A entrevista a Boaventura de Sousa Santos – reflexões

(Raquel Varela, in Facebook, 01/04/2025, Revisão da Estátua)


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Vi a entrevista de Boaventura Sousa Santos que me merece vários comentários, longe dos apedrejamentos costumeiros.

O primeiro é a gravidade do que ali foi dito – destruído nos media e na academia, do qual foi afastado de vários lugares, disse que nunca viu um único documento ou prova contra si. Isto em qualquer Estado de direito basilar era intolerável. Os traços autoritários dos Estados vêm com pés de lã: nos EUA estas políticas começaram por alegadamente proteger as vítimas (mulheres, negros) e hoje servem para despedir mulheres e negros, homens e brancos, desde que se oponham a Trump. A suspensão dos direitos nunca pode ser defendida para ninguém e muito menos por gente de esquerda. Porque acaba a voltar-se contra as pessoas de esquerda. Abre-se a caixa da pandora da inquisição.

A ténue crítica de Boaventura aos media. Os mesmos jornais que têm a agenda do Metoo e nunca publicaram nada sobre dezenas de casos de queixas de assédio por professores de direita e de extrema-direita – alguns deles com processos disciplinares concluídos.

E, aqui, creio que Boaventura não compreendeu inteiramente o que se passou. A sua posição face à Ucrânia não foi determinante.

Boaventura é um dos poucos intelectuais deste país que pensa realmente (e eu discordo das suas teses e sempre discordei, nunca o “bajulei” e nunca deixei de o criticar), mas as suas teses não são estruturalmente incómodas. Por isso o seu projeto Alice, que citou amplamente, foi acarinhado pela UE porque defende a tese de que é possível regular o capitalismo na Europa assegurando direitos. O mesmo para as teses da epistemologia do sul – teses “campistas”, que se opõem à noção de luta de classes substituindo-a por uma noção de lutas autónomas, norte versus sul, homens versus mulheres, negros versus brancos.

Creio que a verdadeira razão foi outra. A Universidade portuguesa mergulhou na Nova Gestão Pública. É preciso afastar os catedráticos, para substituir as direções das universidades por gestores.

Boaventura é o alvo perfeito: o catedrático emérito de esquerda, coordenador de um projeto milionário, abatido, em direto. Se ele foi, os outros que tenham medo! Foi essa a mediatização. O último reduto da autonomia universitária está na figura do catedrático, que por conservadorismo resistia ao produtivismo gestionário.

Com os Conselhos Gerais das universidades dominados por externos á Academia, e com as faculdades a mudar estatutos para que não-catedráticos sejam eleitos, em breve teremos professores-gestores auxiliares a mandar nos professores catedráticos. Foi o que aconteceu nos hospitais, onde enfermeiros-gestores mandam em médicos; e irá acontecer também nos advogados, com a mudança do estatuto dA carreira imposta pelo PRR. A ideia é acabar com a autorregulação do trabalho.

Não vou perder tempo a explicar que o catedrático é uma figura fundamental. Pior que a Universidade conservadora medieval é a Universidade gestionária, liderada por métricas e plataformas, geridas por gestores-professores, que são autênticos sociopatas. E em que, claro, se criarão – e já criaram – condições para que o assédio sexual e moral seja muito pior do que no velho sistema medieval.

A isto juntam-se as avaliações da FCT, que divide o dinheiro pelos laboratórios de Humanidades – abatendo o CES sobra mais para os concorrentes.

E agora a parte mais importante da entrevista. O erro fulcral. Boaventura disse que estas mulheres não estiverem à altura em entrevistas, textos, artigos e contratos e por isso nunca conseguiram um lugar.

Tenho sincero desprezo pelos métodos inquisitoriais destas mulheres mas o que não falta neste país são milhares de mulheres e homens doutorados que concorrem aos projetos da FCT e ganharam, escreverem bons artigos, fazem investigação, são excelentes docentes e…não têm lugar. E é isso que cria este pântano – não é que “não estiveram à altura“. É que 75% do trabalho universitário é feito por precários. A quem prometem que “talvez” se ele fizer mais um concurso vai ter um lugar. Ora, estamos a falar de doutorados. Quem é doutorado deve ter um emprego seguro, para a vida, o doutoramento é a prova máxima.

