As danças de Israel com o Hamas (I)

(José Goulão, in AbrilAbril, 18/10/2023)

Em 2002, o historiador israelita Zeev Sternhell, da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu: «Não esqueçamos que, de facto, foi Israel que criou o Hamas. Pensou que era uma maneira inteligente de empurrar os islamitas contra a OLP».


«Eles apenas vêem uma coisa: chegámos e roubámos-lhes o país. Porque é que eles aceitariam isso? Não ignoremos a verdade entre nós… politicamente somos os agressores e eles defendem-se»

      (David Ben-Gurion, fundador e primeiro presidente de Israel)

A dúvida não era se isto iria acontecer, mas quando e como aconteceria. E para os que acompanham o quotidiano de Gaza – não aqueles que se transferiram apressadamente da Ucrânia e tiveram de consultar os mapas para reprocessar o chip – o genocídio e a limpeza étnica a que estamos a assistir não são novidade nem surpresa.

A Faixa de Gaza é, há pouco mais de década e meia, um campo de concentração onde uma população de 2,3 milhões de habitantes está literalmente encerrada por imposição de Israel e a colaboração do Egipto, submetida a restrições selváticas que afectam a vida de cada cidadão, desde a importação de alimentos, medicamentos, a degradação da quantidade e da qualidade da água, os cortes sistemáticos de energia e, principalmparaente, as periódicas agressões militares de Israel, manobras punitivas que têm ceifado dezenas de milhares de vidas, deixando quase incólumes as estruturas do Hamas, e contribuído para a destruição contínua do parque habitacional e das estruturas públicas e sociais, designadamente as escolas. 

Gaza é um permanente cenário de guerra, embora o mundo pouca noção tenha disso, enquanto os governantes ocidentais, fiéis ao dogma de que Israel é um pilar do «mundo livre», a «única democracia no Médio Oriente», ignoram ostensivamente a existência dessa chaga humana. E são cúmplices da sua existência.

A operação militar do Hamas contra território israelita demonstrou que Israel pode não ser imune, mas continua impune graças à cumplicidade do virtuoso «mundo ocidental». Os sinais de convulsão em todo o Médio Oriente, porém, geram agora novos tipos de interrogações tendo em conta o confronto aberto, e cada vez mais concreto, entre as ordens internacionais unipolar e multipolar. Tudo o que acontecer na região será em cenário geoestratégico renovado.

Uma população e um território mártir 

Viver em Gaza era penoso quando visitei pela primeira vez o território, há 35 anos, por alturas da chamada Primeira Intifada ou revolta das pedras, na qual as populações da Palestina sob domínio militar israelita se levantaram pela primeira vez, então de maneira espontânea, contra as forças de ocupação, recorrendo ao uso de fisgas e outros utensílios rudimentares. Em pleno Inverno, os campos de refugiados, habitados pelas multidões de vítimas das limpezas étnicas sionistas de 1948 em diante, eram lamaçais pestilentos; um ano depois, em pleno Verão, verifiquei que os mesmos campos eram infernos de seca e fome, inóspitos e sofrendo de uma angustiante carência de recursos. Campos de refugiados com quase 200 mil pessoas, como o de Jabalia, são atentados contra a dignidade humana que os senhores do mundo se recusam a encarar.

Sobre o estado de espírito das pessoas que foram condenadas a esses submundos apenas por existirem, vale a pena reler o herói israelita Moshe Dayan, num discurso de 1956, quando era chefe do governo: «Porque devemos deplorar o seu ódio evidente por nós?… Perante os olhos dos refugiados de Gaza temos transformado as terras e as aldeias onde eles e os seus pais viveram em propriedade nossa». Palavras com 67 anos…

Provocações e agressões militares permanentes criavam um clima de medo e pressão asfixiante, a convicção de que a vida de cada um estava presa por um fio a cada instante. 

Ao recordar esses dias, essas impressões, é impossível esquecer a mortificação daquela mãe muito jovem que no campo de refugiados conhecido como Beach Camp acabara de enterrar a filha, uma bebé de três meses executada com um tiro na cabeça disparado por um soldado israelita. Um caso apenas – uma marca identificadora de um regime assassino.

Nesses anos, Gaza era ocupada militarmente de uma maneira directa, presencial, submetida a todas as sevícias inerentes à situação, desde as punições e prisões arbitrárias, rusgas a residências, tortura, ao assassínio puro e simples. 

