O mundo depois da Ucrânia

(José Luís Fiori, in Outras Palavras, 22/07/2022)

Frame do filme O Encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein

Desde a década de 70 do século XX está em curso uma grande “explosão expansiva” do sistema mundial. Nossa hipótese é que o aumento da “pressão competitiva” dentro do sistema foi provocado pelo expansionismo imperial dos Estados Unidos, pela multiplicação do número dos Estados soberanos dentro do sistema, e pelo crescimento vertiginoso do poder e da riqueza dos Estados asiáticos, e da China em particular. O tamanho dessa “pressão competitiva” permite prever, neste início do século XXI, uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências.
Fiori, J. L. O sistema interestatal capitalista no início do século XXI. In: Fiori, J. L.; Medeiros, C.; Serrano, F. O Mito do Colapso do Poder Americano. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008. p. 24.


Após 140 dias do início da guerra na Ucrânia, já é possível identificar fatos, decisões e consequências estratégicas, econômicas e geopolíticas que são irreversíveis, e que podem ser considerados como as portas de entrada da “nova ordem mundial” de que tanto falam os analistas internacionais. Neste momento, do ponto de vista estritamente militar, ninguém mais acredita na possibilidade de vitória da Ucrânia, e muito menos na retirada das forças russas dos territórios que já conquistaram. O mais provável, inclusive, é que os russos sigam avançando sobre o território ucraniano mesmo depois da conquista de Donbass, pelo menos até o início das negociações de paz que envolvam a participação direta dos Estados Unidos em torno da proposta apresentada pela Rússia em 15 de dezembro de 2021, e que foi então rejeitada pelos norte-americanos.

Mesmo assim, não é improvável que as tropas ucranianas se retirem para uma posição defensiva e se proponham a levar à frente uma guerra de atrito prolongada através de ataques e reconquistas pontuais. Neste caso, o conflito pode se estender por meses ou anos, mas só será possível se os norte-americanos e europeus mantiverem seu apoio financeiro e militar ao governo da Ucrânia, que rigorosamente não dispõe da capacidade de sustentar sozinho um conflito dessa natureza. E terá cada vez menos capacidade, na medida em que sua economia nacional vem se deteriorando aceleradamente, e já se encontra à beira do caos. Esta guerra contudo está sendo travada, de fato, entre os Estados Unidos e a Rússia, e é aí que se encontra o núcleo duro do problema da paz. Ou seja, são duas guerras sobrepostas, mas a chave da paz se encontra – nos dois casos – nas mãos dos Estados Unidos, o único país que pode tomar o caminho diplomático de uma negociação de paz, uma vez que a Rússia já fez a sua proposta e entrou em guerra exatamente porque ela foi rejeitada ou simplesmente desconhecida pelos americanos, pela OTAN e pelos europeus. E é aqui que se encontra o impasse atual: os russos já não têm como aceitar uma derrota; e para os norte-americanos, qualquer negociação é vista como um sinal inaceitável de fraqueza, sobretudo depois de sua desastrosa “retirada do Afeganistão”. Por isso mesmo, a posição oficial do governo americano é prolongar a guerra indefinidamente, por meses ou anos, até exaurir a capacidade econômica russa de sustentar sua posição atual na Ucrânia, e mais à frente, de iniciar novas guerras.

Apesar disso, existe uma brecha para a paz que está se consolidando com o avanço da crise econômica e social dos principais países que apoiam a resistência militar do governo ucraniano. Com algumas repercussões políticas imediatas, em alguns casos, como a queda abrupta da popularidade do presidente Biden, nos Estados Unidos; as derrotas eleitorais de Macron, na França, e de Draghi, na Itália; a queda de Boris Johnson na Inglaterra; e a fragilidade notória do governo de coalizão de Sholz, na Alemanha – alguns dos principais países que desencadearam uma verdadeira guerra econômica contra a Rússia, propondo-se a asfixiar sua economia no curto prazo, excluindo-a do sistema financeiro mundial, e aleijá-la no longo prazo, com o banimento do petróleo e do gás russos dos mercados ocidentais.

