O Relatório Draghi — Receita Goldman Sachs

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 16/09/2024)


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O relatório Draghi sobre a decadência da Europa e a sua sobrevivência é um brilhante trabalho de encantamento idêntico ao que os bancos promovem para levar os clientes a endividarem-se para adquirirem os meios de que necessitam para ficarem ricos. Quem já viu a publicidade à COFIDIS percebe o que quero dizer. Compre uma Bimby a prestações e venda biscoitos que vai ficar rico. No final, o resultado do costume, nem Bimby, nem biscoitos e a casa penhorada para pagar o empréstimo.

Draghi apresentou um relatório como desde há anos os gurus ao serviço dos bancos americanos têm feito, como se fossem análises de situação neutras — tudo a bem dos povos. Relatórios sempre apoiados em muita estatística, os números credibilizam os truques, produtividade, a Europa tem uma produtividade 50% inferior aos Estados Unidos, por exemplo. Flexibilidade. Economia de escala. Inovação — grandes empresas de tecnologia — não existe nenhuma europeia entre as primeiras 10.

O relatório Draghi é, na realidade, o trabalho de um banqueiro americano para explicar aos europeus como os Estados Unidos conseguiram fazer da União Europeia o mais decadente dos Estados dos Estados Unidos. E como devem seguir nesse caminho, endividando-se ainda mais.

Basta seguir a carreira de Draghi: um economista italiano que foi de 2011 a 2019 presidente do Banco Central Europeu (BCE) — o BCE é um banco de capitais privados na dependência do FED (o banco central dos EUA) e tem os mesmos sócios principais, nas mãos das famílias Rothschild, Rockefeller, J. Morgan e Goldman Sachs, entre outras. De 2002 a 2005, Draghi foi vice-presidente e diretor administrativo do Goldman Sachs International, em Londres, uma subsidiária do banco de investimento americano.

O Goldman Sachs é conhecido pelo diminutivo Goldman ou The Firm, A Firma, um grupo financeiro multinacional fundado em 1869 por Marcus Goldman, um empresário alemão-americano que viria a associar-se ao genro, Samuel Sachs. A Firma teve o seu momento de grande exposição durante a crise financeira de 2008, apesar de ao longo da sua existência ter sido objeto de muitas controvérsias e acusações de fraudes ou práticas inadequadas.

Em 2008, no início da crise do subprime, esteve na iminência de ir à falência, mas em setembro desse ano o grupo recebeu autorização do FED (a reserva federal americana, uma associação de bancos privados que constitui o Banco Central dos EUA) para deixar de ser somente um banco de investimento e converter-se em banco comercial. No dia seguinte, o Goldman Sachs e outro grande banco de investimento, o Morgan Stanley, confirmaram que havia chegado ao fim a era dos grandes bancos de investimento de Wall Street! Em 2008, o Goldman Sachs recebeu 10 biliões (1bilião=10 à nona potência) de dólares do programa de compra de ativos e ações de instituições financeiras em dificuldades, instituído pelo governo Bush. No balanço de outubro, o Goldman declarou que lucrara cinco biliões com a venda de novas ações ordinárias aos investidores (com o dinheiro fornecido pelo governo). O banco também declarou um lucro líquido trimestral de 1,81 biliões de dólares.

Em 16 de abril de 2010, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) acusou o Goldman Sachs de fraude pelas hipotecas subprime.

A alcunha de “a hidra”, “A Firma” ou “Governo Sachs” dada ao Goldman Sachs deve-se à sua capacidade em se infiltrar nas mais altas instâncias dos estados. Políticos chave dos Estados Unidos e da Europa trabalharam anteriormente para o banco. Nos Estados Unidos, o ex-diretor do Goldman Sachs, Robert Rubin, dirigiu o Conselho Económico Nacional criado por Bill Clinton (1993–1995), antes de se tornar seu Secretário do Tesouro (1995–1999). Sob a presidência de George W. Bush, dois outros ex-proprietários do banco Goldman tiveram papel político importante em diferentes áreas do governo e dentro dos dois principais partidos. Henry Paulson foi, de 2006 a 2009, Secretário do Tesouro (e principal arquiteto do bailout do sistema bancário americano), enquanto Jon Corzine foi eleito senador (democrata) por Nova Jersey em 2000 e governador daquele estado, entre 2006 e 2010. Durante a crise financeira de 2008, Stephen Friedman, antigo CEO do banco, era simultaneamente administrador do Goldman Sachs, chefe do President’s Intelligence Advisory Board, órgão consultivo do presidente para assuntos de informações e presidente do Federal Reserve de Nova York, órgão que fiscaliza o Goldman Sachs! Na Europa, não apenas Mario Draghi é um Goldman Sachs boy, mas também Mario Monti, Peter Sutherland (ex-diretor geral da Organização Mundial do Comércio), Petros Christodoulou, o falecido Antonio Borges, português, ex-vice-presidente da Goldman Sachs Internacional (unidade que dirigiu os swaps gregos entre 2000 e 2008), que assumiu a direção do FMI para a Europa, em outubro de 2010; Durao Barroso, Arnault, ou Moedas.

