O Coiso que gostava de ser o Coiso

(Luis Rocha, in Facebook, 19/01/2026)


Convém repetir, agora sem bonecos nem legendas, que a segunda volta das presidenciais não é esquerda contra direita. Isso seria uma simplificação preguiçosa, útil apenas para debates ruidosos e para quem ainda acha que a política se resolve em trincheiras ideológicas. O que está em causa é bem mais básico e, por isso mesmo, mais incómodo. O que está em causa é decência versus indecência, democracia versus mitragem neofascista, sentido de Estado versus labregagem organizada.

O Coiso, apresentou-se ontem como vencedor moral depois de perder cerca de 111 mil votos face às legislativas. É uma proeza discursiva notável. Encolher nas urnas e crescer no tom. Quando os números não ajudam, relativizam-se, quando a realidade é teimosa, acusa-se quem a descreve, quando se perde, inventa-se uma vitória simbólica, emocional ou patriótica. Não é exactamente original, mas continua a funcionar com um certo triste público.

O Coiso fala sempre em nome do “povo”, o resto é elite, traidor, sistema ou inimigo interno corrupto. É um método antigo, reciclado com linguagem boçal moderna e ar de indignação permanente. Uma política feita de slogans curtos, certezas longas e uma relação selectiva com a democracia. Serve enquanto dá jeito, atrapalha quando não dá.

Mas o momento mais pitoresco foi a saída da missa. O Coiso foi rezar a um Deus extraordinariamente flexível, capaz de tolerar racismo, xenofobia, ataques às instituições e uma nostalgia mal disfarçada pelo Estado Novo, desde que tudo venha embrulhado em moralismo e pose grave. Um Deus muito prático, que absolve quase tudo, desde que renda cliques, donativos e minutos de antena. Tudo muito bonito. Tudo muito lindo. Tudo muito conveniente.

Mas se o Coiso faz o papel que sempre fez, Luís Montenegro conseguiu elevar a situação ao nível da comédia. Político rústico, com uma noção de Estado mais decorativa do que estrutural, decidiu oferecer a liderança da direita portuguesa ao mitra que o quer destronar. Não foi estratégia, foi generosidade suicida. Uma espécie de tratamento alternativo em que se decide dar mais açúcar a um cancro, na esperança ingénua de que ele fique mais simpático. Não fica. Espalha-se.

Montenegro acreditou que podia normalizar o fascismo dando-lhe espaço. O resultado foi exatamente o oposto. Ao abdicar de qualquer fronteira ética clara, não ocupou o centro político. Esvaziou-o. E quando o centro fica vazio, alguém entra a correr, de bandeira na mão e megafone em altos berros. O Coiso agradeceu, apropriou-se do palco e passou a falar como líder natural da direita, mesmo tendo menos votos do que ambicionava.

A verdade, para este tipo de personagem, é um detalhe narrativo. O que importa é o conflito permanente, a sensação de cerco, a ideia de que há sempre um inimigo a apontar amanhã. Governa-se pouco, grita-se muito. E quando a gritaria já foi testada noutros sítios mais imperialistas, com resultados conhecidos, convém não fingir surpresa.

Assim, a segunda volta não será um grande debate político. Será um teste básico de sanidade democrática. De um lado, a noção elementar de que viver em sociedade implica regras, limites e respeito pelas instituições. Do outro, a convicção de que a democracia é ótima quando confirma convicções pessoais e profundamente suspeita quando não o faz.

O Coiso perdeu votos, perdeu fôlego e perdeu a aura de crescimento inevitável. Montenegro perdeu autoridade, espaço político e a oportunidade de liderar a direita sem ser figurante. Um quer ser salvador dos milionários nos bastidores que o subsidiam. O outro quis ser chico esperto e acabou útil.

No fim, quando o barulho cessar e os discursos se gastarem, a escolha continuará simples até para os mais distraídos. Ou decência ou indecência, um democrata ou o mitra que promete ordem enquanto corrói o Estado. Tudo o resto é folclore.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.eleicoes.mai.gov.pt

https://www.rtp.pt/noticias/politica

https://www.publico.pt/politica

https://www.lusa.pt

https://www.reuters.com/world/europe/portugal-politics

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Um pensamento sobre “O Coiso que gostava de ser o Coiso

  1. Claro que isto não é entre esquerda e direita, e entre humanidade e desumanidade, entre impunidade e uma certa medida de justiça, entre democracia e fascismo.
    E o facto de o representante do fascismo, porque e disso mesmo que se trata quando alguém diz que “Portugal precisa de três Salazares” ter perdido 111 mil votos em relação ao resultado do seu partido nas últimas legislativas deve dar nos esperança.
    Que não seremos o próximo país a cair nas garras da extrema direita populista que tem transformado as vidas dos povos dos países onde conseguiu enganar o povo prometendo soluções simples para problemas complexos num Inferno.
    Com um pouco de sorte, os três Salazares terão de esperar.
    E temos mesmo de acordar.
    Porque num país onde mais de 40 por cento da população seria pobre se os apoios sociais não existissem não podemos dar nos ao luxo de ter “motoserras” no Governo.
    Ou vai voltar a haver gente a comer meia sardinha.
    Tudo porque não gostam de ciganos e gente de turbante.
    Vamos aproveitar este susto para acordar.

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