Se fosse ele

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 28/05/2025, Revisão da Estátua)


(Não posso deixar de sublinhar a qualidade literária deste texto. Parabéns ao autor. Quanto às posturas políticas, estas ficam ao cuidado dos comentadores de serviço aqui da Estátua… 🙂

Estátua de Sal, 28/05/2025)


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Não sei se já repararam – creio que sim, mas estas coisas escorregam-nos do bolso da atenção como moedas pequenas – que há uma nova variante nacional da gripe do comentário. Chama-se se fosse eu. Altamente contagiosa. Instala-se com um certo brilho nos olhos e um jeito de quem acabou de resolver um enigma complexo com três peças de lego.

O caso mais recente foi o de Ricardo Costa, que, com a gravidade estudada de quem lê as notícias antes de escrever o futuro, afirmou que se fosse ele, o PS tinha de ser inteligente. Não no sentido banal – não cair nas armadilhas da AD ou manter uma narrativa coerente -, mas inteligente à maneira de um ilusionista em fim de carreira. Se fosse ele, dizia, o PS dava já à AD dois orçamentos aprovados, de mão beijada. Sem os conhecer. Um gesto de inteligência, parece.

Ora, eu não sei se a inteligência que se propõe é um ato de generosidade política ou um exercício de rendição estética. Talvez de ambas. O PS, esse partido demasiado habituado a saber-se adulto numa sala cheia de adolescentes, passaria a ser o mais velho dos mordomos: sábio, resignado, colaborante. E José Luís Carneiro – que Ricardo Costa gostaria de ver como Presidente – surgiria como um Diógenes moderno, oferecendo à direita a lanterna da estabilidade sem perguntar primeiro que sombras trazem os orçamentos no bolso.

Talvez seja essa a proposta: que a esquerda sirva a democracia como quem serve um chá morno. E que o PS, tendo perdido, mas não desaparecido, entre para o panteão dos partidos civilizados – esses que não fazem barulho, não mordem e oferecem orçamentos por antecipação. Mas a democracia não é uma ópera de câmara. É uma arena. E o PS, goste-se ou não, ainda representa um terço do país. Um terço é muito quando a maioria é uma ficção parlamentar, amarrada a votos emprestados e alianças de papel de alumínio.

A proposta de Ricardo Costa – ou melhor, a sua pose – parece-me uma forma de pedagogia invertida: ensinar os partidos a serem irrelevantes em nome da responsabilidade. Substituir a política pela urbanidade. E a oposição pela conivência técnica. Pergunto-me o que teria dito se fosse o PSD a perder por pouco e o PS a precisar de aprovar orçamentos frágeis. Teria sugerido à direita um gesto de inteligência semelhante? Ou é apenas a esquerda que deve envelhecer com dignidade, como um actor clássico fora de moda?

O comentário político em Portugal tem esta característica curiosa: quer ser árbitro e coreógrafo, juiz e anjo da guarda. Fala de inteligência como quem fala de elegância – como se a política fosse sobretudo uma questão de boas maneiras. Mas há uma diferença essencial entre respeitar o regime e abdicar de disputar o poder. A primeira é uma exigência democrática; a segunda é uma forma de deserção com gravata.

Ricardo Costa fala como quem lamenta o país – um hábito nacional – mas também como quem o observa do lado de fora, com o tédio benevolente de quem viu tudo. Não viu. Ninguém viu. Estamos numa encruzilhada: a direita está inflamada e fragmentada, a esquerda atordoada e sem bússola. O centro é um lago vazio. E os eleitores não estão particularmente interessados em lições de compostura institucional. Querem saber, por exemplo, se o PS vai continuar a defender os salários, os serviços públicos, os jovens que vivem de recibos verdes aos 38 anos. Querem saber se vai opor-se à privatização dos restos do Estado – ou se vai preferir “ser inteligente”.

A política portuguesa tem demasiadas vezes confundido sagacidade com resignação, cálculo com virtude. Mas a inteligência – a verdadeira – não consiste em ceder antes da luta. É saber por que razão se luta. E com que armas. Eu preferia que Ricardo Costa dissesse outra coisa: que o PS tem de reaprender a ser oposição com alma. Com risco. Com memória. E, sobretudo, com um projeto que não seja o de esperar que o adversário se desfaça por si. Porque se fosse ele, e não apenas mais um entre estúdios e câmaras, talvez percebesse que os partidos não existem para confirmar o comentário – mas para o desmentir, de vez em quando, com actos de coragem.

Talvez seja isso que falta: menos orçamentos pré-aprovados e mais gestos que não se esperavam. Um sobressalto, como dizia o outro. Ou só um momento de claridade – mesmo breve – em que a política volte a ser a disputa pelo bem comum, e não apenas um prolongamento do comentário em modo parlamentar.

Voltando ao início: o que se diz num estúdio, repete-se como se fosse filosofia. Mas às vezes não é mais do que uma boa educação mal aplicada. Isso, em política, costuma sair caro.

Analisando a análise do analista

(Tiago Franco, in Facebook, 18/02/2025, Revisão da Estátua)

Saia um camuflado para a Helena! Guerra é mesmo com ela! 🙂

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Dir-me-ão que analisar é uma especialidade ao alcance de poucos iluminados. Eu acho que não. Aliás, se pensarem nisso, não fazemos outra coisa na vida. Desde que acordamos até que nos deitamos, estamos sempre a analisar qualquer coisa.

A estrada mais desimpedida para chegar ao trabalho e fugir ao trânsito. A melhor solução para o problema colocado pelo chefe. Que broca usar para não fazer uma cratera enquanto penduras aquele quadro que está no chão há cinco meses. Como explicar aos miúdos que a vida não segue um roteiro do Netflix. Em que partido votar consoante a história que nos contam. Que parangona de primeira página tem um corpo de notícia que a confirme. Até se aquela casa de banho pública onde entraste no momento de aflição reúne os mínimos olímpicos para o alívio desejado.

Analisar é, perante um conjunto de dados, pensar no seu significado. Mais ou menos elaborado, é isto. Todos conseguimos analisar, uns explicam-se melhor, outros pior. Mas desde que tentemos dizer aquilo que vemos, tudo bem.

A minha carga laboral retira-me o tempo necessário para seguir os passos da atualidade como eu gostaria. Pelas minhas contas assim continuará por mais três anos e, como tal, procuro com a ajuda dos analistas de serviço para ir percebendo o que se passa.

Funcionam, para mim, como aquele resumo dos Maias, das edições Europa-América, que todos usámos para fazer a síntese, o resumo e a ideia geral da obra. Desde que trabalho para os camaradas chineses, esta é a única forma de saber para que lado roda a terra.

O meu método é simples mas moroso. Escolho um canal qualquer e vou ouvindo o que por lá explicam. Se passado algum tempo a realidade bate certo com o que ali dizem, seguimos juntos, como se diz na margem sul. Se vejo que é sempre ao lado, passo ao próximo, seja em que canal for.

Tirando o Rogeiro, o Sousa Tavares e mais dois ou três clássicos da RTP, eu não conhecia qualquer comentador da televisão portuguesa há uns três ou quatro anos. Por exemplo, o Luís Paixão Martins, que é um catedrático da comunicação, apareceu há uns anos num programa de futebol e eu não fazia ideia quem ele era. O mesmo para todos os que aparecem na CNN (conhecia a Anabela dos anos da AR) e da SIC apenas a rapaziada do Governo Sombra ou do Eixo do Mal.

Tentei ouvir uns quantos ao longo dos anos e fui percebendo, como todos nós, quem é que resumia a atualidade e quem é que espalhava “wishful thinking” que, no fundo, acabava por me fazer perder o dobro do tempo com verificação de factos. Se alguém me diz, durante três anos, que a Rússia está quase a colapsar, eu não consigo ouvir essa pessoa mais um minuto que seja. Porque, das duas, uma: ou é profundamente incompetente ou então tenta espalhar desinformação. Nenhum caso é particularmente apelativo.

