“Caixa de Pandora”: 3ª Guerra Mundial é aposta do Imperialismo para tentar sobreviver

(Eduardo Vasco, in Diálogos do Sul, 26/11/2024)


Em toda a história, nenhum sistema em declínio (principalmente os impérios) aceitou o seu triste destino.


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Após Olaf Scholz telefonar a Vladimir Putin (algo que nenhum líder ocidental havia feito em cerca de dois anos), sinalizando uma rara disposição ao diálogo com os russos, Vladimir Zelensky acusou o chanceler alemão de abrir a “caixa de Pandora”.

A ação de Berlim certamente não foi sem motivos. Os alemães – os grandes prejudicados pelo confronto com Moscou – perceberam que recairão sobre eles todas as consequências de um possível afastamento dos Estados Unidos da guerra na Ucrânia quando Donald Trump tomar posse.

E a ligação de Scholz para Putin (em 15/11) se deu uma semana após a eleição de Trump (em 06/11). Dois dias depois da chamada entre os dois líderes, no dia 17 foi revelado que Joe Biden autorizou a Ucrânia a utilizar os mísseis de longo alcance ATACMS contra o território russo. Em seguida, os britânicos também autorizaram o uso dos Storm Shadow por Kiev.

Os ATACMS e os Storm Shadow, finalmente, foram assim disparados desde a Ucrânia contra as regiões russas de Bryansk e Kursk em 19 de novembro.

Cutucou-se o urso com uma vara curta.

A Rússia mostrou que não está para brincadeira. No dia 21, ela revelou ao mundo o seu poderoso míssil hipersônico de médio alcance Oreshnik, que atingiu a cidade ucraniana de Dnipropetrovsk. O Oreshnik viaja a uma velocidade de Mach 10, voando nada menos do que 3 km por segundo, e pode atingir qualquer capital europeia em poucos minutos.

Essa ameaça se tornou ainda mais perigosa depois que Putin anunciou uma revisão da doutrina militar russa, que agora permite o ataque a instalações militares de países que autorizem o uso de suas armas para atacar a Rússia. É precisamente o caso de EUA e Reino Unido.

Trata-se de uma escalada sem precedentes desde o início da intervenção russa na Ucrânia, há quase três anos. Levando em consideração que agora se abriu plenamente a possibilidade de um confronto direto entre Moscou e a Otan com o bombardeio de outros países, há quem fale até mesmo no início eventual de uma 3ª Guerra Mundial. Desse ponto de vista, as tensões são comparáveis apenas à da Crise dos Mísseis de 1962.

O fato de a situação ter escalado tanto menos de duas semanas após a vitória de Trump não é coincidência. Os detentores do verdadeiro poder nos EUA, o chamado “Deep State” (Wall Street e o complexo industrial-militar), levam muito a sério as palavras do republicano sobre encerrar a guerra na Ucrânia e retomar as relações com a Rússia. É uma das coisas que eles mais temem.

Motivo de “um grande negócio”

E o motivo disso foi explicado com muita honestidade recentemente na MSNBC. Com a maior naturalidade do mundo, o almirante reformado James Stavridis recordou que os Estados Unidos investem cerca de 40 bilhões de dólares por ano no financiamento da guerra na Ucrânia.

“Todo esse dinheiro é pago para os contratistas de defesa dos EUA, fazendo nossa base industrial de defesa mais forte”, disse. E completou: “essa é uma alavancagem fantástica. Você investe uma pequena quantia de dinheiro e obtém um efeito enorme. É um grande negócio para os EUA”.

Mais: a manutenção da guerra na Ucrânia é fundamental para a sobrevivência do sistema imperialista apodrecido que é liderado por Washington. Há décadas que ele vem experimentando um declínio acentuado, declínio este que se mostrou ainda mais irreversível nos últimos anos, com os vexames no Afeganistão, na própria Ucrânia e na Palestina.

Esse declínio é acompanhado de um lento despertar das nações oprimidas pelo sistema imperialista, expresso atualmente nas fenomenais (porém, aparentemente, irrefreáveis) articulações entre os chamados países emergentes – dos quais a Rússia é a grande líder, junto com a China – e seus anseios por uma nova ordem mundial “multipolar”.