Esse ataque econômico fracassou nos seus objetivos imediatos e, pior do que isto, vem provocando uma crise econômica de grandes proporções nos países que lideraram as sanções contra a economia russa, em particular nos países europeus. E o que é mais importante, os Estados Unidos e seus aliados não conseguiram isolar e excluir a Rússia do sistema econômico e político internacional. Apenas 21% dos países-membros da ONU apoiaram as sanções econômicas impostas à Rússia, e nestes quatro meses de guerra, a Rússia conseguiu manter e ampliar seus negócios com a China, a Índia e com a maioria dos países da Ásia, do Oriente Médio (incluindo Israel), da África e da América Latina (incluindo o Brasil).

Nos últimos quatro meses de guerra, os superávits comerciais russos alcançaram sucessivos recordes, e suas exportações de petróleo e gás do último mês de maio foram superiores ao período anterior à guerra (U$ 70,1 bilhões no primeiro trimestre, e U$ 138,5 bilhões no primeiro semestre de 2022, o maior superavit comercial russo desde 1994). O mesmo acontecendo, surpreendentemente, no caso das exportações russas para os países europeus e para o mercado norte-americano, que cresceram neste período, apesar do banimento oficial imposto pelo G7 e seus aliados mais próximos.

A expectativa inicial do mercado financeiro era que o PIB russo caísse 30%, a inflação chegasse à casa do 50% e que a moeda russa, o rublo, se desvalorizasse algo em torno dos 100%. Depois de quatro meses de guerra, a previsão é que o PIB russo caia uns 10%, a inflação foi contida um pouco acima do nível em que estava antes da guerra, e o rublo foi a moeda que mais se valorizou no mundo nesse período. Enquanto isso, do outro lado desta nova “cortina financeira”, a economia europeia vem sofrendo uma queda acentuada e pode entrar num período prolongado de estagflação: nesses quatro meses de guerra e de sanções, o euro se desvalorizou em 12%, e a inflação média do continente está em torno de 8,5%, alcançando cerca de 20% em alguns países bálticos; e a própria balança comercial da Alemanha, maior economia exportadora da Europa, teve um saldo negativo no último mês de maio, no valor de 1 bilhão de dólares. Tudo indica, portanto, que as “potências ocidentais” possam ter calculado mal a capacidade de resistência de um país que, além de ser o mais extenso, é também uma potência energética, mineral e alimentar, sendo também a maior potência atômica mundial. Um fracasso das previsões econômicas, do ponto de vista “ocidental”, que vem repercutindo também no plano diplomático, onde a deterioração da liderança americana vem ficando cada vez mais visível, como se pode observar na viagem improvisada de Biden à Ásia, no insucesso da “Cúpula da Democracia” e na “Cúpula das Américas”, na baixa receptividade das posições americanas e ucranianas entre os países árabes e africanos, no fracasso americano na sua tentativa de exclusão dos russos da reunião do G20, em Bali, e na mais recente e desconfortável visita do presidente americano à Arábia Saudita e ao seu principal desafeto da Casa de Saud, o príncipe Mohammad bin Salman, que é acusado pelos próprios americanos de haver matado e esquartejado um jornalista que lhe fazia oposição.

Quando se olha para estes fatos e números, consegue-se também visualizar algumas das características da nova ordem mundial que está nascendo à sombra dessa nova guerra europeia, como já aconteceu no caso da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais.

