(João Gomes, in Facebook, 19/01/2026)

As eleições presidenciais de 18 de janeiro deveriam ter sido um exercício de maturidade democrática. Um momento de reflexão sobre o lugar de Portugal num mundo em convulsão, sobre o estado do seu tecido social e sobre as escolhas políticas que nos trouxeram até aqui. Em vez disso, assistimos a uma campanha onde o essencial ficou à margem e o acessório ocupou o centro do palco.
Falou-se pouco de saúde, apesar do SNS em exaustão. Falou-se pouco de salários, apesar da perda continuada de poder de compra. Falou-se pouco de habitação, apesar de ser hoje o principal fator de exclusão social. Falou-se, isso sim, de estilos, de perfis, de imagens televisivas e de promessas vagas de “mudança”.
É neste vazio que o populismo cresce. Não porque ofereça soluções, mas porque aponta culpados. Grita contra um “regime”, acusa a esquerda de políticas que não governou, promete rupturas que não cabem na Constituição. E fá-lo com eficácia mediática, mas com uma fragilidade estrutural evidente: quando chega o momento da escolha concreta, nem sequer consegue mobilizar todos os seus próprios eleitores.
A candidatura de Ventura é o melhor exemplo disso. Passou à segunda volta, é verdade, mas fê-lo por fragmentação do campo político e não por adesão maioritária ao seu projeto. Ficou aquém da votação do Chega nas legislativas de 2025, revelando que muitos dos seus eleitores recusam vê-lo como Presidente da República. Um “vencedor relativo”, sustentado mais pelo contexto do que pela convicção popular.
À direita tradicional, a AD repetiu um erro conhecido: confundiu exposição mediática com capital político. Apostou num candidato sem ligação às preocupações reais dos portugueses, esquecendo que o desgaste do governo não desaparece numa urna presidencial. O resultado foi um desinteresse claro do eleitorado.
O PS, pelo contrário, beneficiou da serenidade. António José Seguro não empolgou, mas tranquilizou. Surgiu como um candidato de centro, capaz de conter excessos de um governo impopular e de servir de travão institucional. Foi essa normalidade – quase anacrónica – que lhe permitiu captar votos do seu partido, de indecisos e até de eleitores desiludidos da direita.
Cotrim de Figueiredo confirmou os limites do liberalismo eleitoral: sólido na sua base, insuficiente para conquistar os indecisos. Gouveia e Melo, apesar do perfil “não partidário”, revelou que neutralidade sem proposta clara raramente mobiliza em massa.
À esquerda, os resultados foram previsíveis e, por isso mesmo, preocupantes. BE, PCP e Livre continuam a representar valores fundamentais da democracia portuguesa, mas insistem numa fragmentação que já não corresponde à realidade social nem geracional do país. A defesa isolada de identidades ideológicas pode ser moralmente coerente, mas eleitoralmente ineficaz.
Se a esquerda não encontrar uma forma de convergência pragmática – uma frente ampla de defesa da Constituição, do 25 de Abril e do Estado social – arrisca-se a perder relevância não por falta de razão, mas por incapacidade estratégica.
Estas eleições não produziram um mandato claro. Produziram, isso sim, um aviso. O populismo não venceu, mas também não desapareceu. A democracia resistiu, mas mostrou fissuras. E os partidos tradicionais continuam a confundir o país real com o país dos estúdios de televisão.
A lição é simples, embora desconfortável: enquanto a política não voltar a falar dos problemas concretos das pessoas, continuará a ser substituída por gritos. E os gritos, mesmo quando altos, raramente constroem o futuro.
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