Nas zonas costeiras, onde se podiam usufruir as delícias mediterrânicas, existiam colonatos nos quais escassas centenas de cidadãos israelitas oriundos das mais diferenciadas regiões do globo gozavam de vidas paradisíacas, lado-a-lado com as mais humilhantes e desumanas vastidões de miséria, repressão e tortura. Representando menos de 0,1% da população, os colonos israelitas ocupavam um terço do território. O esplendor do apartheid e da barbárie.

Anos mais tarde, em 2007, na sequência do traiçoeiro «processo de paz» e porque a presença militar no território era arriscada e dispendiosa, o primeiro-ministro Ariel Sharon mandou dissolver os colonatos e envolver toda a faixa de terra por cercas de arame farpado, muros e anéis de tropas. As entradas e saídas passaram a processar-se num único posto de controlo, exclusivamente aberto aos palestinianos que, em casos de carência de mão-de-obra escrava em território israelita, conseguiam obter trabalhos episódicos desde que no final do dia regressassem a casa – através do mesmo posto de controlo e sujeitos a humilhações, por exemplo a de serem revistados em gaiolas depois de obrigados a despir-se.

Gaza transformou-se assim numa gigantesca prisão a céu aberto, um campo de concentração onde penam 2,3 milhões de pessoas numa área de aproximadamente 350 quilómetros quadrados, dimensão equivalente à do pequeno concelho do Montijo, em Portugal. Onde vivem, segundo o censo de 2021, um pouco menos de 60 mil pessoas.

A mão de Israel no Hamas

As eleições palestinianas realizadas no âmbito do «processo de paz» de meados dos anos noventa do século passado deram ao movimento islamita Hamas o direito a governar a Faixa de Gaza em sistema de «autonomia» – de gueto, melhor dizendo –, mas submetido, de facto, à tutela militar israelita.

Começava a falar-se do Hamas quando visitei Gaza em Fevereiro de 1988. E dizia-se que a acção desse grupo fundamentalista islâmico era muito bem vista, acarinhada, quiçá directamente apoiada por Israel. Nos dias de hoje podemos ir além desse «diz-que-disse».

«Sabia que o Hamas foi criado por Israel?» A pergunta surpreendeu Scott Ritter, ex-alto quadro de inteligência da Marinha de guerra norte-americana. Foi formulada por um responsável do Mossad, seu «anfitrião» israelita num trabalho desenvolvido conjuntamente quando Ritter era inspector da ONU, investigando as alegadas armas de destruição massiva do Iraque de Saddam Hussein, no início deste século.

Em 2002, o historiador israelita Zeev Sternhell, da Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu: «Não esqueçamos que, de facto, foi Israel que criou o Hamas. Pensou que era uma maneira inteligente de empurrar os islamitas contra a OLP».

O mote foi retomado na edição de 24 de Janeiro de 2009 do insuspeito Wall Street Journal, através de um artigo intitulado «Como Israel ajudou a gerar o Hamas».

Caso ainda haja dúvidas, é altura de dar a palavra a quem mais sabe do assunto. Na edição do dia 9 deste mês de Outubro, já depois de iniciada a operação do Hamas, o jornal israelita Haaretz, de grande circulação, deu conta de uma reunião em Março de 2019 entre Benjamin Netanyahu e o grupo parlamentar do seu partido, o Likud, no Knesset (parlamento). Disse o actual primeiro-ministro, que agora promete «arrasar Gaza»: «Quem queira impedir o estabelecimento de um Estado Palestiniano tem de apoiar o fortalecimento do Hamas e a transferência de dinheiro para o Hamas. Isso faz parte da nossa estratégia – isolar os palestinianos de Gaza dos palestinianos da Cisjordânia».

«Impedir o estabelecimento de um Estado Palestiniano…». Na recente reunião da Assembleia Geral da ONU, Netanyahu exibiu um mapa do «Novo Médio Oriente» do qual suprimiu totalmente a Palestina. E tentou fazer humor escarnecendo das resoluções da ONU sobre os direitos do povo palestiniano. Provavelmente saberia alguma coisa que quase todo o resto do mundo desconhece.

Não será possível, portanto, olhar para os acontecimentos em curso sem ter em conta estes dados, estas declarações, que embora já não sejam segredo nas altas esferas – e certamente as da União Europeia – não chegam com facilidade ao cidadão comum porque para o aparelho mediático de intoxicação não passam de fake news, de traiçoeiras teorias da conspiração. 

Qualquer habilidoso fact-checker porá Netanyahu a dizer o contrário do que Netanyahu disse.

