Os Estados Unidos da paralisia

(Chris Hedges, in Resistir 15/05/2023)

Quanto mais tempo o Estado corporativo corrói os laços sociais que fornecem um senso de propósito e significado, mais inevitável se torna um Estado autoritário e um fascismo cristianizado.


A paralisia política apaga o que resta da nossa anémica democracia. É a paralisia de nada fazer enquanto os oligarcas no poder, aumentaram a sua riqueza em quase um terço desde o início da pandemia e em quase 90% na última década. Orquestram boicotes fiscais virtuais enquanto milhões de americanos entram em falência para pagar contas médicas, hipotecas, dívidas de cartão de crédito, dívidas estudantis, empréstimos para carros e contas crescentes de serviços públicos, exigidas por um sistema que privatizou quase todos os aspetos da vida nos Estados Unidos.

É a paralisia de não fazer nada para aumentar o salário mínimo, apesar da inflação, de cerca de 600 mil americanos sem-abrigo e 33,8 milhões de pessoas vivendo em famílias com insegurança alimentar, incluindo 9,3 milhões de crianças. É a paralisia de ignorar a crise climática, a maior ameaça existencial que enfrentamos, para expandir a extração de combustíveis fósseis [NT]. É a paralisia de despejar centenas de milhares de milhões de dólares na economia de guerra permanente em vez de reparar infraestruturas como estradas, caminhos de ferro, pontes, escolas, rede elétrica e de abastecimento de água em colapso do país.

É a paralisia de se recusar a instituir cuidados de saúde universais e regular as indústrias de seguros e farmacêuticas com fins lucrativos para consertar o pior sistema de saúde de qualquer nação altamente industrializada, em que a expectativa de vida está caindo e mais americanos morrem de causas evitáveis do que em nações industrializadas. Mais de 80% das mortes maternas só nos EUA são evitáveis, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

É a paralisia de não estar disposto a conter a violência policial, desmantelar o maior sistema prisional do mundo, acabar com a vigilância governamental sobre o público e reformar um sistema judicial disfuncional onde quase todos, a menos que possam pagar advogados caros, são coagidos a aceitar acordos onerosos de delação premiada.

É a paralisia de ficar passivamente ao lado do público, armado com arsenais de armas de assalto, massacrando-se uns aos outros por atravessarem para o seu quintal, utilizarem a sua garagem, tocarem a campainha, irritá-los no trabalho ou na escola, ou são tão alienados e amargurados por serem deixados para trás, que atiram contra grupos de pessoas inocentes em atos de autoimolação assassina.

Caçadores da democracia

As democracias não são mortas por bufões reacionários como o ex-presidente Donald Trump, que foi rotineiramente processado por não pagar trabalhadores e empreiteiros e cuja personalidade fictícia da televisão foi vendida a um eleitorado crédulo, ou por políticos superficiais como o presidente Joe Biden, cuja carreira política tem sido dedicada a servir doadores corporativos . Esses políticos fornecem um falso conforto individualizando as crises, como se remover uma figura pública ou censurar um grupo nos salvasse.

As democracias são mortas quando uma pequena cabala, no nosso caso corporativa, toma o controle da economia, da cultura e do sistema político e os distorce para servir exclusivamente os seus próprios interesses. As instituições que deveriam fornecer apoio ao público tornam-se paródias de si mesmas, atrofiam e morrem. Como explicar órgãos legislativos que só podem unir-se para aprovar programas de austeridade, cortes de impostos para a classe bilionária, orçamentos policiais e militares dilatados e reduzir gastos sociais? Como explicar tribunais que retiram aos trabalhadores e cidadãos os seus direitos mais básicos? De que outra forma explicar um sistema de educação pública em que os pobres são, na melhor das hipóteses, alfabetizados de forma básica e os ricos enviam seus filhos para escolas e universidades privadas com doações na casa dos milhares de milhões de dólares?

As democracias são mortas com falsas promessas e vulgaridades ocas. Biden disse como candidato que aumentaria o salário mínimo para 15 dólares [por hora] e distribuiria cheques de estímulo de 2 000 dólares. Ele disse que seu Plano de Empregos Americano criaria “milhões de bons empregos”. Ele disse que fortaleceria a negociação coletiva e garantiria a pré-escola universal, licença familiar e médica remunerada universal e faculdades comunitárias gratuitas. Ele prometeu uma opção de financiamento público para a saúde. Ele prometeu não perfurar terras federais e promover uma “revolução da energia verde e justiça ambiental”. Nada disto aconteceu.

