A ascensão dramática da desigualdade de riqueza

(Por Prabhat Patnaik, 28/01/2018)

oxfam

A OXFAM acaba de produzir um relatório no qual destaca o aumento dramático na desigualdade de riqueza que está a verificar-se na Índia. Os dados básicos que utiliza são do Credit Suisse, o qual regularmente publica oGlobal Wealth Databook . E de acordo com o Credit Suisse os 1 por cento do topo da população indiana açambarcaram 73 por cento da riqueza adicional gerada no ano de 2017.

Trata-se de um número incrível por si mesmo. Além disso, esta percentagem, que se refere ao ano passado, é mais alta do que o número que prevalecer antes deste ano, o qual era de 58 por cento. A percentagem à margem sendo mais elevada do que a percentagem média significa que a própria média, já extremamente elevada, está em vias de ascender ainda mais.

A crescente desigualdade de riqueza e rendimento não é um fenómeno confinado só à Índia. É um fenómeno à escala mundial o qual agora começou a preocupar mesmo os líderes de topo do mundo capitalista que se reúnem todos os anos em Davos no Fórum Económico Mundial. A ameaça de instabilidade social desta crescente desigualdade económica foi colocada como um ítem importante na agenda de Davos.

Mas a Índia destaca-se no facto de que o crescimento da desigualdade tem sido mais rápido do que em qualquer outro lugar do mundo, ao ponto de agora classificar-se entre as sociedades mais desiguais do mundo. Comparando-se por exemplo os 58 por cento de riqueza total que os 1 por cento do topo possuíam na Índia antes de 2017, o número correspondente para o mundo como um todo é de 50 por cento. E muito embora para o mundo como um todo os 1 por cento do topo em 2017 possuíssem 82 por cento do acréscimo de riqueza comparados aos 73 por centro para a Índia, o nível de desigualdade de riqueza no mundo continuará abaixo daquele da Índia no futuro previsível.

O que isto sugere é que a razão subjacente que está a promover a desigualdade de riqueza por toda a parte está a operar com maior intensidade na Índia. E esta razão primariamente tem a ver com a prossecução de políticas económicas neoliberais. A riqueza crescente e a desigualdade de rendimento é uma característica necessária do capitalismo neoliberal. A tendência “espontânea” do capitalismo para produzir “riqueza num pólo e pobreza no outro” a qual foi algo restrita nos anos do pós-guerra através da intervenção do Estado, em resposta à ameaça socialista e à força crescente da classe trabalhadora que o capitalismo enfrentava no fim da segunda guerra mundial, foi agora reintroduzida com uma vingança, sob o capitalismo neoliberal.

Há pelo menos cinco caminhos óbvios pelos quais o capitalismo neoliberal promove a desigualdade de riqueza. O primeiro é através do aumento na desigualdade de rendimento que ele provoca. Uma vez que o rácio de rendimento que é poupado (e portanto acrescentado ao stock de activos) é maior para os grupos de rendimento mais altos, uma mudança na distribuição do rendimento em favor destes últimos aumenta tanto o rácio geral de poupança (e formação de activos) no rendimento total como a fatia dos possuidores de activos do topo nos activos totais.

Um exemplo tornará este ponto mais claro. Suponha, para começar, que os 10 por cento de topo da população possuíssem activos no valor de 250 e ganhassem um rendimento de 50, ao passo que os 90 por cento da base tivessem um activo de 5’0 e rendimento de 50; e suponha que os primeiros habitualmente poupassem metade do rendimento enquanto os últimos habitualmente poupassem 10 por cento do seu rendimento. Assim, os 10 por cento do topo poupariam 25 e os 90 por cento da base 5 por cento, de modo que cada activo do grupo cresça em 10 por cento – e não há ascensão da desigualdade de riqueza.

