Até há poucos dias a política externa nacional era levada a cabo em acções de baixo perfil, longe do espalhafato e das grandes tiradas de capa e/ou aberturas sensacionais dos telejornais. Agiam os funcionários da diplomacia num regime de baixo perfil ajustado ao servilismo de pequena colónia sem peso nas relações internacionais. Em termos anedóticos agia-se ao estilo fuinha em ademanes de lacaio vestido a preceito.
Circunstâncias da política internacional obrigaram os donos do ocidente a recorrer a países periféricos e sem soberania a tomarem posições e a divulgá-las como propaganda da sua visão única do mundo. É assim que o nosso 1º ministro começou a cirandar e a ditar considerações seguindo os guiões da CEE/NATO. E a dar dinheiro, canhões e tanques no meio de aulas de geografia.
Passou 8 anos calado, não tomou posição alguma face ao golpe de estado na Ucrânia que substituiu um presidente eleito por uma caterva de nazis e ultranacionalistas de raiz hitleriana no parlamento e no governo. É que a CEE ficou contente com o Maidan que lhe daria um mercado extra, mão de obra barata e a aproximação da NATO às fronteiras russas. A. Costa nem tugiu nem mugiu; se o plano era esse, moita calada. Mas agora as coisas vão feias para a CEE, o regime de Kiev e a tropilha da NATO; recebe-se o cómico-nazi na AR em digital e manda-se o chefe do governo nacional para as bandas do conflito. Na Roménia, alguma vez se falava na Roménia nos gabinetes do governo?, marcou as suas-nossas fronteiras rasgando os mapas escolares da Porto Editora ( todos para o lixo, fora das paredes das escolas ). É agora na Roménia que a GNR e a guarda-fiscal vão actuar contra invasões ( de tabaco e droga ? ) perigosas para lisboa e o Vale do Tejo.
Segue à Polónia discutir a entrada dum país falido, quase inexistente em termos económicos e endividado pelos séculos vindouros, na CEE, ela própria em graves dificuldades num horizonte com perspectivas mais que sombrias. Costa olha para cima, o polaco, para baixo: estamos no nosso nível. Como se não bastasse, na sua atitude de lacaio, mandaram que do OGE nacional saíssem verbas para os refugiados que o regime de Kiev produziu na sua russofobia.
Uns milhões que não existem para o SNS e médicos de família, para investimento social, para apoio a medidas que permitam um salário mínimo decente, reformas condignas e o fim da precariedade laboral saem da cartola de A. Costa, justificam a viagem, permitem a foto e fazem dele um ternurento caniche da Europa.
Vai a Kiev e, num intervalo sem ressaca do cómico-nazi, será protagonista de uma foto de rua encenada com o tonto mentiroso que manda converter uma rendição sem condições, como a das suas tropas nas instalações da Azovstal, numa vitoriosa evacuação de heroicos guerreiros nazis tatuados de suásticas por todo o corpo ! A. Costa gosta disto, é o seu ambiente, e caminha para não ter problemas alguns com possíveis sanções de Washington e dos seus colegas-CEE, Borrell/Der Leyen/Ch. Michel (o cara de nabo belga). Só não chega cheio de gás: já anda a poupar para se acautelar e … dar o exemplo!
Ao regressar do tour saberá que uma rede de créditos ilegais ficava com as casas dos clientes, talvez da mesma forma e debaixo dos mesmos conceitos que permitem aos seus amigos ocidentais congelar e roubar reservas em divisas de qualquer país do planeta!
E eu que perdi a oportunidade de fazer chegar a Zelensky meia dúzia de ovos de galinhas do campo sem cabeça, pouco estranhas à espécie que as doninhas desbaratam nos galinheiros da nossa querida Europa…
Na sua crónica da passada segunda-feira, dia 16 de Maio, neste jornal, Carmo Afonso desenvolveu o argumento de que a esquerda não encontra na guerra da Ucrânia nenhum reduto onde se possa instalar e procurar aí uma identificação política. Porquê? Porque, diz a autora, “é uma guerra entre direitas”. É louvável e até um pouco temerária esta tentativa para introduzir alguma ordem e orientação naquilo que tem sido a desorientação generalizada da esquerda (não me refiro apenas ao Partido Comunista Português), um pouco por todo o lado, na sua reacção a esta guerra e na relação com as duas partes em conflito. Mas utilizar as categorias de esquerda e direita para analisar e representar as coordenadas essenciais deste conflito é inadequado e incapaz de penetrar em zonas para as quais não serve o léxico conceptual da tradição.
