O peso em prata

(José Gameiro, in Expresso, 30/07/2021)

José Gameiro

Já lá vão uns bons anos, algures nos 60. O país vivia sem grandes sobressaltos, bafiento, triste, salazarento, mas resignado, pelo menos à superfície. No interior, os trabalhadores rurais eram pagos à jorna, uma pequena parte em dinheiro, a maior, com um garrafão de cinco litros de vinho. As pequenas cidades e vilas tinham uma elite constante. O presidente, o juiz, o notário e o médico. Nalgumas também havia uma burguesia endinheirada, muito conservadora e que procurava que a sua descendência se cruzasse com “gente decente”, com bons costumes e se possível com dinheiro de modo a fazer crescer o património.

Era a época em que os namoros não eram livres, qualquer candidato a namoriscar uma jovem casadoira era alvo de uma recolha de informações apurada, que pudesse revelar alguns problemas de carácter ou uma situação económica sofrível. As meninas escapavam mais a estes procedimentos, desde que sobre elas não recaísse nenhuma fama de serem muito dadas ou de não oferecerem garantias de virem a ser boas donas de casa e boas mães.

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A Maria era uma menina com fama de ser bem-comportada, recatada, sempre tinha conseguido estar longe dos holofotes da vila. Nunca tinha namorado, nem de janela, tinha estudado piano e francês, em casa, depois de ter acabado o quinto ano do liceu.

Apesar de ainda não ter completado 20 anos, os pais começaram a prospeção para o casamento. A escolha não era grande, o critério dos rendimentos atuais e futuros, limitava-a muito. Tinha chegado à vila um jovem advogado, de boas famílias jurídicas, que se tinha instalado e, rapidamente, tomado conta de vários processos que rendiam bom dinheiro. Promoveram alguns encontros em casa de amigos comuns, a Maria ainda torceu o nariz, mas foi convencida de que o amor viria depois.

Ao fim de três anos já tinha mostrado ser uma boa esposa, um casalinho de dois e um ano, que não lhe davam muito trabalho, porque estávamos numa época em que ter uma cozinheira, uma criada de fora e uma costureira era normal, para quem tivesse algumas posses. Neste caso eram os pais que avançavam as posses. O jovem advogado era um grande forreta e com a desculpa de estar a começar, permitia a ajuda dos sogros. Os pais da Maria aceitavam, afinal os investimentos demoram algum tempo a dar lucro.

Se durante os primeiros anos os filhos a iam entretendo, afinal orientar o pessoal que cuidava deles dava algum trabalho e permitia-lhe esquecer as noites penosas em que já não tinha desculpas para se furtar aos seus “deveres conjugais”, com o passar do tempo, a Maria decidiu para si própria que não podia continuar a viver naquela insatisfação. Numa ida a uma cidade próxima para uma consulta de um dos filhos conheceu o Luís. As consultas sucederam-se, a Maria arranjou forma de, sempre que lá ia, deixar o filho uma hora ou duas com uma amiga cúmplice e deleitar-se nos braços do amante.

Tudo corria bem, até que um dia as saudades apertaram e a Maria rompeu abertamente com a ignorância oficial do marido e saiu de casa a meio da noite. O esposo, perante este descalabro conjugal, não teve outro remédio senão pô-la fora de casa e impedi-la de ver os filhos. O investimento dos pais da Maria estava à beira de se perder. Todos os pedidos e arrependimentos foram em vão. Mas para grandes males grandes remédios. Nada que não fosse negociável. O marido viu ali uma grande oportunidade de aumentar o seu património. Esperou que o sogro viesse conversar com ele, estas coisas devem ser faladas entre homens e sem pressa. Claro que a situação poderia ser resolvida, a Maria poderia voltar para casa e continuar a ser a sua esposa. Mas o amor tem um preço. “Estou disposto a esquecer tudo, a título de danos morais, o meu querido sogro vai-me dar em prata o peso da sua filha.” E a Maria voltou. Bons tempos, em que a prata ainda valia um casamento.