Mas agora, se a distribuição de rendimento se tornar 60 para os 10 por cento do topo e 40 para o resto, então com os mesmos rácios de poupança o crescimento em activos é 34 ou 11,3 por cento do nível existente anteriormente. O crescimento dos activos do grupo do topo 12 por cento ao passo que o do grupo da base é de 8 por cento. A fatia do grupo do topo no total de activos aumenta de 83 para 84. E se o aumento na desigualdade de rendimento continuarentão a fatia dos 10 por cento do topo continuaria a ascender. 

A tendência sob o neoliberalismo é continuar a piorar a distribuição do rendimento. Isto acontece porque o número de empregos criados sob o mesmo cai aflitivamente abaixo do número dos que buscam emprego, o que aumenta a dimensão relativa do exército de reserva do trabalho, de modo que os salários permanecem ligados a um nível de subsistência mesmo quando a produtividade do trabalho aumenta. A fatia do excedente a acumular-se para os ricos mantém-se portanto a aumentar ao longo do tempo sob o capitalismo neoliberal, implicando um aumento na desigualdade do rendimento e por conseguinte da riqueza.

No exemplo acima assumimos que o rácio das poupanças em relação aos rendimentos de cada grupo permanece inalterado quando muda a distribuição do rendimento. Mas de facto o consumo tende a ser relativamente rígido quando muda o rendimento, caso em que, no exemplo acima, as poupança dos 10 por cento do topo aumentariam para 35 quando o seu rendimento aumenta para 60 (uma vez que o consumo permanece fixado em 25) e as poupanças dos 90 por cento da base cairiam para menos 5 já que o seu consumo permanece em 45 mesmo quando o rendimento cai para 40. Nesta nova situação, então, a fatia na riqueza total dos 10 por cento do topo aumenta de 83 para 86 por cento.

Esta tendência para um aumento da fatia de riqueza dos percentis do topo torna-se particularmente pronunciada quando há um declínio absoluto nos rendimentos dos percentis da base. E uma das razões porque isto acontece num regime neoliberal é a privatização de serviços essenciais como educação e cuidados de saúde, o que também os torna mais caros, de modo que os pobres têm mesmo de esgotar o seu magro stock de activos para serem capazes de dispor de um nível particular de acesso a estes serviços. Este portanto é o segundo caminho pelo qual um regime neoliberal contribui para um aumento na desigualdade de riqueza.

O terceiro modo pelo qual um regime neoliberal acentua a desigualdade de riqueza é através de um processo intensivo de acumulação primitiva de capital que ele desencadeia sobre a economia. Através de uma variedade de meios, que vão desde uma tomada sem rodeios da pequena propriedade, incluindo a propriedade camponesa (ou a sua compra “por tostões”; até a invasão de bens comuns; a apropriação de propriedade do Estado (a qual é construída através de impostos sobre pessoas comuns); ao simples roubo de crédito bancário dos bancos do sector público (o que é habitualmente mencionado como um acúmulo dos seus “Activos em incumprimento”), os grandes capitalista aumentam a sua fatia no total de riqueza da economia.

A acumulação primitiva aumenta de facto a concentração de riqueza de dois modos: um que acaba de ser discutido; ele suplementa o efeito daquilo que Marx chamou de “centralização do capital”. O outro modo é que pelo esmagamento de camponeses e pequenos produtores expulsa-os das suas ocupações tradicionais para migrarem para cidades onde se juntam às fileiras dos que procuram emprego e portanto incham a dimensão relativa do exército de reserva do trabalho; isto acentua a desigualdade de rendimento pelas razões já discutidas e, portanto, da desigualdade de riqueza.

O quarto caminho pelo qual o neoliberalismo promove a desigualdade de riqueza é pela transferência de concessões e isenções fiscais aos ricos em nome da promoção do crescimento económico mais alto. Tais concessões aumentam directamente a desigualdade de riqueza. Além disso, uma vez que elas são equilibradas pela redução da despesa governamental com educação e saúde, e dessa forma privatizando directa ou indirectamente estes serviços essenciais, contribuem assim para o empobrecimento de vastos segmentos de pessoas comuns, o que, como vimos anteriormente, também aumenta a desigualdade de riqueza. 