Esquerda e direita constituem, como sabemos, as categorias centrais com que identificamos as posições políticas e representamos as coordenadas essenciais da divisão social e política, na modernidade. Sabemos também que não é fácil, nem sequer possível, estabelecer um critério geral que permita distinguir, ao longo de mais de dois séculos de história povoada por muitas esquerdas e muitas direitas, o que é de esquerda e o que é de direita. Por exemplo, o conceito de Nação foi de esquerda, no Iluminismo, foi de direita, no Romantismo, e foi novamente de esquerda nos movimentos de “libertação nacional” que lutavam pela descolonização. Giddens, com a sua ideia da “terceira via”, entendeu que se devia retirar da lógica dicotómica do esquema esquerda/direita um grande número de questões contemporâneas (tais como os problemas ecológicos e as mutações na estrutura e na ordem da família), mas o que ele achou que escapava ao esquema acabou quase sempre por ser reapropriável e ser mais uma prova da persistência da famigerada dicotomia. E quando alguém se declarou antipolítico ou que não é de direita nem de esquerda, quase sempre isso foi visto como uma tentativa de denegar posições de direita, já que a direita, por princípio e por tradição, está sempre mais do lado da metapolítica (conceito que tem afinidades com o de “metafísica”) do que da política propriamente dita.
Mas há um lugar, nem o da política nem o da antipolítica, que não é apropriável pela dicotomia esquerda/direita. É uma zona que o pensamento político clássico deixa à sombra, é uma margem impensada, uma negatividade que abre um outro horizonte categorial. Esta guerra pertence a esse espaço: nem de esquerda nem de direita, mas de modo nenhum despolitizada. E é isso que a análise de Carmo Afonso não vislumbra. Ela — tal análise — revela que não conhece senão o conceito de política da modernidade e dos seus autores canónicos, que vão de uma concepção teológica da política a uma concepção puramente técnica. As ferramentas conceptuais da autora só lhe permitem concluir que se não existe “um lugar com que a esquerda se possa identificar politicamente”, então é porque tudo se passa entre a direita. Se Carmo Afonso analisasse esta guerra a partir da leitura de autores como Hermann Broch, Elias Canetti, Simone Weil, Bataille e Blanchot, e não a partir dos conceitos políticos que se tornaram um esquema formal de análise, cristalizado, encontraria uma modalidade de olhar o avesso problemático da política que seria de muita utilidade para analisar esta guerra e para fugir aos impasses a que, pelos vistos, ela conduz, sobretudo à esquerda. Cito estes autores não porque tenha chegado a eles, pelos meus próprios meios, quando percebi que de pouco serviam as categorias de direita e de esquerda para analisar tudo o que envolve esta guerra (as suas origens, as suas motivações, mas sobretudo as reacções que desencadeou nos diversos sectores políticos), mas porque são eles que estão na base da categoria do “impolítico”, a que o bem conhecido e reconhecido filósofo italiano Roberto Esposito dedicou um livro que já se tornou um clássico. O livro chama-se Categorie dell’ impolítico (1988).
O tema do impolítico (que não deve ser confundido com o antipolítico ou o apolítico) nasce da consciência de que as categorias do léxico político contemporâneo estão esgotadas ou, pelo menos, não iluminam o avesso, as zonas de sombra, a negatividade, o irrepresentável, as margens, os vazios. E este é o espaço de muita da política contemporânea. E desta guerra.
