A guerra da Ucrânia está a tornar-se uma guerra mundial? 

(Por François Martin, in Courier des Estrateges, 10/10/2022, Trad. Estátua de Sal)

Um conjunto de fenómenos recentes acaba de marcar uma mudança notável, um passo importante e esperado no conflito ucraniano. A batalha de Izium, o apelo de Putin aos reservistas russos, os referendos dos quatro oblasts, a recente sabotagem dos gasodutos do Báltico e até o ataque à ponte da Crimeia, todos esses eventos estão ligados. Eles são “mudanças de jogo” e tornam as coisas mais claras . Porque este conflito, na realidade global desde o início, foi até agora apresentado como um conflito local, tanto pelos americanos como pelos russos, por vários motivos:

História americana / história russa

Para os americanos, era importante “começar o filme” em 24 de fevereiro, para camuflar a sua estratégia de conquista antissoviética, então anti russa, realizada com grande consistência desde 1991, e mesmo desde a 2ª Guerra Mundial (1 ) . Além disso, esta “narrativa” simplista, sem qualquer profundidade de campo, era muito prática de retransmitir, e permitiu, com a média europeia escandalosamente sob ordens, e opiniões crédulas bem preparadas por um “carpet bombing” mediático muito poderoso para fazer aceitar sem critica a visão maniqueísta fazendo dos russos os “maus agressores” e dos ucranianos os “bons atacados”.

Esta estratégia de média até agora funcionou muito bem internamente. Com efeito, se mal convenceu 80% dos países do planeta, muito mais lúcidos e menos americanófilos do que os ingénuos europeus, permitiu, pelo menos até agora, fazer com que estes “engolissem” os incríveis gastos de apoio à Ucrânia, o risco político comprovado das entregas de armas e o preço muito alto em troca de sanções, embora a política monetária desenfreada anterior já tivesse criado na Europa um aumento significativo de preços e uma promessa de empobrecimento.

Para os russos, os objetivos eram muito diferentes. Aos olhos deles, era importante sair “de vez em quando”. Desejando “quebrar” os laços remanescentes com a Europa o mais rápido possível, eles quiseram, ao longo do processo, mostrar a sua abertura a possíveis negociações. Em primeiro lugar, a escolha de uma força expedicionária de 160.000 homens para sua “operação especial” foi um sinal político suficiente para provar que eles não estavam ali para a conquista, mas para obter, finalmente, a aplicação dos acordos de Minsk (2 ). E, de fato, se as negociações fracassaram, a culpa não é deles. Recordamos os dois negociadores ucranianos da delegação inicial à Bielorrússia, assassinados no seu regresso a Kiev, depois a muito oportuna “descoberta” dos massacres de Boutcha, o bombardeamento da estação de Kramatorsk, etc… Em todo o caso, foi de fato a parte ocidental que alimentou o ímpeto belicista e literalmente fechou a porta às negociações. Mesmo quando houve um acordo parcial em alguns pontos, podemos ver que os ocidentais não cumpriram a sua palavra, como se a superioridade e a provocação fossem parte intrínseca de sua estratégia (3). No entanto, o lado russo, mesmo que não tenha hesitado em denunciar o imperialismo ocidental, nunca adotou um discurso violentamente bélico. Além disso, ao contrário, por exemplo, dos comunistas asiáticos, para quem o “verbo” marcial e agressivo era consubstancial ao seu método político, a filosofia dos russos não consiste na escalada da média, persuadidos como estão de que a vitória militar no terreno e/ou a inversão das opiniões do adversário pelo simples jogo dos acontecimentos são a chave de tudo.

Mas as coisas mudaram, tornando essas estratégias políticas e mediáticas obsoletas para ambos os lados.

O que força americanos e russos a mudar o formato do conflito

O que mudou, em primeiro lugar, foi a recusa permanente dos ocidentais a qualquer “abertura” de um canal de negociação. Pressão na média e até na AIEA para não reconhecer a realidade dos ataques ucranianos à usina Zaporijia (4), quando as evidências são claras (5), o desejo de fechar as fronteiras europeias a turistas russos e até a burocracia para diplomatas russos que deveriam ir aos EUA para sessões da ONU! Tudo era bom para dizer aos russos, em nome dos ocidentais:  “Nós odiamos vocês. Não queremos falar com vocês “. Além da guerra, conscientemente mantivemos um “clima” detestável com nossos adversários. A certa altura e, é preciso dizer, depois de muito tempo (6), os russos acabaram por aceitar essas palavras pelo seu significado literal. Como em algumas lutas, elas significam “O duelo vai até o fim”. Não haverá tréguas”. E essa mensagem passou.

Além disso, as táticas adotadas pelos russos, consistindo em não atacar a “linha Maginot” ucraniana, mas, ao contrário, mantendo uma guerra defensiva (7), e obrigando os adversários a deixar as suas fortificações gradualmente, desvitalizou o exército de Kiev eliminando alguns dos lutadores mais experientes. A guerra mediática, princípio da estratégia ucraniana (8), obrigou-os a descobrir-se e a atacar, correndo o risco de serem esquartejados, ou, como em Mariupol, a fazer “Fort Chabrol” (9), para mostrar que não se renderiam sob nenhum pretexto. De qualquer forma, inépcia militar. O resultado é que o exército ucraniano como tal não existe mais, ou quase. Aqueles que vemos lutando hoje, cada vez mais, são os recrutas de “carne para canhão” (10), reforçados por mercenários estrangeiros.