O quinto caminho pelo qual aumenta a desigualdade de riqueza sob o neoliberalismo é através da formação de bolhas de preços de activos. Booms especulativos no mercado de acções ou em outros mercados de activo dão um impulso aos valores dos activos. Como percentis do topo figuram de modo destacado entre os possuidores de activos, verifica-se que o valor absoluto da sua riqueza, e portanto da sua fatia na riqueza total, aumenta bastante rapidamente num período muito curto.

Isto entretanto levanta um ponto discutível. Em que medida um aumento do montante absoluto de riqueza e da sua fatia no total fez com que um tal boom especulativo fosse considerado genuíno? Afinal de contas, assim como uma bolha especulativa pode impulsionar a riqueza dos percentis do topo, o colapso da bolha pode reduzir a sua riqueza da noite para o dia. Por que então um aumento da desigualdade de riqueza baseado na bolha deveria ser motivo de preocupação?

Isto contudo torna-se motivo de preocupação porque, mais uma vez sob um regime neoliberal, os governos tentam impedir o colapso da bolha (o qual teria sérias repercussões adversas sobre a economia) sustentando-o através de vários meios. Estes vão desde o apoio orçamental (tal como aquele que Obama prometeu nos EUA para suster o efeito do colapso da bolha habitacional sobre o sistema financeiro), à mercantilização de elementos da natureza como água e ar (de modo a que novos activos lucrativos sejam introduzidos a fim de manter a continuidade do boom), à privatização de activos do governo tais como o “espectro” [rádio-televisivo] (com o mesmo objectivo). Assim, a visão de que a riqueza adquirida através de uma bolha no mercado de activos constitui apenas riqueza fictícia e não deveria ser motivo de preocupação, não se mantém necessariamente.

Com certeza, estimativas de riqueza e portanto estimativas da distribuição de riqueza estão repletas com uma multidão de dificuldades estatísticas. Mas apesar de tais dificuldades, não há que negar o facto de que está a ocorrer algo de extremamente grave para a nossa democracia e liberdade com a extraordinária ascensão da desigualdade de riqueza.

28/Janeiro/2018

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/0128_pd/dramatic-rise-wealth-inequality 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

A Oxfam avisa: a desigualdade pode ser vencida

(Inês Castilho, in Outras Palavras, 23/01/2018)

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O trabalho perigoso e mal remunerado de muitos garante a riqueza extrema de poucos. As mulheres estão nos piores postos de trabalho e quase todos os bilionários do planeta são homens. Aumenta o abismo da desigualdade. Para reduzi-lo, empresas devem valorizar o trabalho e os sindicatos, eliminar as diferenças salariais por gênero, repartir lucros e não pagar dividendos milionários a executivos e acionistas.

Já governos devem priorizar trabalhadores e pequenos produtores de alimentos, e não os super-ricos – que precisam pagar uma “cota justa” de impostos para que se aumentem os gastos públicos com saúde e educação.

Esse é o recado da Oxfam Internacional à elite empresarial e política planetária reunida a partir de hoje na cidade gelada de Davos, na Suíça, no 48º Fórum Econômico Mundial. Entre os 3 mil hipers da plateia encontram-se Trump e Temer, este tentando vender o país ao lado de Doria, Meirelles e a maior comitiva dos últimos tempos. O programa prevê a palestra “Moldando a nova narrativa do Brasil” justo pra amanhã, 24 de janeiro, quando Porto Alegre estará fervendo com o julgamento do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Capital versus Trabalho

estudo “Recompensem o trabalho, não a riqueza”, da Oxfam, revela uma concentração de riquezas sem limites. O ano de 2017 registrou o maior aumento de super-ricos da história – um a cada dois dias, somando 2043 pessoas pelo mundo, 90% deles homens, com riqueza superior ao PIB de 159 dos 193 países que habitamos. Só as riquezas criadas em 2017 seriam suficientes para acabar sete vezes com a pobreza extrema no globo, mas 82% delas foram para as mãos do 1% mais rico. Já a metade mais pobre da população mundial, 3,7 bilhões de pessoas, está de mãos vazias.