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Querido, come a sopa

(José Gameiro, in Expresso, 16/07/2021)

José Gameiro

Era verão, apesar do ar condicionado, a sala estava um pouco abafada, mas nem ela podia ter adivinhado, antes de entrar, nem me pareceu ser a forma mais discreta de ir vestida para uma consulta. Devia ter uns 50 anos, mais tarde espantei-me com os seus 64 — os homens gostam muito de dizer que as mulheres já estão velhas, depois dos 50, mas são bem enganados — não posso dizer que estivesse com uma minissaia, mas também não era muito comprida… Mas era bem justa.

Uma blusa em V, com o vértice bastante baixo, e uns sapatos de salto com pelo menos 12 centímetros compunham uma senhora, para quem apetecia olhar, mas, no contexto em que me encontrava, aprendi, desde há muito, a controlar a incidência dos feixes óticos, para não pensarem que a minha neutralidade fica posta em causa.

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“Senhor doutor, deixe-me primeiro fazer uma introdução à minha vinda cá. Tenho uma vida normal, se é que alguém tem, mas quero dizer com isto que cresci, tirei o meu curso, sou arquiteta, gosto muito do que faço, tenho dois filhos, já três netos. Há uns quatro anos a minha vida deu uma volta. O meu casamento já não estava muito bem, sabe como é, cada um para seu lado, o meu ex-marido fazia a sua vida e acabei por fazer a minha. Mas também não é por isto que cá venho. Separámo-nos bem, sem dramas, continuamos muito próximos enquanto pais e avós, até falo bem com a namorada dele e parece gostar do meu namorado. Veja lá senhor doutor, eu que dizia a toda a gente que estava muito bem sozinha, apaixonei-me, aos 60 anos.”

Foi aqui que percebi que tinha sido “enganado” pelo meu machismo e preconceito. A senhora era bem mais velha do que os meus olhos tinham avaliado. Não sei porquê, em associação livre, surgiu-me no pensamento a Brigitte Macron, mas a história não tinha nada a ver… Continuou: “Quando me separei precisava de estar sozinha e fui viajar. Meti-me no carro, adoro guiar e fui estrada fora, sem destino. Os meus filhos ainda tentaram travar-me, que era perigoso, uma mulher sozinha, são mais conservadores que eu. Olhe, veja bem, à entrada de Itália, ali perto de Génova, numa área de serviço, encontrei o homem com quem agora vivo.”

Parecia que estava a adivinhar os meus pensamentos. “Mas não pense que é um camionista de longo curso. Um português que tinha ido ver a filha a Itália. Um pouco mais novo que eu, foi funcionário da ONU toda a vida, sabe como é, não fazem muito, reformam-se cedo e com belas maquias. Agora pouco trabalha, umas pequenas consultorias internacionais. Ao fim de pouco tempo veio viver para Portugal e juntámo-nos, voltar a casar não quero.”

Percebi que tínhamos chegado ao ponto mais difícil da consulta. Calou-se uns segundos, respeitei, esbocei um leve sorriso a que os psis chamam empático e esperei.

“Tenho de lhe falar da minha intimidade, não é fácil, mas cá vai. Pensava que tinha tido uma vida sexual muito boa e tive, mas com o Pedro, vou-lhe chamar assim, descobri e senti coisas que nunca tinha sentido. Os primeiros tempos foram de algum deslumbramento, eu sei que tinha estado “em pousio” uns anos, mas nós sabemos muito bem distinguir o bom, do muito bom. Mas já não vou para nova e todos os dias, por vezes mais do que uma vez, cansa. O raio do homem não pára. Ainda pensei que andava a tomar esses comprimidos que os homens tomam quando envelhecem, mas não encontrei nada. E, sabe, o que era muito bom, está a tornar-se uma chatice.”