E para compensar este enfraquecimento ucraniano, o envolvimento dos ocidentais tem sido cada vez mais forte: apoio financeiro gigantesco (11), mas também em armas, logística, inteligência militar e de satélite, em apoio a soldados “mercenários” (12) e comando, planeamento e treino. Na verdade, hoje, as máscaras estão caindo: não é mais a Ucrânia que está lutando, mas a NATO diretamente. A narrativa inicial não se aplica mais. Tornou-se inútil, porque as populações europeias, que a princípio tiveram de ser convencidas pelo simplismo maniqueísta dos “maus contra os bons”, estão agora suficientemente “presas no funil” para se pensar que não serão capazes de saltar fora. Em vez disso, o que agora deve ser “promovido”, para evitar que eles “se libertem” das garras do conflito e do efeito de retorno das sanções, é o risco de uma guerra nuclear.

À volta de Izioum

O melhor sinal dessa mudança é a batalha de Izioum. Com efeito, na opinião de todos os especialistas, marcou uma viragem, não tanto ao nível estratégico (13) ou mesmo ao nível tático (14) mas ao nível do método. Porque rompe, pela primeira vez, com a doutrina defensiva escolhida desde 2014 para quebrar os russos. Consistiu  no ataque rápido, que não estava nos planos. Segundo especialistas, não foi pensado, planejado ou mesmo executado pelos ucranianos, mas diretamente pela NATO. Trata-se, portanto, agora, no plano militar, de uma guerra direta NATO/Rússia, sem se esconder atrás do “proxy” ucraniano.

Putin, que queria deixar um “canal” de discussão aberto, pelo maior tempo possível, imediatamente aprendeu a lição, não do fracasso militar, como foi dito, mas da mudança no formato da guerra. O tempo diplomático acabou. Como a NATO aparece de um lado, a Rússia deve aparecer do outro. O recrutamento parcial por um lado, a implementação de referendos por outro, confirmam esta mudança de “formato”. A “Novarússia” (15) agora será a Rússia, e não será mais defendida por uma “força expedicionária”, mas por soldados russos, e suficiente para garantir os mais de 1000 km desta “nova fronteira”. Da mesma forma, pode-se pensar que os russos também mudarão a doutrina em relação aos seus inimigos. Sendo antes muito parcimoniosos em bombardear civis (16), é provável que agora sejam muito mais intransigentes diante dos ataques aos seus novos territórios. Se Kiev agora se apresentar como um inimigo direto da Rússia, é uma aposta segura que a Ucrânia, em grande parte poupada até agora (17), sofrerá a resposta de um país em guerra, infinitamente mais brutal (18). A Rússia não quererá um conflito internacional, porque tem interesse em preservar, para se proteger, um conflito local. Mas vai endurecer consideravelmente sua resposta local.

Gasodutos

Nesse contexto, também entendemos muito melhor o “caso do gasoduto”. Por um lado, não há dúvida de que este ataque vem do lado ocidental e não do lado russo (19). Além disso, os americanos, por esse fato, enviam um certo número de mensagens extremamente claras:

Aos russos e ao resto do mundo: “Tenham a certeza de que lutaremos contra os interesses russos em todos os lugares do planeta. Não haverá quarteirões nem fronteiras”.

Aos alemães: “Vocês traíram-nos ao aproximarem-se dos russos, quando sabiam que não os queríamos a qualquer preço. Aqui está o vosso castigo (20)  ”.

Para o resto da Europa:  “Não há escolha senão estar connosco ou contra nós. Se vocês saírem da linha estratégica definida, aqui está uma amostra do que vos vai acontecer ”.

Reagiram assim, e muito rapidamente, às tentativas alemãs de “amolecer” o consenso europeu de apoio à Ucrânia, motivados pelo medo que lhes suscitava o esperado colapso económico e social, na sequência da possível falta de gás durante o ‘inverno’. ~

Hoje, não há mais alternativa. Ainda melhor que o conquistador Hernan Cortés (21), os americanos inventaram uma variante de sua famosa ação brilhante: em vez de queimar os seus navios, queimaram os do seu melhor aliado… É provável que poucos líderes da Europa venham agora a demonstrar a sua independência…

Além disso, eles criaram as condições para uma possível superioridade dos russos, que poderiam atacar os interesses americanos noutros lugares que não na Ucrânia. Na verdade, provavelmente, eles estão apenas esperando por isso. Parece duvidoso que o astuto Putin caia na armadilha aqui também.

Gradualmente, a lógica mortal e inelutável deste caso vem à tona, a de um confronto direto entre as duas maiores potências militares e nucleares da terra (22). E ela impõe as duas únicas respostas possíveis: uma é dizer “Pare o fogo!”  finalmente, uma resposta humanitária e não belicista. A outra é dizer “Esse assunto não terá solução militar, apenas solução política“. 