Mas, a maioria das pessoas já descobriu o jogo. Por que não votar em Trump e em suas promessas grandiosas e fantasiosas? São menos reais do que as defendidas por Biden e pelos democratas? Por que homenagear um sistema político que é sobre traição? Por que não se separar do mundo racional que só trouxe miséria? Por que fidelizar velhas verdades que se tornaram banalidades hipócritas? Por que não rebentar tudo isto?

Como ressaltam as pesquisas dos professores Martin Gilens e Benjamin Page, nosso sistema político transformou o consentimento dos governados numa piada cruel: “O ponto central que emerge de nossa pesquisa é que as elites económicas e grupos organizados que representam interesses empresariais têm impactos independentes substanciais na política do governo dos EUA, enquanto grupos de interesse baseados na massa dos cidadãos comuns têm pouca ou nenhuma influência independente”.

O sociólogo francês Emile Durkheim, no seu livro Sobre o suicídio, chamou o nosso estado de desesperança, desespero, anomia, definindo-o como “falta de governança”. A falta de regra significa que as regras que regem uma sociedade e criam um senso de solidariedade orgânica não funcionam mais. Significa que as regras que nos são ensinadas – trabalho árduo e honestidade nos garantirão um lugar na sociedade; que vivemos numa meritocracia, somos livres, nossas opiniões e votos importam, nosso governo protege nossos interesses – são mentiras. É claro que, se você é pobre ou uma pessoa de cor, essas regras sempre foram um mito, mas a maioria do público americano já foi capaz de encontrar um lugar seguro na sociedade, que é o baluarte de qualquer democracia, como apontam inúmeros teóricos políticos que remontam a Aristóteles.

Dezenas de milhões de americanos, lançados à deriva pela desindustrialização, entendem que suas vidas não vão melhorar, nem a vida de seus filhos. A sociedade, como escreve Durkheim, já não está “suficientemente presente” para eles. Os deixados de lado só podem participar da sociedade, escreve, por meio da tristeza.

O único caminho que resta para se afirmar, quando todas as outras avenidas estão fechadas, é destruir. A destruição, alimentada por uma grotesca hiper-masculinidade, transmite uma pressa e prazer, juntamente com sentimentos de omnipotência, que é sexualizada e sádica. Tem uma atração mórbida. Essa ânsia de destruir, o que Sigmund Freud chamou de pulsão de morte, atinge todas as formas de vida, inclusive a nossa.

Estas patologias da morte, doenças do desespero, manifestam-se nas pragas que estão varrendo o país – dependência de opioides, obesidade mórbida, jogo, suicídio, sadismo sexual, grupos de ódio e tiroteios em massa. Meu livro, America: The Farewell Tour, é uma exploração dos demónios que dominam a psique americana.

Uma teia de laços sociais e políticos – amizades e laços familiares, rituais cívicos e religiosos, trabalho significativo que transmite um senso de lugar, dignidade e esperança no futuro – permite que as pessoas se envolvam num projeto maior do que o seu eu. Esses vínculos fornecem proteção psicológica contra a mortalidade iminente e o trauma da rejeição, isolamento e solidão. Somos animais sociais. Precisamos uns dos outros. Tirem esses laços e as sociedades descem ao fratricídio.

Forças predatórias

O capitalismo é contrário à criação e sustentação de laços sociais. Seus atributos centrais – relações transacionais e temporárias, priorizando o avanço pessoal por meio da manipulação e exploração dos outros e da insaciável ânsia pelo lucro – eliminam o espaço democrático. A obliteração de todas as restrições ao capitalismo, do trabalho organizado, da supervisão e regulação governamentais, deixou-nos à mercê de forças predatórias que, por natureza, exploram os seres humanos e o mundo natural até a exaustão ou colapso.

Trump, desprovido de empatia e incapaz de remorso, é a personificação da nossa sociedade doente. Ele é o que aqueles que foram lançados à deriva são ensinados pela cultura corporativa, é aquilo que eles devem esforçar-se por se tornar. Ele expressa, muitas vezes com vulgaridade, a raiva incómoda daqueles que ficaram para trás, é uma propaganda ambulante para o culto do eu. Trump não é um produto do roubo dos emails de Podesta, dos vazamentos do DNC ou de James Comey. Ele não é um produto do presidente russo, Vladimir Putin, ou de robôs russos. Ele é um produto, de aspirantes a doppelgängers (sósias robotizados) como Ron DeSantis, Tom Cotton e Margorie Taylor Greene, de anomia e decadência social.

Os indivíduos estão “envolvidos demais na vida da sociedade para que ela fique doente sem serem afetados”, escreve Durkheim. “Seu sofrimento se torna o deles inevitavelmente”.