Já falou com ele, perguntei. “Já, várias vezes. Os primeiros dias resulta, mas depois volta a insistir, diz que é o muito amor que sente por mim. E tenho medo que a nossa relação se estrague.” Pensei, mas não disse, tretas de homem. “Vim falar consigo porque uma amiga minha teve um problema parecido e um colega seu ajudou-a a resolver. Parece que vocês conhecem umas gotas que acalmam os homens.” Fiz-me desentendido e ela também. “Podia ser tão simples, bastava eu dizer-lhe, querido come a sopa.”


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Mãe, também quero ser você

(José Gameiro, in Expresso, 25/06/2021)

José Gameiro
José Gameiro

Não tenho quase nenhuma experiência em psiquiatria infantil. Limitei-me a fazer um estágio há muitos anos, no tempo em que tudo o que acontecia às crianças era culpa das mães. Os pais eram umas não-pessoas, que se passeavam lá por casa, sem terem nada a ver com os problemas psicológicos dos filhos. Bons tempos para os homens, que quase nunca eram “incomodados” pelos técnicos de saúde mental. Desde então muita coisa foi mudando, e a família nuclear já é vista como um todo, ainda que as mães continuem a ser, para alguns técnicos, as más da fita e, frequentemente culpabilizadas. Mas também aqui estaremos a caminho da igualdade.

Esta história surgiu no meio de uma terapia de casal, cujo pedido não tinha nada a ver com o que vos vou contar. E também não tem nada a ver com psicologia infantil, mas sim com sociologia de adultos. Um casal com alguns problemas de expressão de afetos. As queixas habituais de género. Que ele era pouco meigo, não conversava, não contava o seu dia à dia, que ela estava sempre a chateá-lo porque passava muito tempo com os amigos e não tinha paciência para as amigas dela. Nada de muito especial nem muito grave. Apenas a habitual falta de perceção masculina que os tempos mudaram e o casamento já não é para toda a vida, se não for ‘adubado’ com frequência.

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Divertidos, com muito sentido de humor, contavam histórias deliciosas dos seus encontros e desencontros, daqueles casais de quem apetece ser-se amigo e por isso tenho de ter mais cuidado com a minha neutralidade e distância. Tinham dois filhos, uma rapariga com oito anos e um rapaz com cinco. A vida profissional estava a correr-lhes bem, tinham-se mudado há pouco tempo para uma vivenda, fora de Lisboa, numa zona tida como rica. Naturalmente, os miúdos adoraram e começaram a conhecer os vizinhos. A miúda mais introvertida demorou mais tempo a criar proximidade com as famílias próximas, mas o miúdo, completamente extrovertido, ao fim de pouco tempo já era muito popular na zona.

O jardim permitia grandes futeboladas, rapidamente os amigos começaram a aparecer e a fazerem vários Benfica-Sporting em mini-infantis… Não demorou muito tempo até a bola ir para a casa ao lado, num remate mais alto, que passava por cima da sebe. Simples, trepavam ao muro e iam buscar o esférico. Assim começaram a conhecer os miúdos do lado, com idades semelhantes. Daqui até aos convites mútuos para lanchar e jogarem PlayStation foi um ápice.

Os pais iam acompanhando estas aventuras satisfeitos porque finalmente não viviam metidos num andar e as crianças tinham muito espaço e não passavam a vida a ver televisão. Foi num jantar que a mãe perguntou como se chamavam os amigos do lado. O miúdo, primeiro calou-se e depois, a medo, disse:

— Têm todos o mesmo nome.

Não pode ser, disse a mãe. Os filhos têm sempre nomes diferentes.

— É verdade, a mãe deles chama-os todos por você. Você isto, você aquilo, você venha cá, agora você pare de brincar e vá tomar banho, não seja porco…

Os pais olharam um para o outro, sem saberem o que dizer. Não era fácil explicar a uma criança de cinco anos as idiossincrasias de algumas famílias. Mas o mais difícil estava para vir e deixou-os sem resposta.

— Posso mudar de nome? Também quero ser você, como os meus amigos.


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