Cada vez mais se impõe um novo e grande discurso de Phnom Penh (23). Mas quem terá coragem e a estatura política para  o fazer?

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Notas

(1) No seu excelente livro, “The American Friend”, o jornalista Eric Branca mostra que durante esta guerra, os americanos perseguiram, em paralelo, dois objetivos aparentemente contraditórios, um consistindo em aliar-se aos russos para combater os nazis, o outro consistindo em aliar-se aos nazistas para combater os russos. A estratégia anti russa, portanto, data bem antes de 1991.

(2) a) Reconhecimento da Crimeia, b) Status autônomo dos oblasts de Donetsk e Luhansk, c) Desmilitarização

(3) No caso do trigo, os russos aceitaram a exportação de trigo ucraniano, por outro lado, os ocidentais ainda não cumpriram as condições ainda aceitas relativas à exportação de trigo russo, segunda parte do acordo. A questão do trigo, a malícia de Putin e a estupidez ocidental – por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourrierdesstrateges.fr)

(4) O que há de verdade por trás do “romance Zaporizhia”? por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(5) Durante a visita da AIEA à usina, moradores da cidade vizinha de Energodar apresentaram ao diretor da AIEA, Rafael Grossi, uma petição assinada por 20.000 pessoas, pedindo que os ucranianos parassem de bombardear a usina e a cidade. Grossi promete criá-la, mas não o fez. https://www.lelibrepenseur.org/les-habitants-de-zaporijia-demandent-larret-et-la-condamnation-des-bombardements-de-la-centrale-nucleaire-par-le-regime-de-kiev/

(6) Se podemos censurar Putin por uma coisa, paradoxalmente, é sua ingenuidade. De fato, ele nunca deixou de acreditar, apesar de tudo o que observou desde 1991, que poderia um dia encontrar um acordo com o Ocidente. Se ele decidiu integrar os 4 oblasts, é porque suas últimas ilusões caíram.

(7) Ucrânia: vietnamização, mas para quem? por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(8) Os Estados Unidos e a OTAN cometem o erro capital em uma guerra: subestimar seu inimigo – por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(9) https://fr.wikipedia.org/wiki/Fort_Chabrol

(10) Meninos a partir de 16 anos, meninas a partir de 18 anos, idosos até 70 anos. Que loucura empurrar este país para a guerra de novo e de novo!

(11) O Ocidente gastou mais de 80 bilhões de dólares nesta guerra até agora

(12) Parece que se encontram em particular, hoje, muitos combatentes africanos. Os caixões que voltam para o campo fazem menos barulho do que no Ocidente…

(13) As terras da região de Kharkiv até Izium não são estratégicas para os russos. Eles são muito difíceis de proteger, porque são muito planos. Eles não fazem parte das áreas que querem libertar.

(14) A batalha de Izium é para os ucranianos uma “vitória de Pirro”. Contra um ganho de território bastante desinteressante, deixaram no ataque muitas perdas de homens e materiais. Pode-se perguntar seriamente, mesmo que não tenha sido uma armadilha dos russos. Os Estados Unidos e a OTAN cometem o erro do capital em uma guerra: subestimando seu inimigo – por François Martin – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(15) https://fr.wikipedia.org/wiki/New-Russia_(project_d%27State)

(16) Segundo a ONU, esta guerra até agora resultou em “apenas” cerca de 6.000 mortes. Deve ser lembrado que durante a guerra do Iraque, os bombardeios aliados causaram quase 200.000 mortes em poucos dias (sem qualquer protesto internacional, etc.), e ao todo quase um milhão de mortes entre 2003 e 2011.

(17) Porque Putin queria dar uma última chance à negociação e à paz.

(18) Foi o que disse o grande especialista americano John Mearsheimer em uma conferência na primavera de 2022: “Você está louco para querer atacar um dos maiores exércitos do mundo. Se você a colocar em dificuldade, é muito simples. Vai destruir totalmente a Ucrânia”.

(19) Por um lado, não entendemos por que os russos destruiriam uma obra faraónica que exigia 20 anos de esforço, quando é precisamente um de seus melhores meios de chantagem contra a Alemanha. Por outro lado, este episódio é muito caro para eles, pois, além dos reparos, os obriga, para evitar que a água suba no gasoduto e no abismo em sua totalidade, a continuar injetando 200 milhões de m3 de gás por dia. Além disso, a área onde ocorreu a sabotagem é, como o Estreito de Ormuz, uma das mais vigiadas do mundo, acima e abaixo da água. Não há dúvida de que um submarino russo teria sido imediatamente detetado ali. Finalmente, as responsabilidades já foram manifestadas.

 Radek Sikorki apagou o tweet onde agradeceu aos EUA por terem sabotado os gasodutos – Le Courrier des Stratèges (lecourierdesstrateges.fr)

(20) Os americanos odeiam aqueles que querem assumir o poder, depois de terem sido seus vassalos. A lista dos “punidos” é muito longa: Reza Pahlavi, Noriega, Mobutu, Saddam, etc…Olaf Scholz é apenas o último deles.