Esses charlatães e demagogos, que rejeitam as restrições costumeiras do decoro político e cívico, ridicularizam as elites “educadas” que nos venderam. Não oferecem uma solução viável para as crises que assolam o país. Eles dinamitam a velha ordem social, que já está podre, e clamam por vingança contra inimigos reais e fantasmas como se esses atos ressuscitassem magicamente uma era de ouro mítica. Quanto mais essa idade perdida permanece indefinida, mais cruel ela se torna.

“Uma vez que a burguesia afirmava ser a guardiã das tradições ocidentais, confundindo todas as questões morais ao exibir publicamente virtudes que não só não possuía na vida privada e empresarial, mas na verdade desprezava, parecia revolucionário admitir a crueldade, o desrespeito aos valores humanos e a amoralidade geral, porque isso pelo menos destruía a duplicidade sobre a qual a sociedade existente parecia repousar”.

Hannah Arendt escreve em As origens do totalitarismo acerca daqueles que abraçaram a retórica cheia de ódio do fascismo na República de Weimar. “Que tentação de ostentar atitudes extremas no crepúsculo hipócrita dos dois pesos e duas medidas morais, de usar publicamente a máscara da crueldade, fazendo desfilar a maldade num mundo de maldade!”

A sociedade norte-americana está profundamente doente. Os americanos devem curar essas doenças sociais, mitigar essa anomia, restaurar os laços sociais cortados e integrar os desprovidos de volta à sociedade. Se esses laços sociais permanecerem rompidos, isso garantirá um neofascismo assustador. Há forças muito sombrias circulando dentro dos EUA. Mais cedo do que muitos esperam, eles podem ter os americanos sob o seu controlo.


Nota do autor aos leitores: Agora não há mais como continuar a escrever uma coluna semanal para o ScheerPost e produzir o meu programa de televisão semanal sem a sua ajuda. Os muros estão a fechar-se, com rapidez surpreendente, sobre o jornalismo independente, com as elites, incluindo as do Partido Democrata, a clamarem por cada vez mais censura. Bob Scheer, que dirige o ScheerPost com um orçamento apertado, e eu, não renunciaremos ao nosso compromisso com o jornalismo independente e honesto, e nunca colocaremos o ScheerPost atrás de um paywall, nem cobraremos uma assinatura por isso, nem venderemos os seus dados ou aceitaremos publicidade. Por favor, se puder, inscreva-se no chrishedges.substack.com para que eu possa continuar a postar minha coluna de segunda-feira no ScheerPost e produzir meu programa de televisão semanal, “The Chris Hedges Report”. Clique aqui para se inscrever nos alertas por email.

[NT] Com toda a consideração por Chris Hedges, ele não é um cientista em climatologia. A tese das alterações climáticas de origem antropomórfica é no mínimo controversa e mais ainda a questão do “diabolismo” do CO2 (um gás não poluente e até indispensável à vida) ou dos combustíveis fósseis. Resistir.info tem, reiteradamente, alertado para tais questões. Ver por exemplo A impostura climática,

[*] Jornalista, Prêmio Pulitzer.

O original encontra-se em consortiumnews.com/2023/04/24/chris-hedges-the-united-states-of-paralysis/

Este artigo encontra-se em resistir.info


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Universidade – vocação e vontade

(Rui Pereira, in Facebook, 11/05/2023)

Não é a minha história pessoal que aqui interessa. Mas, quando há mais de vinte anos abandonei o jornalismo por motivos de censura no jornal onde então trabalhava, o semanário Expresso e, mais tarde, pela estação de televisão SIC, para me dedicar ao ensino e à Universidade, tive oportunidade de chamar à atenção centenas de estudantes para o silêncio dos nossos pensamentos e, por enquanto, a sala de aula como derradeiro espaço de liberdade nas nossas sociedades que se reclamam de livres e democráticas.

Ao dizê-lo, não ignorava o comentário retrospetivo de George Steiner para quem a universidade, ao longo da sua história, se desenvolvera quase sempre à margem do humano e da humanidade. Esmagada pela lógica do mercado, pela competição desigual com poderosas fábricas anglófonas de produção de um duvidoso tecno-saber que exclui declarada e ostensivamente as humanidades, a Universidade tem de lutar arduamente para se subtrair, no seu presente, à penetrante e dramática análise de Steiner sobre o seu passado.

A notícia do despedimento pela Universidade de Coimbra de um professor de Cultura e Língua russas, a partir das “denúncias” de dois “estudantes e ativistas” ucranianos (como são apresentados nas notícias) e da sua amplificação por pseudo-delatores sentados nas bancas dos telejornais, faz ressurgir todos os fantasmas da velha escolástica, do historial das Inquisições, das manipulações estalinistas da ciência, do McCarthysmo nos Estados Unidos do pós-guerra ou dos grandes cérebros da nossa Academia, presos, exilados ou simplesmente impedidos de lecionar e sobreviver pela ditadura de Salazar.