E o que tem acontecido é que os poucos lugares são distribuídos de forma injusta. E serão sempre, porque todos os doutorados estão em pé de igualdade, por isso inventam-se critérios alegadamente justos mas arbitrários. Os defensores dos precários, muitas vezes, usam a cenoura de que “talvez venha um lugar para ti“, para ter os seus votos na luta dentro das instituições e depois negoceiam lugares para os seus apoiantes, esperando que os outros, cansados, emigrem. É este sistema que gera o assédio, que gera a denúncia caluniosa, e que gera todo o mal-estar existente nas universidades.

Lamento não ter visto Boaventura dizer isso mesmo – acusar o neoliberalismo, mas dizer que quem trabalha bem teve lugar, é uma contradição. A Universidade portuguesa transborda de pessoas que trabalham e não têm lugar. O lugar é dado aos obedientes, e como não há lugar para todos os obedientes, sobram também os ressentidos, e as falsas denúncias e, claro, os assediadores, que perseguem quem se lhes opõe.

A única forma de combater isto é defender lugar para todos os doutorados e autogestão democrática. Onde se criam relações de confiança e em que pode haver abraços, e ainda bem, sim ainda bem que nos abraçamos! É porque há confiança.

É preciso recusar-se a participação na distribuição de lugares a uns, deixando outros de fora. Mas isso chama-se greve. Nunca foi feito. É preciso uma luta coletiva que corporize a recusa a fazer parte do jogo pernicioso. Ou fazemos como um dia fizeram os estivadores, até serem despedidos na pandemia – ou há lugares para todos ou ninguém trabalha -, ou então vamos assistindo a diretores de institutos e instituições a distribuirem lugares para 25% deixando os outros 75% com a cenoura do “se publicares muito, se fores a muitos congressos, vais ter lugar…“.

Tudo correu mal neste episódio de “vigiar e punir” e que uniu a esquerda pós-moderna e a direita “atira a pedra ao Boaventura“. Depois deste episódio mais homens vão ter medo de galantear – sobra-lhes, no fim, apenas o Tinder, uma depressão por falta de afetos, e um contrato formal de consentimento jurídico. E muito mais mulheres – vítimas de assédio que apresentam provas e queixas nos lugares corretos, os tribunais – vão ter medo de o fazer porque o que estas mulheres fizeram foi mais um contributo para descredibilizar todas as mulheres.

Boaventura podia ter aproveitado esta entrevista para defender um sistema universitário com carreiras para todos, justas. E por isso, liberdade científica. O que fez foi defender a lei do mais forte (alegadamente em função do mérito) nos contratos.

Cabe-me – por fim – dizer que sou a favor do piropo; que acho o assédio moral e sexual deplorável, que sou contra a denúncia anónima, que acho que as custas judiciais devem ser eliminadas, e deve haver advogados bem pagos pelo público para defender as mulheres; que piropo, galanteio, assédio e violação são TRÊS COISAS muito DIFERENTES.

E que a notoriedade que se dá a tudo isto na Academia, e o desprezo pelas mulheres violadas ao sair do seu trabalho por turnos na periferia das cidades, só demonstram a total falta de noção da “bolha académica e mediática“.

Pode ver a entrevista a Boaventura aqui

Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber

(Frederico Lourenço, in Facebook, 27/10/2024)


Interregno. Exercício dominical para desanuviar as meninges. Estátua de Sal, 27/10/2024


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Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber. Este conhecido ditado inglês (“you can lead a horse to water, but you can’t make it drink”) conheceu uma divertida versão alternativa pela mão da impagável Dorothy Parker: “you can lead a whore to culture but you can’t make her think”. Subindo rapidamente o nível, uma carta de Bertrand Russell a Lady Ottoline Morrell atribui a Wittgenstein posição análoga: “ele diz que uns querem filosofia; outros não: assunto encerrado”.

Mas voltando ao cavalo. O problema de querer dar cultura a beber a outrem, para depois ser-se confrontado com recusas de toda a espécie, é a história de vida de todos os professores universitários.