Deep State quer se manter no poder

Já tendo perdido a mais importante disputa presidencial da história americana, o Deep State (o coração da máquina política do sistema imperialista) agora não quer perder nem um pouco de seu poder. Por isso busca uma aliança com o trumpismo, que já foi observada nas aproximações a Trump de setores empresariais teoricamente hostis ao então candidato. E agora, a tentativa de aliança – uma busca por controlar os instintos mais isolacionistas e prejudiciais ao domínio dos EUA – fica nítida a partir da composição do novo governo, que está sendo montado.

A maioria dos membros do alto escalão que foram nomeados por Trump é formada por elementos vinculados ao establishment neoconservador, sejam eles próprios falcões imperialistas ou ao menos palatáveis à máquina de dominação do Estado americano. Pouquíssimos são aqueles que, como Tulsi Gabbard ou Robert Kennedy Jr., geram uma aversão do Deep State.

Mas, pelo visto, a grande burguesia americana não quer esperar o dia 20 de janeiro e pagar para ver se seus prepostos no novo governo vão trabalhar direito. Ela pressiona desde já, esticando a corda até quase o limite, para obrigar Trump a acompanhá-la por esse caminho tortuoso que a maioria nos EUA, inclusive pessoas próximas a Trump, não quer trilhar.

Em toda a história, nenhum sistema em declínio (principalmente os impérios) aceitou o seu triste destino. As grandes mudanças sempre vieram a partir de enormes convulsões políticas, sociais e econômicas. Aqueles que acreditam em um mundo multipolar harmonioso em que uma superpotência, ou mesmo um sistema inteiro, será substituída através de uma transição indolor, provavelmente estão equivocados.

O mais provável, ainda que possa não vir imediatamente, é a guerra mundial. O lado positivo disso (para quem acredita que sempre há algo positivo nas desgraças) é que, diferente das duas guerras mundiais anteriores, esta não será entre potências imperialistas pela dominação do globo. A superpotência imperialista americana tem sob as suas asas as potências europeias enfraquecidas e subjugadas, suas aliadas de primeira hora na opressão dos países pobres e “emergentes”. A guerra será contra estes.

Essa é a verdadeira caixa de Pandora que pode estar se abrindo.

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Não lhes pergunto onde estavam no 25 de novembro

(Raquel Varela, in Facebook, 25/11/2024)

Pacheco Pereira, Irene Pimentel, José Manuel Fernandes, Helena Matos

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É divertido ver hoje escrito por Pacheco Pereira, Irene Pimentel, José Manuel Fernandes, Helena Matos – e tantos outros, sem nunca citarem – a minha tese de doutoramento sobre o papel do PCP na Revolução.

Quando a defendi o júri foi, uma parte dele, duríssimo, como eu nunca tinha visto um júri. E a reação destes dois historiadores e dois jornalistas foi de um enorme incómodo, para ser delicada. O tempo é sábio. Foi publicada em 2011. Não precisam de me citar, vivo muito bem com o livro, o que lá está já ninguém apaga.

 Na inquisição das disputas políticas em geral ataca-se pessoas, ignora-se a sua existência ou finge-se que as ideias são novas. Um país com escassos quadros e todos dependentes do aparelho de Estado é assim. Os quatro apoiaram o 25 de novembro. Não porque, como alguns, foram perseguidos pelo PCP, mas, como o tempo o demonstrou, queriam estar ao lado do aparelho de estado.

Não, o PCP nunca quis fazer uma revolução em Portugal. Queria Angola e a reforma agrária. O 25 de Novembro foi o cerco à democracia popular com a desculpa – do PS – que era para evitar uma ditadura soviética.

O que acabou em 25 de novembro foram 19 meses de democracia participativa como nunca se viveu antes na história de Portugal. A contra revolução não nos “salvou” de uma ditadura soviética, impôs sim um regime de democracia formal nas eleições, e ditadura, cada vez mais severa, nos locais de trabalho, retirando a voz a quem nas fábricas, escolas, hospitais e serviços geriu ( com uma eficácia sem paralelo) este país por 19 meses mostrando que era possível viver de outra forma.

Não lhes pergunto onde estavam no 25 de novembro claro, já sabemos, mas onde estão hoje face à NATO e a Israel. Porque é isso que se debate na AR a propósito do 25 de Novembro. Onde estão, hoje, face ao rearmamento da Europa e ao genocídio em Gaza?

