O verdadeiro significado da “neutralidade” da Suécia e Finlândia

(Hugo Dionísio, in Facebook, 05/04/2023)

President Joe Biden accompanied by Swedish Prime Minister Magdalena Andersson and Finnish President Sauli Niinisto, speaks in the Rose Garden of the White House in Washington, Thursday, May 19, 2022. (AP Photo/Andrew Harnik)

Stoltenberg disse que “a Finlândia está mais segura com a NATO e a NATO fica mais forte com a Finlândia”; “por muitos anos as tropas da Finlândia e NATO trabalharam lado a lado como parceiros”. Está tudo dito sobre o fim da “neutralidade”. Veremos agora, segundo os termos suecos, finlandeses e ocidentais, qual o real significado da palavra.

A “neutralidade” destes dois países face à expansão da NATO é reminiscente da sua “neutralidade” face à URSS e Alemanha NAZI. A natureza desta imparcialidade é, em si, profundamente egoísta, hipócrita e cínica. Apoiando, no coração, um dos lados em contenda, estes países não tiveram a coragem de se verem alvos do outro lado. Então… venha daí a “neutralidade”. Mas em que consiste realmente esta neutralidade?

Como prova a ciência e, logo, a história humana, “neutralidade” é um conceito puramente humano, inexistente na natureza. O facto de existir torna-nos parte de algo, quer queiramos, quer não. Ninguém pode ficar à parte do mundo e dos seus fenómenos. Como tal, os factos dizem-nos que, Suécia e Finlândia, já “eram” da NATO, mesmo antes de o serem.  Logo, a sua suposta “neutralidade”, face a quem quer que seja, tem muito que se lhe diga.

A “neutralidade” sueca, face aos principais contendores de então – a invadida URSS e a Alemanha nazi – permitiu, por exemplo, às forças de Hitler invadirem a URSS. Com efeito, a Suécia liderada pelo Rei Gustav V e pelo social-democrata Per Albin Hannson asseguraram o acesso dos nazis ao seu território, durante a batalha de Narvik. Um dos pontos de passagem das forças nazis – a Noruega – não teria sido tomado sem o auxílio da “neutralidade” sueca que lhes permitiu o uso da sua ferrovia (Ver aqui ).

Esta posição “social-democrata” é em si identificativa, já se podendo dizer que faz parte do “ser real” dos partidos que dizem seguir esta causa. Vejamos: na Alemanha revolucionária de finais do século XIX e início do século XX, é o partido social-democrata que impede a revolução social em curso, aliando-se à burguesia de então. O resultado? Já todos o conhecemos… Guerra Mundial, nazismo, acabando uns anos depois com o SPD a entregar a chancelaria a Hitler, depois da operação de “bandeira falsa” em que consistiu no incêndio do Reichstag, para culpar os comunistas.

A História nestas questões não mente…. Entre a revolução social e progressista em prol dos trabalhadores e dos mais pobres, os partidos sociais-democratas optam sempre por se aliar à burguesia e à direita, alimentando, com a sua incongruência e incapacidade para resolver os problemas concretos, o monstro fascista.

O que se passa na Ucrânia, com o apoio a um regime xenófobo que faz do ódio e supremacia racial a pedra de toque da sua ideologia, não constitui nada de novo. A submissão dos partidos “sociais-democratas”, e da ala “progressista” do próprio partido democrata, ao regime que, nos EUA, resultou do pós 11 de Setembro de 2001 – do “surveilance state” e do “corporate state” – também não constitui nada de novo. A “neutralidade” sueca e finlandesa é uma mera extensão da “moderação anti radicalismo” da social democracia europeia. Todos sabemos a que “radicalismo” esta “moderação” acaba sempre por entregar o poder. Sentimo-lo, hoje, nas nossas condições de vida, na censura e cerceamento das nossas liberdades.

Hoje, quando ouvimos a NATO, e os países que estão amarrados a esta organização, exigir a outros que não vendam, à Rússia, as mercadorias que possam ser utilizadas na produção de armamento, o que dizer do facto de 37% do total de exportações suecas, durante a segunda guerra, terem ido para a Alemanha e terem consistido em ferro ou rolamentos a utilizar na máquina de guerra germânica?

