(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/01/2025)

A votação da nova Lei dos solos na Assembleia da República será um raro momento de verdade ou de máscaras.
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e querem saber como ficará grande parte do país se for para a frente a alteração profunda ao Regulamento Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial, vulgo Lei dos solos, pensem no que era a Ericeira há 20 anos e no que é hoje. Há 20 anos, antes do boom do surf, a Ericeira era uma pequena e agradável vila piscatória que, além do centro histórico, se dispersava suavemente em esparsas casas pelos montes circundantes. Hoje, o tal centro, com o seu Largo do Jogo da Bola, só é descortinável por quem o procurar, esmagado que está por uma avalancha de betão em toda a volta, e pelas encostas dos montes acima cresceu uma floresta de construções de toda a espécie, altura e volumetria, sem nenhuma ordem urbanística ou harmonia arquitectónica, ocupando cimos, vales, curvas de nível, todos os espaços para qualquer lado que se olhe: um pesadelo. Não sei que leis ou regulamentos permitiram tamanho deboche — ou, não o permitindo, como foram tão facilmente contornados. Mas se a alteração à Lei dos solos proposta pelo Governo da AD for por diante, este será, disso não tenho dúvidas, o futuro de todas as outras Ericeiras do país que ainda restam por esmagar. O pretexto é facultar à construção o acesso aos terrenos rústicos, incluindo em zonas de paisagem protegida, linhas de água e reserva agrícola, para, a “custos moderados”, construir habitação “acessível”. Um imenso barrete, desde logo nos seus pressupostos: “custos moderados”, diz a lei, são aqueles que não ultrapassem em mais de 125% o valor médio da habitação do concelho: ou seja, 25% a mais do que os custos especulativos já existentes. E, mesmo assim, tal só se aplicará a 70% das novas construções. Bastava isto para perceber que, mesmo que fosse possível controlar na prática as limitações, tal já seria um excelente negócio oferecido de bandeja à especulação imobiliária, sem qualquer garantia, antes pelo contrário, de que implicaria mais habitação ‘acessível’ à classe média e média-baixa: o Pai Natal já passou.
Mas o pior de tudo está no modo como isto será feito: por simples deliberação autárquica. Devem estar a brincar connosco, até parece que não sabem como é que o país, nas suas zonas de maior apetência urbanística, como na orla costeira, foi vandalizado por iniciativa autárquica. Apesar da REN, da RAN, do Plano Natura 2000, dos PDM, que tinham de ser aprovados pelo Governo central. Agora, entrega-se tudo às autarquias e dão-se-lhes plenos poderes para fazerem o que quiserem com a paisagem dos seus concelhos. Sem que nunca tenha havido a coragem de fazer aquilo que tantas vezes aqui defendi, que é retirar as receitas prediais do orçamento das autarquias, substituindo-as por dotações do Orçamento do Estado, em função de critérios objectivos e de mérito — única forma de quebrar o círculo vicioso de mais construção: mais receitas; mais rotundas e obras de ostentação; mais votos. E estou a falar apenas da tentação irresistível dos autarcas, por volúpia de mais receitas, por ignorância, por confusão entre qualidade e aquilo a que chamam ‘desenvolvimento’, ficarem agora de mãos livres para acabarem de edificar um Portugal à medida da sua visão. Porque outra coisa são as oportunidades sem-fim que se abrem à corrupção autárquica — largamente documentada e sabida como o centro nevrálgico e magnético da corrupção entre nós. Para esses, este Decreto-Lei do Governo AD é um brinde caído dos céus, é como escancarar a porta do galinheiro à raposa.
Não fiquem, pois, surpreendidos por saber que a lei foi proposta por um Governo da AD (revogando uma lei de um seu Governo anterior), e que, chamada à discussão no Parlamento, verificou-se ter o apoio mal disfarçado do PS. Vêm aí eleições autárquicas e isto é matéria muito sensível para os caciques locais dos dois maiores partidos autárquicos — a que se junta, por razões idênticas, o Chega — que não podem correr o risco de os indisporem. A defesa que PSD e PS fazem da lei é de uma hipocrisia sem pudor, mais do que visando convencer tolos ou distraídos, tentando apaziguar as suas envergonhadas consciências. