A cadeira do professor Marcelo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 01/04/2016)

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João Quadros

Na hora dos scones (só para variar da “hora do chá”, usada por quase todos os comentadores), o novo Presidente, ainda a cheirar a couro, apareceu para explicar, sentado numa cadeira, porque promulgou o OE de 2016.


Confesso que fui surpreendido pelo estilo, porque nunca fui aluno do Professor Marcelo. Foi um regresso à telescola. Dei por mim a dizer: “Qual era o ponto 3, sotôr? Estava distraído, desculpe. Espere. 3 razões. Abre chaveta…”. Foi complicado, já não estava habituado, e o ritmo do professor Marcelo é só para marrões. Mas, claramente, prefiro este professor ao anterior. Ao menos, este nem TPC mandou, ao contrário do outro, que era só desgraças e recados para os pais.

O principal problema que a maioria dos portugueses enfrenta, quando ouve as declarações do novo Presidente da República, é saber que não vai haver Professor Marcelo Rebelo de Sousa para comentar as declarações do PR. Ficam os portugueses sem saber o que pensar. Faz muita falta Marcelo comentador para dizer ao povo o que quis dizer Marcelo PR.

Outro problema que afligiu os portugueses, nesta primeira declaração do novo PR, foi o facto de a transmissão ter sido feita apenas pelos canais cabo. Provavelmente, Marcelo Rebelo de Sousa quis ver se era tão popular como um “derby” na Sport TV. Com a extraordinária popularidade de Marcelo, seria natural ver os portugueses a correr para o café do bairro para ir ver o PR. E os jovens nas redes sociais, como o Twitter, desesperados: “Quem é que me arranja um ‘stream’ para ver o PR?!”

Se a intenção do Presidente era ver se era tão, ou mais, importante que o futebol, a coisa não correu bem. Pelo menos para a RTP1, a declaração do PR sobre o Orçamento do Estado ainda não está ao nível dos jogos da Selecção.

Quanto ao discurso em si, Marcelo despachou-nos em dez minutos, falou em orçamento “inspirador”, transpirou simpatia e concluiu dizendo: “O modelo provou ou não provou? Só em 2017 começaremos a ter uma resposta para este problema.” Como quem diz: “Deixem-nos trabalhar!”

Os partidos do actual arco da governação gostaram das declarações do PR. Já nos partidos da oposição, a situação foi diferente. O CDS diz que o “capítulo do Orçamento já está fechado”, por isso não tem nada a dizer (Cristas quer guardar as metáforas que lhe restam para melhores palcos, e sabe que o PR é popular como eles querem ser) e o PSD insiste que a estratégia do Governo “é errada e imprudente”… e constitucional!!!

Na verdade, por esta altura, no meio de sorrisos, diálogo e simpatia, Marcelo e Costa entendem-se às mil maravilhas, tal como Aníbal Cavaco Silva e Passos Coelho entendiam-se aos mil horrores.

Emérito Coelho

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 04/03/2016)

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 João Quadros

Em tempos, Santana Lopes, após ser PM, quando lhe perguntaram o que ia fazer, disse: vou andar por aí. Passos decidiu que, depois de ser PM, ia andar por todo o lado.


Passos faz inaugurações, visita escolas, fábricas e exposições. O mesmo Passos que desapareceu dos cartazes de campanha nas legislativas, agora, é omnipresente. No fundo, Passos ainda se julga PM. O ex-primeiro-ministro parece a ex-namorada que ainda continua a ir visitar os “sogros”. O pin de Portugal é o sinal do seu estado de loucura – acabou, filha, desanda.

Passos vai ter de ser operado para remover o pin de Portugal. O uso do pin, com a nossa bandeira, tornou-se uma teimosia. Quanto mais insistirmos que é ridículo usar aquilo, mais ele o vai usar. Quem tem filhos adolescentes, sabe do que estou a falar. Aposto que o ex-PM nem tira o pin no banho. Pode sofrer mas não o vão apanhar sem o último símbolo do que já foi. Se, por acaso, lhe cai o pin, é como se lhe tivesse caído uma lente de contacto – “Ninguém se mexa! Caiu-me o pin. Não o pisem, a não ser que estejam descalços”.