Mas, se a “neutralidade” sueca foi providencial para as forças nazis, a Finlândia nunca se escudou, sequer, atrás dessa capa hipócrita e cobarde. Relembramos que, apenas o tratado com a URSS em 1940, manteve a Finlândia “neutra” todos estes anos. Ou seja, a sua “neutralidade” é de outra natureza. Cimenta-se no ressentimento da derrota. Mesmo assim, mais tarde, em 1948, assinou um tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua.

Em plena Segunda Guerra, este país contribuiu com milhares de soldados, entre os quais muitos voluntários, não admirando que os encontremos, hoje, ao lado das forças de Bandera. Afinal, a história profunda de um país possui uma capacidade de atracção irresistível para a revelação da verdadeira natureza de uma nação e, especialmente, da elite que o governa.

Devidamente lavadas dos livros de História, que desinformam os nossos jovens, em 2019 um relatório demonstrou que, entre outros casos, brigadas como a SS Viking, a combater na Ucrânia – nem de propósito – ajudou a aniquilar judeus (ver aqui).

Hoje, um dos símbolos ou runa mais conhecidos desta unidade – o Sol Negro – é imensamente visto por entre as tropas do regime de Kiev.

Perante o horror, uma secretária de estado – Paula Lehtomaki – referiu que “nós temos a responsabilidade de garantir que tais atrocidades nunca se repetirão”. Demonstrando que uma das características fundamentais do capitalismo neoliberal, da oportunista e superficial sociedade de consumo, consiste em nunca aprender nada com a História, simplesmente porque não a estudam com profundidade, hoje, os mesmos que tal disseram em 2019, apoiam, agora, neonazis na Ucrânia. Demonstrando que, o que aconteceu entre 1941 e 43, esteve longe de ser um acaso histórico.

Ora, ouvir ontem Blinken dizer que a adesão da Finlândia foi histórica para a NATO e que tal expansão “o mundo” deve-a a Putin, é razão para questionarmos o que muda realmente. Suécia e Finlândia participavam, ou não, nos exercícios militares da NATO? São, ou não, os dois países, grandes compradores de material de guerra americano?  São, ou não, as suas tropas treinadas segundo o padrão NATO e as suas unidades interrelacionáveis com as unidades dos países da NATO? No fundo, o que aconteceu nos últimos tempos foi a revelação da real natureza da “neutralidade” destes países.

Agora, a grande questão a colocar é a seguinte: em que medida estes países têm, sequer, condições de independência e autonomia para tomarem as decisões por si próprios? Num mundo em que as suas economias estão profundamente dependentes da europeia e americana, em que as suas reservas estão em bancos ocidentais… diria que nenhum deles, nem qualquer outro país ocidental tem, hoje, qualquer capacidade para decidir sobre a sua política externa, económica ou outra.

Teve piada ler um artigo de Teresa Mendonça, no jornal do Partido Democrata dos EUA que é o Público, no qual esta articulista defendia que a UE tem de ser uma ponte entre China e EUA, mas uma ponte mais próxima dos EUA, não prescindindo, contudo, da sua autonomia. Para o exemplificar usou o discurso de Úrsula Von Der Leyen em dois Think Thanks europeus, nos quais enunciou as preocupações europeias para com a China. Escrevendo no seu artigo todos os argumentos que preocuparão Úrsula, nem por um momento, Teresa Mendonça, se deu conta de que as preocupações “europeias” são um mero decalque, das preocupações de Washington. Nem uma palavra, nem um termo é dito ao acaso ou destoa com o da propaganda do “desacoplamento” promovida pela Casa Branca. Ora, não tendo a UE qualquer capacidade de independência, como o terão a Suécia e Finlândia? O que nos diz muito sobre o real entendimento que esta gente tem da “neutralidade”, “imparcialidade” ou “equidistância”.

