Portugal no limiar: o Chega, a Iniciativa Liberal e a falência política do liberalismo democrático

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 19/05/2025, Revisão da Estátua)


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Este texto dormia entre páginas dispersas, embrulhado num ficheiro sem nome, à espera de ocasião ou sentido. Foi escrito num tempo anterior, como quem prepara explicações sem saber ainda as perguntas. Hoje, depois das eleições legislativas de 18 de maio de 2025, torna-se, tragicamente, atual.

Nessas eleições, a Aliança Democrática (AD) – coligação entre PSD e CDS-PP – foi o partido mais votado, com 32,1% dos votos e 89 deputados, sem alcançar a maioria absoluta. O Partido Socialista, em queda histórica, obteve 23,4% e 58 deputados, o mesmo número de mandatos conquistados pelo Chega, que subiu para 22,6% e se tornou, na prática, a segunda ou a terceira força política nacional, empatada com o PS em assentos parlamentares. A Iniciativa Liberal, por sua vez, atingiu 5,5% dos votos, elegendo 9 deputados – o seu melhor resultado até hoje.

Estes números não são meros resultados eleitorais: são sintomas de uma fratura civilizacional em curso. O Chega e a IL são filhos diferentes de um mesmo vazio. Representam duas respostas antagónicas ao colapso do contrato social: uma pela raiva, outra pela fuga.

O Chega cresce nas franjas sociais da desesperança, nos bairros periféricos, nos concelhos desertificados, entre os desiludidos de tudo. Aponta os culpados com dedo firme – os imigrantes, os ciganos, os políticos, os juízes – e propõe castigos, exclusão, força. Cresce onde a liberdade se tornou apenas sobrevivência.

A Iniciativa Liberal cresce entre jovens urbanos e escolarizados, entre os que tentam competir no mercado global e sentem o Estado como obstáculo. Mas promete liberdade sem garantir equidade; autonomia sem solidariedade. Cresce onde o Estado já se ausentou – na habitação, na saúde, nos salários, na justiça fiscal.

A coincidência temporal é clara: ambos os partidos surgem em 2019 com um deputado cada no Parlamento, se não me falha a memória. Ambos crescem significativamente em 2022, e consolidam-se em 2025, num quadro de profunda erosão da democracia representativa. Ambos canalizam o descontentamento de segmentos distintos da sociedade portuguesa, mas nenhum oferece uma reconstrução do espaço comum. Cada um, à sua maneira, acelera o colapso do ideal democrático.

Entre as causas estruturais desta fragmentação, avultam os números:

  1. A habitação aumentou 70% em Lisboa na última década, tornando-se inacessível para a maioria (INE);
  2. O número de sem-abrigo duplicou entre 2018 e 2022 (ENIPSSA);
  3. O SNS perdeu milhares de profissionais, incapaz de competir com o privado;
  4. Os jovens altamente qualificados emigraram ou vivem em precariedade, sem esperança de habitação própria.

Neste cenário, o PS colapsa, vítima da sua incapacidade de construir respostas novas. A sua linguagem é conhecida, mas soa a desvio; as suas promessas, recicladas. E a AD vence, mas sem capacidade de formar maioria. O país não aclamou um vencedor: fragmentou-se.

O mais grave, porém, não é o que se vê, mas o que se adivinha. O discurso democrático tornou-se irrelevante para amplas camadas da população. O debate político foi colonizado pelo ressentimento ou pelo cálculo tecnocrático. E os partidos centrais, em vez de reconstruírem uma visão comum, disputam migalhas no meio dos escombros.

Este texto não defende regressos fáceis, nem procura bodes expiatórios. Apenas assinala: o liberalismo, em Portugal como noutros lugares, prometeu liberdade e entregou fragilidade. Fragilidade do Estado, da coesão, da esperança. A política transformou-se em administração de danos, e a sociedade em mercado de sobrevivência. E sobre essas ruínas surgem os extremos – diferentes na estética, sim, mas convergentes no efeito: destruição do comum.

O Chega cresce com a promessa de restaurar autoridade e castigo. A Iniciativa Liberal com a promessa de restaurar mérito e competição. Ambas prometem rutura, mas nenhuma constrói comunidade. Ambas prosperam sobre o cansaço – da espera, da promessa, do empobrecimento. São sintomas opostos do mesmo colapso: o da confiança.