Os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki não corresponderam a qualquer estratégia militar. O Japão já tinha a intenção de se render. Os Estados Unidos apenas pretenderam que eles não o fizessem aos Soviéticos, que começavam a espalhar-se pela Manchúria, mas sim a eles.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há 77 anos, os Europeus (salvo os antigos Jugoslavos) têm gozado de paz nos seus territórios. Esqueceram já essa memória longínqua e é com horror que observam a guerra na Ucrânia. Os Africanos dos Grandes Lagos, os antigos Jugoslavos e os muçulmanos do Afeganistão à Líbia, passando pelo Corno (Chifre-br) de África, observam-nos enojados : durante muitas décadas, os Europeus ignoraram o seu sofrimento e acusavam-nos de serem responsáveis pelas suas próprias desgraças.
Segundo alguns, a guerra da Ucrânia começou com o nazismo, segundo outros há oito anos, mas no consciente dos Ocidentais não tem mais do que dois meses. Eles constatam uma parte do sofrimento que ela causa, mas ainda não captaram todas as suas dimensões. Acima de tudo, interpretam-na erradamente com base na experiência dos seus bisavós e não daquilo que vivem.
AS GUERRAS NÃO SÃO MAIS DO QUE UMA SUCESSÃO DE CRIMES
Assim que começa, a guerra acaba com as “nuances”. Ela obriga toda a gente a tomar posição por um dos dois campos. Aqueles que não obedecem são imediatamente esmagados pelas mandíbulas da besta. O apagamento das nuances obriga toda a gente a reescrever os acontecimentos. Existem apenas os « bons», nós, e os « maus », os outros, do outro lado. A propaganda de guerra é de tal modo poderosa que depois de algum tempo, ninguém mais distingue os factos da maneira como eles nos são descritos. Ficamos todos mergulhados na escuridão e ninguém sabe como acender a luz. A guerra faz sofrer e mata sem distinção. Pouco importa em que campo estamos. Pouco importa que se seja culpado ou inocente. Sofre-se e morre-se não só pelos golpes dos contrários, mas também, colateralmente, pelos do nosso próprio campo. A guerra, não é somente sofrimento e morte, mas também injustiça, que é muito mais difícil de suportar. Nenhuma das regras das nações civilizadas subsiste. Muitos cedem à loucura e já não se comportam como humanos. Não há autoridade que coloque todos face às consequências dos seus actos. Já não se pode contar com a maioria das pessoas. O homem torna-se um lobo do homem.
Passa-se então qualquer coisa de fascinante. Se algumas pessoas se transformam em feras cruéis, outras tornam-se fontes de luz e o seu olhar ilumina-nos.
Passei uma década nos campos de batalha sem voltar a casa. Se hoje fujo do sofrimento e da morte, permaneço irresistivelmente atraído por esses olhares. É por isso que odeio a guerra e, no entanto, sinto falta dela. Porque neste emaranhado de horrores brilha sempre uma forma sublime de humanidade.
AS GUERRAS DO SÉCULO XXI
Gostaria agora de vos apresentar algumas reflexões que não vos comprometem neste ou naquele conflito, e muito menos neste ou naquele campo. Vou apenas levantar um véu e convidar-vos a ver o que ele escondia. Aquilo que vou evocar talvez vos possa chocar, mas nós apenas podemos encontrar paz encarando a realidade.
As guerras evoluem. Não falo aqui de armas e de estratégias militares, mas das razões dos conflitos, da sua dimensão humana. Assim como a passagem do capitalismo industrial para a globalização financeira transforma as nossas sociedades e pulveriza os princípios que as definiam, da mesma forma essa evolução muda as guerras. O problema é que somos incapazes de adaptar as nossas sociedades a essa mudança estrutural e, portanto, ainda menos capazes de pensar na evolução da guerra.
A guerra procura sempre resolver os problemas que a política não conseguiu resolver. Ela não ocorre quando estamos prontos para isso, mas quando eliminamos todas as outras soluções.
É exactamente o que se passa hoje em dia. Os Straussianos norte-americanos encurralaram inexoravelmente a Rússia na Ucrânia, não lhe deixando outra opção a não ser fazer a guerra. Se os Aliados teimarem em levá-la ao limite, provocarão uma Guerra Mundial.
