A C(l)ara do dono revisitada

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 20/03/2017)

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Embora eu seja filho de um Azevedo, não sou nem nunca fui um tipo azedo, antes pelo contrário! Até sou de bons fígados mas, de vez em quando, perante algumas pessoas e algumas circunstâncias, como qualquer mortal, também me “salta a tampa” e destilo algum fel…

E isso passa-se, por exemplo, com a senhora de quem já falei e vou voltar a falar. Já é recorrente, portanto. Não é fixação coisa nenhuma, mas que que posso eu fazer? Ela, do alto do seu incurável pedantismo, da sua inenarrável sobranceria e da sua insuportável arrogância, insiste em tirar-me do sério. Às vezes até me pergunto o porquê de lhe dar tanta importância e abraçar as dores de outros, mas concluo também que ganhei pela dita um pequeno “ódiozinho de estimação”, como “sói” dizer-se.

Tudo se precipitou em Outubro de 2013, quando o meu Amigo VALTER (Valter Hugo Mãe) lançou o seu romance, sobre a chancela da Porto Editora, “A Desumanização”! Então, por essa altura, ela escreveu um texto na revista Actual, do Expresso, em que espezinhava o VALTER, dizendo, entre outras coisas, ser ele um escritor “sobrevalorizado”! Visto agora ela deve ter inspirado o Trump, não acham?

E, no dia 10 de Outubro desse ano de 2013, escrevi um texto (Ver aqui), um pouco virulento em defesa da honra do VALTER, a quem nem consultei para o escrever.

Nesse texto escrevi uma frase de que ainda me lembro: “Ela não gosta de quem goste de quem ela não gosta. Por isso não gosto dela”. Esta frase concretiza e resume aquilo que dela eu penso e a razão do tal meu “ódiozinho de estimação”, ódiozinho que, como vêem, já vem de longe. Mas porquê? Pelo que já verificaram, mas também porque não suporto lições de moral de pessoas sem espinha dorsal, de quem tem da relação com as pessoas, nomeadamente seus pares, uma relação de interesse e aproveitamento e, por último, por se abalançar a falar de coisas que não conhece, nem nunca deve ter conhecido, como o “Comunismo” ou a “Pobreza”.

Quando ela assumiu sem qualquer pensamento racional ou filosófico o seu “anticomunismo”, que eu acrescento de primário, talvez depois de ter participado, sou levado a crer que a convite do seu “dono”, num daqueles encontros do clube Bilderberg ( e vá-se lá saber porquê…) e escreveu aquele extenso artigo no Expresso, em reacção eu escrevi um texto, em 13-11-2015, que penso que já partilhei e a que chamei de: “A C(l)ara do Dono”, (Ver aqui).

E escrevi este texto porque, mesmo tendo boa bílis, a sua verborreia me deu vómitos tais, que não consegui deixar de os remeter para o papel…

Até que, neste seu último texto, texto este muito celebrado nas redes sociais, a que ela chamou de TÃO FELIZES QUE NÓS ÉRAMOS, a nossa narcisística camaleoa, a propósito daquilo que chamam de “Nova Portugalidade”, ela vem falar da velha portugalidade, como se disso alguma coisa soubesse ou tivesse vivido. Diz ela que “não põe flores nesse velho cemitério”, donde posso concluir que só as poderá colocar no novo. Que frequenta…

Mas que é que ela sabe? Foi para a Faculdade de Direito de Coimbra ali pelo 25 de Abril de 74 e não consta ter participado em coisa alguma. E acerca do antes? Acerca do antes confessou depois que “Cavaco Silva tem o pragmatismo de quem nasceu pobre…!”. Ora esta afirmação diz bem do que ela achava que era a pobreza pois, se Cavaco era filho de um comerciante e gasolineiro e não mandou os filhos para um seminário mas sim para Lisboa e Faro estudarem, era um pobre. Assim sendo, eu e a minha família à altura seríamos o quê? Lúmpen? E ela seria o quê: Condessa? Pois se Cavaco nasceu pobre, a Clara nasceu como? E eu nasci como?