Há um ror de exemplos de pessoas que, diariamente nas nossas televisões e sob a capa da “análise”, mentem descarada e repetidamente. Em alguns casos é até possível ver que, com o passar dos anos, o discurso vai-se radicalizando e a vergonha desaparecendo. Uma e outra vez dou por mim a ouvir um caderno de intenções próprias, pensamentos ideológicos e tiros que se afastam, em muito, do quotidiano.

Esclareço: eu nada tenho contra uma opinião, uma análise especulativa ou até um pressentimento com base na história e na experiência, do que será o amanhã. Mas por favor, não apliquem a mesma lógica para o que aconteceu ontem. Sobre o passado não dá para especular ou assumir. Os dados existem. Há que, com a melhor das capacidades, tentar explicar o que se passou.

E nada tenho contra quem se engana e assume o erro mas, como saberão, em Portugal, ninguém se engana. É preferível andar anos a vender uma história alucinante do que dizer: “enganei-me”. A nossa credibilidade depende de estarmos sempre certos. Mesmo quando é a fingir.

Zelensky disse que a Ucrânia não estará na conferência de paz. O enviado americano disse o mesmo. Já todos perceberam que a Ucrânia não conta para a discussão. Pois ainda ontem, o Isidro garantia que sem a Ucrânia não haveria conversa.

Do mural do X da HFG – Muita erudição

 Da mesma maneira que, durante a pandemia, a Helena Ferro Gouveia dizia que os não vacinados estavam a colocar as vidas dos outros em perigo ou ainda, ao fim de 10 000 crianças indefesas chacinadas em Gaza, repetia que “Israel tem o direito de se defender”.

 Da mesma forma que o João Marques de Almeida normaliza o Chega sempre que pode, comparando-o ao PCP e ao BE e o Sebastião Bugalho, na versão comentador, analisava sondagens e falava de estratégias eleitorais que raramente tocavam a realidade.

O Rogeiro também caiu nisso, depois de 30 anos de serviço, para nos dizer que os russos andavam descalços e a roubar máquinas de lavar, enquanto um fantasma do ar os arrasava.

Em tempos a Helena também disse que o PCP tinha votado contra o aborto. É um vale tudo desde que largou a DW e entrou no universo Galinha.

A Diana Soller andou por estes caminhos mas, aos poucos, foi moderando o discurso para mais próximo da realidade.

Mais do mural do X da HFG

Enquanto a Helena diz que o Hamas está destruído (o Twitter/X desta senhora é todo um novelo diário de ódio e propaganda), a Diana Soller já diz que está só enfraquecido. Vemo-los em cada sábado a fazer uma prova de força. Com propaganda, é verdade, mas estão lá. Não dá para dizer que foram todos apagados do mapa, pelo menos por enquanto.

E é isto que eu espero que me digam e analisem. O resumo do que aconteceu e o que imaginam que se seguirá. Não quero fretes, agendas ou mentiras em catadupa porque, enquanto espectador, essa merda dá-me um trabalho enorme para perceber a realidade. E falta-me tempo para isso. Tempo e paciência.

Por outro lado, escapa-me o interesse das televisões, que vivem de audiências, em albergar pessoal que, no essencial, estão lá para  criar narrativas alternativas e, pelo que vou vendo, ir arranjando umas colocações nos partidos e nas subvenções públicas. Acho pobre. Uma pessoa que “siga o mundo” através desta malta, forma opinião de uma realidade que não existe e vota também. Aliás, com o mesmíssimo peso de alguém que, de facto, percebe onde acaba a mentira descarada e começa a dúvida razoável. A comunicação social tem um peso importante na nossa formação, enquanto sociedade.