(21) Hernán Cortés – Wikipedia (wikipedia.org)

(22) A menos que, segundo as análises mais recentes, as reservas de homens e armas dos ucranianos estejam esgotadas, na sequência dos ataques quase suicidas realizados recentemente, bem-sucedidos no norte, mal sucedidos no sul. Nesse caso, a chegada do inverno e dos reservistas pode ser o momento para um contra-ataque russo definitivo.

(23) Phnom Penh Speech – Wikipedia (wikipedia.org)


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A verdadeira diferença

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 10/10/2022)

Hoje, ao sair da minha casa, deparei-me com Katia, a minha porteira. De boné azul-bebé com o tridente de Bandera (agora ucraniano), recebeu-me sempre simpática (e que bem que sabe o que sou), mas triste. Perguntei-lhe: “Então”? “Estás preocupada”? Ao que me respondeu: “Esta noite foi muita bomba”. Desejou-me “bom trabalho”, como faz todos os dias, e eu respondi-lhe “Infelizmente há muito quem queira a guerra”, tendo ainda acrescentado “qualquer coisa que precises, diz”. Nos últimos tempos tenho ajudado vários Ucranianos, que me traz à porta, com a documentação e lhes transmitir, em Inglês, algumas instruções. Foi assim, também, que conheci Ivan, jovem fugido a um dos muitos recrutamentos já feitos pelo Sr. Z.

Ao meio dia, recebo um telefonema de Tatiana. Tatiana também é Ucraniana, mas de Zaporizhie. De mãe Bielorussa, Tatiana fala russo e é ortodoxa, tal como toda a sua família. Disse-me que “o meu tio, um velhote reformado, levou com um estilhaço de uma bomba na barriga e está quase a morrer num hospital”. “Estilhaço de quê”? Perguntei-lhe. Ao que me respondeu “de que haveria de ser, de uma bomba ucraniana”. Este “ucraniana” veio acompanhado de um “ainda bem que já somos russos”, “mas ainda não nos sentimos protegidos”. Ao contrário, de Katia, Tatiana não pode andar na rua com um boné da Novorussya ou mesmo da Rússia. E ela sabe-o melhor do que ninguém.

A primeira vez que me cruzei co alguém que sofria os efeitos da guerra na Ucrânia, foi em 2015, com Natasha. Natasha tinha ido para Donetsk em 2013 – “as coisas estão a melhorar” dizia. Tinha ganho o Partido das Regiões, partido de Rybak e Yanukovich, que era uma coligação de vários partidos “russófonos”. O “Fatherland”, partido de centro direita nacionalista, ficou em segundo. O Partido das regiões ganhava o leste todo, incluindo Kharkov e Kiev, o “Fatherland” ganhava o oeste. Quem não via esta divisão, não queria ver o que era a Ucrânia. Hoje, a propaganda ocidental apagou esta história. Mas o facto é que ela existiu.

Natasha fugiu da guerra. “Como assim, da guerra”? Fugidos os mais ricos, quem ficou no Leste foram os pobres, os trabalhadores, os russos, disse-me Natasha. Em 2014, com o golpe de Maidan e a dissolução do partido das regiões, lá ganhou Poroshenko. E a história é conhecida.

O que a convivência diária com os Ucranianos me proporciona, é a noção de relatividade, mas também de objetividade. O que para uns é libertador, para outros pode ser opressor. Não que estejam em lados diferentes, mas porque a forma como os veem muda consoante a sua perspetiva.

E esta é a grande diferença entre quem abominando a guerra, qualquer guerra, e procurando os factos concretos, com a sua singela objetividade, distinguindo entre “facto” e “perceção” e entre “discurso” e “prática”, e quem, partindo de verdades absolutas, propagadas no Google, nas notícias ao minuto e nas TV’s dos órgãos privados ocidentais, mas que, sem um pingo de conhecimento concreto, objetivo, humano e prático, acha que pode desatar a assumir opiniões definitivas e absolutas sobre a natureza daquela guerra ou de outra, do regime do Sr. Z ou de Putin, dos russos ou dos ucranianos.

E são precisamente os donos dessa “verdade absoluta”, tão religiosa quanto própria do futebolês mais intolerante, quem toma atitudes intolerantes para com quem não alinha na tendência dominante, oprimindo ou ofendendo quem tem a coragem de pelo menos tentar fornecer uma leitura objetiva, histórica e dialética daquele conflito. E é esta gente, que nunca ouviu um russo ou ucraniano que não sejam os que passam e falam nos canais de propaganda ocidental e que, tudo o que vê, ouve e aprende sobre esses países, é filtrado pelo passador dos algoritmos do Vale do Silício, que verborreia a “democracia” de Z e a “ditadura” de Putin, sem perceber que a realidade não é a preto e branco, que não tem de ser uns contra os outros, como um qualquer jogo de futebol, e que é possível analisar, perceber e tomar um lado, sem com isso alienarmos toda a nossa racionalidade e capacidade de discussão e debate.