Ao mesmo tempo, a universidade – com a oportunidade que nos oferece de contactarmos com as gerações mais novas para lhes dar a conhecer o que foi importante para as gerações de séculos anteriores – é motivante espaço de aprendizagem também para nós, os professores, porque temos de aprender a tornar relevante para as gerações de hoje a cultura ancestral que é nossa função transmitir. E isso – quer se queira, quer não – só se aprende com as gerações de hoje, todos os anos, a partir da estaca zero.

É difícil ser apóstolo da “Hochkultur”? A estaca zero acima mencionada é difícil. Perceber o que NÃO posso pressupor em termos de conhecimentos anteriores dos estudantes é todos os anos um desafio enorme. Há vinte anos os alunos ter-se-iam desmanchado a rir, pensando que eu estaria a brincar com eles, se lhes tivesse perguntado se já tinham ouvido falar na Revolução Francesa. Hoje, é mais prudente NÃO pressupor que alguém saiba o que foi tal coisa. Há sempre surpresas. Um powerpoint mostrado a estudantes de 1º ano em que ocorria uma fotografia da celebremente inclinada Torre de Pisa ocasionou a seguinte resposta, da parte do único aluno na turma que se sentiu capaz de identificar o monumento: “não tenho a certeza, mas acho que é o Mosteiro dos Jerónimos”.

O melhor é mesmo não pressupor nada.

É mau chegar à universidade neste estado de tábua rasa? Não tenho uma resposta unívoca. A minha educação de “geniozinho” foi melhor? De facto, a minha irmã e eu crescemos sem televisão, sem rádio, sem futebol e sem banda desenhada (“gibis”, no Brasil), num universo cultural que era mais ou menos o do século XVIII, com deuses como Shakespeare que no século XVIII já eram velhos. A realidade mais moderna da nossa infância chamava-se Beethoven. Esta axiologia era perfeitamente normal para nós. Era o que conhecíamos. Era o que os nossos pais achavam normal. O que não era normal (mas sim muito injusto) foi que tenham dado esse tipo de educação à minha irmã e a mim e que depois se tenham espantado com as dificuldades colossais de integração que sentíamos relativamente às crianças da nossa idade.

O que me leva a esta outra pergunta. A alta cultura faz-nos felizes? Sempre achei que sim. Mas no fundo, se olhar bem para a minha vida, se calhar teria sido mais feliz com futebol em vez de Bach – não sei. Esta consciência bateu-me forte, vários anos atrás, quando um episódio sentimental malogrado ocasionou discussões estranhas que me fizeram ter de engolir frases como: “não consigo namorar com uma pessoa cuja ideia de espairecer é ler Schiller em alemão”. Acho que foi aí que comecei a perceber que o apostolado da alta cultura, que sempre me encheu o espírito de fervor – fervor esse que, imagino, fará de mim (para alguns alunos) um bom professor universitário – foi ao mesmo tempo um dom cuja fatura tive de pagar em termos de vida privada. Talvez. Ou talvez não. Ainda não tenho a certeza.

Ser, de alma e coração, apóstolo da alta cultura trouxe-me uma enorme riqueza: uma riqueza que tem mais valor para mim do que tantas outras coisas a que outros legitimamente dão valor. É um apostolado que não me põe acima dos outros – nunca pensei nem pensarei isso. Põe-me longe dos outros. Faz de mim um chato, eu sei, e um “pedante” (ai, se eu tivesse um euro por cada vez que me chamaram pedante!). Claro que ser chato afugenta os outros tanto ou mais que a halitose. Na verdade, em termos da procura de uma vida feliz na companhia de outrem, ser apóstolo da “Hochkultur” pode ser um bocado como sofrer de mau hálito e, muito embora hoje eu tenha a bênção de ser feliz a dois, felizmente nasci com (ou desenvolvi ao longo dos anos) jeito para ser feliz sozinho.

Também é certo que a obra completa de Schiller sempre me faz ótima companhia.

Porque o uso do telemóvel é restringido nas escolas para os ricos

(Renán Vega Cantor, in Resistir, 04/08/2024)

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Há uma escola onde o ensino e a aprendizagem são convencionais:   os professores têm giz nas mãos e enchem o quadro com desenhos, fórmulas, nomes, rabiscos. As crianças de 9-10 anos usam lápis e cadernos para copiar as instruções dos professores e responder a algumas das suas perguntas.

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