Antes de responder perante Deus, um padre abusador responde perante a lei. E a Igreja cúmplice também

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 12/10/2021)

Daniel Oliveira

Mais de 200 mil menores foram, entre 1950 e 2020, abusados por dois mil padres. Incluindo leigos, são 330 mil. Foi a cultura de segredo e de casta que alimentou a impunidade e o crime continuado. E é por causa dela que a culpa perante todas as vítimas não é apenas dos abusadores, mas de toda a instituição. A sociedade não tem de esperar por reformas da Igreja para que os abusadores que ela protege sejam punidos.


Mais de 200 mil menores que estiveram sob a responsabilidade da Igreja francesa foram, entre 1950 e 2020, abusados sexualmente por dois mil padres e outros membros da hierarquia católica. No total, incluindo abusos cometidos por membros do clero e por leigos, são 330 mil vítimas e 2900 a 3200 abusadores. Não estamos a falar de casos isolados, excecionais, mas de uma violação em massa de menores. De uma cultura instalada. Se não uma cultura de abuso, uma cultura de silêncio e cumplicidade. Como escreveram os autores do relatório da comissão independente que investigou, durante três anos, denúncias de maus-tratos e violações na Igreja Católica francesa, falamos de “uma indiferença profunda, total e até mesmo cruel” por parte da igreja francesa.

A minha primeira reação a estes números é a de qualquer português: o que tem a Igreja católica portuguesa de extraordinário para que não se conheçam casos por cá? Tomou as medidas necessárias para que tal não sucedesse ou as medidas necessárias para que tal continuasse escondido? Ou vivemos numa sociedade demasiado temerosa para fazer investigar, fazer perguntas e tirar os nossos bispos da paz podre em que ainda se mantêm, longe de todas as mudanças a que assistimos no mundo ocidental? Neste momento, o que tenho a fazer é um elogio à coragem que existe em França e falta por cá.

Há, do meu ponto de vista, razões profundas para que isto aconteça com tanta intensidade na Igreja Católica. A relação dos padres com a sua própria vida sexual, a repressão violenta desse instinto humano, ajudará a explicar alguns comportamentos desviantes. Para o saber, seria preciso que a própria Igreja estivesse disposta a abrir um debate interno sobre a castidade celibatária, os seus efeitos psicológicos e as suas justificações religiosas. Nem o Papa Francisco, um exemplo raro de coragem no Vaticano, está em condições de iniciar essa mudança.

Mas o essencial é mesmo a cultura de segredo e de casta, que faz a Igreja acreditar que se regula a si mesma independentemente das leis dos homens. Foi isto que alimentou a impunidade e o crime continuado. E é por causa dela que a culpa perante todas as vítimas não é apenas dos abusadores, mas de toda a instituição. Nenhuma organização é responsável pelos crimes dos que dela fazem parte, todas são responsáveis pela proteção que dão a criminosos, oferecendo-lhes a impunidade que serve de exemplo.

Não vou entrar no debate começado por esta comissão sobre uma revisão do segredo da confissão, que levou o presidente da Conferência Episcopal francesa, Eric de Moulins-Beaufort, a defender que o segredo da confissão “é mais forte do que as leis” e o porta-voz do governo, Gabriel Attal, a responder que “nada é mais forte que as leis da República”. Todo o debate sobre o sigilo é complexo, envolve outras atividades – médicos, advogados ou jornalistas – e não deve ser aligeirado ao sabor de cada indignação, por mais forte e justificada que ela seja.

Os limites da liberdade religiosa são, eles próprios difíceis – só quando envolvem religiões minoritárias costumam ser simplificados, porque a maioria não se sente afetada. Não é porque este debate não seja relevante que me furto por agora a ele. É porque estamos a pôr o carro à frente dos bois. O problema não foi o segredo da confissão, foi a sua utilização por parte da hierarquia para ter uma razão formal para fingir que não sabia o que sabia. As informações que tinha nunca impediram a Igreja de mudar um padre de paróquia, quando a coisa se tornava mais evidente. Nunca impediram que lhe chegassem queixas de fiéis e vítimas. Só a impediu de entregar os criminosos às autoridades. O segredo só existia para fora da Igreja. Para proteger a própria Igreja.

Não é que o segredo da confissão esteja em cima da lei, é a própria Igreja que se julga acima da lei. Acha que a sua lei substitui a lei do Estado. Que é ela que a aplica perante crimes comuns. Que o clero continua a ser uma casta à parte, em sociedades laicas. E que os fieis lhe pertencem.