Eu acho que Passos deve ter uma gaveta cheia de pins de Portugal. Não ia arriscar perder o que tem e, de manhã, ir para a rua sem ele. Não pode ter só aquele ou já estaria enferrujado e Passos podia picar-se, apanhar tétano e ficar com um sorriso forçado.

Resumindo, o ex-líder do PàF vê-se como uma espécie de Dalai Lama, neoliberal, que continua a ser o líder do governo tibetano no exílio após a invasão do país pelos comunas da China. Ou um Bento XVI que não se confina a Castel Gandolfo e que usa aqueles sapatos vermelhos Prada, que só o verdadeiro Papa pode usar e que, quando pode, gama o Papamóbil para ir sair. Passos sente-se um PM emérito mas por pouco tempo.

No fundo, Pedro tem esperanças em poder voltar ao Governo após intervenção de Marcelo. Sonha fazer o XXII Governo constitucional, chamar-lhe XX-B e voltar a empossar Calvão da Silva. Está por tudo. Reza à Comissão Europeia para que chumbem o OE. Admite assumir Governo sem se submeter a novas eleições, porque não é bom para o país andar sempre em eleições, meses depois de ter proposto alterar a Constituição para se poder ir outra vez a eleições. Na verdade, o ex-PM não consegue aceitar a realidade. A realidade e Passos sempre foram cão e gato.

A series of fortunate events

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 26/02/2016)

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João Quadros

 

O OE 2016 foi, finalmente, aprovado. Pela primeira vez na democracia portuguesa, um OE foi aprovado com os votos favoráveis do PCP, BE e PEV. A geringonça ganhou o Paris-Dakar.


 

O PAN absteve-se (mas propõe alterações em reunião com PS na quarta-feira) – foi uma abstenção canina. Fez-se história no Parlamento, esperemos que tenha um final feliz.

Após a aprovação do OE, os juros de Portugal caíram em todas as maturidades. E isto tudo sem usar o PIN de Portugal. Se o PSD e o CDS têm votado a favor, estávamos com juros negativos, abaixo da Alemanha. Espero, ardentemente, uma metáfora de Cristas sobre juros que descem após aprovação de OE chumbado pelo seu partido. Qualquer coisa como “a geringonça fez chover de baixo para cima”.

Num momento histórico para a esquerda, não podiam faltar as citações de cantores revolucionários como Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Jorge Palma e outros. Parecia o festival do Avante ou a futura tomada de posse de Marcelo. Foi estranho ver as bancadas responderem com citações. A “este é o primeiro dia das nossas vidas”, dito por Centeno, respondia João Almeida com: “Ai Portugal Portugal”, de Jorge Palma. Nunca Jorge Palma foi citado por alguém que se embebeda com bombons de ginja. Não foi agradável. Parecia que os deputados estavam a usar as letras, a poesia, dos nossos maiores artistas como os miúdos usam as cartas de poderes.

– Ai deitaste um megatron com poder de lava?! Toma lá um Sacarleton Donix de fumos de gelo.

Foi uma espécie de discussão no trânsito usando letras de canções em vez de insultos básicos. Fez muita falta uma parte da letra de José Mário Branco sobre o FMI. A aprovação do OE de 2016 foi um momento histórico sob vários pontos de vista, excepto o de Portas, que não apareceu.

A esquerda unia-se, numa “coligação impossível”, para aprovar um OE “sem acordo entre as partes” previamente “chumbado por Bruxelas”. O OE passou todas as pragas do Egipto. É como se todos velhos do Restelo tivessem feito zero no cartão do bingo da desfortuna. A azia dos comentadores era indisfarçável. O Orçamento do Estado de 2016 fez as acções da farmacêutica da Kompensan galgar a bolsa.

Era suposto que uma série de desagradáveis eventos acabasse com a história do trio. Mas não foi assim. Desde um acordo numa folha de papel que se desfazia com o toque, ao olhar mortal de chumbo de Aníbal, passando pela trituradora de alternativas da Comissão Europeia e acabando no terror dos mercados, a geringonça galgou tudo. Eu vendia a geringonça à NASA. Citando o Armstrong, o que não é da música, foi um pequeno passo para a humanidade.