Marcelo e o PR

(Carlos Esperança, 29/12/2019)

Há entre Marcelo e o PR a difícil convivência onde é difícil distinguir o comentador e o PR, o zelador do regular funcionamento das instituições e o ‘agitprop’ que as perturba, o garante da laicidade da CRP e o crente, em voo picado, a oscular anelões episcopais.

Marcelo não falha com a selfie a um colecionador de retratos, com o ósculo a um rosto sofredor, uma venera a um peito inchado, uma declaração a jornalistas que o seguem, o afago a um sem-abrigo ou o auxílio à profissional da caridade que exibe as esmolas que distribui.

Marcelo vai a missas de sufrágio, a fogos e inundações, a banhos a praias, fluviais ou de mar, a funerais e tomadas de posse, a imposição de veneras, e faz declarações a todos os jornais, diários ou de parece, canais de rádio e televisão. Diz o que as pessoas querem e gostam, tem respostas para tudo e, se não agradam, tem outras.

O narcisismo de Marcelo colide com a função, o desejo de consideração choca com a compostura e a avidez de poder com a intromissão nas funções do Executivo e pressão ilegítima na vida partidária.

O PR não pode pressionar a viabilização do Orçamento de Estado nem indicar partidos que o devam fazer, “as forças que estiveram na base do apoio ao anterior governo”, e não deve, a cada desastre, censurar o Governo. Apenas lhe cabe dissolver a AR, ouvido o Conselho de Estado, sem recados próprios ou por Conselheiro alheio, se entender que o regular funcionamento das instituições está em risco.

Quando há duas catástrofes guarda uma em agenda, o que não é grave. Grave é ir dizer às populações do Baixo Mondego, ‘isto não é só a natureza, em Lisboa fizeram asneiras’, quando o ministro do Ambiente, alertou – e bem –, para riscos de construção em locais inundáveis, quando 200 milhões de pessoas terão de ser evacuadas neste século, em todo o mundo, pela subida das águas do mar.

La Palice também diria que as cheias no Baixo Mondego são “um problema nacional” que exige soluções …, sem precisão de procurar as soluções que exige a’ “os senhores de Lisboa” que estão “sentados à secretária”, para acrescentar em piedosa emoção que “Só vendo é que se tem a noção daquilo que pela televisão já impressiona”.

Há dias disse que 18 mil milhões de euros para o Estado apoiar o sistema financeiro na última década “não foi uma boa solução”, mas evitou o “colapso da economia nacional”. Afinal, foi má solução ou seria pior o colapso da economia?

Segundo o FROB, do resgate da banca espanhola são já considerados perdidos 45.640 milhões para o Estado do total de fundos injetados, 58.685 milhões de euros, 4,86% do PIB. Se não foi boa solução, seria melhor o colapso da economia espanhola?

O PR tem de afastar-se de Marcelo para acabar com dignidade o mandato. Compreende-se o pungente lamento de quem votou nele.

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Arre …, que é demais!

(Carlos Esperança, in Facebook, 22/12/2017)

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Marcelo estava destinado a ser um PR popular. Depois do antecessor, qualquer um seria melhor e mais estimado. Marcelo acrescentou à sua empatia, a inteligência, a cultura e o brilho académico.

Depois da patética e ressentida posição de Cavaco Silva contra um Governo legítimo, a que não pôde recusar a posse; depois de, na sua falta de cultura democrática e cívica, ter vacilado, ameaçado e difamado os partidos que legitimamente o sustentavam; depois de procurar assustar os mercados internacionais com diatribes anticomunistas, herdadas do salazarismo, Marcelo foi a lufada de ar fresco que pôs termo à crispação do País.

No início do seu mandato, este PR, não podendo fazer diferente, fez o que devia, e fê-lo com verticalidade e inteligência. Todos lhe devemos a conduta exemplar.

Foi esse capital que fez do PR um caso ímpar de popularidade e simpatia, capital que exigiria muito para ser delapidado, embora esteja a esforçar-se.

Marcelo, sabendo que não havia alternativa a um governo do PS, com o apoio do PCP, BE e PEV, promoveu, na defesa dos interesses nacionais, a solidariedade internacional. Agora, temendo pela irrelevância ou desaparecimento do seu partido, por cada êxito do Governo, regressa às catástrofes e parece tornar-se mais agreste à medida que prevê, na futura liderança do PSD, quem seja mais sóbrio nos afetos, sobretudo para com ele.

Não tem uma só palavra para com o caso Tecnoforma, que seria reaberto e contribuiria para a seriedade da utilização das verbas europeias; mantém o silêncio sobre os autarcas venais do PSD, que a revista Visão acusou; nunca referiu a incúria dos municípios nos incêndios cuja responsabilidade só é atribuída ao Governo; cala-se perante eventuais negócios que envolvam bombeiros e nada diz sobre os incendiários que foram filmados pela PJ.

Nem, sequer, divulga os resultados da auditoria que pediu (e anunciou) à gestão dos dinheiros da PR, nos mandatos anteriores.

O comentador semanal de um canal televisivo tornou-se comentador de todos os dias e horas, em todos os canais, de forma seletiva, e, à semelhança do que sucedia na TVI, sem contraditório.

Arre…, que é demais.