Os períodos entre duas épocas, em que é preciso repensar as relações humanas, são propícios a este tipo de catástrofes. Alguns continuam a raciocinar de acordo com princípios que provaram a sua eficácia, mas já não estão adaptados ao mundo. No entanto, eles vão em frente e podem provocar guerras sem querer.
Na noite de 9 de Maio de 1945, a aviação norte-americana bombardeou Tóquio. Numa noite mais de 100. 000 pessoas foram mortas e mais de 1 milhão ficaram sem casa. Foi o maior massacre de civis da história.
Se, em tempos de paz, distinguimos os civis dos soldados, esta maneira de pensar já não faz sentido nas guerras modernas. As democracias varreram a organização das sociedades em castas ou ordens. Todos podem se tornar combatentes. Os levantamentos em massa e as guerras generalizadas baralharam as cartas. Agora são os civis que comandam os militares. Eles já não são as vítimas inocentes, antes se tornaram os principais responsáveis pelo infortúnio geral do qual os militares não passam de meros executantes.
Na Idade Média do Ocidente, a guerra era assunto dos nobres e deles em exclusivo. Em caso algum o povo decidia. A Igreja Católica promulgou leis de guerra a fim de limitar o impacto dos conflitos sobre os civis. Tudo isso já não corresponde ao que vivemos e já não tem base nenhuma.
A igualdade homem-mulher derrubou também ela os paradigmas. Não só agora as mulheres são soldados, mas também podem ser comandantes civis. O fanatismo já não é exclusivo de um sexo reputado forte. Algumas mulheres mostram-se mais perigosas e cruéis do que certos homens.
Não estamos conscientes dessas mudanças. Em todo o caso, não retiramos daí nenhuma conclusão. Seguem-se posições bizarras, tal como a recusa dos Ocidentais em repatriar as famílias dos jiadistas que deixaram partir para os campos de batalha e em os julgar. Todos sabem que muitas destas mulheres são muito mais fanáticas do que seus maridos.
Todos sabem que elas representam um perigo muito maior. Mas ninguém o diz. Prefere-se pagar a mercenários curdos para os guardar junto com os filhos em campos, o mais longe possível.
Apenas os russos repatriaram as crianças, aliás já contaminadas por essa ideologia. Eles confiaram-nas aos seus avós na esperança de que estes conseguissem amá-los e curá-los.
Desde há dois meses, acolhemos civis ucranianos que fogem dos combates. Aparentemente, são mulheres e crianças que sofrem. Assim, não se tomam precauções. No entanto, um terço destas crianças foram treinadas em acampamentos de férias dos banderistas. Aí, elas aprenderam o manejo das armas e a admirar o criminoso contra a humanidade Stepan Bandera.
Campo de férias na Ucrânia segundo um quotidiano atlantista. Fonte : « Le Monde » (2016).
As Convenções de Genebra não são mais do que um resquício do período em que pensávamos como humanos. Elas já não tem ligação com qualquer realidade. Os que as aplicam não o fazem porque se creiam obrigados, mas porque esperam permanecer humanos e não se afundar num oceano de crimes. A noção de « crime de guerra » já não tem nenhum sentido, uma vez que o objectivo da guerra é cometer uma sucessão de crimes para alcançar a vitória que não se pôde obter por meios civilizados e visto que, em democracia, todos os eleitores são responsáveis.
No passado, a Igreja Católica interditara as estratégias dirigidas contra os civis, como o cerco às cidades sob pena de excomunhão. Para além de que hoje já não há autoridade moral para fazer respeitar as regras, ninguém fica chocado com as « sanções económicas » que atingem populações inteiras, a ponto de causar fomes assassinas como foi o caso contra a Coreia do Norte.
Tendo em vista o tempo que precisamos para tirar conclusões do que fazemos, continuamos a considerar certas armas como proibidas enquanto nós próprios as utilizamos. Por exemplo, o Presidente Barack Obama havia explicado que o uso de armas químicas ou biológicas era uma linha vermelha a não ultrapassar, mas o seu Vice-Presidente, Joe Biden, montou um vasto sistema de pesquisa sobre a matéria na Ucrânia. Os únicos a proibitr-se qualquer arma de destruição em massa a si próprios são os Iranianos, já que o Imã Ruhollah Khomeini as condenou moralmente. Precisamente, são eles, que não fazem nada desse género, os que acusamos de querer fabricar uma bomba atómica.