É por isso que há quem sofra tanto com a dor de Natasha, como com a Katia. E saiba que a dor de uma não tem de ser contrapartida da outra, nem a dor de uma acontece por ser contra, ou por causa, da outra, ou por uma estar uma de um lado e outra do outro. A dor das duas acontece por culpa do mesmo responsável, do mesmo agressor, mesmo que não pareça. A dor que oprime estes dois seres humanos tem, não tem, do outro lado, um russo ou um ucraniano.

Do outro lado, as suas dores, têm os causadores da guerra, desta guerra, de todas as guerras. E é caricato que, quem despreza as dores de uns, ataca precisamente quem honra e sofre as dores dos dois. Porquê? Porque é instrumento de quem quer, precisamente, dividir o mundo em dois lados, dividindo seres humanos, povos, trabalhadores e suas famílias, em nome de um mundo separado entre dominados e não dominados, traduzindo-se daqui para “democracias” e “ditaduras”, se a esta terminologia, o adepto e o fanboy forem mais sensíveis.

E é precisamente esta lógica “hooliganista” que, hoje, justifica que às eleições “democráticas” que elegem Z, se contraponham os referendos “aldrabados” do Kremlin… Como se fosse só escolher, entre o lado Oeste, que extirpa do sufrágio todos os partidos russófonos e tolerantes com a russofonia, ganhando assim as eleições, e o lado Leste que, apenas povoado quase exclusivamente por pró-russos (nem outros lá quereriam ficar), decide juntar-se à Rússia. E tal como escolhem um ou outro, designam o primeiro, o seu, como democracia, e o do outro, como ditadura, desprezando a vontade de todos os que aí quiseram, de facto, votar e exprimir a sua liberdade. Como se a liberdade de uns, valesse mais do que a de outros.

E, ao contrário desse intolerante adepto, há quem fique triste com os bombardeamentos de hoje à Ucrânia, porque sabe que “agora é que a escalada infernal vai acelerar”, como fica triste pela destruição da ponte da Crimeia, por saber que tal constituiria mais um passo numa escalada que vai vitimar inocentes, de um lado e de outro.

E é por isso que há quem não possa estar de acordo com o triunfalismo ocidental o mesmo que comemora a destruição da ponte, demonstrando que o regime de Z vive do ódio ao próximo, ao irmão, que até ontem com ele vivia. Mas é por isso também, que há quem não possa estar de acordo quando extremistas russos chamam de porcos aos soldados Ucranianos, tal como não aceita quando os Azovs chamam de Orcs aos soldados russos.

Hoje, quem toma partido, como no futebol, em 2014 não quis saber. Se quis saber, hoje vendeu-se ou deixou-se toldar com a propaganda. Quem viu Nuland e Ana Gomes a distribuir lanches, dando força aos movimentos neonazis, sabia que ali estava quem representava o outro lado, o reverso da dor e do sofrimento de dois povos, hoje irremediavelmente separados.

Do outro lado está a ganância, o belicismo, o domínio dos recursos alheios, a tentação de impor a sua lei aos outros povos, o neocolonialismo, a cobardia e o seguidismo, a superficialidade e a religiosidade na crença de tudo o que é apresentado como “o ocidente, contra o mundo”, especialmente se, do outro lado, estiver um mundo que não se deixa dominar.

Mas quem se deixa religiosamente manipular, pensando que está obrigado a escolher um de dois lados, quando os dois lados não existem ou são falsos, porque aquela que é a divisão real não lhes é apresentada, mas escondida, é precisamente quem acredita que Putin é comunista e a Rússia um país socialista, mesmo que mais de 90% da propriedade esteja em mãos privadas e a Rússia de Putin seja também um país com tantos oligarcas por 100.000 pobres como uns quaisquer estados unidos ou europa ocidental. Bastou acenarem-lhe com o vermelho, qual arquétipo despertador de antigas e superficiais divisões.

E sabendo-se que Putin pertence ao partido Rússia Unida que congrega vários movimentos conservadores e até liberais, com grande apoio da Igreja, e que a tudo isto se opõe o PCFR, constituindo a real oposição a Putin, mesmo assim, basta Paulo Portas, que cá para nós, deveria estar preso pelos seus escândalos de corrupção e não na TVI aos fins de semana, aparecer com um Lenine ao lado, enquanto fala da Rússia, para o rebanho crente, acrítico, preconceituoso e intolerante, passar a acreditar que Putin é mesmo comunista. E enquanto isso, esquecem-se que, a real luta, não é entre comunistas e não comunistas, mas entre exploradores e explorados, entre capital e trabalho, entre povos e impérios.

E é esta imagem, esta superfície bacoca, mas alienante, de que vive este regime de néons, que tão de repente chora a dor de uns, enquanto goza, despreza e esconde a de outros. É também esta gente, que celebra a liberdade de uns, enquanto oprime a de outros. É esta gente que propagandeia a “nossa” democracia, usando-a como arma de arremesso contra a “tirania” dos outros, bastando, para isso, alguém dizer que, a informação de uns é propaganda, e a propaganda de outros, é informação.