As alegações dos ativistas ucranianos pela ligação do professor à Fundação “Mundo Russo” são mais do que dúbias (ver aqui). imagine-se o que se dirá dos Estados Unidos na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, por exemplo, que símbolos aí serão exibidos e que matérias serão aí estudadas e desenvolvidas em cooperação com o jornalismo e as universidades portuguesas. Aquelas acusações configuram, portanto, úteis ações de combate, por parte de pessoas empenhadas na guerra do seu país, e que nela participam de acordo com os recursos que têm. O tão natural quanto violento regozijo dos comentários de outros ativistas ucranianos nas redes sociais a este propósito não deixam dúvidas.

O lado mais sombrio de tudo isto é, porém, a ação da Universidade de Coimbra e o comunicado emitido pela sua reitoria: “a UC – relata a CNN – emitiu um comunicado no qual se assume como “uma instituição profundamente comprometida com os valores europeus e totalmente solidária com a Ucrânia no contexto da agressão russa”. Subsequentemente, disse o reitor à comunicação social, a “gravidade da situação obriga-me a fazê-lo [despedimento]. (…) Assim que tomei conta do que se estava a passar dei indicações para a rescisão do contrato e, portanto, o contrato nesta hora deve estar rescindido”, anunciou o reitor, citado pela Renascença” (Ver aqui).

Mas, contrariamente a este voluntarioso depoimento, será essa a vocação da Universidade? Novamente George Steiner: “O que é uma verdadeira Universidade? Ora, são bibliotecas; um cuidado e engajamento com um passado vivo. Uma busca por desenvolver o conhecimento e clarificar criticamente os processos de escolha.

Uma verdadeira Universidade não serve a propósitos políticos ou programas sociais, necessariamente partidários ou transitórios. Acima de tudo, ela rejeita a censura e o politicamente correto de qualquer tipo.

O que nós conquistamos com o politicamente correto? As mentiras que estamos ensinando ou sendo obrigados a aceitar, as perguntas que não nos permitem levantar. Nem perguntar. O politicamente correto torna impossíveis grandes campos de estudos comparados. Uma Universidade deve abrigar e honrar a provocação anárquica e a paixão pelo inútil”.

Fica a ligação aqui para o resto do texto do grande humanista, académico e professor, à consideração de quem (em Coimbra ou onde quer que seja) se interesse por uma Universidade e um mundo de pensamento e de saber, de liberdade efetiva, isto é, um mundo em que a única limitação à liberdade seja a resultante da responsabilidade.


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Uma vida dedicada a promover língua e cultura russas

(Rui Marques Simões, in Diário de Notícias, 02/09/2016)

Vladimir Pliassov é professor universitário, responsável pelo Centro de Estudos Russos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Vive na Cidade dos Estudantes desde 1988

Em 2016 um jornal dito “de referência” publicava a encomiosa peça que pode ser lida abaixo. Em 2023, o visado, o Prof. Pliassov, é expulso da Universidade de Coimbra por decisão reitoral, sem que sejam dados a conhecer os supostos graves ilícitos fundadores da decisão, e que ele terá cometido. Terá sido afastado só por ser russso? Já chegámos a esse ponto?! Que país é este e que Europa é esta? Será que ainda vigora o Estado de Direito? Que anda a fazer o Presidente da República que fala sobre tudo mas nada diz sobre este e outros atropelos semelhantes? Não fala porque concorda? É que o povo usa dizer que quem cala consente. E o Primeiro-Ministro, também está sereno?! E os deputados? Acham tudo normal? E a imprensa e as televisões, não acham que isto merecia ter mais relevância que o portátil do Pinheiro?

O fascismo começa assim. É o arbitrio contra os russos porque não se gosta dos russos. Depois virão os pretos porque não se gosta de pretos. Depois os amarelos porque não se gosta de amarelos. Depois virão os comunistas porque não se gosta de comunistas. E mesmo os socialistas, cordatos e fáceis de contentar, também não escaparão.

Pois à Estátua – saudosa dos bancos da Universidade de Coimbra que frequentou, mas envergonhada pela cavernícola decisão do seu atual Reitor -, ninguém calará na denúncia deste e de todos os atropelos de russofobia que estão a crescer como erva daninha no nosso país.

Estátua de Sal, 13/05/2023


O destino tem destas coisas: foi em Moçambique, em meados dos anos 80, que Vladimir Ivanovitch Pliassov percebeu que, além da pátria Rússia, “o único país da Europa onde poderia viver era Portugal”…


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