Toda essa riqueza não vem do trabalho, diz a Oxfam. Dois terços dessas fortunas resultam de heranças, monopólios (que “alimentam retornos excessivos para proprietários e acionistas à custa do restante da economia”) e clientelismo, ou seja, “a capacidade de interesses privados poderosos manipular políticas públicas para consolidar monopólios existentes e criar outros”.

Tudo isso compõe “uma ‘tempestade perfeita’” em que sindicatos perdem poder de negociação e “empresas usam a mobilidade dos seus investimentos para promover uma ‘corrida para trás’ entre países em termos de tributação e direitos trabalhistas”, afirma o relatório, que mostra o movimento regressivo dos direitos trabalhistas em vários países do mundo. Os dados são de instituições como a OIT (Organização Internacional do Trabalho), Banco Mundial, o banco Credit Suisse e a revista “Forbes”.

Mulheres, jovens, negros

Por aqui, onde é nossa a taça de campeões da desigualdade e o fantasma da fome volta a nos assombrar, cinco bilionários acumulam o mesmo valor que a metade mais pobre da população. O Brasil tem 12 bilionários a mais: eram 31 e agora são 43, no segundo maior aumento de sua história. E o patrimônio deles cresceu 13%: já alcança R$ 549 bilhões, mais de meio trilhão de reais. Já os 50% mais pobres tiveram sua fatia reduzida de 2,7% para 2% do bolo. A brasileira ou brasileiro que ganha um salário mínimo precisaria trabalhar 19 anos para conseguir o que ganha num mês alguém do 0,1% mais rico. Já os dividendos pagos em 2016 ao quarto homem mais rico do mundo, Amancio Ortega, pela matriz da rede de moda Zara, que distraidamente podemos frequentar, somaram aproximadamente 1,3 bilhão de euros [5,16 bilhões de reais].

Mulheres, jovens e negros são os mais impactados pelo desemprego, baixos salários e precarização do trabalho, afirma Kátia Maia, diretora da Oxfam Brasil. “As mulheres fazem jornada dupla, tripla de trabalho, um trabalho que não é remunerado. E esse trabalho não remunerado, quando contabilizado, chega a somar 10 trilhões de dólares anuais – se fosse computado teríamos outro desenho econômico. Vale ressaltar que o trabalho do cuidado é fundamental para a reprodução da própria sociedade”, diz ela. “Pensar soluções é pensar a liderança das mulheres.”

Além do que as mulheres sofrem assédio. “Em países da América Latina e do Caribe 94% das mulheres do setor hoteleiro são assediadas por hóspedes. Na Ásia mulheres não conseguem ver os filhos porque trabalham 12 horas por dia, 6 dias por semana, e o salário é tão baixo que não dá para pagar o transporte. Mulheres negras sofrem a desigualdade da desigualdade.” Mulheres estão em luta permanente, pela conquista da educação, por participação política. Assistimos a suas demonstrações no mundo todo, e no Brasil o movimento feminista tem sido um dos mais resistentes contra a volta do conservadorismo – diz ela.

Também os jovens estão entre os que recebem os salários mais baixos e recebem os maiores impactos do desemprego, mostra o estudo. Mas estão entre os que oferecem maior resistência, com mobilizações no mundo todo, lembra Kátia.  “No Brasil há muitos movimentos de jovens, o terreno é fértil para mudanças a partir da juventude.”

