Entrevista com o diabo

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 19/01/2018)

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Negócios: Olá, Diabo. Este é o segundo ano em que aceita ser entrevistado. Desde já, o nosso agradecimento.

Diabo: Eu é que agradeço o convite. É a minha oportunidade para esclarecer algumas coisas que têm sido ditas. Não sou de confissões, mas tenho de confessar que me tem incomodado ser constantemente associado ao PSD. Não sei se é por ter esta cauda com formato de seta na ponta, mas eu quero deixar bem claro que sou apartidário.

Negócios: Mas sabe que o líder do PSD, que tantas vezes chamou o seu nome em vão, já foi afastado e que o partido tem um novo líder?

Diabo: Eu sei, a minha filha disse-me.

Negócios: O diabo tem uma filha?

Diabo: Tenho, sim senhora. Se Deus teve um filho, e o sexo para aqueles lados é pouco popular, por que raio não havia de eu ter uma filha?

Negócios: E também nasceu em Belém?

Diabo: Não, nasceu em Estremoz, distrito de Évora. Tinha de ser no Alentejo porque, a nível de temperatura, era o mais parecido com a casa do pai.

Negócios: Mas, afinal, a sua filha é quem?

Diabo: A Teodora Cardoso. Se o filho de Deus veio ao mundo para salvar a humanidade, a minha filha veio ao mundo para assustar os portugueses. Mas ando um bocado chateado com ela porque, como dizia Fernando Pessoa, o que era suposto era Jesus Cristo não saber nada de finanças, agora, a minha filha tem obrigação de dominar o tema.

Negócios: Acha que ela tem sido demasiado pessimista? Pode ter sido com boa intenção.

Diabo: De boas intenções está o inferno cheio, e eu vivo lá e preciso de espaço. Ela sabe isso! Já não há onde pôr boas intenções. Tive de arrendar um armazém em Odivelas  para pôr lá umas quantas.

Negócios: É uma grande revelação que nos faz.

Diabo: Outra coisa que queria deixar bem claro é que eu não tenho nenhum negócio com a Doutora Manuela Ferreira Leite. Absolutamente nada, apesar de algumas pessoas pensarem que fui eu que lhe vendi o guarda-roupa.

Negócios: Isso vem a propósito das recentes declarações da Doutora Manuela, que admitiu “vender a alma ao diabo” para afastar o PS e a esquerda do poder?

Diabo: Exacto! Não estou minimamente interessado nesse tipo de negócios. Eu deixei de comprar almas uns anos antes da crise do “subprime”. Por isso é que se deu a crise.

Negócios: Portanto, não há a menor hipótese de o PSD voltar ao poder através da venda da alma ao diabo?

Diabo: Esqueçam. Tentem vender aos chineses. O investimento em almas não compensa. As almas desgastam-se, são demasiado tangíveis. Mesmo que quisesse, não podia, agora tenho tudo investido em bitcoins.


TOP-5

Vender a alma

1. Governo vai avançar este ano com projetos-piloto de “cabras sapadoras”, com rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal – Ao menos para as “cabras sapadoras”, finalmente faz sentido arranjar um bode expiatório.

2. “Querem saber se o Metro de Lisboa está com problemas? Já tem uma app para isso” – Está. Não preciso de uma app para isso, basta.

3. Trabalhadoras da Triumph deram cinto de ligas vermelho ao ministro da Economia – Depois o Ministro vai dizer que elas estavam mesmo a pedi-las.

4. Produtora de “SuperNanny” confirma “compensação de mil euros” às famílias – Compensação presume que causaram um estrago.

5. Governo tenciona largar 150 mil cabras em Portugal que irão limpar o mato e floresta – Queremos cabras que limpam florestas, mas também queremos ursos-pardos que atacam e desmembram incendiários.

Rui Rio daqui a dois anos? Vá para a sala de espera do diabo

(Daniel Oliveira, In Expresso Diário, 17/01/2018)  

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Daniel Oliveira

 

Fazer previsões a dois anos de distância é absurdo. Muita coisa pode acontecer a um governo que ainda está a meio do mandato. E muita coisa pode acontecer nos meses anteriores às eleições. Há, no entanto, algumas coisas que sabemos pela experiência das últimas décadas. Que só ao fim de muito tempo, por cansaço acumulado, governos caem em tempos de recuperação de rendimento e emprego. Vivemos muito embrenhados nos casos mediáticos, mas continuam a ser as condições materiais de vida dos cidadãos que determinam, antes de tudo, o seu voto. Mesmo o PSD e o CDS, que conseguiram um dos piores resultados da direita nacional nas últimas eleições, só ficaram (coligados) à frente do PS porque no ano anterior reduziram drasticamente as medidas de austeridade, permitindo um alívio nas carteiras dos portugueses.

Não há, com os dados que conhecemos, nada que aponte para a derrota do PS e do conjunto da esquerda nas próximas eleições. Mesmo os incêndios tiveram, se olharmos para as sondagens e para as eleições autárquicas depois de Pedrógão (mas antes de outubro), pouco efeito no sentido de voto. E é difícil um governo passar por maior tragédia do que aquelas. Quanto à degradação da qualidade dos serviços públicos, que se agudiza desde o início do século, pouco se pode fazer dentro dos constrangimentos europeus que a maioria do país aceita. Andamos apenas a adiar o colapso. Dificilmente algum governo conseguirá fazer o milagre de continuar a ter um superavit primário e não rapar no fundo do tacho do Serviço Nacional de Saúde e do Estado Social.

O que pode acontecer à “geringonça” é interno à “geringonça” e será, mais do que o PSD, determinante para a divisão de votos. Se as pessoas perceberem que Bloco de Esquerda e PCP estão empenhados, de forma ativamente crítica, numa solução à esquerda, os três partidos partilharão os resultados de um mandato globalmente positivos. Se os sinais de rutura forem claros ou mesmo explícitos, o PS terá condições para conquistar uma maioria absoluta.

Compreendo o raciocínio que Rui Rio, de forma um pouco cândida, tentou explicar a Pedro Santana Lopes: se o PSD disser que não viabiliza um governo minoritário de António Costa os eleitores de centro-direita tenderão a votar útil no PS, para que ele governe sozinho. Ele não disse que eram os de centro-direita, mas digo eu. Porque, como indicam todos os estudos de opinião, a esmagadora maioria dos eleitores tradicionais dos três partidos da “geringonça” estão satisfeitos com esta solução. Mesmo os eleitores socialistas parecem, depois da experiência de Sócrates, confiar mais num PS dependente de outros partidos do que numa maioria absoluta. E os eleitores do BE e do PCP, mesmo que gostassem de ver este governo ir mais longe, preferem ver os partidos em que votaram a determinar aspetos fundamentais da governação do que a ouvi-los apenas a protestar, na oposição.

Na realidade, a “geringonça” agrada, segundo todas as sondagens, a mais pessoas do que aquelas que votaram nos três partidos que a construíram. Ignorar isto é construir castelos no ar. Claro que se a economia e o emprego correrem mal tudo isto muda. Mas, com os dados que temos, o discurso baseado na ideia de “libertar o governo das garras da extrema-esquerda” dirige-se aos convertidos. Não tem qualquer efeito num eleitorado de centro que não se sente no meio de um processo revolucionário. O país não vive nas redes sociais nem é representado pelos colunistas.

Os apelos ao bloco central também não têm qualquer futuro. Bem sei que muitos se convenceram que António Costa fez nascer a “geringonça” por mero taticismo. Também foi isso. Todos os momentos históricos misturam estratégia e tática, premeditação e conjuntura. Mas quando Costa deu este passo, que tudo indica que já tinha sido discutido com o PCP antes das eleições, olhou para o futuro. Percebeu que com dois partidos médios à sua esquerda as maiorias absolutas iam ser cada vez mais excecionais. Sem quebrar o tabu ficaria eternamente dependente da direita para governar. E Costa, que é tudo menos falho de instinto político, sabe o que está a acontecer aos partidos socialistas e social-democratas que se mantiveram num bloco central anacrónico: estão a morrer. Do PASOK ao SPD, passando pelos socialistas holandeses. É por isso que o PSOE se recusa a qualquer entendimento com o PP e o Labour virou à esquerda. Mesmo o SPD resiste até ao limite na renovação do acordo com a CDU. António Costa não descobriu a pólvora. O bloco central só não foi dinamitado onde não havia qualquer alternativa. Só se fosse louco é que Costa preferia depender do PSD, tendo de lhe ceder e deixando livre o espaço de crescimento à sua esquerda. Só haverá um governo socialista dependente do PSD se BE e PCP o quiserem. E se o derem a entender antes das eleições até é provável que ofereçam uma maioria absoluta ao PS. Com os dados que temos hoje, esse é um filão sem futuro.

