A geringonça

(José Sócrates, in Jornal Tornado, 18/10/2019)

Primeiro dia: a geringonça ganhou as eleições em Portugal. Dia seguinte: a geringonça acabou. Eis um invulgar caso de uma política que não resiste ao seu próprio sucesso.


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O  governo que foi popularizado como “geringonça” – um governo só do partido socialista, mas apoiado no parlamento pelos outros dois partidos de esquerda – teve três domínios de indiscutível triunfo: a)  o êxito económico, em particular no emprego; b) o discurso crítico da austeridade enquanto política económica europeia; c) a unidade das forças políticas de esquerda como novidade política. Foi aliás este ultimo aspeto estratégico que mais atenção e interesse despertou no meios políticos do Brasil. Agora, que ouvem dizer que acabou, perguntam-me o que é que aconteceu. Eis a minha análise.

Esclareçamos de entrada que, a acreditar na sinceridade das declarações oficiais, ela não acabou definitivamente. Os três partidos que a compunham – o socialista , o bloco de esquerda e o partido comunista – continuam a afirmar a intenção de cooperar e dialogar em torno de propostas concretas que serão analisadas caso a caso. No entanto, o aspeto mais relevante do anterior cenário – um acordo parlamentar que  garantiu a estabilidade política durante os quatro anos de legislatura – terminou.  Se isso significa que a solução política está definitivamente enterrada é ainda matéria de especulação. Mas podemos dizer com segurança que nada será como dantes.

O partido comunista foi o primeiro a manifestar a intenção de não fazer qualquer acordo prévio. O facto é que os ganhos políticos foram distribuídos assimetricamente. Ao contrário dos outros parceiros, os comunistas perderam votos e deputados e querem agora ter as mãos livres. Aceitemos. Todavia, o que determinou o desenlace não foi esse facto, mas a recusa do partido socialista em fazer um acordo programático com o bloco de esquerda, cuja soma de deputados é suficiente para garantir a maioria parlamentar. Esta foi a decisão que provocou a rotura – acabou a geringonça.

A escolha do partido socialista é surpreendente, como surpreendente é, igualmente, o argumento usado para a justificar. Dizem os socialistas que preferem continuar a negociar medida a medida com todos os outros partidos de esquerda, entre os quais o partido comunista, para não criar uma hierarquia entre eles. O argumento, pura e simplesmente, não faz sentido. Essa hierarquia existe de facto e foi criada pelos únicos que a podem criar – os eleitores portugueses. Foi o povo e mais ninguém que deu ao bloco de esquerda a posição de terceira força política, capaz de fazer com os socialistas,  maioria absoluta no parlamento (cerca de 127 deputados num parlamento com 230). Na verdade, ninguém está a dar nada ao bloco de esquerda que este partido não tenha conquistado. Mal vai a política que não reconhece as realidades eleitorais.

Acresce que um dos sucessos mais celebrados pela solução política chamada “geringonça” foi o de quebrar uma cultura política que excluía os partidos à esquerda do partido socialista das soluções governativas, remetendo-os para a sua condição de partidos de protesto. Na Itália da guerra fria chamavam a isto  conventio ad excludendum que servia, na altura, para afastar o partido comunista de qualquer acordo que incluísse a sua presença em cargos governamentais. No entanto, e para fazer valer a verdade, é necessário dizer que essa situação era igualmente alimentada pelos próprios partidos quando recusavam fazer alianças e estabelecer compromissos, assumindo um orgulhoso distanciamento da governação que os preservava de responsabilidades. Seja como for, a experiência parlamentar realizada mostrou que esse preconceito político teve o seu tempo e que nada o justifica agora. Quebrou-se um muro, diziam orgulhosos os socialistas. Sim, quebrou-se um muro, mas ficamos agora a saber que era apenas metade do muro. O resto ficou. A recusa em estabelecer um acordo de legislatura com o bloco de esquerda parece assim evidenciar uma visão meramente utilitária: o bloco de esquerda serviu na altura para apoiar os socialistas em alturas de aflição (quando o partido socialista perde, mas a direita não tem maioria) mas não serve agora para momentos de normalidade (em que o partido socialista  ganha, embora sem maioria absoluta no parlamento). O que deveria ficar registado como um gesto de grandeza e densidade histórica ficará assim reduzido a um expediente instrumental de sobrevivência política.