i) Pelo “lado oriental”, caso a Rússia não seja derrotada, e o mais provável é que não o seja, seu simples ato de insubordinação contra a ordem imposta na Europa pelos EUA e pela OTAN, depois de 1991, por si só já inaugura uma nova ordenação internacional, com o surgimento de uma potência com capacidade e disposição de rivalizar com o “ocidente” e sustentar, com suas próprias armas, seus interesses estratégicos com suas “linhas vermelhas” e seu próprio sistema de valores. Uma nova potência capitalista que rompe o monopólio da “ordem internacional pautada pelas regras” definidas há pelo menos três séculos pelos canhões e canhoneiras euro-americanas, e sobretudo por seus povos de língua inglesa. A Rússia rompe assim, definitivamente, qualquer tipo de aproximação com a União Europeia, e em particular com os países do G7, optando por uma aliança geopolítica e uma integração de largo fôlego com a China e a Índia. E contribui, desta forma, para que a China assuma a liderança e redefina radicalmente os objetivos do grupo do BRICS+, que era um bloco econômico e agora está sendo transformado num verdadeiro bloco alternativo ao G7, depois da provável inclusão de Argentina, Irã, Egito, Turquia e a própria Arábia Saudita. Com cerca de 40% da população mundial e um PIB quase igual ao do G7, já é hoje uma referência mundial em franco processo de expansão e projeção global do seu poder.

ii) Pelo “lado ocidental”, por sua vez, o fato mais importante – caso se confirme – será a derrota econômica das “potências econômicas ocidentais” que não terão conseguido em conjunto asfixiar nem destruir a economia russa. O uso militar das “sanções econômicas” será desmoralizado, e as armas voltarão a prevalecer na Europa. Primeiro, com a ascendência da OTAN, que substituirá, no curto prazo, o governo dividido e fragilizado da União Europeia, transformando a Europa num “acampamento militar” – com 300 mil soldados sob a bandeira da OTAN – sob o comando real dos Estados Unidos. No médio prazo, entretanto, essa nova configuração geopolítica deve aprofundar as divisões internas da União Europeia, incentivando uma nova corrida armamentista entre seus Estados-membros, liderada provavelmente pela Alemanha, que após 70 anos de tutela militar americana, retoma seu caminho militarista tradicional. E assim, a Europa volta ao seu velho “modelo westfaliano” de competição bélica, (falta algo – e com isso…) liquida sua utopia da unificação, se desfaz definitivamente de seu modelo econômico de sucesso puxado pelas exportações e sustentado pela energia barata fornecida pela Rússia.

iii) Por fim, pelo lado do “império americano”, a grande novidade e mudança foi a passagem dos norte-americanos e seus aliados mais próximos para uma posição defensiva e reativa. E esta foi ao mesmo tempo a sua principal derrota nesta guerra: a perda de iniciativa estratégica, que passou, no campo militar, para as mãos da Rússia, no caso da Ucrânia e no campo econômico, para as mãos da China no caso da Belt and Road. As “potências ocidentais” parecem ocupadas em “tapar buracos” e “refazer conexões” perdidas ao redor do mundo, enquanto o próprio conflito vai explicitando a perda da liderança ocidental no sistema internacional, com o rápido encolhimento da hegemonia secular dos valores europeus e da supremacia militar global dos povos anglo-saxônicos. Nesta crise ficou claro, mais do que nunca, o verdadeiro tamanho do G7, que costuma falar em nome de uma “comunidade internacional” que não existe mais ou que foi sempre uma ficção ou “narrativa” dos sete países que já foram os mais ricos e poderosos do mundo. Mais do que isto, o próprio poder do “capital financeiro” desregulado e globalizado está sendo posto em xeque, com a explicitação da face parcial e bélica da “moeda internacional” e o desnudamento da estrutura de poder estatal que se esconde por trás de dois sistemas internacionais de troca de informações financeira se pagamentos, o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), que tem sua sede em Bruxelas, mas que que é controlado, de fato, pelos Bancos Centrais de 10 Estados apenas, os mesmos do G7 e mais Suécia, Suíça e Países Baixos. Ou seja, o mesmo grupo de Estados e bancos nacionais que controlaram o sistema político e econômico internacional nos últimos 300 anos e que agora estão sendo questionados por esta “rebelião eurasiana”, Afinal, um “segredo de Polichinelo” que foi guardado por muito tempo e com muita cautela: o “capital financeiro globalizado” tem dono, obedece a ordens e pertence à categoria das “tecnologias duais”: pode ser usado para acumular riqueza, mas também pode ser usado como arma de guerra.