Nos dias que correm, fico-me pelo Daniel Pinéu, Carlos Branco, Tiago André Lopes, entre outros cujos nomes tenho mais dificuldade em guardar. Parecem-me sérios na análise e com conhecimento histórico que ajuda ao enquadramento.

Ela até mandava as filhas para a Ucrânia…

Acabo com um pedido ao CDS do Núncio e ao Chega do Frazão: não precisam lá de uma assessora que domine a geopolítica ao nível do genocídio do bem e do racismo aplicado ao falafel? O discurso já está há muito afinado, gosta de armas e tal como o Gouveia e Melo, também quer invadir umas cenas. Vejam lá isso. Os espectadores, com mais do que três neurónios, agradecem.

Sous le ciel de Paris…

(Por José Gabriel, in Facebook, 17/02/2025, Revisão da Estátua)


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Hoje, os comentadores televisivos têm um prato bem servido: a reunião de Paris, promovida pelo presidente Macron, na qual estiveram dirigentes dos “principais países europeus” – deve ser uma nova organização. Claro que os “explicadores” televisivos, mais ansiosos por servir os donos, começaram as justificações. Curiosamente, nenhum deles manifesta surpresa pela escolha de duvidoso critério – nem a Kallas, com as funções que tem, esteve presente -, pela natureza e fins da reunião, pela autoproclamada legitimidade dos promotores e participantes.

Ouvi – com sacrifício – o comentário do senhor Germano Almeida no canal NOW. Este, ostentando um ar ansioso, quase ofegante, tenta as mais esforçadas piruetas para tudo justificar. Sucederam-se as falsidades e o esforço justificativo, do qual já nem se percebe a razão. É que parece que alguns comentadores, embalados na rotina de recadeiros do sistema, não conseguem vencer a inércia, não acordam para o que de novo os desafia.

Assim, seu Germano explicou que os convidados eram os países que mais contribuíam para a NATO, que cumpriam as percentagens do PIB acordadas – ou impostas. Não é verdade, nem de perto. Dos dez países que mais contribuem, da União Europeia – além do Reino Unido, este em estado de delírio castrense -, só 2 estavam presentes – Polónia e Dinamarca. São os países que fazem fronteira com o “inimigo”, dizia também o “explicador”. É falso. Desses, só esteve um, a Polónia. E, por aí fora. O importante é que os espectadores fiquem com a impressão de que aquilo teve um sentido estratégico subtil, profundo.

Depois, vem o paleio guerreiro, as tropas europeias que vão inundar a Ucrânia de heróis protetores e outros disparates. Quer dizer: esta malta acredita que, após as negociações de paz, nas quais terão um papel de espectadores caladinhos, o governo da Rússia vai permitir que um exército de cachorros de trela curta da NATO armados até aos dentes – os EUA já se pisgaram desse papel, claro –, fique às suas portas.

 A Europaconnosco – a Europa a sério é outra coisa – anda de cabeça perdida. Não havendo “guerra fria”, não havendo “guerra quente”, saia uma “guerre chambre”.

Entretanto, os Germanos deste mundo levam a sério os disparates de um desesperado Zelensky e comentam a eminência de um ataque da Rússia já no próximo ano.

Daquela Rússia que, num dia, está prestes a colapsar economicamente – como esperava Biden e todos os dias prognosticava o Isidro -, e no dia seguinte é uma potência capaz de engolir a Europa num minuto. Num dia está a tirar os chips das máquinas de lavar roupa para pôr nos mísseis, e no dia seguinte tem uma tecnologia capaz de manipular as eleições em todo o mundo. Num dia não consegue avançar e, sequer, retomar Kursk, e no dia seguinte tem 150 mil homens – só? – disponíveis para entrar pela Europa adentro.

Entretanto, ficam muito zangados por Lavrov vir dizer uma coisa óbvia: a Europa não oferece soluções.

E Isto vais ser – está a ser – assim durante todo o dia. Até que, mais pela noite, apareçam os analistas que digam coisas sérias.