E o mesmo fazem em relação aos povos. Se aqui todos emprenham pelo mesmo ouvido, é porque temos liberdade e podemos exprimir-nos. Se tal sucede nos outros países, eleitos como inimigos pelas caixas-de-ressonância de Wall Street, é porque esses povos estão alienados pela propaganda, condenando essa gente à estupidez e a condescendência paternalista de acharem que, tais povos, não sabem o que querem, apenas porque querem algo que não lhes cabe no seu preconceito, nos seus dogmas futebolísticos.

E, por fim, são estes que escondem as guerras de uns, condenando veementemente, e com tal energia, as de outros, não venha alguém expor a sua hipocrisia, cinismo e cobardia.

E é por isso que eles não são verdadeiramente contra esta guerra… apenas são contra aquele que identificam como agressor.

Tudo porque, como no futebol, se tomam pelo lado que se auto classifica como agredido!

Neste jogo hipócrita, a dor real é secundária… E essa é a diferença!


P.S.1. Já repararam que evito escrever nomes de certos países e pessoas: a censura algorítmica a tal me obriga. As minhas desculpas.

P.S.2. ATENÇÃO!

Como forma de contornar a pressão crescente dos algoritmos, decidi criar dois canais alternativos para os meus escritos:

um blogue:

https://canalfactual.wordpress.com/

(contém todos os textos, incluindo alguns que não publico e mantenho na gaveta)

Um canal Telegram:

https://t.me/canalfactual

Contém links para todos os textos do blogue e notícias que vou destacando, incluindo textos com reflexões muito sintéticas

Para quem segue os meus textos e pretende fazer-me questões sobre assuntos concretos, recomendo que usem o Telegram. Estes são os dois canais, de momento, mais seguros para acompanhar o que escrevo.

Se te interessa, visita e partilha. Só a informação, a reflexão e o debate livre, sério e descomprometido, nos pode conduzir à luz.

Um abraço a todos e todas que comigo partilham o interesse pela procura do conhecimento.


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A UE caminha sonâmbula para a anarquia

(Por Thomas Fazi, in a Viagem dos Argonautas, 08/10/2022)

Biden é o Padrinho… 🙂 Este excelente texto tinha que ser acompanhado por um excelente cartoon – in Resistir, 09/10/2022

Todos os olhos podem estar postos nos resultados das eleições italianas desta manhã, mas a Europa tem problemas muito maiores nas suas mãos do que a perspetiva de um governo de direita. O Inverno está a chegar, e as consequências catastróficas da crise energética europeia autoimposta já estão a ser sentidas em todo o continente.

À medida que os políticos continuam a elaborar planos irrealistas de racionamento energético, a realidade é que o aumento dos preços da energia e a queda da procura já fizeram com que dezenas de fábricas numa gama diversificada de indústrias intensivas em energia – vidro, aço, alumínio, zinco, fertilizantes, químicos – cortassem na produção ou encerrassem mesmo, provocando o despedimento de milhares de trabalhadores. Até mesmo o New York Times pró-guerra foi recentemente forçado a reconhecer o impacto “paralisante” que as sanções de Bruxelas estão a ter sobre a indústria e a classe trabalhadora na Europa. “Os elevados preços da energia estão a atacar a indústria europeia, forçando as fábricas a cortar rapidamente a produção e a colocar dezenas de milhares de trabalhadores em licença”, relatou o New York Times.

Os cortes na produção de zinco, alumínio e silício (que representam uns espantosos 50% da produção) já deixaram os consumidores das indústrias siderúrgica, automóvel e da construção europeia a enfrentar graves carências, que estão a ser compensadas por remessas da China e de outros países. Entretanto, as fábricas de aço em Espanha, Itália, França, Alemanha e outros países – mais de duas dúzias no total – estão a começar a abrandar ou a parar completamente a sua produção.

A indústria de fertilizantes, que depende fortemente do gás como matéria-prima chave, bem como fonte de energia, está em dificuldades ainda maiores. Mais de dois terços da produção – cerca de 30 fábricas – já foi interrompida. A importante empresa química alemã BASF encerrou temporariamente 80 fábricas em todo o mundo e está a abrandar a produção em mais 100, uma vez que planeia novos cortes de produção, dependendo do que acontecer aos preços do gás. Para piorar a situação, as sanções da UE também limitaram as importações de fertilizantes russos.

A diminuição do fornecimento de fertilizantes está também a ter um efeito de arrastamento dramático sobre os agricultores europeus, que estão a ser forçados a reduzir a sua utilização de nutrientes chave. Isto significa preços mais elevados para uma menor produção, e as consequências são inevitavelmente sentidas muito para além das fronteiras da Europa, provocando potencialmente uma escassez alimentar global.