Resumindo: a nova ordem mundial está cada vez mais parecida com seu modelo original criado pela Paz de Westfália de 1648. A grande diferença é que agora esse sistema incorporou definitivamente a China, a Rússia, a Índia e mais outros 180 países, e não terá mais uma potência ou região do mundo que seja hegemônica e defina unilateralmente suas regras.

Em poucos anos, o sistema interestatal se universalizou, a hegemonia dos valores europeus está acabando, o império americano encolheu, e o mundo está passando de um “unilateralismo quase absoluto” para um “multilateralismo oligárquico agressivo”, em trânsito na direção de um mundo que viverá por um tempo sem uma potência hegemônica.


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O MNA 2.0 saúda-vos

(Por Pepe Escobar, in Strategic-Culture.org, 22/07/2022)

O Movimento MAN 2.0 – da qual a China é um ator-chave – está em total oposição à forma como o Império do Caos – e Mentiras – teceu a sua rede tóxica, através da guerra ao terror, desde o início do milénio.


Foi em 1955, na lendária Conferência de Bandung, na Indonésia, que o recém-emancipado Sul Global começou a sonhar com a construção de um novo mundo, dando origem  ao que se configurou posteriormente, em 1961, em Belgrado, como o Movimento dos Não-Alinhados (MNA).

O Império do caos – e da mentira – jamais teria permitido que o MNA desempenhasse um papel de liderança. Então jogou sujo: tudo, desde subversão total e subornos a golpes militares e protorrevoluções coloridas.

No entanto, hoje o espírito de Bandung está vivo novamente, por meio de uma espécie de MNA 2.0 com esteroides: um movimento recém-alinhado, com os líderes da integração eurasiana na vanguarda.

Acabamos de ter um vislumbre de para onde se está a dirigir o vento geopolítico quando uma nova troika de poder se reúne em Teerão . Ao contrário de Estaline, Roosevelt e Churchill em 1943, Putin, Raisi e Erdogan não se reuniram para dividir o mundo. Eles se reuniram principalmente para discutir como outro mundo é possível – por meio de relações bilaterais, trilaterais, multilaterais e um maior papel para um conjunto de instituições geopolíticas e geoeconómicas relativamente novas.

A Rússia – e a China – estiveram na vanguarda de todas as recentes decisões importantes. A sua diplomacia permitiu que o Irão se juntasse à SCO (Organização para a Cooperação de Xangai) como membro pleno. A sua força de atração estimula os principais atores dos países do Sul a aderirem ao BRICS+. A Rússia praticamente convenceu a Turquia a se juntar ao BRICS+, SCO e EAEU (União Económica da Eurásia), e facilitou a reaproximação entre Teerão e Ancara, bem como entre Teerão e Riad. A Rússia influenciou amplamente o processo de remake/remodelação na Ásia Ocidental.

Essa dinâmica do MNA 2.0 – em que a China é protagonista – está em total oposição à forma como o Império do Caos – e da mentira – teceu a sua teia tóxica, via guerra contra o terrorismo, desde o início do milénio. O Império tentou subjugar o que descreveu como a região MENA (Oriente Médio-Norte da África) com base em duas invasões/ocupações (Afeganistão-Iraque), devastação total (Líbia) e guerra por procuração estendida (Síria). Todos esses golpes falharam.

E isso leva-nos ao forte contraste entre essas duas abordagens de política externa, ilustrada graficamente pelo fracasso espetacular do “líder do mundo livre” ao ler o teleponto durante sua visita a Jeddah – ele nem teve permissão para se render a Riad – em comparação com o desempenho de Putin em Teerão.

Estamos a testemunhar não apenas os traços de uma aliança informal entre Rússia, Irão e Turquia, mas também uma aliança que dá uma lição ao Império: que abandone a Síria antes de sofrer mais humilhações. E com um corolário curdo: fiquem longe dos americanos e reconheçam a autoridade de Damasco antes que seja tarde demais.