Contudo, a “neutralidade” desmascarada destes dois países, ao contrário do que diz Blinken, não constitui um movimento proactivo, de manifestação de força ou coesão. Ao contrário. Constitui, antes, um movimento reactivo, de desespero, de quem vê o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

Neste processo de aceleração histórica, no qual a “Operação Militar Especial” na Ucrânia constituiu um catalisador fundamental, temos assistido a um continuado processo de revelações. Tal como Suécia e Finlândia não eram realmente neutras, também o Sul Global não se sente confortável ou, sequer, é neutral relativamente à dependência do dólar e do sistema financeiro da 5ª Avenida.

Se a Suécia e Finlândia voltam à casa de onde nunca saíram, ainda ontem ouvimos o Primeiro Ministro da Malásia dizer que “não há razão para a Malásia continuar a depender do dólar”. Numa reunião com Xi Ji Ping foi discutida a criação do Fundo Monetário Asiático que visa acabar com dependência do FMI (ver aqui).

Ao mesmo tempo, acordos entre India, China, Rússia, Brasil, Africa do Sul, Irão, Arábia Saudita, Turquia, Emirados, Quénia e muitos outros, apontam progressivamente para desdolarização, em prol de trocas feitas em moedas nacionais. A própria França foi o primeiro país europeu a comprar gás natural liquefeito em Yuan. Adicionalmente, na próxima reunião dos BRICS, para além de se ir discutir, em Kazan, a adesão da Arábia Saudita e México, uma das questões chave a abordar será a criação e uma moeda BRICS, da qual Dilma será uma arquitecta privilegiada. Diria que Dilma tem aqui uma oportunidade histórica de vingança!

Agora pense-se… Perante esta tendência para criação de um mundo composto por 85% da Humanidade, que já constatou o papel que o Dólar tem enquanto arma de guerra, que o FMI tem enquanto lançador de dólares… No movimento, totalmente dissonante, que China e Rússia têm tido na aproximação de povos desavindos – o próprio Ministro dos Negócios Estrangeiros indiano refere que tem esperança que o aprofundamento das relações entre China e Rússia se reflictam positivamente no diálogo entre India e China… A quantidade de acordos que todos os dias se assinam, pelo Sul Global, sem a participação dos EUA e seus apêndices…. Afinal, o Sul Global não se limitava a assistir, numa posição neutral, aos diferendos entre as maiores potências.

Ao contrário, este mundo está farto de bullying, sanções e retaliações unilaterais e de imposições injustas, disfarçadas de inflamados discursos evangélicos sobre “democracia” e “direitos humanos”, que justificam todas as agressões.

E tal pensamento é razão para questionarmos: o fim da “neutralidade”, sueca e finlandesa, não constitui apenas a revelação da verdadeira face destes países…

Esta revelação sobre a verdadeira direcção da “neutralidade” destes dois países, constitui um tocar a reunir, um apertar do botão de pânico, no sentido de ainda tentar parar o comboio que a história já se encarregou de colocar em movimento! Suécia e Finlândia deram um passo para se juntarem a todos os outros, incluindo nós, que não querem, não podem, não conseguem ou não têm a liberdade de apanhar esse comboio de alta velocidade!

Eis a verdadeira face do fim da “neutralidade” sueca e finlandesa.


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Marta (Temida) de partida

(Por José Gabriel, in Facebook, 30/08/2022)


Marta Temido pediu a demissão do seu cargo de Ministra da Saúde, a qual foi aceite com surpreendente rapidez. Alegou a Ministra demissionária falta de condições para o exercício do cargo. E querem saber que mais? Eu acredito. E se bem leio a situação, acho improvabilíssimo que António Costa encontre melhor. Talvez venha a optar por alguém de muito baixo perfil e disposição para obedecer ao ministro das finanças e calar, alguém que não tenha pensamento próprio sobre a área da saúde; talvez um contabilista ou economista vindo daquelas escolas com nomes parolos em inglês.