Mas a escassez de fertilizantes não é o único problema enfrentado pelos agricultores europeus. Em toda a Europa do Norte e Ocidental, os produtores de vegetais estão a ponderar a suspensão das suas atividades devido aos custos energéticos paralisantes – em alguns casos dez vezes superiores aos de 2021 – necessários para aquecer as estufas durante o Inverno e manter as colheitas refrigeradas, para além do aumento dos custos de transporte e embalagem. O grupo da indústria das estufas Glastuinbouw Nederland diz que até 40% dos seus 3.000 membros já se encontram em dificuldades financeiras. Isto ameaça ainda mais o abastecimento alimentar – e levará certamente a preços ainda mais elevados dos alimentos que, juntamente com o aumento das contas de energia, é provável que leve milhões de europeus à pobreza. Por outras palavras, a crise europeia da energia e do custo de vida está em vias de se transformar numa crise humanitária.

No Reino Unido, prevê-se que 45 milhões de pessoas enfrentem a precaridade energética até Janeiro de 2023; como resultado, “o desenvolvimento de milhões de crianças será prejudicado” com danos pulmonares, stress tóxico e desigualdades educativas cada vez mais profundas, à medida que as crianças lutam para acompanhar o trabalho escolar em lares gelados. Perder-se-ão vidas, alertam os especialistas. Entretanto, no distrito alemão de Rheingau-Taunus, as autoridades realizaram uma simulação do que tal apagão significaria para elas, e os resultados são chocantes: mais de 400 pessoas morreriam nas primeiras 96 horas. E isto num distrito de apenas 190.000 habitantes.

Ora, estes números podem estar sobrestimados, mas o governo local não pode dar-se ao luxo de os ignorar. De facto, Gerd Landsberg, director-geral da Associação Alemã de Cidades e Municípios, exortou os residentes a armazenarem água e alimentos para 14 dias. Gerd Landsberg diz que a Alemanha não está “de forma alguma” preparada para tal cenário.

O que é importante compreender é que esta não é uma crise temporária em que tudo o que precisamos de fazer é ranger os dentes durante o Inverno, após o que as coisas voltarão ao normal. A realidade, como o Diretor executivo da Shell deixou claro recentemente, é que se os governos europeus insistirem em dissociar a Europa do abastecimento russo, o continente enfrentará escassez de gás “suscetível de durar vários Invernos”. É uma verdade amarga, mas simplesmente não há alternativa a curto prazo ao gás da Rússia. De facto, a Comissão Europeia prevê que os preços do gás e da eletricidade “permaneçam elevados e voláteis até, pelo menos, 2023”.

Dito de forma simples, se se mantiver no seu rumo atual, a Europa está a ter pela frente anos de contração económica, inflação, desindustrialização, declínio do nível de vida, empobrecimento em massa e escassez – e isto sem ter em conta a perspetiva aterradora de um confronto militar direto com a Rússia. Como pode alguém pensar que a Europa pode sobreviver a isto sem mergulhar na anarquia?

A loucura da situação torna-se ainda mais evidente  quando consideramos que, na sua tentativa de reduzir a sua dependência do gás russo, a UE está a aumentar a sua dependência dos fornecimentos de países como a China e a Índia – que, ao que parece, estão simplesmente a revender à Europa gás que vem da… Rússia (a um preço mais elevado, claro). Se a vida das pessoas não estivesse em risco, tudo isto pareceria uma piada de mau gosto.

É verdadeiramente um sinal da fraqueza dos políticos europeus que, apesar da proximidade do precipício, ninguém se atreva a afirmar o óbvio: que as sanções têm de acabar. Não há simplesmente qualquer justificação moral para destruir o sustento de milhões de europeus simplesmente para  dar uma lição a Putin, mesmo que as sanções estivessem a ajudar a atingir esse objetivo, o que claramente não estão.

E assim, de forma bastante deprimente, a única voz da razão parece ser a do primeiro-ministro da Hungria, Victor Orbán. Há semanas que ele e outros membros do seu governo têm vindo a alertar sobre a calamidade económica que a Europa enfrenta. “As tentativas de enfraquecer a Rússia não tiveram sucesso”, disse ele recentemente. “Pelo contrário, é a Europa que poderia ser posta de joelhos pela inflação brutal e pela escassez de energia resultante de sanções”. Esta é uma afirmação de facto, não uma simples opinião. Mas ninguém parece querer ouvir.

Em resposta, os tecnocratas em Bruxelas estão a provar ser tão insensatos quanto são os dirigentes  nacionais. Não só a delirante abordagem da UE à Rússia é uma das principais causas da presente crise, como a sua liderança continua a deitar gasolina na fogueira. Ainda este mês, Josep Borrell, o Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, disse que “a estratégia contra a Rússia está a funcionar e deve continuar” – e prometeu novas sanções.

Pior ainda, a UE não está sequer a fazer nada para ajudar a amortecer os efeitos da crise que ajudou a criar. Depois de abandonar a ridícula proposta de limitar apenas o preço do gás russo – o que teria levado ao corte imediato deste último – Bruxelas está agora a ponderar um limite a todas as importações de gás, o que até o Ministro de Estado alemão para a Europa advertiu que poderia levar a uma grave escassez.

