Carta ao jornalista Henrique Monteiro (HM)

(Por Carlos Esperança, 02/02/2019)

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Senhor Henrique Monteiro

Na última quarta-feira publicou, no Expresso online, o artigo, “Recordações sobre o Estado laico”, censurando o Comunicado da Associação Ateísta Portuguesa (AAP), onde se critica a deslocação do PR a cerimónias religiosas, no Panamá. O referido comunicado, da responsabilidade da Direção, encontra-se na página oficial da AAP e mereceu, aliás, o interesse e acolhimento da generalidade da comunicação social.

HM transcreve no seu artigo: “A título particular e a expensas próprias, caberia a esta Associação respeitar e ignorar tamanha devoção. Participar em jornadas da Juventude, onde manifestamente a idade não o recomenda, ir à missa e assistir à benzedura de um templo católico, é um assunto que a AAP ignoraria se o enviado fosse um membro da Conferência Episcopal, mas que considera um grave atentado à neutralidade religiosa do Estado laico, quando perpetrado pelo Presidente da República”.

Desta transcrição conclui: «É difícil ser mais dogmático, sectário e, perdoe-se a ousadia, ignorante». Registo a sabedoria, imparcialidade e tolerância de HM, em contraste com a forma e substância do parágrafo que o enxofrou.

Estranho a hostilidade de quem sentiu a necessidade de se afirmar «não católico», como se tal facto fosse uma virtude, aumentasse a credibilidade ou interessasse aos leitores. Os ateus não se atribuem qualquer superioridade moral em relação aos crentes e neste comunicado não estava sequer em causa o ateísmo, mas a laicidade cuja violação pelo PR foi manifesta e constitui desrespeito de quem representa todos os portugueses.

Apreciei a sua ironia: «O que está errado nos ‘ateístas’ não é a sua fé na não existência de Deus, que é legítima», apenas me surpreendeu a necessidade de a explicar no final do artigo, desconfiado, talvez, da inteligência de quem o lê. Terá as suas razões.

HM critica a forma e o conteúdo do “comunicado”, mas quando afirma que «Embora não seja representativa em termos de associados, a Associação Ateísta Portuguesa representa um pensamento relativamente comum entre a esquerda mais radical», ignora o número de sócios, sem sequer procurar informar-se, o que é incúria, e atribui à AAP «o pensamento da esquerda mais radical», com a leviandade com que se refere à sua representatividade ou quando afirma que ‘o que irrita os ateus é que o PR seja católico e vá à missa’, numa dedução psicanalítica ao nível de um bruxo.

Quanto à ética, estamos conversados. Quanto ao dever de o PR respeitar a laicidade, não o entende HM, que ignora o conceito – neutralidade religiosa –, a que é obrigado quem representa todos os portugueses.

Quanto à Concordata, que HM refere, é um tratado que dificilmente respeita a CRP. Foi a cedência de Durão Barroso que tornou Portugal protetorado do Vaticano. A Marcelo serve-lhe para salvar a alma, a Henrique Monteiro para perder a credibilidade.

P. S. – Sabe que sou presidente da AAP e lembrar-se-á que conversávamos no Tweeter. Sabe bem que sou um moderado, tal como os membros da Direção da AAP, mas é mais fácil estar com o poder. E mais lucrativo.

Cumprimentos.

Carlos Esperança

O PR e o Panamá

(Carlos Esperança, 26/01/2019)

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Quando li que o PR estava no Panamá, pensei que o dom da ubiquidade, atributo de um frade português que a mitologia católica colocou em Pádua e em Lisboa, à mesma hora, no mesmo dia, se repetia agora com Marcelo.

Dado que fujo dos telejornais, para preservar alguma sanidade mental, resolvi consultar o sítio da PR onde, de facto, estava anunciada a deslocação do PR ao Panamá para as XXXIV Jornadas Mundiais da Juventude.