A desigualdade se reflete mais nos subalternizados, novamente, quando se pensa nas mudanças climáticas e desastres ambientais, pelo impacto na capacidade de recuperação e nas condições de vida e moradia nas áreas atingidas, lembra a diretora da Oxfam Brasil. “A questão ambiental é fundamental para a busca de soluções para a desigualdade. Ela nos ajuda a trazer para o debate outros elementos, o desafio e a responsabilidade de olhar para o futuro. Venho do movimento ambientalista, em 83 a gente ainda imaginava um futuro comum – o relatório ‘Nosso Futuro Comum’, de Gro Harlem Brundtland, mestre em saúde pública e ex-primeira ministra da Noruega – lembra?  E agora essa intensificação dos lucros nos distancia cada vez mais desse futuro.”

Se pretendemos incluir o conjunto dos 7 bilhões de habitantes do planeta, o padrão não pode ser o das elites, ressalta Kátia Maia. “Essa pressão sobre o clima, os rios, a terra, a água, os diversos elementos que formam o ambiente, é insustentável. Enfrentar as desigualdades passa necessariamente por rever o padrão de vida, que é altamente consumista.” E rever o padrão de vida passa necessariamente pela consideração do bem comum diante do bem individual. “Temos ainda uma grande reserva de práticas voltadas para a coletividade”, diz Kátia.

Depende de nós

Sustentar o otimismo, apesar de tudo. Kátia ressalta a importância da mobilização da sociedade “num mundo volátil, em que é um grande desafio enfrentar questões estruturais, que não acontecem num estalar de dedos, mas mais no longo prazo. A desigualdade foi construída por nossa sociedade, e pode ser modificada por nós. Se como sociedade a gente quiser, tem poder pra mudar.”

Mesmo porque a maioria quer igualdade. Ano passado a Oxfam fez uma pesquisa com 120 mil pessoas, de 10 países, que representam um quarto da população mundial, e o estudo mostrou que mais de três quartos dos entrevistados concordam em que o fosso entre ricos e pobres, em seu país, é muito grande. Os percentuais variam de 58% na Holanda a 89% na Nigéria; 60% concordam que é responsabilidade dos governos reduzir a lacuna. É urgente eliminar essa diferença, opinam quase dois terços dos entrevistados.

“No Brasil, a pesquisa de opinião ‘Nós e as Desigualdades’, feita pela Oxfam e o Datafolha em dezembro passado, mostrou que a população é contra essa desigualdade extrema, esse buraco que separa pessoas com e sem direito, de primeira e segunda categoria. Os brasileiros consideram que emprego é problema, falta de educação é problema, saúde é problema. As pessoas concordam quanto às soluções, mas não têm noção do tamanho da desigualdade. Estão preocupadas, e quanto mais a gente mostrar o tamanho da desigualdade, mais vão se preocupar.”

Daí os relatórios que a Oxfam, insistentemente, apresenta ano após ano em Davos. “Eles aumentam o debate, para que esse poder sinta a pressão, porque quando a gente pressiona tem passo atrás”. Ela dá exemplos recentes do poder que a gente tem.

“A Islândia acaba de aprovar lei afirmando que até 2022 não poderá mais existir diferença salarial entre homens e mulheres. Nós mesmas aqui no Brasil tivemos num certo período políticas públicas que davam aumento real no salário mínimo, que é muito importante no combate à desigualdade, além de outras políticas sociais inclusivas. Políticas que privilegiaram setores sociais que são maioria, mas são tratados como minoria, no quadro da desigualdade de gênero e raça.”

Katia aponta também as boas práticas de algumas empresas. “Há empresas que fazem maior repartição de lucros para seus trabalhadores, incentivam a organização sindical, empresas criadas por cooperativas de trabalhadores e que estão bem economicamente.” Lembra, contudo, que a grande maioria das corporações está operando com o máximo lucro, precarizando ainda mais o trabalho, empurrando as organizações sindicais para fora, pagando salários menores. “É uma corrida para aumentar os lucros, uma visão de curto prazo, um saque dos recursos naturais.”