Ora, Ancara nunca será capaz de admitir isso em público, mas o fato é que o sultão Erdogan – tão contrário à presença de tropas dos EUA na Síria quanto Putin e Raisi – parece ter calibrado rapidamente a sua visão anterior sobre o território soberano sírio.

A muito debatida operação militar turca no norte da Síria pode, em última análise, limitar-se a domar os curdos do YPG. O cerne da ação girará em torno de como a aliança Rússia/Irão/Turquia/Síria tornará impossível que americanos continuem a roubar petróleo sírio.

Como a Rússia está agora em modo “sem prisioneiros” contra o Ocidente coletivo – o mantra de todas as intervenções de Putin, Lavrov, Medvedev, Patrushev – estando firmemente alinhada com a China e o Irão, é inevitável que todos os outros atores da Ásia Ocidental deem total atenção às novas regras do jogo.

Escolha o Cáspio, meu jovem

Conectando a Ásia Ocidental e Central, o Mar Cáspio está finalmente no centro das atenções geopolíticas e geoeconómicas, como evidenciado pelo consenso sem precedentes alcançado pelos cinco estados ribeirinhos na Cimeira do Cáspio no final de junho para banir oficialmente a NATO dessas águas.

Além disso, os governantes em Teerão foram rápidos em perceber que o Cáspio é um corredor económico e perfeito entre o Irão e o coração da Rússia ao longo do Volga.

Portanto, não é de surpreender que o próprio Putin em Teerão tenha proposto a construção de um trecho importante da rodovia na rota São Petersburgo-Golfo Pérsico, para o deleite dos iranianos. Aqueles nostálgicos do Grande Jogo da antiga ilha que “governa os mares” tiveram ataques cardíacos em série: eles nunca poderiam imaginar que o “império” russo finalmente teria acesso total às águas quentes do Golfo Pérsico.

Assim, voltamos à reorganização absolutamente crucial do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INTSC), que desempenhará um papel paralelo para a Rússia e o Irão ao da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI) para a China. Em ambos os casos, são corredores multimodais de comércio e desenvolvimento em toda a Eurásia, livres da interferência da Marinha Imperial.

E aqui vemos a importância renovada da libertação híper-estratégica de Mariupol e Kherson pelas forças russas e da DPR. O Mar de Azov está agora configurado como um lago russo de fato – assim como o que restará da costa do Mar Negro (atualmente Ucrânia), incluindo Odessa.

Assim, temos o corredor marítimo ultra estratégico do Mar Cáspio ao Mar Negro – através do Canal Volga-Don – perfeitamente conectado ao Mar Negro e ao Mediterrâneo, e mais ao norte, ao Báltico e ao conector Atlântico-Pacífico em desenvolvimento, a Rota do Mar do Norte. Podemos, pois, dizer que todas elas são as Rotas Marítimas Russas do Heartland.

A combinação OTAN/Cinco Olhos/Intermarium não tem absolutamente nada para se opor a esses fatos (terrestres) no terreno (Heartland), além de jogar um monte de HIMARS no buraco negro ucraniano. E, claro, continuar a desindustrializar a Europa. Em contraste, aqueles que em todo o Sul Global têm um forte sentido da história – como um grande debate de ideias no sentido hegeliano – e são igualmente versados ​​em geografia e em relações comerciais, estão já ocupados a preparem-se para a mudança (tirando dela partido).

Uma ambiguidade estratégica

Embora seja muito divertido listar todos os casos em que a Rússia está jogando com ambiguidade estratégica em níveis capazes de confundir todo o inchado aparato da “inteligência ocidental”, o que vem à tona é como Putin – e Patrushev – deliberadamente elevam o limiar da dor para esgotar não só o buraco negro ucraniano, mas toda a NATO.