Não sei se Rui Rio trabalha para os próximos dois anos ou tem uma visão que ultrapassa as próximas eleições. Se o seu prazo de validade são as próximas legislativas, não há grandes razões para o PSD estar otimista. Resta-lhe a mesma estratégia de Passos: esperar que as coisas corram mal na economia. E, desta vez, tentar que os portugueses não notem a sua esperança. Se, pelo contrário, pensa para depois de 2019, tem tempo para se construir como alternativa.

Se não se perder em diatribes liberais que agradam a meia dúzia de colunistas, Rui Rio pode representar com eficácia a direita nacional. Basta acrescentar ao programa que a direita tem há anos (fazendo dele menos alarde ideológico do que Passos Coelho) um vago patriotismo simbólico. E, como estilo de liderança, alimentar um distanciamento altivo em relação ao burburinho mediático, que lhe é natural e o distingue de Marcelo. Rui Rio tem tudo para ser melhor cavaquista do que Cavaco. Tem o perfil ético que sempre faltou ao anterior Presidente da República e partilha com ele o gosto pelo exercício um pouco mais musculado do poder. Mas precisa de pelo menos seis anos para receber o poder como quase todos os últimos primeiros-ministros o receberam: por cansaço ou falhanço de quem está no governo. A questão é se resiste a tão longa travessia do deserto. Se é para daqui a dois, apenas mudou o turno dos que fazem política na sala de espera do diabo.

EXORCISMO

(In Blog O Jumento, 17/01/2018)
Exorcismo

Cartoon in Blog 77 Colinas

Afinal o Diabo não estava para vir, o mafarrico já cá estava e ainda está, tomou conta do PS. É o Diabo da esquerda ou, para respeitarmos o facto do PSD também ser de esquerda, como insiste Manuela Ferreira Leite, da extrema-esquerda.
Quando todos pensávamos que Rui Rio se candidatou à liderança do PSD para libertar o partido do Diabo do Passos Coelho, somos surpreendidos: afinal as diretas do PSD foram uma luta entre duas visões estratégicas, Passos defendia que o Diabo ainda havia de vir, Rui Rio acha que o Diabo já cá está e encarnou no PS.
Poucas horas de ter ajudado Rui Rio a ganhar as diretas do PSD, Manuela Ferreira Leite veio dizer ao que vinham: entregar a alma ao diabo para libertar o PS da esquerda. Mais clara não podia ser, não era o PSD que estava mal, a generosidade dos militantes do PSD é tanta que o que os motiva é libertar o PS da amaldiçoada esquerda. Um escândalo: onde é que se viu o PS estar nas mãos da esquerda em vez de governar com a direita?
Até o senhor da CIP confirmou o seu empenho neste exorcismo: “precisamos de libertar o PS da esquerda para que se façam as reformas necessárias”; e o homem nem pediu pouco e referiu logo as reformas que exigem dois terços do parlamento, isto é, umas revisões da Constituição.
Digamos que se exorcizarem o PS tirando o Diabo do corpo do António Costa o líder do PS passa a ser uma espécie de António José Seguro, mas um pouco mais escuro.
Talvez não fosse má ideia recordar a Manuela Ferreira Leite e ao senhor da CIP que ainda há quem respeite a palavra, para já não referir a assinatura em acordos parlamentares, ainda por cima acordos que foram celebrados para cumprir as exigências de um Presidente chamado Cavaco Silva. Talvez a Dra. Manuela não se recorde, mas este governo está apoiado por uma maioria consolidada em acordos e princípios exigidos pelo seu amigo Aníbal. Anda por aí quem revogue num dia o que era irrevogável um dia antes, mas quando está em causa gente honestas os acordos são para cumprir.
Já Rui Rio foi um pouco mais abrangente, quer que todo o parlamento conte. Ainda bem, porque o PSD pretendia governar porque a sua minoria parlamentar funcionava como maioria se os deputados do PCP e do BE só fossem considerados em questões secundárias, ou quando os seus votos apenas serviam para votar moções de censura propostas pela direita. Nunca o parlamento foi tão inclusivo como agora, todos os deputados contam e nesta legislatura já vimos por mais de uma vez maiorias parlamentares formadas pelos votos dos deputados da direita e do PCP e BE, como no caso da TSU.