Abril, sempre; novembro, nunca

(Por Sófia Puschinka, in Facebook, 25/11/2024, revisão da Estátua)


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Os festejos dos 49 anos do 25 de novembro, pela primeira e no ano dos 50 anos do 25 de abril, são a confirmação da radicalização do país e da extrema-direita. Não me venham dizer que foi uma data importante para a democracia porque o que não falta na nossa História contemporânea são datas importantes que, podem ser ou não do agrado de todos.

No mínimo tinham disfarçado e comemoravam os 50 anos do 25 de novembro no próximo ano, mas não, quiseram fazê-lo no ano em que o 25 de abril fez 50 anos, desrespeitando por completo aquela que foi efetivamente a data importante e que implementou em Portugal a democracia e meteu fim a uma ditadura.

O 25 de novembro, ainda por cima, teve influência de entidades estrangeiras, como a CIA por exemplo; os americanos sempre gostaram de meter o bedelho nas revoluções alheias.

O mais absurdo nisto tudo é que os atuais festejos foram propostos por aqueles que, há décadas e por todo o lado, temos visto a defenderem o regime do Estado Novo e que odeiam e sempre odiaram o 25 de abril e que, com uma grande lata, vêm agora falar em reposição da democracia, bla, bla, bla.

São os mesmos que eu, em miúda, vi ao vivo e a cores saírem de carros, armados e aos tiros, com o intuito de arruinarem uma festa de crianças no 1° de maio no jardim Constantino. Eu estava lá, era muito pequena mas a imagem jamais se me apagou da memória. Recordo-me de estar sentada no chão com outras crianças a pintar a aguarela, de ouvir tiros e ver os pais das crianças em pânico a pegá-las ao colo; foi a primeira vez que vi mulheres polícias. São estes, aqueles que falam agora em democracia e nos festejos do 25 de novembro.

Não posso deixar de referir a vergonha que é, partidos que se dizem de esquerda há anos, estarem presentes nas comemorações desta vergonha, da confirmação do radicalismo da nação. Mas não é novidade, são os mesmos que aplaudiram de pé o chefe de um regime banderista minado de radicais neonazis.

É também a confirmação que partidos, como o BE e o Livre, não são de esquerda, são partidos vendidos ao neoliberalismo e à agenda woke, financiados por George Soros, que se fazem passar por esquerda para enganarem tolinhos enquanto vão apoiando políticas e ações de direita.

Se tivessem vergonha na cara tinham a atitude que tem o PCP mas, o medo de perderem o tacho e o “pilim” que os sustenta sobrepõe-se à decência e ao carácter. É pena que exista muita gente séria e honesta a serem enganados por esta malta. Na verdade não passam de uns betinhos que acharam giro ser diferente, ser de esquerda e serem rebeldes, mas depois aquilo bem analisado já nem ideologia têm, é o disparate completo e não há limites para a escalada do absurdo e do incoerente.

O PCP não está presente e a Comissão do 25 de abril não está presente e muito bem. Parte do povo português também não apoia o disparate, gente de todos os quadrantes políticos. Isto é uma vergonha, eu, não apoio os festejos sejam na AR, na rua ou no raio que os parta, estes anormais não me representam.

Hoje estou de luto por Portugal e pela democracia, jamais apoio a radicalização do país, jamais apoio um bando de grunhos que resolveram sentar na AR.

Reparem que isto foi proposto pelo partido que perdeu assento parlamentar e perdeu até a sua sede, um partido constituído pelas supostas famílias ricas mas que me parece que, na verdade, são apenas uns pelintras armados em ricos, uns oportunistas que vivem à custa do dinheiro público, caso contrário não teriam passado pela humilhação de perderem tudo e pagavam no mínimo a renda da sede do partido. Que fiéis que são às suas ideologias e partido, já viram? Deixarem aquilo descambar e perderem a sede.

Os portugueses devem convencer-se que ideologias há várias, oportunistas ainda mais: o difícil, mesmo, na atualidade é, encontrar gente honesta e fiel às suas convicções, gente que paga e dá a vida por aquilo em que acredita, pela igualdade, pela liberdade em todas as suas formas, pela educação e saúde para todos, pelas condições de vida de todo um povo, sejam qual for a sua ideologia.

Isto é uma vergonha