Na verdade, esta situação é muito parecida à que se viveu em Espanha e que foi muito referida na campanha eleitoral portuguesa. Também ali os socialistas espanhóis recusaram fazer uma coligação de governo com o partido Podemos (da mesma família política do bloco de esquerda) esperando que aquele partido os apoiasse no parlamento, sem terem lugares no governo. Em síntese: podeis apoiar o nosso governo, mas não integrá-lo. Podeis apoiar, mas não caminhar a nosso lado. Como se os catorze por cento dos votos do Podemos não os colocassem legitimamente na situação de reivindicar o poder proporcional à responsabilidade que partilhariam com o apoio parlamentar que lhes é solicitado.

Seja como for, assinalemos que a popularidade da solução geringonça é ainda tão forte nos respetivos eleitorados que nenhum dos partidos quis assumir a responsabilidade pelo seu fim. Começou a fase de apontar culpas e esta fase não é bonita.

Uma das mais importantes mudanças politicas que a geringonça permitiu foi trazer esses partidos para o denominado “arco da governação”, introduzindo-os  nas dificuldades das responsabilidades executivas e na dura realidade da política que nem sempre representa uma clara escolha entre o bem e o mal, consistindo, muitas vezes, na escolha do mal menor. Esse é o fracasso que resta. Oxalá me engane, mas o que podemos esperar é o crescimento do ressentimento. E o ressentimento é uma poderosa força política.


Fonte aqui

Em defesa do Tiago (Brandão Rodrigues)

(Joaquim Vassalo Abreu, 17/10/2019)

Vassalo Abreu

Dos vis ataques de um franco atirador (Daniel Oliveira), um autêntico “sniper” que, mesmo não conhecendo a vítima, sobre ela não hesita em atirar.

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Para além de preciosidades várias como “um verbo de encher que poderia ser substituído por um boneco insuflável e ninguém daria pela diferença…”, prognosticava-lhe uma “curta e irrelevante carreira política…e, no caso dos professores “ia fazendo cair o Governo…”. “ um imóvel inútil” sentenciou  o “sniper” Daniel.

Desde já uma declaração de interesses: conheço Tiago e toda a sua Família desde pequeno, acompanhei o seu percurso académico e científico e sou seu Amigo, desde muito antes dele ser Ministro.

E assim, em primeiro lugar, acerca do TIAGO, quero elucidar o opinador Daniel: ele precisa tanto da política como eu preciso do Daniel. Não é seu amigo e isso é, desde logo, um constrangimento para si. Não frequenta os seus círculos e esse pormenor, mais que um constrangimento, é para si uma tremenda dor de cabeça pelo , que se pergunta boquiaberto: como é que Costa foi buscar este “gajo”, não se arrependeu e não o despediu? “Só por teimosia ou alienação…” alvitrou o dito que, quando o TIAGO foi há quatro anos nomeado, também sentenciou que o TIAGO ia ser “ um boneco nas mãos do Nogueira..”, ou coisa assim do género…

Como é que Centeno, a quem nos primórdios chamou de “nabo” em política e que só estava no Governo para prejudicar o Costa, também foi reconduzido, parece que já não é mistério para si e até devia, se fosse coerente. 

Só que acontece que ambos não se ofereceram a Costa: foi Costa quem os convenceu a saírem das suas zonas de conforto e integrarem o seu Governo. E também não consta que Costa seja desleal para quem, para lá da competência, lhe seja leal.

Mas se o Daniel não sabe, e “arrota postas de pescada” como quem palita os dentes, de como funciona Costa e os seus Governos e como politicamente são administrados, eu até que também o poderia elucidar…mas não vale a pena pois o Daniel é um pensador de certezas feitas! Mas ele que diz que “ O Daniel pensa”, deve ter pensado bem no que escreveu.

Com que então o “imóvel inútil” TIAGO ( Brandão Rodrigues), que pelos vistos o Daniel não conhece, nem alguma vez ele lhe deu trela, andou a “pastar” quatro anos e o pastor Daniel nunca o viu! Andava escondido do rebanho do Ministério e que quem dirigiu as lutas foi a Alexandra Leitão ( competentíssima, é verdade) e o João Costa que, para o sapiente e bem informado Daniel, também teriam assento no Conselho de Ministros.

Conselho onde, por incompetência do TIAGO, só poderia ser,  eram eles que discutiam e definiam as estratégias (vide casos dos Contratos de Associação, Manuais Escolares ou Progressão na Carreira dos Professores)…Que é que o Daniel que tudo julga saber afinal sabe? 

Ou seria o malandro do Costa que, ultrapassando o TIAGO pela esquerda baixa, ia reunir à socapa com a Alexandra e com o João para lhes dar as indicações do Governo? O Daniel até que acredita que sim…e aí eu já nem sei se hei-de rir ou chorar! 

Mas este nosso inefável Daniel, jornalista político e político comentador em tudo o que à Impresa diga respeito, a quem reconheço fácil verve em delirantes elucubrações, não podendo assim às boas confessar, ficou desgostoso com o fim da Geringonça, não tanto por esta em si mas pela não cedência do Costa ao seu ex-amado mas nunca esquecido Bloco, e pelo avilte de este ter convidado a votar contra a sua nomeação, remetendo-o para uma certa irrelevância activa ! E isso não se faz ao Daniel!

O sonho do Daniel era ver o José Soeiro no lugar do TIAGO, uma Mortágua no lugar do Centeno e a outra no lugar do Heitor ( ou o vice versa) e a Catarina no lugar do Siza! Isso é que seria um Governo, não era Daniel?

As eleições e o próximo Governo

(Carlos Esperança, 18/10/2019)

Carlos Esperança

Contrariamente ao que afirma a comunicação social, o PS não ganhou as eleições, foi apenas o partido mais votado, a razoável distância do segundo. Pensar diferente é legitimar a vitória do PSD nas anteriores legislativas, como se as eleições se destinassem a eleger um governo e não os deputados à AR.

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Ao contrário dos analistas encartados, que dizem não ter oposição, o próximo governo já conta com a hostilidade da comunicação social, a agitação sindical, os palpites do PR e a oposição de Francisco Assis, agora livre na oposição interna da ala mais conservadora.

Desejei a repetição dos acordos que permitiram a última legislatura, mas, depois da campanha eleitoral e das alterações à geometria partidária, tornaram-se inviáveis, e não adianta procurar culpas onde se percebem os interesses próprios de cada partido.

O PS está só, numa conjuntura internacional instável, e a longevidade do seu governo depende mais das convulsões da União Europeia e evolução económica dos parceiros comerciais do que dos humores das oposições antagónicas.

No início terá a indulgência da esquerda e a inação da direita, em convulsão profunda, até esta encontrar o D. Sebastião que surgirá do intenso nevoeiro que a envolve, ainda que tenha de suportar Rui Rio mais tempo do que deseja, por ele valer muito mais do que a concorrência.

O medo de apear o próximo governo pode atrasar a queda, mas quando a popularidade baixar e os interesses do PR e os das oposições convergirem, teremos eleições antecipadas, a menos que um improvável erro maioritário dê pretexto à demissão do governo e o reforce.

Pode dar-se como certa a demora da direita a lamber as feridas, mas não haja a ilusão de que, com este PR, a queda do atual governo possa dar origem a outro mais à esquerda.

Das críticas ao Governo anterior, imprescindíveis à democracia e compreensíveis na oposição, foi obscena a obsessão mórbida dos incêndios e os ataques aos laços familiares de membros do Governo, como se ministérios e secretarias de Estado, da estrita confiança do PM, fossem sinecuras ou tivessem caráter vitalício. Não se pode confundir a precariedade dos governantes com os lugares rentáveis e estáveis que a política distribui.

Penso que o ruído criado à volta das relações familiares de ministros competentes condicionou as escolhas de António Costa para o próximo governo. Para ruído basta a interesse que o IL e o Chega suscitam, não por serem exóticos, mas por serem perigosos.

É a vida.