Um padre abusador pode responder perante Deus e perante a sua Igreja. Esse é um assunto da sua consciência da estrutura onde se integra. Mas, perante as vítimas e a sociedade, é à justiça do Estado que responde. Porque aqueles de quem abusaram não abdicaram (nem podem abdicar) dos direitos de cidadania no dia em que entraram numa Igreja.

A sociedade não tem de esperar por reformas da Igreja para que os abusadores que ela protege sejam punidos. E é por isso que, para além dos abusadores, todos os que sabem dos abusos e protegem os abusadores são cúmplices do crime. Como isto se coaduna com o segredo da confissão? Isso é uma questão que a própria Igreja terá de resolver. O que o segredo da confissão não pode ser é um alibi para uma proteção institucional, estrutural e sistemática de abusos em massa. Porque isso nada tem a ver com liberdade religiosa. A sincera vergonha do Papa Francisco não chega. É preciso que ela se transforme em redenção, através de uma mudança radical de cultura e procedimentos.


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Carta ao Prof. Aníbal Cavaco Silva

(Ascenso Simões, in Expresso Diário, 11/10/2021)

Senhor Professor,

Deve haver, nos tempos que correm, poucos portugueses que, como eu, estudem, de forma cuidada, todos os seus escritos. Faço-o por lhe reconhecer um papel determinante na construção do país que somos, em tudo o que temos de bom e no muito que temos de mau.

Uma das coisas que os portugueses ainda estão distantes de outros povos europeus é no seu permanente lamento, na visão liliputiana da vida, uma amargura permanente que lhes impõe uma certa negatividade na leitura do hoje e na perspetiva do amanhã.

O texto que publicou na última edição do Expresso é, para mim, um exemplo de tudo o que de mau os portugueses têm, uma vocação para identificarem os erros passados, por vezes autojustificando-se, sem uma ideia, uma proposta que seja válida e que não resulte de modelos gastos.

V. Exa. esteve no governo no início da década de 1980. Voltou, como primeiro-ministro, entre 1985 e 1995, e exerceu a magistratura cimeira entre 1996 e 2006. Nenhum português poderá negar-lhe a responsabilidade de muitos dos nossos insucessos, a paternidade do nosso atraso.

No texto do passado sábado dá-se como vitorioso no facto de, na década de 1990, termos suplantado a Grécia e termos deixado de ser a lanterna vermelha. Saberá que ainda hoje não somos a lanterna vermelha, mesmo que, pelo seu recalcitramento, pareça ter saudades desse posto que poderia servir, como uma luva, para comprovar a sua teoria do caos.

Indica que Portugal estacionou a partir do início deste século. Não desconhecerá o impacto que a Moeda Única teve na nossa competitividade, mas deveria saber que foi mais danoso para o nosso crescimento o facto de, com os seus governos, termos estacionado nas exportações, termos perdido competências e capital em muitos setores e não nos termos preparado convenientemente para o mercado global que se anunciava. Nem a AutoEuropa o salvará.

Pode criticar o facto de, com os governos do PS termos assumido um crescimento com base no gasto público, mas não nega que os seus governos foram os campeões do gasto público e da desorçamentação.

O impacto dos alargamentos da União Europeia aparece no seu texto como sendo responsabilidade dos governos socialistas. Delirante, Senhor Professor. E diz que alguns dos países de Leste têm hoje crescimentos que ameaçam a posição relativa de Portugal no contexto europeu.

V. Exa. esteve no governo no início da década de 1980. Voltou, como primeiro-ministro, entre 1985 e 1995, e exerceu a magistratura cimeira entre 1996 e 2006. Nenhum português poderá negar-lhe a responsabilidade de muitos dos nossos insucessos, a paternidade do nosso atraso.

Regresso aos seus governos. O que fizeram pelo retorno e afirmação do ensino profissional desmantelado nos anos seguintes ao 25 de Abril? O que fizeram pela qualificação das empresas ao nível da gestão? O que fizeram ao nível das políticas de concentração das pequenas unidades sem capacidade de se afirmarem nos mercados internacionais? E, já agora, o que fizeram os seus governos das recomendações de Porter, sabendo-se que as medidas estruturais só se podem confirmar nos médio e longo prazos?

A apreciação de V. Exa. é atravessada por erros históricos graves que não podem ser permitidos a uma personalidade da sua dimensão. Diz: “Deixando de lado Grécia, cujo governo caiu, em janeiro de 2015, nas mãos de um partido de extrema-esquerda semelhante ao Bloco de Esquerda, que arruinou a economia do país…”.