No passado, declarava-se guerras para se conquistar territórios. No fim, assinava-se um Tratado de Paz para modificar o cadastro. Na era das redes sociais, a questão é menos territorial e mais ideológica. A guerra apenas pode terminar desacreditando uma maneira de pensar. Embora territórios tenham mudado de mãos, algumas guerras recentes deram lugar a armistícios, mas nenhuma a um Tratado de Paz e a reparações.
Vemos claramente que, apesar do discurso dominante no Ocidente, a guerra da Ucrânia não é territorial, mas ideológica. Além disso, o Presidente Volodymyr Zelensky é o primeiro chefe de guerra na história a expressar-se várias vezes por dia. Ele passa muito mais tempo a falar do que a comandar o seu Exército. Ele redige as suas intervenções à volta de referências históricas. Nós reagimos às memórias que ele evoca e ignoramos o que não compreendemos. Para os Ingleses, fala como Winston Churchill e eles aplaudem-no; Para os franceses, ele lembra Charles De Gaulle, eles aplaudem-no; etc. Para todos, conclui com « Glória à Ucrânia! » e não compreendem a alusão que acham bonita.
Os que conhecem a história da Ucrânia reconhecem o grito de guerra dos banderistas. O que eles gritavam ao massacrar 1,6 milhões dos seus concidadãos, entre os quais pelo menos 1 milhão de judeus. Mas como é que um Ucraniano poderá apelar para o massacre de outros Ucranianos e um judeu para o massacre de judeus ?
A nossa inocência torna-nos surdos e cegos.
Pela primeira vez num conflito, uma das partes censurou os média inimigos antes mesmo da guerra começar. A RT e o Sputnik foram fechados na União Europeia porque teriam podido contestar aquilo que se ia seguir. Depois dos média russos, média da oposição começam a ser censurados. O sítio da Rede Voltaire, Voltairenet.org, é censurado na Polónia desde há um mês por decisão do Conselho de Segurança Nacional.
A guerra já não se limita ao campo de batalha. Torna-se indispensável conquistar os espectadores. Durante a guerra do Afeganistão, o Presidente norte-americano, George W. Bush, e o Primeiro-Ministro britânico, Tony Blair, pensaram destruir o canal de televisão por satélite Al-Jazeera. Ele não tinha qualquer impacto sobre os beligerantes, mas fazia pensar os espectadores do mundo árabe.
É de notar que após a guerra de 2003 no Iraque, pesquisadores franceses idealizaram que a guerra militar se transformaria em guerra cognitiva. Se o absurdo das armas de destruição em massa de Saddam Hussein não durou mais do que alguns meses, a maneira como os Estados Unidos e o Reino Unido conseguiram fazer com que todos aceitassem isso foi perfeita. Em última análise, a OTAN acabou por acrescentar aos seus cinco habituais domínios de intervenção (ar, terra, mar, espaço e cibernética), um sexto : o cérebro humano. Se a Aliança evita actualmente enfrentar a Rússia nos quatro primeiros, ela está já em guerra nos dois últimos domínios.
À medida que os domínios de intervenção se alargam, a noção de beligerante apaga-se. Já não são os homens que se confrontam, mas os sistemas de pensamento. A guerra, portanto, globaliza-se. Durante a guerra na Síria, mais de sessenta Estados, que não tinham nenhuma relação com esse conflito, enviaram armas para lá e hoje em dia, uma vintena de Estados envia-as para a Ucrânia. Como em directo não conseguimos interpretar os acontecimentos, antes os percebemos com olhos do velho mundo, acreditámos que as armas ocidentais eram utilizadas pela Oposição democrática síria enquanto elas iam parar aos jiadistas e agora estamos persuadidos que elas vão para o Exército ucraniano e não para os banderistas.