No Brasil acontece um movimento contrário ao que a Oxfam indica como melhores práticas para a redução da desigualdade, reconhece a representante da organização no Brasil. “Nos últimos 15 anos houve ganhos, mas estes ganhos, apesar de positivos, não eram estruturais e estão sendo desmontados.”

Fórum de Davos

Este ano a elite mundial, ou operadores do Capital, brinca de democracia representativa e igualdade de gênero deixando a presidência do Fórum nas mãos unicamente de mulheres (que são 21% dos participantes).

Lá estarão, sob o mesmo teto que 70 chefes de Estado e governo, “900 representantes de ONGs, 1.900 executivos de empresas, 40 líderes culturais, 35 empreendedores, 80 jovens destacados, 32 pioneiros tecnológicos, 70 responsáveis de sindicatos, organizações religiosas e da sociedade civil.”

O espaço aéreo de Davos é fechado durante a cúpula e cerca de 5 mil soldados e chefes do exército e da polícia farão a segurança local.

Na pauta, a discussão de “formas de crescimento mais igualitário, questões climáticas, o impacto de novas tecnologias no mercado de trabalho, o combate às ameaças cibernéticas e assédio sexual”.

De olhos bem abertos para a América Latina. “O Brasil é um dos seis países latino-americanos que realizam eleições presidenciais em 2018”, lembra o programa do Fórum, ao pontuar o debate “Quais são os principais conquistas atuais e qual visão têm líderes regionais e globais para o Brasil no futuro?”. O título do evento regional do Fórum, que será sediado em São Paulo, em março, é “A América Latina em um momento de virada”.

Fazem tudo para nos assustar, mas as razões objetivas desmentem-nos!