Quando Draghi foi foi nomeado presidente do BCE, o economista Simon Johnson, professor da MIT Sloan School of Management declarou: “É como deixar a raposa a guardar o galinheiro.”

De facto Draghi foi nomeado presidente do BCE no momento crítico, quando a estabilidade da zona do euro estava ameaçada pela crise da dívida soberana europeia, que foi provocada pelo rebentamento da “bolha imobiliária” nos Estados Unidos e quando os bancos em todo o mundo se viram inundados por dívidas “tóxicas” americanas. Mario Draghi é um especialista em gerir os ativos tóxicos exportados pelos Estados Unidos e o seu presente relatório é uma lição americana para ser seguida pelos europeus.

Ele é um canonista neoliberal, graduou-se no MIT, de Massachusetts, com um economista americano de origem italiana Franco Modigliani, que mais tarde ganhou o prémio Nobel da economia e com Stanley Fischer, futuro chefe do banco central de Israel. Modigliani celebrizou-se com estudos sobre mercados financeiros, particularmente sobre o potencial de ganhos futuros no valor de mercado das suas ações. Isto é, um especialista em especulação.

O relatório Draghi propõe, no fundo, o endividamento brutal da União Europeia, a título de investimento em novas tecnologias e competências — o futuro — mas mantendo as empresas monopolistas nos Estados Unidos, caso da Google, da Microsoft, da Amazon, da X, do aeroespacial e o domínio do sistema financeiro mundial nas mãos do FED, isto é dos Estados Unidos. Propõe, em vez de uma abertura da União Europeia ao novo mundo que se anuncia multipolar, que a União Europeia seja apenas um cliente file dos Estados Unidos.

Grazie mille, Mario.

Hamilton ainda não se avista

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 23/05/2020)

A nossa insaciável necessidade de boas notícias, perante o espetáculo de uma União Europeia (UE) que se arrasta à beira de uma crise em aceleração, levou algumas boas almas por essa Europa fora a saudar o projeto de um fundo de recuperação, apresentado em videoconferência pela chanceler Angela Merkel e pelo presidente Emmanuel Macron, a 18 de maio, como sendo um “momento Hamilton” europeu, uma quebra por Merkel do seu tabu contra uma “união de transferência”.

Infelizmente, este novo projeto franco-alemão é apenas uma versão desmaiada da Declaração de Meseberg, assinada pelos mesmos dois protagonistas a 19 de junho de 2018, e que terminou em nada. Em 2018, ainda se falava de um “orçamento para a zona euro” (uma proposta de Macron que Merkel demorou nove meses a aceitar de modo timorato). Um orçamento comum da zona euro iria obrigar à reforma dos tratados, podendo aí falar-se da eventual constituição do embrião de um orçamento federal, vinculando fiscalmente cidadãos e empresas na formação do Tesouro europeu.

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Neste caso, o que é proposto, sempre numa linguagem muito ambígua, é um reforço do orçamento da UE, a partir de um empréstimo contraído pela Comissão Europeia tendo por base os recursos próprios da União. Embora não seja indicada nenhuma alteração das fontes de financiamento do orçamento europeu, que persistem há décadas, suspeito que o simples inevitável aumento das contribuições dos Estados quando for necessário saldar o empréstimo no próximo quadro plurianual irá levantar desde já obstáculos intransponíveis no Conselho Europeu de junho (como a Holanda e a Áustria já anunciaram). Acresce que só o Conselho Europeu, e não o dueto do Reno, decidirá sobre qual a modalidade que assumirá a transferência das verbas para as regiões e os setores mais atingidos pela pandemia. A questão do equilíbrio entre subsídios a fundo perdido e empréstimos permanece em aberto.

O plano que Alexander Hamilton (1755-1804), o primeiro e genial secretário do Tesouro dos EUA, lançou em 1790 e 1791 não tem qualquer semelhança com estes jogos florais da pequena política europeia. Hamilton falava em nome de um governo cuja Constituição tinha sido estabelecida dois anos antes, com legitimidade eleitoral e capacidade fiscal.

O seu plano era económico e transformacional, contendo três medidas fundamentais, duramente discutidas: a) mutualização de toda a dívida estadual (contraída durante a Guerra de Independência), transformada em dívida federal (trocando os títulos antigos por novos), restaurando a confiança dos mercados com o pagamento de juros e a promessa futura de vencimento; b) criação do banco nacional, com a missão de ser o credor de última instância para o frágil e desorganizado sistema bancário da época, e fonte de recurso para o financiamento público; c) criação de um plano de fomento industrial para o emprego e a revitalização económica. Na UE de 2020, a única coisa certa é que até 5 de agosto o relógio da contagem decrescente do ultimato do Tribunal Constitucional alemão, ameaçando paralisar a ação crucial do BCE, continua a fazer tiquetaque.

Professor universitário