O aparecimento do Hamas no universo plural palestiniano tornou-se rapidamente, como desejaram os seus criadores, um instrumento privilegiado para promover a divisão da resistência à ocupação e minar o papel dominante do sector secular, representado pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP). O que não tardou a comprovar-se, em pleno desenvolvimento do primeiro Intifada. Quando a OLP convocava uma greve geral ou uma manifestação, o Hamas não aderia e convocava por si próprio uma greve geral e uma manifestação para o dia seguinte. O objectivo de dividir era evidente e servia, sem dúvida, os interesses de Israel. Enfraquecia a dinâmica do movimento popular, lançava dúvidas e animosidade, introduzia a delicada questão religiosa numa população multiconfessional, começava a socavar a solidez da resistência histórica.

Processo de paz e processo de guerra

A dicotomia, a fissura, melhor dizendo, entre Gaza e a Cisjordânia, manipulada por Israel consoante os seus interesses, inicialmente com maior incidência sobre o Hamas, enraizou-se e ganhou mais eficácia ainda a partir do chamado «processo de paz» desencadeado pelos Acordos de Oslo de 1993.

A direita israelita nunca aceitou este caminho de negociações e tudo fez para o sabotar, com apoio dos Estados Unidos, como «mediadores» e, em última instância, pela inércia ostensiva do chamado «quarteto para a paz» (Rússia, Estados Unidos, ONU e União Europeia), significativamente chefiado pelo aldrabão e criminoso de guerra Anthony Blair.

Antes de assinarem os Acordos de Oslo, os dirigentes da OLP deveriam, afinal, ter lido Ben-Gurion: «Se eu fosse um dirigente árabe nunca assinaria um acordo com Israel; é natural, nós tirámos-lhes o país».

A partir do momento em que Ariel Sharon e Benjamin Netanyahu reassumiram o poder em Israel, a seguir ao assassínio do primeiro-ministro trabalhista Isaac Rabin – do qual não estão inocentes devido à sua cumplicidade com os grupos de choque de colonos e milícias ortodoxas nas manifestações que culminaram com o crime – tudo mudou em relação ao «processo de paz».

As manobras dilatórias das negociações tornaram-se norma e o processo estagnou numa fase de «meia autonomia» controlada pelo aparelho político e de segurança israelita. 

As eleições e o processo político palestiniano delas decorrente definiu o cenário ideal para o programa divisionista de Israel: o governo da Autonomia instalado na Cisjordânia, com sede em Ramallah, nas mãos seculares da Fatah/OLP; e o Hamas islamita governando Gaza, onde obteve uma maioria esmagadora – vencendo, aliás, a consulta no conjunto da Palestina ocupada. Todas as tentativas para estabelecer um governo comum da autonomia palestiniana representando simultaneamente as duas regiões, e também Jerusalém Leste, fracassaram – excepto uma, efémera e que teve trágico fim. O mesmo aconteceu ao processo para realização de novas eleições: os mandatos políticos nas duas regiões caducaram há muito. Os palestinianos não vão às urnas desde 2007.

Para todos os efeitos, a situação tornou-se propícia a uma dança de Israel com dois parceiros desavindos, jogando com as contradições destes e tirando proveito de cada uma delas.

A retirada militar israelita de Gaza e a extinção dos colonatos locais em 2007, medidas tomadas pelo primeiro-ministro Ariel Sharon, foi um gesto importante em direcção do Hamas, «entregando-lhe» a Faixa de Gaza. De certa maneira um estatuto muito mais favorável que o do governo de Ramallah, da responsabilidade dos históricos OLP/Fatah, submetido à complexidade do «meio-acordo» aplicado às zonas A, B, C, que graduam a ocupação militar israelita e o seu tipo de interligação com as entidades autonómicas palestinianas.

Em 2008, porém, surge uma grande crise na faixa «autónoma» de Gaza, através da operação «Chumbo Fundido», a primeira das vagas arrasadoras do território desencadeadas pelo exército israelita e que provocou milhares de mortos e feridos, destruições profundas e o agravamento das carências inerentes a uma região que já então estava cercada e transformada numa gigantesca prisão a céu aberto, com mais de dois milhões de detidos.

Em Ramallah, porém, eram cada vez mais nítidos os sinais de dependência das autoridades palestinianas em relação ao poder israelita. O aparelho sionista manietava o núcleo mais histórico e popular da resistência palestiniana e tornava-o até responsável pela repressão do seu próprio povo perante manifestações e movimentos «não oficiais».

Neste quadro, o ritmo da colonização israelita da Cisjordânia e Jerusalém Leste cresceu vertiginosamente, flagelando e delapidando populações isoladas, reprimidas, sem apoio concreto e eficaz dos seus dirigentes. Os casos de resistência contra demolições de casas, destruição de propriedades, roubos de colheitas e de expulsão de famílias inteiras para outras regiões ou para o estrangeiro eram e continuam a ser sumariamente combatidos e destroçados, todos os dias, pela violência dos colonos com apoio das forças policiais e militares sionistas.

Na única ocasião em que Ramallah e Gaza chegaram a um princípio de acordo sobre um governo comum, em Junho de 2014, Israel encontrou pretextos para uma nova grande operação de bombardeamento contra Gaza, seguida de invasão parcial. Mais de 2500 palestinianos foram assassinados e, no rescaldo da matança, extinguiu-se a hipótese de governo comum.

A segunda parte deste artigo será publicada amanhã.


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A geopolítica do Dilúvio de Al-Aqsa

(Pepe Escobar, in SakerLatam.org, 12/10/2023)

O foco global acabou de mudar da Ucrânia para a Palestina. Essa nova arena de confronto acenderá ainda mais a concorrência entre os blocos atlanticista e eurasiano. Essas lutas são cada vez mais de soma zero; como na Ucrânia, apenas um polo pode sair fortalecido e vitorioso.


A Operação “Diluvio de Al-Aqsa” [do inglês Al-Aqsa Flood – nota do tradutor] do Hamas foi meticulosamente planejada. A data de lançamento foi condicionada por dois fatores desencadeadores.

O primeiro foi o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu exibindo seu mapa do “Novo Oriente Médio” na Assembleia Geral da ONU em setembro, no qual ele apagou completamente a Palestina e zombou de todas as resoluções da ONU sobre o assunto.

Em segundo lugar, estão as provocações em série na sagrada Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, incluindo a gota d’água: dois dias antes do Dilúvio de Al-Aqsa, em 5 de outubro, pelo menos 800 colonos israelenses lançaram um ataque ao redor da mesquita, agredindo peregrinos e destruindo lojas palestinas, tudo sob a observação das forças de segurança israelenses.

Todos que têm um cérebro funcional sabem que Al-Aqsa é uma linha vermelha definitiva, não apenas para os palestinos, mas para todo o mundo árabe e muçulmano.

A situação fica ainda pior. Os israelenses agora invocaram a retórica de uma “Pearl Harbor”. Isso é o mais ameaçador possível. A Pearl Harbor original foi a desculpa americana para entrar em uma guerra mundial e bombardear o Japão, e esse “Pearl Harbor” pode ser a justificativa de Tel Aviv para lançar um genocídio em Gaza.

Setores do Ocidente que aplaudem a próxima limpeza étnica – incluindo sionistas que se fazem passar por “analistas” e dizem em voz alta que as “transferências de população” que começaram em 1948 “devem ser concluídas” – acreditam que, com armamento maciço e cobertura massiva da mídia, eles podem reverter a situação em pouco tempo, aniquilar a resistência palestina e deixar os aliados do Hamas, como o Hezbollah e o Irã, enfraquecidos.

Seu “Projeto Ucrânia” fracassou, deixando não apenas ovos em rostos poderosos, mas também economias europeias inteiras em ruínas. No entanto, quando uma porta se fecha, outra se abre: salte da aliada Ucrânia para a aliada Israel e concentre sua atenção no adversário Irã em vez da adversária Rússia.

Há outros bons motivos para partir com tudo para cima. Uma Ásia Ocidental pacífica significa a reconstrução da Síria – na qual a China agora está oficialmente envolvida; o redesenvolvimento ativo do Iraque e do Líbano; o Irã e a Arábia Saudita como parte do BRICS 11; a parceria estratégica Rússia-China totalmente respeitada e a interação com todos os participantes regionais, incluindo os principais aliados dos EUA no Golfo Pérsico.

Incompetência. Estratégia intencional. Ou ambos.

Isso nos leva ao custo do lançamento dessa nova “guerra ao terror”. A propaganda está em pleno andamento. Para Netanyahu, em Tel Aviv, o Hamas é o ISIS. Para Volodymyr Zelensky, em Kiev, o Hamas é a Rússia. Em um fim de semana de outubro, a guerra na Ucrânia foi completamente esquecida pela grande mídia ocidental. O Portão de Brandemburgo, a Torre Eiffel e o Senado brasileiro agora são todos israelenses.

A inteligência egípcia alega ter avisado Tel Aviv sobre um ataque iminente do Hamas. Os israelenses decidiram ignorá-lo, assim como fizeram com os exercícios de treinamento do Hamas que observaram nas semanas anteriores, convencidos de que os palestinos jamais teriam a audácia de lançar uma operação de libertação.

Aconteça o que acontecer, a [operação] Dilúvio de Al-Aqsa já destruiu irremediavelmente a grande mitologia popular em torno da invencibilidade do Tsahal, do Mossad, do Shin Bet, do tanque Merkava, do Iron Dome e das Forças de Defesa de Israel.

Mesmo quando abandonou as comunicações eletrônicas, o Hamas lucrou com o colapso evidente dos sistemas eletrônicos multibilionários de Israel que monitoram a fronteira mais vigiada do planeta.

Os drones palestinos baratos atingiram várias torres de sensores, facilitaram o avanço de uma infantaria de parapente e abriram caminho para que equipes de assalto com camisetas e AK-47 infligissem rupturas no muro e cruzassem uma fronteira que nem mesmo gatos vadios ousavam.

Israel, inevitavelmente, passou a atacar a Faixa de Gaza, uma gaiola cercada de 365 quilômetros quadrados com 2,3 milhões de pessoas. Começou o bombardeio indiscriminado de campos de refugiados, escolas, blocos de apartamentos civis, mesquitas e favelas. Os palestinos não têm marinha, força aérea, unidades de artilharia, veículos blindados de combate nem exército profissional. Eles têm pouco ou nenhum acesso à vigilância de alta tecnologia, enquanto Israel pode acessar os dados da OTAN se quiser.

O ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, proclamou “um cerco completo à Faixa de Gaza. Não haverá eletricidade, nem alimentos, nem combustível, tudo está fechado. Estamos lutando contra animais humanos e agiremos de acordo”[enfase do tradutor].

Os israelenses podem se envolver alegremente em punições coletivas porque, com três vetos garantidos do Conselho de Segurança da ONU no bolso de trás, eles sabem que podem se safar.

Não importa que o Haaretz, o jornal mais respeitado de Israel, admita sem rodeios que “na verdade, o governo israelense é o único responsável pelo que aconteceu (Dilúvio de Al-Aqsa) por negar os direitos dos palestinos”.

Os israelenses são consistentes. Em 2007, o então chefe da inteligência de defesa israelense, Amos Yadlin, disse: “Israel ficaria feliz se o Hamas assumisse o controle de Gaza porque as FDI poderiam lidar com Gaza como um estado hostil”

Ucrânia envia armas para palestinos

Há apenas um ano, o comediante de moletom em Kiev estava falando sobre transformar a Ucrânia em uma “grande Israel” e foi devidamente aplaudido por um grupo de automatos do Atlantic Council.

Bem, o resultado foi bem diferente. Como uma fonte da velha guarda do Deep State acabou de me informar:

“Armas com a marca da Ucrânia estão indo parar nas mãos dos palestinos. A questão é qual país está pagando por elas. O Irã acabou de fazer um acordo com os EUA no valor de seis bilhões de dólares e é improvável que o Irã coloque isso em risco. Tenho uma fonte que me deu o nome do país, mas não posso revelá-lo. O fato é que as armas ucranianas estão indo para a Faixa de Gaza e estão sendo pagas, mas não pelo Irã.”

Depois de seu impressionante ataque no último fim de semana, um Hamas experiente já garantiu mais poder de negociação do que os palestinos tiveram em décadas. É importante ressaltar que, embora as negociações de paz sejam apoiadas pela China, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e Egito, Tel Aviv se recusa. Netanyahu está obcecado em arrasar Gaza, mas se isso acontecer, uma guerra regional mais ampla será quase inevitável.

O Hezbollah do Líbano – um firme aliado do Eixo da Resistência para a resistência palestina – prefere não ser arrastado para uma guerra que pode ser devastadora em seu lado da fronteira, mas isso pode mudar se Israel perpetrar um genocídio de fato em Gaza.

O Hezbollah possui pelo menos 100.000 mísseis balísticos e foguetes, desde Katyusha (alcance: 40 km) até Fajr-5 (75 km), Khaibar-1 (100 km), Zelzal 2 (210 km), Fateh-110 (300 km) e Scud B-C (500 km). Tel Aviv sabe o que isso significa e estremece com os frequentes avisos do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, de que sua próxima guerra com Israel será conduzida dentro daquele país.

O que nos leva ao Irã.

Negação plausível geopolítica

A principal consequência imediata do Dilúvio de Al-Aqsa é que o sonho neocon de Washington de “normalização” entre Israel e o mundo árabe simplesmente desaparecerá se isso se transformar em uma longa guerra.

Na verdade, grande parte do mundo árabe já está normalizando seus laços com Teerã – e não apenas dentro do recém-expandido BRICS 11.