Recomendava-se uma melhor sustentação para classificar o Syriza como partido da extrema-esquerda no exercício da sua governação, mas não pode V. Exa. negar que a crise económica foi provocada pelo Nova Democracia, partido que deverá conhecer bem por ser irmão do PSD, caiu nos braços do PASOK que não teve engenho para martirizar quem havida criado essa mesma crise e, depois da intervenção externa, é ao Syriza que cumpre fazer a política de austeridade e de normalização.

Passa depois para a extraordinária observação de que o empobrecimento do país implica salário baixos. V. Exa. alinha pelo critério dos que negam, partindo de uma base 100 em 2000, que houve, com exceção de 2020, um profundo afastamento da produtividade, para melhor, quando comparamos com o aumento dos salários. E também nega a realidade do SNS, difícil, com os seus problemas de rede e os ataques que os privados lhe fazem todos os dias, que esteve à altura do melhor que tivemos na Europa perante a pandemia que nos assola.

Refazer a história é arte de artífices menores. Sabe V. Exa. as circunstâncias em que Portugal pediu ajuda em 2011, os impactos da crise de 2008. Mas, nessa altura, ficou pela calada com medo da reeleição, elogiou até o líder do governo da altura. E também sabe que a redução de salários, o aumento do tempo de trabalho, as medidas de restrição nos apoios sociais, o congelamento das pensões, não só não levaram ao resultado previsto como aprofundaram a crise. Não há, nos nossos dias, economista criterioso que não indique os erros da UE na resolução da crise de 2008 e nos planos de austeridade que determinou.

V. Exa. não confirma a “chegada do diabo” que se anunciava em 2016. Mas mostra-se pesaroso pelo seu não aparecimento. Até à pandemia Portugal minorava o desemprego, criava emprego, reduzia o défice e a dívida, melhorava no peso da dívida, melhorava salários e pensões. Uma chatice, afinal tudo devia ter dado para o torto.

Para antecipar o insucesso das políticas do atual governo, e dos seguintes, porque não acredito que sejam os socialistas a gerir todos os dinheiros de Bruxelas até ao final da década, vai V. Exa. proclamando urbi et orbi que será uma desgraça, afirma até que a maioria dos economistas tem asseverado que Portugal continuará a decair par a cauda da zona euro.

Não sabendo eu com que economistas V. Exa. fala, talvez os que desgraçaram a banca, as commodities, o mercado de valores ou o imobiliário, sempre direi que se impunha a apresentação de cinco, pelo menos cinco, medidas concretas para a reforma do Estado que sempre reivindica. Não podemos esquecer que o Estado que temos é, na sua grandeza, fruto dos seus governos, que os impactos da segurança social que ainda vamos ter resulta das reformas antecipadas e das valorizações de carreiras que os seus governos concederam para atingirem as duas maiorias absolutas.

Por último, V. Exa. entra pela qualidade da nossa democracia. É aqui que o Senhor Professor não consegue convencer um só português. As exigências da democracia nunca foram prioridade na sua visão do mundo nem na sua ação política.

Portugal está hoje no top five da qualidade da democracia, da liberdade e imprensa e na segurança pública. É uma chatice que estas posições se tenham consagrado com os governos do PS.

Não esqueço, porém, o nascimento, em Belém, de uma intentona contra o PS e contra o Governo do PS. Urdida pelos seus mais próximos, com a ajuda de um órgão de comunicação relevante, preenche o que de mais negro se viu na relação institucional. E é também com espanto que olho as considerações de V. Exa. quando me lembro de uma comunicação ao país absorta a propósito de uma pequena questão que resultava do aprofundamento da autonomia regional dos Açores.

Para se falar em democracia importa que façamos o nosso mea culpa. Vejo que em todos os pontos do artigo que nos fez chegar se negou a um ato de contrição.

Com o maior respeito institucional,

Ascenso Simões

Deputado do Partido Socialista.


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“O que está a acontecer no mundo não é só profundamente imoral, mas também suicida”

(Entrevista a Noam Chomsky, in Diário de Notícias, 09/10/2021 )

Teórico da linguagem, pensador polémico, Noam Chomsky acaba de publicar Um guia essencial sobre capitalismo, política e o funcionamento do mundo. Na entrevista à TSF e DN fala de vacinação, clivagens políticas, Afeganistão e alterações climáticas.


