As golas inflamáveis e as goelas inflamadas da Direita

(Carlos Esperança, 03/08/2019)

Direitolas

É indiferente que as golas contra o fumo ardam ou façam buracos; os fogos sejam bem ou mal combatidos; as greves dirigidas por bastonários ou por um advogado camionista de vias sinuosas, por equivalência; os concursos públicos legais ou não, e os ministros venais ou idóneos. É preciso espevitar a chama para queimar o Governo e afiar as facas para degolar ministros, enquanto a direita crepita em fogos de raiva e silvos de aflição, à espera de renascer das cinzas, através de um Messias abençoado por Belém.

Sem alternativa, convém assustar o eleitorado como se estivesse cercado por um mar de corrupção, com a sovietização das instituições, cubanos no Cais de Alcântara, operários e camponeses nos quartéis, PCP, BE e PS com 2/3 de deputados a reverem a CRP, para banir empresários, e brigadas revolucionárias a invadirem as sedes do Largo do Caldas e da Rua de S. Caetano à Lapa.

Quanto mais desnorteada fica a direita, e a imprensa fiel, mais implacável é a luta contra o Governo e os partidos que o apoiam, mais torpes as calúnias e malévolas as mentiras.

Não podendo ganhar as eleições legislativas, já dadas por perdidas, precisa de condições para abreviar a próxima legislatura, para chegar a S. Bento, após dois milhões de selfies e milhares de comentários televisivos, ao colo do PR.

Por ora, acossa os governantes com minudências, enquanto aguarda uma catástrofe que apavore os portugueses, um desastre que aterrorize o eleitorado, com mortes que abram noticiários e desgraças imputadas aos governantes.

Enquanto os eleitores estão de férias, é preciso amedrontar quem apoiou esta legislatura, para ressuscitar a direita que se agarrou ao poder, contra a vontade da AR, com um PR a espumar de raiva e a esconjurar os partidos que viabilizaram o governo do PS.

Sumiram-se os apoiantes e beneficiários desta legislatura, ingratos e amnésicos, à espera do regresso de Passos Coelho carregado num andor por Relvas, Marco António, Maria Luís e Assunção Cristas e o PR, compungido, integrado na procissão.

Quem recorda a direita que a esquerda baniu do poder não pode esmorecer no combate democrático que lhe dificulte e retarde o caminho de regresso.

Cinco anos depois da infeliz e inábil resolução do BES e da ruína do grupo GES / BES, do prejuízo de mais de 10 mil milhões de euros, até agora, sem a mais leve ideia de que alguém seja responsabilizado, é preciso agitar as golas contra o fumo ou qualquer outra coisa que faça esquecer a origem do desastroso legado PàF.

A solução para o BES podia ter sido pior? – Poder, podia, mas era preciso ser um génio.

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O Governo Sombra dos abutres

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 24/11/2017)

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João Quadros

Pergunta um jornal – “Estará o país a ficar insensível, perante tanta tragédia?” A líder do CDS sente isso mesmo e recorda o dia em que as notícias davam conta de um novo aumento do número de mortes provocadas pelo surto de “legionella”. “As pessoas quase que aceitaram isso como uma coisa natural. Esta indiferença à morte não é normal e tem muito a ver com a forma como o próprio Governo vai reagindo”, critica Assunção Cristas. Estou a perceber o ponto de vista, mas também poder ser por causa das imagens dos atentados em Nice, etc. Também pode ser por causa dos jogos de computador.

Também pode acontecer que toda esta indiferença, perante a gravidade da morte, seja por termos tido um PM, de um governo a que Cristas pertenceu, que, perante a cura para a hepatite C, e que custava uns milhares, disse: “os Estados devem fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar vidas humanas, mas não custe o que custar”. Nessa altura, Cristas estava em casa a ver a série The Walking Dead e assinou de cruz.

O que me parece é que o CDS já foi o partido do táxi, agora é o partido do carro funerário. Assunção Cristas é um abutre a pairar sobre as desgraças. Como o abutre procura alimentar-se de carcaças, Assunção tenta ganhar votos contando campas. A líder do CDS acusa o Governo de, perante as tragédias, agir “de forma errada, pouco sensível e pouco humana”, mas dá á sensação de que reza para que elas aconteçam. Nisso, Passos foi mais honesto, assumiu que desejava que viesse aí o Diabo.

Havia uma senhora inglesa, de seu nome Anne Germain, que falava com os mortos num programa da TVI. Agora temos uma Cristas, suposta líder da oposição, que fala pelos mortos. É como se Cristas estivesse possuída por um resultado que acha que foi bom nas autárquicas. Diz coisas exactamente ao contrário do que dizia quando foi governo. Desde o aumento de pensões, passando pelo congelamento de carreiras, até a esta sensibilidade para com as mortes. Dir-se-ia com foi possuída pelo espírito do Louçã, não estivesse ele vivo e de boa saúde, mas mantendo a voz de professora da primária. Quando vejo imagens de Cristas a defender o investimento do Estado na Assembleia da República, estou sempre à espera que ela consiga girar a cabeça 180 graus, como a pobre coitada do Exorcista.

Cristas concentra-se em todos os tipos de mortos. Os que morreram durante este Governo e os que já estavam enterrados há anos, como no caso do panteão. É a nossa espírita. Tem mais ligação com o além do que com o que se passou enquanto foi ministra.

Cristas, perante a seca, pedia que rezássemos. Agora exige medidas ao Governo. Pois eu exijo que, para que ela seja fiel ao que defendeu, que vá à Fátima de joelhos, com uma vela em forma de nuvem, e que não beba água daqui até lá, para que acabe por compensar.


TOP-5

Necrologia

1. Ministro da Saúde anuncia que Infarmed vai para o Porto – Trabalhadores do Infarmed vão ter aulas de formação para apreenderem a trocar o V pelo B e a usar mais calão.

2. Governo chama Jorge Jesus e Ana Malhoa para defender taxa sobre o sal – e dar cabo da língua portuguesa.

3. Ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Bruno Maçães, acusado de assédio e de enviar foto das partes íntimas a uma jornalista americana – que estupidez, depois de tudo o que temos feito para promover Portugal lá fora. Espero que ele tenha usado Photoshop.

4. Governo avisa que devem ser tomadas medidas por causa da seca – Deixo a dica, agora que vem aí o Natal: eu tinha um tio que era tão forreta que demolhava o bacalhau na caixa do autoclismo.

5. Presidente da Câmara do Porto agradece a descentralização do Infarmed – Descentralizar era fazer o festival da Eurovisão em Pedrógão.