No caminho para um mundo multipolar, representado pelo BRICS 11, pela Organização de Cooperação de Xangai (SCO), pela União Econômica Eurasiática (EAEU) e pela Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China, entre outras instituições inovadoras da Eurásia e do Sul Global, simplesmente não há lugar para um Estado de Apartheid etnocêntrico que gosta de punição coletiva.

Neste ano, Israel não foi convidado para a cúpula da União Africana. Uma delegação israelense compareceu mesmo assim e foi expulsa sem cerimônia do grande salão, uma imagem que se tornou viral. Nas sessões plenárias da ONU no mês passado, um único diplomata israelense tentou interromper o discurso do presidente iraniano Ibrahim Raisi. Nenhum aliado ocidental ficou ao seu lado, e ele também foi expulso do local.

Como disse diplomaticamente o presidente chinês Xi Jinping em dezembro de 2022, Pequim “apoia firmemente o estabelecimento de um Estado independente da Palestina que goze de plena soberania com base nas fronteiras de 1967 e com Jerusalém Oriental como sua capital. A China apoia que a Palestina se torne um membro pleno das Nações Unidas”.

A estratégia de Teerã é muito mais ambiciosa: oferecer consultoria estratégica aos movimentos de resistência da Ásia Ocidental, do Levante ao Golfo Pérsico: Hezbollah, Ansarallah, Hashd al-Shaabi, Kataib Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica Palestina e inúmeros outros. É como se todos eles fizessem parte de um novo Grande Tabuleiro de Xadrez supervisionado de fato pelo Grande Mestre Irã.

As peças do tabuleiro de xadrez foram cuidadosamente posicionadas por ninguém menos que o falecido Comandante da Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, General Qassem Soleimani, um gênio militar único na vida. Ele foi fundamental na criação das bases para os sucessos cumulativos dos aliados iranianos no Líbano, na Síria, no Iraque, no Iêmen e na Palestina, além de criar as condições para uma operação complexa como a Dilúvio de Al-Aqsa.

Em outras partes da região, a iniciativa atlanticista de abrir corredores estratégicos nos Cinco Mares – Cáspio, Mar Negro, Mar Vermelho, Golfo Pérsico e Mediterrâneo Oriental – está fracassando gravemente.

A Rússia e o Irã já estão destruindo os projetos dos EUA no Mar Cáspio – por meio do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC) – e no Mar Negro, que está a caminho de se tornar um lago russo. Teerã está prestando muita atenção à estratégia de Moscou na Ucrânia, ao mesmo tempo em que refina sua própria estratégia sobre como debilitar o Hegemon sem envolvimento direto: chamemos isso de negação plausível geopolítica.

Bye bye corredor UE-Israel- Arábia Saudita-Índia

A aliança Rússia-China-Irã foi demonizada como o novo “eixo do mal” pelos neoconservadores ocidentais. Essa raiva infantil revela a impotência cósmica. Esses são Soberanos Reais com os quais não se pode mexer e, se o fizerem, o preço a pagar será inimaginável.

Um exemplo importante: se o Irã, sob ataque do eixo EUA-Israel, decidisse bloquear o Estreito de Ormuz, a crise energética global dispararia e o colapso da economia ocidental sob o peso de quatrilhões de derivativos seria inevitável.

O que isso significa, em um futuro imediato, é que o sonho americano de interferir nos Cinco Mares não se qualifica nem mesmo como uma miragem. O Diluvio Al-Aqsa também acabou de enterrar o recém-anunciado e muito alardeado corredor de transporte UE-Israel-Arábia Saudita-Índia.

A China está bem ciente que toda essa incandescência que está ocorrendo apenas uma semana antes de seu 3o Fórum do Cinturão e Rota em Pequim. O que está em jogo são os corredores de conectividade da BRI que importam – através do Heartland, através da Rússia, além da Rota da Seda Marítima e da Rota da Seda Ártica.

Além disso, há o INSTC que liga a Rússia, o Irã e a Índia e, por extensão auxiliar, as monarquias do Golfo.

As repercussões geopolíticas do Dilúvio de Al-Aqsa acelerarão as conexões geoeconômicas e logísticas interconectadas da Rússia, da China e do Irã, contornando o Hegemon e seu Império de Bases. O aumento do comércio e a movimentação ininterrupta de cargas têm tudo a ver com (bons) negócios. Em termos iguais, com respeito mútuo – não é exatamente o cenário do Partido da Guerra para uma Ásia Ocidental desestabilizada.

Ah, as coisas que uma infantaria de parapente em movimento lento sobrevoando uma parede podem acelerar.


