Estamos a viver tempos enfeitiçados – tempos em que os nossos dirigentes cometem sempre os mesmos erros dia após dia

(Por Chris Martenson, in a Viagem dos Argonautas, 05/03/2019)

Diz-se que a verdade espelha a ficção. Estou a pensar que isto é o caso cada vez mais comum hoje em dia. Tomemos o filme O dia Enfeitiçado de 1993. Bill Murray acorda todos os dias para viver  exatamente as mesmas circunstâncias diárias e interações interpessoais. Ele revive o mesmo dia, 2 de fevereiro, dia após dia, uma e outra vez.


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Quando os pesadelos parecem reais, é hora de acordar

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 05/03/2019)

Ricardo Paes Mamede

Imaginem um mundo de animais transformados. Porcos com genes humanos, para crescerem depressa. Galinhas com peitos maiores para renderem mais. Humanos que nascem quase sem libido, para diminuir a obsessão pelo sexo.

Nesse mundo a maioria das pessoas lutam todos os dias para sobreviver. Os alimentos escasseiam e têm de ser disputados com bichos estranhos que andam à solta. As catástrofes naturais destruíram grande parte das cidades. Alguns indivíduos vivem fechados em condomínios, protegidos de intrusos por seguranças armados. Aí a vida é tranquila e as necessidades básicas satisfeitas. Lá fora a rua é uma selva, nenhuma vida está garantida.

A queda da natalidade foi a desculpa final para impor uma nova ordem. Há comunidades à parte onde as mulheres férteis servem apenas para procriar. Cada uma pertence a um homem, várias ao mesmo, para assegurar a sobrevivência da espécie. Além das procriadoras, há as educadoras. As outras mulheres são inúteis, não têm lugar nas comunidades protegidas. Quem põe em causa a ordem estabelecida é morto em público, para dar o exemplo.

Se leram Oryx and Crake ou The Handmaid’s Tale, livros de Margaret Atwood (o segundo transformado em série de televisão), reconhecem os mundos que descrevi.

A ficção científica nunca me atraiu e a escritora canadiana não me fez mudar de ideias. Deslumbram-me, claro, as ficções que conseguiram antecipar o futuro, como o submarino de Júlio Verne ou as redes de computadores de Isaac Asimov. Mas por cada previsão acertada existem milhares de seres e máquinas absurdos, que não respeitam as leis da física nem a natureza humana. Salvo exceções, prefiro ler sobre mundos plausíveis, sobre relações que podem ser reais.

Não é só o irrealismo que me afasta. A ficção científica, mesmo quando realista, é muito dada a distopias, como os livros de Atwood que referi. Sociedades disfuncionais, onde tudo o que valorizamos – a liberdade, a segurança, o conforto, a satisfação das necessidades básicas, a beleza, a amizade, a cooperação, a confiança no outro – é posto em causa por condições tecnológicas, ambientais e sociais opressivas. Neste sentido, não gosto de ficção científica como não gosto de filmes de terror. Não tiro prazer da angústia que provocam, muitas das vezes sem outro propósito para além da angústia em si.

Nada disto se aplica a 1984, de Orwell, nem ao Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago. São livros distópicos, sim. E são marcantes, pelo que nos mostram da natureza humana. Fazem-nos pensar no que existe através de mundos imaginários. Até há pouco tempo não incluía Atwood neste grupo de autores. Os mundos que descreve pareciam-me apenas catastrofistas, exagerados para lá do razoável.

Entretanto chegou à presidência dos EUA um homem que nega as alterações climáticas. À presidência do Brasil um defensor de armas para todos. Discursos de ódio emergem até nos lugares onde se julgavam extintos. Pretendentes a líder reclamam castigos de tempos medievais – e ganham votos com isso.

Gente em lugares de topo diz que os meninos devem vestir de azul e as meninas de cor-de-rosa e dedicarem-se à família. As multinacionais testam tecnologias perigosas sem escrutínio. Os ricos levam ao poder quem lhes permite fugir aos impostos. As cidades dividem-se em guetos para pobres e bairros para as elites. Os protestos legítimos são reprimidos com violência e desinformação geral.