(Por Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 17/01/2018)
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Todos os meses a Associação Gandaia da Costa da Caparica organiza, sob a égide do escritor Reinaldo Ribeiro, um debate sobre um ou mais temas da atualidade. No de ontem, e por ser o primeiro do ano, decidiu-se que ele seria de Mesa Aberta, ou seja, disponibilizando-se o espaço de troca de ideias para aquelas que a assistência entendesse como as mais pertinentes.
Vindo a talhe de foice alguns dos temas de recente atualidade – incêndios vs. indicadores económicos, trumpismo, guerra na Síria, aquecimento global, ameaça nuclear – duas atitudes vieram ao de cima: as mais abertamente otimistas e as depressivamente pessimistas.
Não preciso de me alongar muito em que lado de tais posicionamentos me situei: as ideias que professo levam-me a ir mais além do que a célebre fórmula de Gramsci, assumindo-me como otimista na Razão e muito, mas muito, otimista na vontade.
É verdade que os quotidianos telejornais justificam o temor de muitos quanto à nossa aproximação de um inevitável Apocalipse, seja na forma de um inverno nuclear, seja no de uma fome generalizada, seja no de guerras à escala global motivadas por grandes migrações de populações devastadas por inundações, secas e outros efeitos das alterações climáticas.
Essa atitude leva-me a evocar o terror em que Virginia Woolf ou Stefan Zweig terão vivido os seus derradeiros dias antes de se suicidarem, convencidos da inevitabilidade da vitória nazi, que tenderia a dar-lhes o  mesmo destino, que aos de milhões de seus semelhantes, sujeitos por essa altura a encarneirarem-se para os fornos crematórios.
Socorro-me por isso de um trecho do artigo hoje publicado no «Diário de Notícias» por Viriato Soromenho Marques em que este lembra que “as melhores armas desenvolvidas entre 1939 e 1945, com a exceção da bomba atómica, foram produzidas pela Alemanha. Os melhores submarinos, os melhores carros de combate (como o Tiger e o Panther), os primeiros aviões a jato (Heinkel He 178), os primeiros equipamentos de visão noturna, os primeiros mísseis de cruzeiro (V1), os primeiros mísseis balísticos (V2). Contudo, e apesar das suas pioneiras “armas secretas”, a Alemanha perdeu a guerra. Os erros políticos e estratégicos na condução da guerra, multiplicando as frentes, subestimando os inimigos e sobrestimando as forças próprias, esmagaram os ganhos da superioridade tecnológica e do talento militar, esgotaram o espaço de manobra que é uma condição indispensável para a vitória.
É, pois, a própria História a ensinar-nos que, se formos suficientemente inteligentes e determinados no esforço de contrariarmos as ameaças mais intimidantes, elas acabarão por ser vencidas.
Esta lição também é verdadeira para outro dos temas, que temos na ordem do dia: a estratégia inaceitável das grandes empresas – e estamos aqui a falar da EDP e da Galp – para contrariarem a governação socialista escusando-se ao pagamento de impostos. Algo que os grandes operadores de televisão por cabo também andam a teimar como forma de recusarem o seu contributo para o financiamento do cinema nacional.
Aqui nem se compreende a tibieza com que o governo tem tratado este assunto: sendo impostos decididos legitimamente pelos poderes  legislativo e executivo, não pode haver contemplações com quem se quer ufanar de incumprimento das obrigações fiscais. No Parlamento, o ministro da Economia proclamou o óbvio: “Porque não é aceitável que as empresas digam que não querem pagar porque concordam ou não com o Governo, porque concordam ou não com o imposto. Não nos é perguntado a nenhum de nós, e é essa a natureza dos impostos, se concordamos ou não, não é perguntado a quem tem obrigações fiscais. A única resposta que [a EDP e a Galp] têm de dar é cumprir as suas obrigações fiscais”. Agora Manuel Caldeira Cabral só tem de ser consequente com tais palavras e fazê-las cumprir. Tanto mais que as reservas agora levantadas pela empresa de Mexia nunca existiram enquanto Passos Coelho foi primeiro-ministro. Se isto não é a tentativa de boicote ao governo atual, não sei que mais será preciso demonstrar.
Mas esse tal capitalismo em pantanas, que se procura eternizar, mesmo já não tendo condições geográficas para se expandir e assegurar o seu imprescindível crescimento – chegado o tempo da globalização para onde pode agora ampliar-se? Para Marte? Para Alfa de Centauro? – vem ensaiando uma nova tática a nível internacional, que mais não constitui do que uma recauchutagem da Terceira Via: quando surgiu na paisagem política francesa, Emmanuel Macron, era tido como um banqueiro próximo dos socialistas (como se essas duas condições não se excluíssem por natureza…).
Candidato ao Eliseu, conseguiu destruir o Partido, que o tinha feito ministro (que acaba agora de vender a sede histórica de Marselha, depois de já o ter feito com a de Paris e ainda mantendo-se abaixo da linha de água a nível financeiro), apresentando-se como um político independente, mas situado na matriz de centro-esquerda, o que tendo em conta a alternativa (Marine le Pen) acabava por representar um mal menor.
A surpresa que muitos dos antigos deputados e outros altos quadros do Partido Socialista, que se mudaram de armas e bagagens para o seu movimento En Marche, é que, quer na emigração, quer nos refugiados, quer sobretudo no indecoroso aumento das desigualdades de rendimentos entre os muito ricos e os demais extratos da população, o banqueiro confirmou a sua natureza. A revisão das leis fiscais, agora  apresentada, não desmerece da de Trump, que consegue exatamente o mesmo: a redução dos impostos para a minoria mais abastada e o agravamento da dos demais. Daí que haja já quem se comece a interrogar se não vendeu a alma ao Diabo. Que, afinal, em vez de andar a iluminar as expetativas dos principais apaniguados do PSD, parece andar à solta por terras gaulesas.