A Clara “vende” opiniões, disse alguém, e, para ela, a “velha portugalidade, resumia-se ao que ela descreveu, como se não houvesse resistência, como se não houvesse quem não se resignasse e contra ela lutasse, quem tivesse dignidade e acreditasse na força do trabalho e na honradez e como se todos os homens fossem bêbados e batessem nas mulheres e, como escreveu, “a fé era a única coisa que as pessoas tinham e se lhes tirassem a religião tinham nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente”.

Tamanha idiotice é difícil de encontrar escrito por qualquer intelectual. Mas esta senhora conhece o mundo. Passa a vida a viajar e já foi a todo o lado. Mas como sabe tudo da “pobreza” ela, por onde anda, vê-a de longe, da alta varanda do hotel de luxo onde, tal qual a outra, se acomoda.

No “Eixo do Bem”, porque agora ali é tudo bem, tudo politicamente correcto, até do processo do Sócrates já formaram opinião, ela incluída. Factos novos, disse ela! Que o juízo público é o de que Sócrates é culpado, acrescentou. Mas parece que se formou em Direito e em Coimbra.

Repito: “Ela não gosta de quem goste de quem ela não gosta” Não me levem a mal, portanto, dela também não gostar.

É, não me levem a mal. É que isto não passa de uma “declaração de amor”…só que ao contrário!


Fonte aqui

ALEGRIA DE VIVER

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 19/03/2016)

Autor

                                         Clara Ferreira Alves

Ao Nicolau Breyner, que sabia viver


Há uma razão para não deixar a Alemanha tomar conta da Europa. Chama-se alegria de viver.

Já estiveram dentro de uma estação de caminho de ferro na Alemanha? A famosa Hauptbahnhof? Olharam para a comida? Desceram às catacumbas e encontraram os despojos do brigadismo alemão e os despojos do movimento punk cobertos de piercings, tachas e botas com esporas? Despojos a que se juntam os junkies e os bêbados e vagabundos crepusculares? Ou o nazi errático com a suástica a sair do músculo? Uma hauptbahnhof só é bem apreciada ao anoitecer e nos recantos subterrâneos. Nunca se viu gente mais infeliz do que esta. E basta olhar para a cara da pobre senhora Merkel, acossada pela extrema-direita, para perceber que a felicidade não reina ali. Agora, olhem para a bem mais modesta estação de caminho de ferro de Bolonha. A Stagione Centrale. Nada a assinalar, pessoas com ar decente, viajantes velhos e novos. Gente composta. No modesto bar da estação, Santa Margherita, encontramos uma variedade gastronómica digna do Fauchon em Paris ou do Dean and DeLuca em Nova Iorque. Sem exagero. E muito mais barata. Numa mesa com cadeiras de plástico de design italiano, uma velhota beberica um copo de vinho tinto, um pequeno copo de vinho tinto, com uma sanduíche de presunto de Parma cor de rosa e transparente. Isto é o cúmulo da civilização. O expresso é perfeito, fazendo morrer o Nespresso num segundo. Não se vê um bêbado. Aliás, com tantos vinhos e tão generosamente bons, é raro encontrar-se um bêbado italiano aos uivos nas ruas. Em compensação, sobram os bêbados da Europa do Norte. Uma viagem em Itália chega para perceber que deviam ser os italianos a mandar na Europa. Eu sei, a trapalhada, as berlusconices e tudo mais, mas não são cínicos como os franceses, nem snobs, têm da melhor paisagem e cultura disponíveis, do mais apurado sentido estético, e uma infinita alegria de viver. Têm livrarias e bibliotecas maravilhosas. E a herança do Umberto Eco, o último intelectual europeu bem encarado. Os italianos são um povo feliz. Na Emilia Romagna, de que Bolonha é a capital, os habitantes têm índices de felicidade comparáveis aos do Butão. Agora, experimentem passar um tempinho em Essen ou em Frankfurt e digam se gostaram. A Itália e a Grécia têm apanhado com a crise dos refugiados em cima e têm tido um comportamento exemplar. Não existe uma rua de Florença, Nápoles, Roma, Bolonha, Milão ou Veneza sem a suprema abundância de africanos a vender malas Prada chinesas. Não existe um beco mal-afamado onde não vagueiem migrantes e refugiados das guerras do Médio Oriente, do Afeganistão e Paquistão, do Norte de África. Nos esconsos da estação central de Roma, a Termini, as máfias de contrabandistas resolveram apadrinhar o tráfico humano e usar os refugiados menores como correios de droga e prostitutos. Existe um grupo constituído apenas por egípcios, quase crianças, que os pais enfiaram nas galeras do Mediterrâneo depois de terem gasto todas as poupanças para os entregar aos contrabandistas. Acham que a Europa os salvará.