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A homenagem da Rússia aos gasodutos Nord Stream

(Por M. K. Bhadrakumar, in Resistir, 29/10/2022)



David Brinkley, o lendário locutor dos EUA com uma carreira de 54 anos desde a Segunda Guerra Mundial, disse certa vez que um homem de êxito é aquele que pode construir uma base firme com os tijolos que outros lhe lançaram. É duvidoso que estadistas dos EUA tenham praticado este nobre pensamento herdado de Jesus Cristo.

A impressionante proposta do presidente russo Vladimir Putin ao presidente turco Recep Erdogan – de construir um gasoduto para a Turquia a fim de criar um hub internacional a partir do qual se possa fornecer gás russo à Europa dá uma vida nova a este pensamento tão “gandhiano”.

Putin discutiu a ideia com Erdogan na sua reunião de 13 de Outubro em Astana e, na semana passada, dela falou no fórum da Semana de Energia da Rússia, onde propôs criar na Turquia o maior centro de gás a Europa e redirigir o volume de gás, cujo tráfego já não é possível através do Nord Stream, para este centro.

Putin disse que pode implicar a construção de outro sistema de gasodutos para alimentar o hub na Turquia, através do qual será fornecido gás a países terceiros, sobretudo europeus, “se estiverem interessados”.

À primeira vista (prima facie), Putin não espera nenhuma resposta positiva de Berlim à sua proposta permanente de utilizar o ramo (string) do Nord Stream 2 que permaneceu intacto para fornecer 27,5 mil milhões de metros cúbicos de gás durante os meses de inverno. O silêncio ensurdecedor da Alemanha é compreensível. O chanceler Olaf Scholz está aterrorizado pela cólera do presidente Biden.

Berlim diz que sabe quem sabotou os gasodutos Nord Stream, mas que não revelará pois afeta a segurança nacional da Alemanha! A Suécia também alega que o assunto é demasiado delicado para compartilhar as provas recolhidas com qualquer país, inclusive a Alemanha! Biden impôs o temor de Deus nas mentes destes tímidos “aliados” europeus, os quais deixaram de ter quaisquer dúvidas sobre o que é bom para eles! Os media ocidentais também têm a ordem de minimizar a importância da saga do Nord Stream a fim de que, com o passar do tempo, a memória pública se desvaneça.

Contudo, a Rússia fez o seu trabalho de casa para que a Europa não pudesse prescindir do gás russo, apesar da atual fanfarronice europeia de auto-negação. Dito simplesmente, as indústrias europeias dependem dos fornecimentos baratos e confiáveis russos para que os seus produtos permaneçam competitivos no mercado mundial.

O ministro da Energia do Qatar, Saad al-Kaabi, disse na semana passada não poder imaginar um futuro com fluxo “zero de gás russo” para a Europa. Assinalou de modo azedo:   “Se este for o caso, então creio que o problema vai ser enorme e durante longo tempo. Simplesmente não têm volume suficiente para trazer [de fora] e substituir esse gás (russo) a longo prazo, a menos que digam:   ‘Vou ficar a construir enorme centrais nucleares, vou permitir o carvão, vou queimar combustíveis”.

Na essência, a Rússia planeia substituir o seu hub de gás em Haidach, na Áustria (o qual foi apresado pelos austríacos em Julho). Conceptualmente, o hub na Turquia tem um mercado de gás já pronto no sul da Europa, incluindo a Grécia e a Itália. Mas há mais nisto do que parece à simples vista.

Em suma, Putin deu um passo estratégico na geopolítica do gás. Sua iniciativa joga no lixo a ideia tresloucada dos burocratas russófobos da Comissão Europeia, em Bruxelas, encabeçados por Ursula von der Leyen, de impor um teto de preço às compras de gás. Não têm sentido os planos dos Estados Unidos e da União Europeia de degradar o perfil da Rússia como superpotência gasista.

Logicamente, o próximo passo para a Rússia deveria ser alinhar-se com o Qatar, o segundo maior exportador de gás do mundo. O Qatar também é um aliado próximo da Turquia. Recentemente, em Astana, à margem da cimeira da Conferência sobre Interação e Construção de Medidas de Confiança na Ásia (Conference on Interaction and Confidence-Building Measures in Asia, CICA), Putin efetuou uma reunião a portas fechadas com o emir do Qatar, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani. Acordaram efetuar outra reunião dentro em breve na Rússia.

A Rússia já tem um quadro de cooperação com o Irão numa série de projetos conjuntos na indústria do petróleo e do gás. O vice-primeiro ministro russo Alexander Novak revelou recentemente seus planos para concluir um acordo de intercâmbio de petróleo e gás com o Irão em fins do ano. Informou que se estão a elaborar pormenores técnicos: questões de transporte, logística, preços e formação de tarifas”.