Poucas figuras nomeadas para o Ministério da Saúde partiram com tanto crédito – incluindo da esquerda propriamente dita – para o cargo. Mas os tempos não foram fáceis. A pandemia, claro, mas, mesmo que tão complexo processo não tivesse ocorrido, não faltariam obstáculos. Isso foi claro logo no debate sobre a Lei de Bases da Saúde. Apanhada entre os fogos do servilismo do governo para com os lóbis da medicina privada e os ataques do bastonário da Ordem dos Médicos, sujeita a uma pressão tremenda durante estes anos de pandemia e uma comunicação social agressiva a mentirosa – não poupemos nas palavras -, teve, ainda, o azar de a sua popularidade ter atingido os altos níveis de que os seus novos companheiros de partido não gostavam nada. Isto é, tornou-se uma ameaça interna para os candidatos a mais altos voos. Nomeadamente para o financeiro Medina, candidato a candidato.

E agora, que o alívio da pressão da pandemia parecia proporcionar espaço e tempo para, finalmente, enfrentar os problemas de fundo e levar a cabo – pelo menos – a Lei de Bases aprovada, era preciso que Marta Temido saísse, não fosse ela começar a governar a sério o seu ministério.

Marta Temido tinha, desde o início, alguns dilemas e opções de fundo a enfrentar. E, ou o fazia sem reservas e preocupações em se manter no lugar a qualquer custo, em obediência a princípios que sabemos que eram também os seus, ou ia de compromisso em compromisso em obediência aos medíocres e servis objectivos do governo até à inanidade política a que a quiseram – e conseguiram – reduzir.

Foi pena. Foi pena ver a trajectória descendente de alguém em quem tantos puseram – por boas razões – a sua confiança. E que acabou, valha a verdade, por ser uma das poucas ministras da Saúde que conhecia bem o sector e tinha ideias para ele.

Marta Temido acabaria sempre por sair, não tenhamos ilusões. Mas dela ficaria a memória de alguém que enfrentou os tremendos obstáculos que as políticas de Saúde sempre erguem em frente de quem tente, a sério, fazer obra de relevo no caminho certo, que é sempre o de uma Saúde pública de alta qualidade ao serviço da equidade social e de uma verdadeira democracia. E ficaria o exemplo para quem viesse a tentar fazer melhor.

Marta Temido já não é Ministra da Saúde. O ministério das finanças pode, assim, respirar de alívio e governar em paz o sector – não é o que tenta, quase sempre, fazer?


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Dança com bobos

(Por José Gabriel, in Facebook, 25/08/2022)


Não têm faltado notícias mais ou menos pitorescas – tratadas como escândalos – sobre a primeira-ministra da Finlândia. É um regabofe. Uns atacam, outros defendem. E assim se vão entretendo, com farrapos de acontecimentos irrelevantes, caricatos e patetas, as atenções internas e externas. De tal sorte que se instalou a politicamente correcta atitude “touche pas Sanna Marin” – só falta um “je suis Sanna” – e, assim, se tenta desarmar a crítica política que importa, realmente, fazer.

E, no entanto, foi o governo finlandês presidido por Sanna Marin quem decidiu a adesão à NATO, traindo princípios, compromissos, entregando à sua sorte – ou à morte – os que jurou proteger. Os curdos lá exilados que o digam. A primeira-ministra sueca está a fazer o mesmo que que sua colega finlandesa, mas, sendo pessoa mais discreta, não fornece aos especialistas de entretenimento e desvio de atenção das massas, material de pasto para os tabloides.

Estamos a assistir a um deprimente espectáculo de proxenetismo político ao vivo e a cores e os jornais insistem em entreter-nos com inanidades.

Erdoğan, inesperada prima donna desta ópera bufa, exulta. Biden só não dá saltinhos porque a idade já vai avançada. A nata da NATO canta vitória.

Mas a malta fala é da dança. E a questão que parece importar é se a senhora bebeu ou tomou alguma coisa, ai caredo!…

Nada disto é novo, claro. Está nos manuais de manipulação de opinião, de propaganda subliminar, enfim, a velha prática de prostituição política no seu pior.

Não é, pois, da dança da senhora primeira-ministra que se trata. Trata-se de nos pôr a dançar a música que a eles lhes convém.

Só dança quem quer, direis. Oxalá fosse tão simples.


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