penteados no Instagram, pedindo aos seus seguidores que escolham o que preferem, transforma-se numa figura de entretenimento. E ao fazê-lo diminui-se como política.

Ao publicar quatro fotos com quatro penteados no Instagram, pedindo aos seus seguidores que escolham o que preferem, Cristas transforma-se numa figura de entretenimento. As pessoas querem que quem está no poder seja como seu vizinho, amigo, primo. Mas esta proximidade é evidentemente falsa

Não tenho dúvidas de que as pessoas querem que quem está no poder seja como o seu vizinho, o seu amigo, o seu primo. E os políticos, que precisam de votos, e a comunicação social, que precisa de audiência, cedem. Até eu, sem ser político, posso já ter cedido. Mas isto está a destruir a democracia. Porque a dessacraliza, retirando-lhe autoridade sem por isso a aproximar das pessoas. Porque esta proximidade é evidentemente falsa. Cristas pergunta às pessoas que penteado deve usar, não faz grande questão em envolvê-las em orçamentos participativos. A proximidade dos cidadãos ao poder faz-se através de uma sociedade civil ativa e de um Estado aberto e com instrumentos de participação. Não se faz em conversa de cabeleireiro. Isto só esvazia a política de conteúdo. Fica a feira.

Mas há a segunda parte deste episódio: nunca os estrategas da comunicação sujeitariam Nuno Melo a uma coisa destas. Nunca fariam das escolhas sobre o seu penteado um tema de relação com os seus eleitores. Da mesma forma que nunca se pergunta a um homem como compatibiliza o papel de pai e de político.

Parece que as mulheres, para estarem na política, têm de carregar para elas o lado privado que as velhas sociedades lhes reservavam. Não era isto, se bem me lembro, que Cristas prometia à política portuguesa. Os políticos que deixam que sejam os marketeers a mandar acabam por perder o respeito de quem realmente os respeitava.


A política dos afetos

(Por José Sócrates, in Expresso, 16/03/2019)

José Sócrates

(Afinal, Sócrates estará a falar, e bem, de quem? A Estátua não é rica, mas mesmo que o fosse ficaria na penúria se tivesse que dar alvíssaras a quem acertar no alvo visado, uma espécie de versão 2 da “mão atrás do arbusto”…

Comentário da Estátua, 16/03/2019)


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Na teoria da arte, o conceito kitsch atira em várias direções. Uma delas, talvez a principal, tem o significado de arte de má qualidade, arte de mau gosto. Uma outra dimensão, próxima desta, tem a ver com a ideia de arte “falsa”, aquela que copia e pirateia o que já antes foi produzido, pretendendo apresentar-se como nova. Uma outra, ainda, designa a arte “fácil”, a arte de estilo superficial que nenhum esforço interpretativo exige do espectador. No entanto, o aspeto mais importante e talvez mais moderno do conceito está ligado à ideia de antecipação do resultado artístico — um certo tipo de arte que recorre a estereótipos e clichés já testados anteriormente por forma a garantir agrado e audiência. No fundo, uma arte de prazer fácil e sem riscos: “arte previsível, com efeitos previsíveis, com recompensas previsíveis”.

Previsibilidade. Eis o terreno onde o estilo artístico se encontra com a política. O equivalente kitsch na política resulta, no essencial, da ideia de que é possível apurar antecipadamente o gosto do auditório para permitir, então, formular os juízos que se sabe de antemão serem do agrado de quem os escuta. A operação prévia de “contar narizes” determina, assim, a palavra e a ação do protagonista político que julga, desta forma, poder escapar à imprevisibilidade da reação do público. Dito de forma radical, o kitsch político aspira a despojar a política daquilo que mais intrinsecamente a caracteriza — o risco e a contingência da ação.

A incessante busca de certeza e de garantia de sucesso há muito que ameaça converter a atividade política numa verdadeira indústria de assessores, de consultores, de especialistas que afiançam poder transformá-la num jogo seguro e garantido: eles analisam, eles sondam, eles estudam, eles diferenciam o “mercado eleitoral” e catalogam os seus humores.

Diferentes áreas do saber sociológico (e mais recentemente do poder tecnológico) juntam-se para eliminar a complexidade social e criar em laboratório os guias e os planos de ação capazes de oferecer resultados garantidos. Joguemos pelo seguro: dizer só o que é “aceitável-porque-já-aceite”. Em breve estarão todos a dizer o mesmo — o vulgar, o consensual, o idêntico, o insuportavelmente idêntico. Neste cenário talvez nada seja mais seguro que a cartada da afeição, afinal o recurso óbvio de quem não sabe viver sem a atenção do público.

A ilusão de uma atividade política previsível e sem risco (sempre vinda de quem garante conhecer e dominar o jogo) tem como consequência diminuir o vocabulário, eliminar a diversidade e empobrecer de tal forma o espetáculo público da política que o torna progressivamente maçador, redondo, previsível. No limite, já pouco de intrinsecamente humano o habita: dali não virá nem novidade, nem surpresa, nem espanto — nada que não seja previamente testado e previamente aceite. Política técnica: fiquemo-nos pela pesquisa de opinião e pelo focus group, evitando riscos inúteis.

Qualquer coisa nova ou diferente será sempre uma incógnita e uma ameaça às sondagens e às audiências — afinal, a única coisa que conta. E, no entanto, contra todas as evidências e contra todos os cálculos, é sempre essa coisa nova e singular que esperamos, qualquer coisa que nos faça levantar os olhos e reconhecer de novo a política na sua dimensão do imprevisto e da coragem. Qualquer coisa que valha a pena.