Neste momento, a Rússia, o Qatar e o Irão representam em conjunto mais da metade de todas as reservas provadas de gás do mundo. Aproxima-se o momento de intensificarem a cooperação e coordenação com base no modelo da OPEP Plus. Os três países estão representados no Fórum de Países Exportadores de Gás (GECF).

A proposta de Putin apela ao sonho de longa data da Turquia de se converter num centro energético às portas da Europa. Não surpreendentemente, Erdogan instintivamente empolgou-se com a proposta de Putin. Falando esta semana aos membros do partido governante no parlamento turco, Erdogan disse: “Na Europa estão agora a lidar com a questão de como se manterem aquecidos no próximo inverno. Não temos este problema. Acordamos com Vladimir Putin criar um hub de gás no nosso país, através do qual o gás natural pode ser entregue à Europa. Portanto, a Europa encomendará gás à Turquia”.

Além de reforçar a sua própria segurança energética, a Turquia também pode contribuir para a da Europa. Assim, a importância da Turquia dará sem dúvida um salto qualitativo no cálculo da política externa da UE, ao mesmo tempo que reforçará a sua autonomia estratégica na política regional. Este é um grande passo em frente na geoestratégia de Erdogan – a direção geográfica da política externa turca sob a sua vigilância.

Do ponto de vista russo, naturalmente, a autonomia estratégica da Turquia e a sua determinação de seguir uma política externa independente funcionam esplendidamente para Moscovo sob as condições atuais de sanções do ocidente. É concebível que as empresas russas começarão a encarar a Turquia como uma base de produção onde as tecnologias ocidentais se tornam acessíveis. A Turquia tem um acordo de união aduaneira com a UE, o qual elimina totalmente os direitos alfandegários sobre todos os produtos industriais de origem turca. (Ver meu blog Russia-Turkey reset eases regional tensions, 09/Agosto/2022).

Em termos geopolíticos, Moscovo sente-se à vontade com a condição turca de membro da NATO. Claramente, o hub de gás proposto contribui com muitos rendimentos adicionais para a Turquia e dará uma maior estabilidade e previsibilidade às relações Rússia-Turquia. De facto, os vínculos estratégicos que unem os dois países estão a ampliar-se constantemente: o acordo S-400 ABM, a cooperação na Síria, a central nuclear de Akkuyu, o gasoduto Turk Stream, para nomear alguns.

Os dois países admitem sinceramente que têm diferenças de opinião, mas a forma em que Putin e Erdogan, através da diplomacia construtiva, continuam a converter as circunstâncias adversas em janelas de oportunidade para uma cooperação que beneficie a todos é simplesmente assombrosa.

É preciso engenho para conseguir que os aliados europeus dos EUA obtenham gás russo sem nenhuma coação ou aborrecimentos, inclusive depois de Washington haver enterrado os gasodutos Nord Stream nas profundezas do Mar Báltico. É uma ironia dramática que uma potência da NATO faça parceria com a Rússia nesta direção.

A elite da política externa dos EUA, retirada dos stocks da Europa do Leste, fica sem palavras devido ao puro refinamento do engenho russo para ultrapassar sem nenhum traço de rancor a forma como os Estados Unidos e seus aliados – Alemanha e Suécia, em particular – bateram com a porta a Moscovo impedindo-a até de dar uma olhadela aos gasodutos danificados de muitos milhares de milhões de dólares que haviam construído de boa fé nas profundidades do Mar Báltico a instâncias de dois chanceleres alemães, Gerhard Schroeder e Angela Merkel.

A atual liderança alemã do chanceler Olaf Scholz parece muito imbecil, covarde e provinciana. Ursula von der Leyen, da Comissão Europeia, recebe um enorme repúdio em tudo o que em última análise definirá o seu trágico legado em Bruxelas como uma porta-bandeira dos interesses americanos. Isto provavelmente converte-se no primeiro estudo de caso para historiadores sobre como funcionará a multipolaridade na nova ordem mundial.


*M. K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira por 30 anos no Serviço de Relações Exteriores da Índia. Serviu na embaixada da Índia em Moscou em diversas funções e atuou na Divisão Irã- Paquistão-Afeganistão e na Unidade da Caxemira do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Ocupou cargos nas missões indianas em Bonn, Colombo, Seul, Kuwait e Cabul; foi alto comissário interino adjunto em Islamabad e embaixador na Turquia e no Uzbequistão.


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