Chegados aqui, impõe-se uma escolha – não apenas eleitoral, mas civilizacional. Ou a política resgata a ideia de bem comum, com coragem para proteger os frágeis, reequilibrar o mercado, refazer os laços sociais e devolver dignidade à palavra pública; ou aceitaremos a lenta corrosão das instituições, o abandono dos jovens, o medo dos velhos, a substituição do diálogo pela retórica bélica, e o triunfo de forças que não querem governar – querem vingar-se.

Não se trata de “virar à esquerda” ou “à direita”, mas de escolher entre reconstruir ou destruir. Portugal pode, ainda, escolher reconstruir. Mas essa reconstrução não será feita pelos partidos que cederam à lógica da contabilidade neoliberal, nem pelos que se limitaram a gerir expectativas enquanto se rompia o tecido social. Tampouco pelos que exploram a miséria e o ódio como capital político.

Será feita por quem tiver a coragem de dizer que a liberdade precisa de justiça, a democracia precisa de verdade, e a comunidade precisa de cuidar dos seus – antes que os seus deixem de acreditar nela.

Do “rouba mas faz” ao “rouba e nem sequer faz”

(Por Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 03/05/2025)


Durante décadas, Portugal conviveu com o cínico ditado “rouba mas faz”. Não era amor à corrupção — era desespero disfarçado de pragmatismo. José Sócrates ou Isaltino Morais conquistavam votos porque, apesar de tudo, deixavam obra feita. A democracia parecia funcionar com um verniz de eficiência. Havia cinismo, mas também havia estrada, hospital, escola.

Hoje, esse pacto quebrou-se. Com Luís Montenegro, inaugurámos o ciclo do “rouba… mas nem sequer faz”.

Um governo vazio, colado com marketing e espuma mediática, que se apresenta como alternativa ao desgaste do PS — sem mostrar alternativa nenhuma. Só um cenário de exaustão emocional generalizada em relação ao PS permite que um líder que nada propôs, nada construiu e nada vislumbra para o país seja premiado com os destinos da Nação.

Não estamos apenas perante maus gestores ou vendedores de ilusões. O que nos está a falhar, sistematicamente, é o próprio Estado. O SNS não colapsou por excesso de Estado — colapsou por menos Estado. A escola pública não perdeu professores por burocracia — perdeu-os porque deixou de os valorizar. A habitação tornou-se inacessível não por excesso de regulação — mas por falta dela. Os salários não estagnam porque o Estado intervém — estagnam porque não intervém onde devia: na proteção dos trabalhadores, na redistribuição, no planeamento económico.

Em cada crise — da pandemia ao apagão, da habitação à imigração — o problema é sempre o mesmo: o Estado foi encolhido até à irrelevância. É fraco onde devia ser forte, e forte apenas quando é para proteger os privilégios dos mais ricos.

É irónico, quase cruel, que se vote como resposta a isso em projetos que prometem ainda menos Estado… A receita falhou, e duplicam-na. Um neoliberalismo requentado, vendido como modernidade, onde o único plano é cortar impostos aos mais ricos e esperar que a magia do “crescimento espontâneo” apareça.

Mas não há magia no abandono. Não há futuro possível num país onde a única ambição é “não fazer ondas”. Onde se entrega o poder a quem só sabe inaugurar obras feitas por outros. Onde se promete “mudança” cortando na única coisa que protege os fracos: um Estado forte, competente e justo.

O PS perdeu-se porque deixou de ser alternativa — tornou-se uma versão domesticada da direita económica, gerindo o que havia em vez de transformar o que faltava. Não caiu por ser “socialista”. Caiu por ser tímido, tecnocrático, conservador nos tempos em que era preciso coragem.

E agora? Agora reina o ilusionismo fiscal. A política do PowerPoint. A governação do slogan. Os que iam cortar impostos afinal cortaram muito menos do que o governo PS e ainda aumentaram a carga fiscal, mas ninguém quer saber disso… as emoções e percepções são mais fortes que as razões.

Enquanto isso, os problemas reais — salários, habitação, serviços públicos, coesão territorial — continuam sem resposta.

Estamos no “rouba e nem sequer faz”, e agora entrámos na fase final: o “rouba, não faz, mas parece que faz”. Um país que aplaude o simulacro e castiga quem faz. Que enterra os factos e os contextos para navegar em percepções, emoções e preconceitos.