Acredita que os países ricos estão dispostos a assumir as suas responsabilidades e ajudar a fornecer o que o mundo em desenvolvimento ainda precisa em termos de vacinação?
É um escândalo e também é suicida. Os países ricos praticamente monopolizaram a vacina. Tem havido alguns esforços para distribuí-la aos países que precisam dela desesperadamente. Na África, Ásia, América Latina. Não só monopolizaram as vacinas, mas insistem em que as taxas de lucro exorbitantes das empresas farmacêuticas sejam protegidas pelos chamados acordos de livre comércio altamente protecionistas. O que está a acontecer não é apenas profundamente imoral, mas também suicida. Todos entendem que quanto mais tempo levar para o resto do mundo ser vacinado, mais tempo há para o vírus se transformar em variantes que serão incontroláveis, que irão, claro, voltar aos próprios países ricos, como foi com a variante Delta. É um exemplo de como a ganância e a estupidez superam não apenas os valores morais elementares, mas mesmo um sentido de auto-preservação. Agora, há um forte movimento anti-vacinação que, nos EUA, é localizado. De forma esmagadora, nos estados republicanos, praticamente na velha confederação e em alguns estados do noroeste, há uma oposição muito forte à vacinação. E os hospitais estão lotados com quase 100% de pacientes não vacinados. Estão a morrer e dizem “não quero uma vacina, não vou deixar o governo fazer isso comigo”. Sabe, é maníaco, doentio, até alguns segmentos da esquerda são apanhados nisso. Mas a maioria dos republicanos dizem que, simplesmente, não serão vacinados.

Isso relaciona-se com as clivagens e a polarização na política americana atual. Vê-as como uma ameaça importante para a democracia dos EUA?
Bem, a democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa. Cuidados de saúde universais dificilmente radicais, ensino superior gratuito, creches, isto é, as coisas normais na maior parte do mundo mas que nos Estados Unidos são consideradas radicais. Os republicanos são totalmente contra.

“A democracia dos EUA está moribunda, está de partida. Podemos ver isso no Congresso agora que está a debater a legislação que levaria os Estados Unidos, em alguma medida, na direção de social-democracia que é normal na Europa.”

Pensa que um Partido Republicano orientado e controlado pelo ex-presidente Trump pode ganhar as eleições intercalares do próximo ano e voltar ao poder na Casa Branca em 2024?
É muito provável. E se o fizerem, o mundo estará em grande perigo. Eles sabem que são um partido minoritário e que não podem ganhar eleições livres. Portanto, têm uma estratégia que passa por reduzir os direitos de voto. Em praticamente todos os estados republicanos estão a impor novas leis que tornam mais difícil o voto de eleitores que tendem a ser democratas, tornam mais difícil para que votem as minorias, os pobres, os trabalhadores, as populações urbanas e assim por diante. Dessa forma, aumentam o poder da base republicana, da direita, da supremacia branca, do nacionalista cristão, do tradicional. A outra tática é desviar a atenção das questões económicas e de classe, onde os republicanos estão muito à direita e a esfaquear os seus próprios eleitores pelas costas, desviando a atenção para as chamadas questões culturais. Concentram-se nisso, ou no aborto, ou em garantir que todos tenham um arsenal de fuzis na garagem, qualquer coisa menos a classe e as questões económicas. Isso faz sentido para um partido totalmente leal aos super-ricos e ao setor corporativo. Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas. Uma terceira parte da estratégia, que é muito aberta e explícita, é fazer com que o país sofra o máximo possível. Se ler os projetos agora no Congresso: seguro-desemprego, creche, uma ajudinha de saúde para o escandaloso sistema de saúde dos Estados Unidos, tudo isso seria muito benéfico para a população. São medidas muito populares, mesmo entre os eleitores republicanos. Mas Trump precisa ter a certeza de que não serão aprovadas. Porque se o país sofrer o suficiente e for ingovernável, eles podem culpar os democratas e voltar ao poder. Algumas das coisas com as quais os republicanos se safam são quase cómicas, como a retirada do Afeganistão, planeada por Trump. Fez um acordo com os talibãs, sem sequer notificar o governo afegão, que era “vocês podem fazer o que quiserem, assumir aquilo. Sem condições. Nós retiramos as tropas. A única condição é não dispararem contra as tropas americanas que vão embora. Fora isso, façam o que quiserem”. Foi uma traição total.

