Os incompetentes comentadores russófobos

(João Gomes, in Facebook, 28/11/2025)


(O autor do texto ainda publicou a fronha de mais sete “especialistas” encartados mas eles são mais que as mães, pelo que seria estultícia publicar a galeria completa. Fiquemo-nos, pois, por estes.

Estátua de Sal, 29/11/2025)


Durante quase quatro anos, os comentadores portugueses – aqueles mesmos que aparecem religiosamente entre as oito e as onze da noite, com gravata escolhida a dedo e uma “expertise” que ninguém sabe bem de onde veio – garantiram-nos que a Rússia estava em colapso iminente, que a Ucrânia desfilava rumo à vitória e que Zelensky era, basicamente, uma mistura de Churchill com Mandela, mas com t-shirt verde.

E nós, humildes espectadores, assistimos dia após dia a esta catedral de certezas: que o exército russo estava prestes a desertar, que Putin governava um país em ruínas, que a NATO jamais vacilaria, e que a Ucrânia . oh, doce Ucrânia . estava apenas a preparar o ataque final que, a julgar pelas descrições, faria Napoleão corar de inveja.

Mas eis que, de repente, cai a máscara. A notícia de que o “braço direito” de Zelensky pediu a demissão devido a suspeitas de corrupção deixou os nossos comentadores numa espécie de torpor existencial. A expressão deles não engana: é a mesma de um aluno que estudou por apontamentos errados e descobre, no dia do exame, que a matéria afinal não era “propaganda geopolítica para totós”.

A seguir, chega a bomba: Trump prepara-se para reconhecer o Donbass e a Crimeia como territórios russos. As câmaras apanharam tudo – o engolir em seco, o piscar de olhos acelerado, o rearranjar da coluna vertebral. O comentário habitual, outrora robusto e cheio de testosterona atlântico-centrada, tornou-se um lamento quase poético: Isto muda tudo… É preocupante…Quem diria que a realidade era afinal… real?

Quem diria, de facto. Aqueles que nos garantiram durante anos que “a Rússia vai perder amanhã”, agora declaram com um ar de funeral que “é preciso repensar estratégias.” Os mesmos que juravam que Zelensky era o líder mais íntegro da Europa descobrem, num súbito ato de revelação divina, que afinal a Ucrânia sempre teve um pequeno problema chamada… corrupção sistémica. Pequeno, claro, do tamanho de cinco ou seis ministérios inteiros.

E é aqui que começa a verdadeira ironia: Depois de quatro anos a fabricar análises que fariam corar um aluno de geopolítica do 1.º semestre, os comentadores televisivos autoproclamados especialistas estão agora a olhar para o ecrã como crianças a quem tiraram o brinquedo novo. Resta-lhes o pião de madeira – aquele objeto humilde que não precisa de baterias, guerras por procuração ou delírios narrativos.

O pião e a corda. A única ferramenta que lhes sobra para tentar girar a narrativa estilhaçada, como quem tenta animar um cadáver discursivo. E há, de facto, algo quase comovente nesta súbita “conversão”: os mesmos que chamavam “putinistas”, “extremistas” ou “inocentes úteis” a quem ousasse questionar a narrativa oficial, agora dizem – com ar muito sério – que o Ocidente talvez tenha “interpretado mal a realidade no terreno”.

Oh, brilhantes profetas. A crónica da guerra sempre foi mais complexa do que o conto de fadas que nos venderam. A Rússia não colapsou. A Ucrânia não era uma democracia nórdica enxertada em terra eslava. O apoio ocidental não era infinito. E Zelensky não governava um país-modelo, mas sim um Estado capturado por oligarquias, interesses privados e redes de corrupção que vêm desde 1991. Nada disto era propriamente segredo. Era apenas inconveniente.

Agora, confrontados com uma viragem real – e não a desejada – os comentadores tentam reinventar-se em direto. Não é bonito de ver, mas é revelador: quando a narrativa cai, não sobra análise; sobra desconforto. E talvez – só talvez – um pouco de vergonha.

Mas não esperemos milagres. Dentro de dias, os “incompetentes comentadores russófobos” voltarão com novas certezas, novos slogans, novas ficções polidas. Afinal, a televisão precisa de ruído. E eles precisam de trabalho. A realidade? Essa, como sempre, fica para quem a quer ver.

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Ponto de situação em Kiev

(João Gomes, in Facebook, 20/11/2025)


Nos últimos dias, circulam nos corredores diplomáticos e nos jornais internacionais relatos sobre o chamado “plano de 28 pontos” atribuído a Trump. Segundo essas versões, o documento indicaria que os EUA estariam dispostos a reconhecer formalmente a Crimeia e o Donbass como território russo, enquanto Kiev seria pressionada a aceitar concessões territoriais e políticas profundas, mantendo, na prática, a configuração atual do poder e limitando significativamente o seu espaço estratégico.

O plano exige da Ucrânia concessões máximas: ceder toda a parte ocidental do Donbass, aceitar a demilitarização de certas linhas de frente, limitar o tamanho e o alcance das suas forças armadas e permitir que o russo seja reconhecido como língua oficial em algumas áreas. Qatar e Turquia aparecem como mediadores potenciais, e as garantias de segurança para Kiev e para a Europa estariam condicionadas a essas concessões.