Os governos ocidentais estão entrando em colapso. As sanções são retiradas – praticamente em segredo. Espera-se um inverno gelado. E então vem a crise económico-financeira que se aproxima, o monstro definitivo do inferno, como Martin Armstrong colocou muito claramente: “Não há maneira de saírem desta situação, exceto por incumprimento. Mas se falirem, estão preocupados com milhões de pessoas a invadir os parlamentos da Europa… É realmente uma enorme crise financeira que estamos a enfrentar. Pediram emprestado ano após ano desde a Segunda Guerra Mundial, sem intenção de pagar nada.”

 Enquanto isso, Moscovo pode estar a preparar-se para o lançamento – no próximo outono? no meio do inverno? na próxima primavera? – de uma série de ofensivas multifacetadas, aproveitando uma série contínua de estratégias interconectadas que já atordoaram e confundiram todos os “analistas” da NATO.

Isso explicaria por que Putin parece assobiar alegremente “Call Me the Breeze” de JJ Cale na maioria de suas aparições públicas. No seu discurso crucial no fórum Ideias Fortes para uma Nova Era, ele promoveu com entusiasmo o advento de mudanças “verdadeiramente revolucionárias” e “enormes” que levariam à criação de um ambiente “harmonioso, mais justo, mais comunitário e mais seguro”.

No entanto, não é para todos: “só os Estados verdadeiramente soberanos podem garantir um elevado dinamismo de crescimento”. Isso implica que a ordem mundial unipolar, seguida pelos estados do Ocidente coletivo que dificilmente são soberanos, está fadada ao fracasso, porque “se torna um freio ao desenvolvimento de nossa civilização”.

E só um soberano seguro de si, que não espera nada de construtivo do Ocidente coletivo, pode dar-se ao luxo de o designar como “racista e neocolonial”, e portador de uma ideologia que “se aproxima cada vez mais do totalitarismo”. Nos dias do Movimento dos Não-Alinhados, essas palavras teriam sido seguidas de assassinato.

A “ordem internacional baseada em regras” será preservada? Sem hipótese, diz Putin: as mudanças são “irreversíveis”. O MNA 2.0 saúda todos aqueles que estão prestes a enlouquecer com a sua ascensão.


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Carta aberta de uma cidadã portuguesa a Pedro Abrunhosa

(Por Camila Rodrigues, in Facebook, 23/07/2022)

Caro Pedro, antes de ser artista é um cidadão português e espanta-me que na qualidade de ambos, cidadão e artista venha agora apelar ou falar da censura a que supostamente foi sujeito. Está a falar de quê? Andará o Pedro distraído e completamente alheio à realidade?

Por acaso tem conhecimento da censura anormal a que milhares de portugueses são sujeitos desde fevereiro por terem uma opinião diferente daquela que alguns líderes políticos irresponsáveis e artistas como o Pedro querem impor a pessoas lúcidas, pessoas que independentemente de condenarem guerras se recusam a apoiar Governos que se dizem democráticos mas que há 8 anos perseguem civis no próprio país por falarem uma língua diferente?

Ah, a censura só funciona para um lado? A censura só serve de exemplo porque é o Pedro Abrunhosa o visado e contrariado? Porque o Pedro é um artista mas os milhares de portugueses que têm sido silenciados entre eles, outros artistas, advogados, políticos, historiadores, economistas, escritores e cidadãos comuns são menos que o Pedro? Tem por acaso ideia da quantidade de bloqueios que existem nas redes sociais de há 4 meses a esta parte?

Vem falar de censura Pedro, mas sabe o que é a censura e a liberdade de expressão e de informação? Nunca ouvi o Pedro a reclamar a limitação e proibição dos canais televisivos e da informação russa; dirá o Pedro que é tudo falso e propaganda certo? E se for? Não têm os cidadãos de um país democrático o direito a poderem decidir livremente e em consciência o que querem ver e ouvir? Ou simplesmente têm que seguir a opinião e as vontades que o Pedro e outros nos querem impor e que agora, com uma grande “Lata”, nos vem falar em censura…

Conseguirá o Pedro, quando fala num país democrático, entender que milhões de portugueses, uns que se manifestam e outros que não – para não ficarem mal vistos perante uma sociedade que, tal como o Pedro resolveu adotar o histerismo e a falta de tolerância -, que para no mínimo tentarem perceber que as coisas não podem nem devem ser vistas a preto e branco e que, ao condenarem aquilo que é condenável, conflitos armados sejam eles de que tipo for, passaram a apoiar e a defender coisas ainda mais condenáveis e que não só arrastam o povo ucraniano mas todo o povo europeu para o suicídio coletivo?