E nem vale a pena falar dos líbios e dos sírios.

A Polícia italiana vai desbandando mas no dia seguinte eles reaparecem, e o tráfico continua. Dentro da estação, no bar, calmamente, o cidadão italiano bebe o seu expresso ou o seu Chianti e come o seu tramezzino ou cornetto, lê o seu jornal sem um sobressalto. Lá fora, desde os atentados de Paris, carros militares e soldados com metralhadoras vigiam as estações e os monumentos, as praças e as catedrais, e nem por isso a paisagem se deprime. Existem manifestações pela abertura das fronteiras dos Balcãs aos refugiados. Não existem manifestações noturnas de nazis, não existe uma Aurora Dourada ou uma Marine Le Pen. Existe uma extrema-direita sem expressão eleitoral perigosa. A Itália, que não é rica como a Alemanha, tinha todas as razões para ter a sua Frauke Petra. Os seus “patrióticos” Pegidas. Que não se dariam bem com os seus Corleones.

A alegria de viver ajuda muito. Num país onde a beleza é uma coisa natural, a comida é gostosa, o sol brilha, as pessoas têm menos tendência para o azedume. E ninguém, em Itália, acompanha carne com um litro de cerveja ou bebe uma malga de café com leite por cima do peixe. Há que dizê-lo com frontalidade: os alemães são uns tristes. E já que estamos na sociologia de bolso e no empirismo filosófico, com quem preferia beber um belo Barolo? Comer uma massa tartufata? Com a Frau Merkel, ou com a Frau Frauke, ou com Renzi? Um país que deu à luz a Monica Vitti e o Antonioni não se pode comparar com o país que deu à luz o Rainer Werner Fassbinder e a Dietrich. Olhem para as caras.

A Europa está condenada. A tristeza da Alemanha vai continuar a mandar em todos nós e só pode acabar mal. Estamos tristes e acabaremos tristes. E, quem sabe, nas mãos de gente que não gosta de gente estranha. Nem de viver.

LIKE ME NOT

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 16/01/2016)

Autor

                                 Clara Ferreira Alves

O que (Bowie) quis foi escandalizar os bonzos e dizer a toda a gente que se podia ser gay quando a palavra era proibida. Que se podia ser mulher sendo homem, que se podia ser tudo. Num tempo em que não se podia ser nada.

Existe um lugar onde podemos falar com os mortos. Podemos elogiá-los ou escorraçá-los, dizer que gostamos ou desgostamos deles, mostrar a poética ponta do dedo numa elegia. Chama-se Facebook, esse lugar. São outros tempos. No tempo de Ziggy Stardust, para dar nas vistas bastava ser rebelde, renunciar ao bom comportamento dominante e fazer tudo ao contrário da moral vigente. Hoje, toda a gente quer dar nas vistas. E toda a gente está disposta a fazer tudo, incluindo vender-se e vender a família, para dar nas vistas. E ter um like.