Segundo algumas interpretações de jornalistas, como Oliver Carroll, o documento prevê a proibição de tropas estrangeiras no território ucraniano e limitações severas nas armas de longo alcance. Além disso, o escândalo de corrupção interna que abalou a Ucrânia nas últimas semanas intensifica a pressão sobre Kiev, criando um ambiente em que os Estados Unidos parecem tentar forçar uma decisão rápida.

Curiosamente, Zelensky ainda não teve acesso completo ao plano. Esteve recentemente na Turquia, reunido com o presidente Erdoğan, e uma reunião prevista com Vítkov, emissário ligado à administração americana, foi cancelada no último momento. Hoje, porém, espera-se que Zelensky se pronuncie oficialmente sobre a proposta, numa reunião com altos oficiais militares e representantes diplomáticos dos EUA em Kiev, que depois seguirão para Moscovo.

Enquanto isso, a Rada – o parlamento ucraniano – interrompeu temporariamente algumas das suas atividades. Esta suspensão parcial não é definitiva, mas estratégica: destina-se a analisar e ponderar os próximos passos frente aos recentes escândalos de corrupção e às consequências das demissões ministeriais. O parlamento enfrenta agora a complexa tarefa de decidir caminhos institucionais para sair do impasse político, podendo eventualmente preparar condições para um governo temporário que organize o país e garanta a continuidade administrativa durante a crise.

Tudo isso revela um quadro de extrema tensão política: Zelensky terá de tomar uma decisão crucial sobre aceitar ou rejeitar o plano americano, enquanto a Rada tenta preservar a legalidade, organizar o Estado e lidar com a corrupção. O drama desenrola-se em paralelo às linhas de combate, onde milhares de soldados ucranianos permanecem determinados a lutar, não aceitando passivamente quaisquer acordos que considerem injustos.

O país encontra-se, assim, entre a espada e a parede: negociações internacionais que exigem compromissos dolorosos, uma liderança presidencial pressionada por escolhas decisivas e um parlamento que precisa equilibrar legitimidade, estabilidade e combate à corrupção.

Os próximos dias serão decisivos – não apenas para Zelensky, mas para toda a Ucrânia, que se debate entre a diplomacia, a lei e a guerra.

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Alemanha – a raiz do disparate

(João Gomes, in Facebook, 15/11/2025)


Alemanha – esse gigante educado que, no silêncio das conferências orçamentais e das reuniões noturnas, resolveu praticar um gesto de generosidade tão monumental como um suíço a distribuir relógios: prometer verbas colossais para uma guerra que já se arrasta há anos. Dizem-nos que o parlamento – depois de horas de negociações que terminam quando a cidade já cheira a pão velho – engordou a conta para Kiev até aos €11,5 mil milhões, com mais €3 mil milhões empurrados para o dossier “defesa”. Não é pequeno; é um número que brilha no papel como um troféu fiscal.

É comovente: uma potência com sinais evidentes de cansaço económico, que conversa com os ratings e conta recessões como quem conta moscas no verão, decide que a cura para todos os males é atirar dinheiro – muito dinheiro – para o teatro militar. “Vamos gastar milhões para salvar a paz”, proclama-se, como se as frases se pudessem trocar por diplomacia. E enquanto se escreve cheques, bombas continuam a cair noutros sítios – noites de drones e mísseis que fazem os noticiários parecerem guias de turismo para o inferno.

Há uma ironia que cheira a couro novo: um país que rasgou regras orçamentais, suspendeu freios e prometeu «ser o pilar da Europa», esquece-se de perguntar o que preferem os cidadãos: mais tanques ou mais hospitais? Mais Patriot’s que ninguém vê, ou mais escolas com ciência decente e transportes que funcionem sem drama? Não é que as despesas de defesa sejam por si más – mas quando a conta é servida com ares de liturgia, enquanto se declaram “prioridades estratégicas”, parece antes um jogo de cena para embalar vontades políticas.

E o resultado prático? Uma União Europeia cada vez mais empenhada em provar que não cederá – o que é, politicamente, uma espécie de heroísmo por decreto – enquanto a economia real coça os olhos e pergunta: «Alguém já consultou o tal do mercado, o trabalhador, o pequeno empresário?». A retórica europeia transforma-se em eco: quanto mais se invoca a defesa dos valores, mais se renovam os instrumentos de guerra e menos se investe nas vias diplomáticas que poderiam, talvez, arrancar o conflito desse círculo vicioso.

Pior: cada euro desembolsado assim dá também munição às falácias. Há quem proclame que a continuidade do financiamento é prova de coragem; há quem veja nisso a confissão íntima de que a diplomacia falhou – ou foi sequer tentada a sério? O gesto colossal de financiar o prolongamento do combate serve tão bem para confortar aliados quanto para adiar as perguntas incómodas: quando se acaba a guerra? Quem paga a factura social que fica depois das sirenes? Quem reconstrói aquilo que as bombas desmantelaram?

No fim, a imagem é quase lírica: a Alemanha, de rastos económicos, vende ao mundo uma imagem de robustez militar – um colosso que caminha com muletas de euro; uma Europa que brandindo cheques convive com a promessa de que, assim que se gastar o suficiente, tudo se resolve. É uma fé cara, vendida em prestações. E se a raiz do disparate fosse só folclore político, poderíamos rir. Mas não: o disparate tem recibos, e alguém, um dia, terá de os reconhecer.

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