A proposta também não tem em conta um facto básico: não são os exportadores de energia que estão a aumentar o preço do gás; este último está hoje ligado ao preço a que o gás é comercializado em mercados comerciais virtuais, como o TTF em Amesterdão, onde especuladores têm vindo a aumentar os preços durante meses, obtendo enormes lucros. Além disso, no mercado liberalizado de hoje, que se baseia no chamado preço de custo marginal, o preço final da energia é fixado pelo combustível mais caro necessário para satisfazer todas as exigências – neste caso, o gás. Isto significa que à medida que os preços do gás sobem, também a eletricidade, mesmo que mais barata, contribui para a mistura total.

Assim, se a UE levasse a sério a questão dos preços da energia, dissociaria o preço do gás dos mercados comerciais especulativos e reformularia o sistema de preços de custo marginal. Mas isso iria contra a ideologia fundamental dos tecnocratas europeus: a ideia de que os preços deveriam ser fixados pelos mercados. De facto, a UE estava entre os mais fervorosos apoiantes, contra o conselho de Putin, (n.t. – explicado num artigo da CNBC americana) da mudança de negócios de gás de preço fixo a longo prazo para um sistema em que o preço é fixado por mercados comerciais virtuais.

Dada a improbabilidade de uma reforma radical, o que fará Bruxelas a seguir? Muito provavelmente contentar-se-á com soluções mal cozinhadas – tais como um teto sobre o excesso de receitas feito pelas centrais elétricas que não são de gás e um imposto excepcional sobre os lucros excedentários – bem como com aquilo que faz melhor: aplicar a austeridade. Entretanto, o BCE, em vez de anunciar uma nova ronda de compras de obrigações para proporcionar aos governos o dinheiro de que necessitam para proteger os cidadãos e as empresas da subida dos preços do gás e da energia, começou a reduzir os seus programas de flexibilização quantitativa e a subir as taxas de juro, fazendo com que o spread entre as obrigações do governo a 10 anos emitidas pela Itália e Alemanha se alargasse aos seus níveis mais elevados desde que a pandemia começou. Isto poderia facilmente precipitar uma nova crise da dívida, que é a última coisa de que a Europa precisa.

Sem o apoio dos bancos centrais, os governos da UE têm sido essencialmente deixados à sua sorte. Mais uma vez somos recordados do que significa para os países do euro terem abdicado do poder de emitir o seu próprio dinheiro; não é coincidência que o Reino Unido por si só tenha alocado mais que 50% do que foi reservado pelo conjunto da UE.

Isto já está a conduzir para políticas que remetem para as costas dos outros os custos da resolução dos nossos problemas (beggar-thy-neighbour): países, como a Alemanha, que podem contar com os mercados financeiros para angariar o dinheiro de que necessitam para ajudar os cidadãos e as empresas, e nacionalizar ou socorrer os serviços públicos de energia em dificuldades, irão inevitavelmente ultrapassar os países mais fracos que já enfrentam dificuldades nos mercados obrigacionistas, como a Itália. De facto, isto já está a começar a acontecer, uma vez que cada vez mais países se envolvem no que só pode ser descrito como protecionismo energético.

Em teoria, a segurança do gás na Europa é regida por um regulamento adotado em 2017, que torna obrigatória a solidariedade entre os países europeus. Mas os países da UE nem sempre cumprem essas regras quando confrontados com uma crise de aprovisionamento. Assim, por exemplo, o jornal italiano La Repubblica noticiou recentemente que a Itália tinha recebido uma notificação escrita da EDF, empresa pública estatal francesa, relativa a uma potencial paragem de dois anos nas exportações de energia como parte dos planos de poupança de energia da França. Um porta-voz do Ministério da Transição Ecológica italiano confirmou mais tarde a reportagem do jornal, embora tenha sido negada pela EDF. Do mesmo modo, a Croácia e a Hungria anunciaram ambos que tencionam implementar medidas para limitar as exportações de gás natural para os países vizinhos. Enquanto a Noruega, que suplantou a Rússia como a maior fonte de abastecimento de gás da UE, obtendo lucros gigantescos à custa de preços de gás mais elevados, recusou-se assim a apoiar um limite de preços nas suas exportações de gás.

No entanto, embora lamentar tal “falta de solidariedade” entre os Estados europeus seja fácil, também é ingénuo. Afinal de contas, é simplesmente assim que o capitalismo funciona. Apesar de toda a conversa sobre “capitalismo global”, as nações individuais – ou melhor, as suas respetivas elites capitalistas – ainda estão envolvidas em competição entre si. Enquanto as classes dirigentes de países individuais estão mais do que felizes em colaborar na prossecução dos interesses do capital em geral à custa dos trabalhadores – basta olhar para a União Europeia – os seus interesses concorrentes ressurgem inevitavelmente em tempos de crise.

Na realidade, a UE, longe de encorajar a solidariedade entre países, torna a concorrência inter-capitalista ainda mais feroz, ao privar os países dos instrumentos económicos básicos necessários para lidar com choques externos. Não importa se o continente está a sofrer um colapso financeiro, uma pandemia global ou uma escassez de energia. Na Europa, as políticas de exportar os seus problemas para as costas dos outros não são uma exceção à regra – elas são a regra.

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O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e o seu último livro, em co-autoria com Bill Mitchell, é Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017).


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