Na Economist, há algumas semanas , o senhor escreveu que os EUA permanecem sem rival em força militar e económica, mas com terríveis consequências para o mundo. Porquê?
Há uma luta em curso, que é muito mal compreendida pela imprensa. É, sobretudo, uma questão de liberdade de navegação. São questões relacionadas com o direito do mar. Há uma disposição que estipula que os países têm uma zona económica exclusiva de 200 milhas, a partir da costa. Agora, a questão da liberdade de navegação com a China está nesse ponto. Os EUA não assinaram a Lei do Mar, nem a ratificaram, mas insistem que a liberdade do direito do mar permite ações militares e de inteligência dentro da zona económica exclusiva. A China aceita a liberdade de navegação, mas sem nenhuma ação militar e de inteligência. É aí que está o conflito que, certamente, pode ser resolvido por diplomacia e negociações, mas os EUA querem resolvê-lo enviando uma armada de navios de guerra para as zonas contestadas da China. Ao mesmo tempo, enviam uma frota de submarinos nucleares avançados para a Austrália, que a Austrália vai pagar, mas que estarão sob o comando americano. Ao fazer isso, deram um pontapé na cara à França. E a Austrália é que teve que lidar com a França, que ficou certamente muito chateada e chamou os seus embaixadores na Austrália e nos EUA. Não se preocuparam com a Inglaterra, porque reconhecem que a Inglaterra é apenas um estado vassalo dos EUA, não um país independente. O principal correspondente militar australiano fez uma análise detalhada do caráter grotesco do negócio e como põe a Austrália em perigo. Mas isso não chega à imprensa ocidental, aqui é um acordo maravilhoso.

“Pode ver isso dramaticamente com Trump, um homem com uma autoconfiança brilhante, ele poderia levantar-se, com uma mão dizer, “eu amo-te e trabalho para ti”; e, com a outra mão, apunhalar-te pelas costas.”

No caso do Afeganistão, o senhor é dos que pensa que invadir foi uma opção má, e que a retirada foi provavelmente ainda pior. E agora? Acha que este novo governo talibã, pode ser melhor para o povo afegão do que o que houve entre 1996 e 2001?
Bem, a traição de Trump ao povo afegão e ao governo afegão foi severa. O acordo que ele fez com os talibãs, de lhes entregar o país, foi uma decisão para maio de 2021, o início da temporada de combates. Foi o pior momento possível, não havia oportunidade para acomodações ou qualquer outro arranjo. Bem, Biden tentou torná-lo um pouco melhor, acrescentou algumas condições que Trump não havia adicionado. Era óbvio que o governo afegão estava afundando, não era apenas um atoleiro de corrupção, mas sim um colapso completo. Era bastante óbvio que o exército afegão entraria em colapso. Eles não têm nada para lutar, os soldados estão lá, mas não são pagos. Por que deveriam lutar pelo poder estrangeiro? O colapso era óbvio. As únicas pessoas que não entenderam isso foram as agências de serviços secretos. Eles sabem exatamente o que está a acontecer e fornecem relatórios precisos. Mas, à medida que esses filtros sobem na cadeia de comando, são modificados de acordo com o que as pessoas no topo desejam ouvir. Quando chega ao poder executivo, eles não têm nenhuma relação com o que está a acontecer. Há um longo historial disso. Os serviços secretos no terreno são muito eficientes. Mas o sistema leva a uma grande confusão no topo. Era bastante óbvio que o exército afegão não resistiria; que o chamado governo afegão, com uma corrupção massiva no seu interior, entraria em colapso imediatamente. E foi o que aconteceu.

“China, Rússia, os estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia.”