A deslocação a festivais da juventude, de onde o julgava arredado pela idade, levou-me a indagar o que iria fazer ali o PR e a surpresa tornou-se azedume e a deslocação motivo de censura. Não foi procurar os papéis do Panamá que, noutros países, levaram pessoas à prisão, foi participar numa Via Sacra com os jovens, numa missa e assistir à bênção das obras de restauro de um edifício pio.

Se foi a expensas próprias, em merecidas férias, só me cabe respeitar a devota intenção, mas se foi em viagem de Estado fico com a vaga sensação de que desprezou o País laico que representa, num atentado à ética republicana e à neutralidade do Estado em questões religiosas.

Portugal elegeu um PR, não colocou em Belém, apesar do nome do palácio, uma figura do presépio, o sacristão que voa para as missas em vários continentes, um devoto, ruído pela fé, com um tropismo especial para beijar o anel do seu homólogo do Vaticano.

O encontro com jovens peregrinos portugueses não legitima a despesa e abre um grave precedente para encontros com jovens amantes do remo, do berlinde, da Música Pop, da vela, do andebol, do Rock ou da bisca lambida, sem necessidade de se ajoelhar na missa que o Papa Francisco vai dizer no exercício da sua profissão.

É natural que do encontro com o PR do Panamá, Juan Carlos Varela, resultem grandes vantagens para Portugal, mas podia aproveitar quando ele não estivesse ocupado com a receção ao chefe de Estado do Vaticano.

Marcelo, nesta fé que o devora, fere a laicidade e reduz-se a presidente dos portugueses amigos da hóstia e da missa. Parece o enviado da Conferência Episcopal Portuguesa.

A teologia política de Belém

(Carlos Esperança, 18/08/2018)

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Marcelo já nos tinha surpreendido com a apoteose da imaginação e da originalidade de quem, rezando o terço todos os dias, descobriu que “Um sítio onde é sensacional rezar o terço é a nadar no mar”.

Necessitando das mãos para o efeito e não podendo rezar com os pés, dos quais também carece, é um prodígio contar padre-nossos e ave-marias sem se enganar nos mistérios e sem se afogar antes dos dolorosos, mas isso são devoções pias, de natureza pessoal, que, por maior proselitismo que o devore, o PR de um país laico deve abster-se de alardear.

O PR traiu a postura laica, que devia manter, no centenário da clonagem da Senhora de Lourdes, em Fátima, quando se envolveu na autenticação desse «milagre», invocando a qualidade de PR, e ultrapassou a decência, afirmando que o fazia em nome de todos os portugueses, incluindo ateus, que não lhe passaram procuração e ficam indignados com a quebra do respeito que deve à laicidade do Estado.

Quanto à esperada recandidatura, cuja popularidade dispensa o simples passeio pela Av. da Liberdade, afirmou que “campanhas, se Deus quiser, não haverá mais nenhuma”, e, com a expressão “se Deus quiser”, que causa calafrios na boca de muçulmanos furiosos, ainda afirmou que tal matéria “está nas mãos de Deus”. Esperará as mãos de Deus para fazer 7.500 assinaturas e, quiçá, os pés para as levar ao Tribunal Constitucional?

Para além de ficarmos a saber que o Deus de Marcelo tem mãos, ficamos perplexos com a sua influência num país com a Constituição laica que o ora PR aprovou na Assembleia Constituinte, para a ignorar depois de jurar cumpri-la e fazê-la cumprir ao tomar posse.

O PR de todos os portugueses não pode reduzir-se a um mero presidente dos católicos e excluir os que, também católicos, defendem o carácter laico da CRP, nem fazer do País um protetorado do Vaticano.

Surpreende a sedução que exerce e o silêncio que gera a associar a personalidade de PR, inteligente, culto e simpático, à vocação de catequista de paróquia e à volúpia beata com que oscula anelões episcopais.

E ninguém se indigna? Ninguém defende o carácter laico do Estado? Ninguém protesta? Continuamos o país dos 3 FFF, acéfalo, beato e timorato?

E queremos ser respeitados?