Compreende-se que os millennials não entendam muito bem quem foi David Bowie. Alguém que mudou o século XX, os costumes do século, a moral do pós-guerra, cheia das cintas repressivas e dos soutiens rígidos que as feministas queimaram numa fogueira. Tal como o gesto simbólico das feministas, incompreendido e motivo de anedota, os gestos rebeldes de David Bowie foram muito mal vistos. Ele proclamou-se, historicamente, o primeiro bissexual deste planeta, quando a palavra praticamente ainda não tinha nascido. Pavoneou-se com saltos altos e vestidos de mulher quando a masculinidade era definida por um fato de calça vincada e uma gravata. Inventou o glam rock, a maquilhagem masculina e as cores de cabelo sazonais. Inventou o espalhafato dos anos 70 e 80. E agora, quando as invenções foram apropriadas por toda a gente e se democratizaram, regressou ao fato e gravata, um cavalheiro inglês de maneiras impecáveis. E assim morreu. Longe das luzes e do Instagram. Frequentava um café do Soho, em Nova Iorque, onde ninguém o reconhecia.

A música dele era diferente. Só Lennon e Dylan tinham a mesma intuição da originalidade. Ouvimos as versões originais e as versões de homenagem, como a de Kurt Cobain. Sabemos as letras de cor. Corremos quilómetros ‘Under Pressure’ ou quisemos ser heróis por um dia. Nisto somos todos iguais, e a morte dele estabeleceu uma comunidade universal da tristeza e da admiração que começa em Brian Eno, Mick Jagger e Madonna (sem Bowie não haveria Madonna) e acaba num pequeno funcionário do ofício de viver. Está assente, era um génio imprevisível. E um génio improvável. Por baixo da carapaça de lentejoulas vivia um rapaz dos subúrbios de Londres crescido e educado no sistema britânico. Um rapaz com um cabelo horrível e maus dentes. Dos dentes tratou a fase americana. Ficaram perfeitos. E o cabelo? Não pequeno feito foi transformar o cabelo horrível numa diversidade genética de estilos e cores até o corte assentar na franja elegante e de uma tonalidade loira apurada. O cabelo foi vermelho, foi castanho, foi platinado, foi listrado, foi curto e comprido, foi liso e encaracolado, foi arrumado e espetado. O cabelo foi tudo. A quantidade de mulheres, eu incluída, que perceberam que mudar de cabelo e de cor de cabelo era uma forma de controlar o meio e combater a repressão é infinita. Lady Gaga chegou tarde.

Evidentemente, ninguém estava à espera que este homem morresse. Nesta profissão, ou vocação, ou carreira, ou o que lhe quiserem chamar, morre-se antes dos 30 ou chega-se a velho e comem-se hortaliças, deixa-se de fumar e de beber, anda-se de nutricionista e chefe de cozinha ao pescoço. Ou morre-se cedo, como Amy e Kurt, ou como Lennon, ou morre-se tarde. Com exceção de Keith Richards — esse tem uma dispensa dada pelo diabo. E não se morre de cancro. Não se têm ataques cardíacos. A matilha dos tabloides anda pregada nisto, os “segredos da saúde de David Bowie”. Cambada. Ou a justificar a doença com os “excessos de juventude”, numa pregação moralista que serve aos imbecis. Ora, o homem podia ser um génio mas era mortal, como todos nós. David Bowie teve sempre a suprema inteligência de perceber as limitações dele e as da sua audiência. Não foi apenas um músico, foi um revolucionário e foi um poeta. Era alguém que lia e estudava. Que aprendia. Nenhuma referência nele é descabida ou escolhida à toa. ‘Lazarus’ decidiu o modo como partiria. Levou a família a ver a casa e as ruas da infância, despediu-se de Londres, despediu-se da vida. Compôs a derradeira valsa. Enviou mensagens aos amigos. Cavalheiro até ao fim. Por aí há quem continue agarrado à célebre frase “sou gay”. Nunca acreditei que David Bowie fosse gay, apesar da promiscuidade de género em que ele confessou ter sido feliz, e nada na biografia o indica. O que quis foi escandalizar os bonzos e dizer a toda a gente que se podia ser gay quando a palavra era proibida. Que se podia ser mulher sendo homem, que se podia ser tudo. Num tempo em que não se podia ser nada. Era esse o meu Bowie. O que ousava. O que provocava. O que vinha da galáxia e aterrava num oceano de proibições. Esse Bowie estava-se nas tintas para o like. Take a walk on the wild side. Hoje impera a cultura do like, a likability, como escreveu Bret Easton Ellis. Todos somos obrigados a que gostem de nós.