De repente apercebi-me de que já estivemos mais longe das distopias de Atwood. O mundo pode ser bem pior do que julgamos. Tudo o que já existe é mais do que um carnaval, mais do que um sonho mau. Temos de estar bem despertos.

Economista e Professor do ISCTE


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A política das catástrofes

(António Guerreiro, in Público, 07/01/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Há cerca de dois meses, a seca estava na ordem do dia, era assunto dos noticiários e até foi difundido um anúncio de iniciativa ministerial a apelar aos cidadãos para que reduzissem o consumo da água. Entretanto, choveram umas pingas, a terra ficou húmida e verdejou um pouco. Foi o suficiente para as preocupações se dissiparem e o assunto deixar de assomar nas vozes públicas. Observando o que se passa no terreno, a situação catastrófica não se atenuou e não devemos esperar por chuva abundante quando o tempo em que ela é mais copiosa já começa a ficar para trás. A não ser que o Governo e demais entidades a quem cabe a tarefa de gerir o Inferno que aí vem tenham substituído os alarmes públicos pela oração à Virgem, a aparente tranquilidade que se vive por esses lados é de uma grande imprudência. Mas não é uma falha pontual: a denegação das questões do clima e a recusa em aceitar a ideia de que entrámos num novo regime climático fazem parte das posições do poder político. Um dos fenómenos da vida política, social e cultural do nosso tempo, em que o espaço público parece tão alargado que todos parecem poder aceder a ele, é o facto de haver grandes zonas de exclusão, onde falta a voz pública e os seus amplificadores. As vítimas principais da seca, as que mais sofrem os seus feitos, são um exemplo desta obliteração.

O sueco Andreas Malm, que escreveu um livro sobre o Antropoceno (o nome que se dá à nova época geológica), reduzindo-o a uma simples máscara ideológica, mobilizou para este campo a análise marxista, às vezes demasiado vulgar, mas com algumas iluminações a que não devemos fechar os olhos. Este geógrafo tenta mostrar que por trás desse “ecrã ideológico” está uma velha oposição com novas roupagens: hoje, diz ele, as classes opõem-se pelo maneira como as transformações do planeta dividem as populações entre as que são apanhadas nas falhas abertas pelos processos geo-tecnológicos, responsáveis pelo novo regime climático, e as que têm meios de se proteger e de evitar zonas de risco. Se a catástrofe seguir o seu curso, como parece inevitável, a médio prazo vai deixar de haver espaços herméticos, protegidos. Não haverá nenhuma green zone. Na perspectiva de Malm, sem antagonismos não é possível qualquer mudança política. Por isso, ele denuncia no conceito de Antropoceno aquilo que nele está ao serviço da narrativa de uma humanidade pirómana em que todos somos culpados, ainda que seja sabido que os dezanove milhões de habitantes do estado de Nova Iorque consomem mais energia do que os novecentos milhões que habitam em toda a África sub-saariana. E, por isso, ele submete à crítica “o mito do Antropoceno” e aponta os “maus usos” e as contradições desse conceito. O que na análise de Malm parece demasiado vulgar e esquemático é a sua insistência numa categoria ideológica e historicamente cristalizada como é a categoria política da classe. O antagonismo de classe precisa hoje de ser substituído por outros antagonismos. Verificámos isso recentemente, com os grandes incêndios de Junho e Outubro.

De repente, emergiu um antagonismo entre o litoral e o interior, e entre as zonas urbanas e as zonas rurais. Ora, a denegação e o silêncio do poder político sobre a catástrofe climática só se consegue manter enquanto esta atravessar os campos, matando toda a vida que neles existe, mas sem afectar fortemente as cidades, para as quais trabalham os institutos meteorológicos e a protecção civil, com os seus divertidos alertas coloridos (do amarelo ao vermelho), como quem conta histórias de fantasmas a gente adulta, mas analfabeta quanto à meteorologia.