O que podemos esperar destes talibãs 2.0?
Bem, há uma divisão entre os poderes que podem lidar com isso. China, Rússia, os Estados da Ásia Central querem tentar trabalhar com os talibãs para tentar melhorar a situação e ver se os podem mover numa direção mais moderada. Isso teve a oposição de dois países, os EUA e a Índia. Nas reuniões da Organização do Conselho de Cooperação de Xangai, a Índia esteve sozinha e opôs-se aos esforços dos demais países para caminhar nessa direção. O Tesouro dos EUA detém os recursos financeiros do governo afegão. Os EUA congelam esses recursos e pressionam o FMI e o Banco Mundial para reter os financiamentos. O povo afegão está a sofrer muito: enfrentam fome massiva e destruição do país. E é aí que estamos. A China liderou os esforços das potências regionais, são os que estão a seguir a política certa. Os talibãs estão no comando, é um facto, são o governo em funções. Há muitas coisas que são muito más neles mas também há coisas muito más vindas de outros governos. O povo afegão deve ser a nossa preocupação. E a forma de ajudar é exatamente trabalhar com os talibãs, tentar induzi-los a tornarem-se mais inclusivos, menos repressivos, fazer com que mudem a economia baseada na produção de ópio, para o desenvolvimento dos seus próprios ricos recursos minerais, tentar estabelecer projetos de desenvolvimento, para ver se gradualmente podem ser incorporados no sistema regional, o que provavelmente significará incorporarem-se na Organização de Cooperação de Xangai. Bem, os EUA estão ocupados a tentar intimidar todos e a mostrar a sua força. A China está a mover-se discretamente para integrar a Ásia Central, partes da África, até mesmo a orientar-se para a América Latina e integrá-los numa espécie de sistema económico com base na China. Não são pessoas simpáticas que o estejam a fazer por motivos de caridade. Estão a fazer isso por razões de poder.

Estamos a menos de um mês da Conferência do Clima COP 26 em Glasgow, e o secretário-geral da ONU disse recentemente que o mundo deve acordar, estamos à beira do abismo e a mover-nos na direção errada. O senhor escreveu um livro com Robert Poland, em que afirma que devemos ter um Novo Acordo Verde Global, Global Green New Deal. Como é que deve ser esse acordo?
Temos ideias detalhadas explícitas nesse livro. São propostas viáveis para reduzir o uso de combustíveis fósseis de petróleo todos os anos, até atingirmos as emissões zero por volta de meados do século, empregando meios para produzir energia melhor, sustentável e mais barata e uma economia melhor; no fundo, uma vida e economia muito melhores para as pessoas. Agora, voltemos ao mundo real. Os líderes do mundo querem levar-nos ao limite o mais rápido possível, para conseguirem os seus objetivos. Se ler os jornais do setor do petróleo, andam eufóricos a discutir todas as novas perspetivas para novos campos de petróleo enquanto descobrem como podem aumentar a produção de combustíveis fósseis, um futuro maravilhoso pela frente. Se houvesse um observador do espaço sideral a observar-nos, pensaria que somos clinicamente insanos. As grandes empresas de petróleo precisam mudar a sua propaganda de relações públicas. É interessante como fazem isso, continuando a produção de combustíveis fósseis e investindo nalguma tecnologia futurística, – que não existe, já agora -, que será capaz de remover os venenos da atmosfera, depois de despejá-los numa lavagem verde. Essa é a política deles. Veja o Partido Republicano nos Estados Unidos. São todos negacionistas; para eles, não está a acontecer. Ou os chamados democratas moderados, como Joe Mancini, aquele que impede os esforços de fazer algo pelo meio ambiente no orçamento. A sua posição é clara e explícita. Ele diz: só inovação; sem eliminação, continuem a produzir combustíveis fósseis sem limites, mas encontrem uma maneira de superar as críticas. É a pessoa que mais recebe financiamento das empresas de combustíveis fósseis no Congresso, o que é muito significativo porque essas empresas financiam e compram abundantemente membros do Congresso. É o campeão nisso. Os seus próprios constituintes, os mineiros de carvão na Virgínia Ocidental, estão a mover-se no sentido da energia sustentável, mas o seu representante no Congresso está comprado pelas petrolíferas, que querem continuar a correr para o precipício.

“[Greta Thunberg] terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.”

Há motivos para esperar que os jovens ainda possam fazer uma mudança e salvar o mundo para as gerações futuras?
Eles estão a liderar. Na sexta-feira da semana passada, houve uma greve climática global de jovens, centenas de milhares deles nas ruas da Europa, exigindo que as nossas gerações, a sua e a minha, façam algo para acabar com a crise que está a destruir as vidas deles, mas isso quase não foi relatado nos EUA. Não sei como foi em Portugal. Mas são os jovens que nos imploram. Agora, voltemo-nos para a cimeira de Davos no ano passado, dos ricos e poderosos. Greta Thunberg, uma adolescente, foi lá e teve um discurso sóbrio e cuidadoso sobre a situação atual. O secretário-geral da ONU teria concordado com cada palavra. Terminou a dizer: vocês traíram-nos. Essas palavras devem ser gravadas na consciência de todos. Na minha geração e na sua. Traímos a juventude do mundo. Estamos a trai-los agora. Estamos a trair os nossos filhos e netos.


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