A POLÍTICA DAS FONTES

(In Blog O Jumento, 13/03/2018)
leonor
(Eu preferia a fonte da Leonor, mas só me saem as “fontes” de Belém. O Camões finou-se, a Leonor agora anda calçada e dá pelo nome de Marcela… 🙂
Comentário da Estátua, 13/03/2018)

As “fontes” são uma das originalidades da vida política portuguesa e um dos sinais óbvios da cobardia de muitas das nossas personalidades políticas, que se socorrem desta forma cobarde de mandar mensagens políticas para atacarem os adversários recorrendo a jornalistas menos escrupuloso que dão cobertura à sua cobardia a troco de outros favores.
Uma das primeiras consequência desta forma suja de fazer política é a promiscuidade corrupta entre políticos e jornalistas, que não raras vezes resulta naquilo a que se designa por “boa imprensa”. Neste negócio ninguém dá nada sem receber em troca, se um jornalista faz a um político o favor de fazer uma mensagem sem revelar o seu autor é porque recebe algo em troca, algo que lhe pode dar lucro e que é quase de certeza informação privilegiada.
Aquilo a que se designa por “violações do segredo de justiça” mais não é do que informação privilegiada, ao publicá-la os jornalistas conseguem vantagem sobre a concorrência, isso significa maiores audiências, estas convertem-se em maiores receitas de publicidade que, por sua vez, dão lugar a aumentos salariais e prémios aos jornalistas. Em troca, quem dá a informação recebe o favor de um tratamento favorável na comunicação, que tanto pode ser influenciar a opinião pública a favor da tese da acusação, como dar boa imprensa aos altos responsáveis da justiça.
Desta promiscuidade resulta um debate político podre, não se diz o que uma determinada personalidade pensa, diz-se o que as fontes deste ou daquele palácio, desta rua ou daquele largo atribuem a governantes ou políticos da oposição. É um jogo de falsidades em que temos, por exemplo, de saber o que Marcelo disse e interpretar isso à luz do que dizem as fontes de Belém, o mesmo sucedendo com outras personalidades, algumas da quais nunca aparecem a falar mas de quem se sabe sempre o que supostamente pensam.
Um bom exemplo deste jogo vergonhoso é-nos proporcionado pelo Expresso do passado Sábado. O semanário já nem se dá ao trabalho de citar as famosas “fontes de Belém” do tempo de Cavaco, as tais que Marcelo disse terem acabado. O semanário quase assume o estatuto de porta-voz do que o Presidente fala quando avisa que:
«Se o PSD não se começa a afirmar nas sondagens até ao verão e António Costa chegar á rentrée a crescer rumo a uma maioria absoluta, o Presidente da República admite ter de entrar mais em cena e voltar a chamar a si momentos de alerta para o que corre pior no país acentuando a demarcação do Governo.»
O que o Expresso diz é que as intervenções de Marcelo sobre os problemas do país não refletem qualquer preocupação com os portugueses, servem apenas para manobras políticas sujas, algo certamente o Presidente da República vai desmentir. O Expresso vai ainda mais longe e acrescenta as conclusões de uma reunião entre Marcelo e os seus assessores, que a não ser que sejam desmentidas vinculam a Presidência da República:
“O Presidente sabe que tem de dar mais tempo a Rui Rio e que não pode sr ele a fazer o que a oposição tem de fazer, mas se Rio não for suficientemente a jogo preenchendo os vazios, terá de ir ele”
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