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Eu tinha umas asas brancas…

(Por Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 04/05/2025)


(Vá lá, divirtam-se com o texto abaixo e não duvidem da honestidade do Luís Montenegro. A Estátua até acredita em bruxas e é por isso que lhe dedica um conhecido poema de Almeida Garrett, declamado no vídeo que segue.. 🙂

Estátua de Sal, 05/05/2025)


Eu tinha uma pequena empresa. Era só para gerir uma herança, muito simples, quase familiar — uma coisinha pequenina.

Tudo transparente.

Na verdade, era uma imobiliária, mas não era bem, porque não vendia imóveis. Era só de nome. Porque era muito séria e transparente… mas depois, afinal, fazia consultadoria. Já nem sei bem a quem. Coisas pequenas e éticas, pois claro.

A minha mulher, educadora de infância, é que tratava de tudo nos intervalos da lida da casa. Também vendia frangos assados, mas era só ao domingo.

No início, não havia clientes com ligações ao Estado. Juro de pés juntos!

Depois, afinal, até havia, mas era antes de eu ser Primeiro-ministro. Ou durante. Mas sem eu saber. Ou eu sabia, mas não mandava. Ou mandava, mas era sem querer. Foram lapsos transparentes.

Não me façam mais perguntas. Não tenho nada a esconder. Vamos a eleições porque não quero responder a perguntas. Está tudo resolvido, pronto.

Fazia consultadoria, claro. Mas ninguém viu os trabalhos. Eram secretos, todos em tinta invisível, por causa da espionagem chinesa… ou dos russos.

Fazia consultadoria para uma empresa de casinos enquanto, por coincidência, legislava sobre casinos. É multitasking. Deixem o Luís trabalhar.

E o pai da pessoa que — por puro acaso — escolhi para candidato à câmara de Braga pagou à minha empresa. Pagou bem. Acima do mercado… mas foi tudo transparente, menos o dinheiro, que esse via-se bem. Tão bem, que até daria para a nora do cliente, que trabalhava na Spinumviva, fazer o trabalho. Mas não fez.

Porque quem é que usa algo grátis quando pode pagar a um político? Já antes fazia consultadorias, mas por coincidência era só a câmaras do PSD. E todas por adjudicação directa. São daquelas coisas que acontecem uma vez em cada mil anos — e calhou-me logo a mim.

Não havia nada a esconder, mas foi tudo escondido da Entidade da Transparência. Várias vezes… Por modéstia, só pode… ou lapso… Ou uma interpretação da lei que me levou, sem querer, a fazer meia dúzia de contas bancárias para movimentar dinheiro. Tudo legal e transparente.

E aquela casa? Era uma reabilitação, claro. Só que foi construída toda de raiz. Uma casinha a cair que virou uma moradia de luxo — porque houve muito amor e betão. Tudo transparente. Até fui à televisão e disse que entreguei todos os documentos. Mas depois esqueci-me de os entregar.

Mais um lapso… tal como aquele de baixar 1.500 milhões no IRS das pessoas, mas esquecer-me de dizer que já incluía a descida de 1.300 milhões feita pelo anterior governo. Quem nunca teve lapsos? São coisas que acontecem… de forma transparente.

Uma das empresas pagava à Spinumviva por um serviço que já estava a pagar à empresa anterior… também minha. É tipo leve dois, pague um… mas ao contrário: leve zero e pague a dobrar.

E os trabalhos? Quem os fez? Bom… não fui eu, porque eu não podia. Deve ter sido à noite, ao deitar, depois de um dia a abanar bandeiras do PSD. Pelas contas da empresa, foi alguém que recebia o salário mínimo, vindo directamente do escritório de advogados do Hugo Soares… é outsourcing transparente intra-partidário. Até agora, ninguém viu um único trabalho feito. Nada. Nem um PDF, nem um PowerPoint, nem um post-it… sinal de que os trabalhos são igualmente transparentes.

Mas sabem que a empresa passou para os meus filhos. Os mesmos filhos que são novos, mas muito bons com computadores. E agora? Agora dizem que os clientes que estavam na última lista já não são actuais. O que quer dizer que há clientes novos… ou isso, ou é como o Observador, que funciona sem ter lucro há vários anos.

Mas não se preocupem. Está tudo sólido e ético. O Cavaco Silva já nos tranquilizou. Está tão sólido e ético como estava o BES. Está tudo resolvido e transparente — tão transparente como os trabalhos feitos que ainda ninguém viu.

Se perguntarem mais, é porque me estão a perseguir. A culpa é dos imigrantes e do socialismo. Vão mas é para a Venezuela. Viva Portugal. Viva o PSD.

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