Terá o Pedro noção que há milhões de europeus que se recusam a apoiar governos que transformam guerras e o sofrimento de um povo num completo reality show e palhaçada “Hollywoodesca”?

Terá o Pedro noção de que acusam a Rússia de propaganda mas que a única propaganda que nos entra pelos olhos dentro são as montagens (fotografias de outras guerras adaptadas ao caso ucraniano), os vídeos falsos (como a adaptação de um videojogo para promover um suposto aviador ucraniano, um herói inexistente a quem denominaram de Fantasma de Kiev) e os relatos falsos de cidadãos que são pagos ou obrigados a relatar mentiras (como os milhares de denúncias de violações em Bucha que pelos vistos foram inventados)? Ah claro, e a complementar, os ataques de histerismo, como aquele que o Pedro teve em pleno concerto e que, obviamente servem para formatar e influenciar a opinião pública em relação à sua opinião.

Acha-se portanto o Pedro como artista, a pessoa indicada para, segundo diz, condenar uma guerra, até concordo, só que não acredito numa palavra da sua justificação, sobretudo quando fala de censura e democracia. Se o Pedro condena a censura já devia há meses ter-se rebelado contra a mesma porque tem sido real e acredite que mais drástica do que aquela que diz existir para o seu lado; se é contra a guerra devia ter-se vestido de branco (ou a sua imagem artística e o seu ego são intocáveis e afinal mais importantes que a causa que diz apoiar? É mais um hipócrita Pedro?).

Terá o Pedro noção que a sua atitude enquanto artista e goste de Putin ou não, está a influenciar toda uma plateia à russofobia? Saberá o Pedro que histerismos como o seu, que é um artista e se acha no direito de apelar à democracia do seu país e falar em censura, têm provocado várias situações de descriminação com a população russa a viver em Portugal? Sabe que há crianças russas nas escolas portuguesas a serem vítimas do histerismo e cegueira? Sabe que há funcionários públicos a serem vítimas e que já escondem a nacionalidade? Sabe que há russos em Portugal que já evitam cafés e convívios com medo de serem maltratados?

Tenha vergonha Pedro, a única coisa que lhe resta não é justificar o injustificável falando de censura, o Pedro como cidadão pode não gostar de Putin e até o revelar no seu grupo íntimo e de amigos, é a sua opinião pessoal, o que não pode é como artista e em palco incentivar centenas ou milhares de pessoas ao ódio mesmo que seja contra um regime.

Foi um regime eleito por um povo, ou se acontecesse o mesmo contra o Governo ou o líder português num qualquer outro país o Pedro não se sentiria atingido? Bom senso precisa-se e talvez uma grande dose de humildade, não? Que tal apresentar as suas desculpas ao povo russo e à Embaixada Russa? Ficava-lhe melhor e era mais digno do que ter-se justificado com uma série de disparates.

Ah… Vou ficar a aguardar com muita ansiedade que o Pedro suba a um palco com a mesma atitude a defender o povo palestiniano ou iemenita, não sei se sabe o Iémen vive desde 2014 a maior crise humanitária do Mundo segundo a ONU, pois… Não têm olhos azuis… A hipocrisia é lixada…

E… Não fale pelos portugueses e sim por si, eu sou portuguesa e ainda não lhe passei uma procuração para me representar.

Tenho pena…Até gostava de grande parte das músicas…


Ver artigo sobre o concerto em que Pedro Abrunhosa se manifestou aqui.


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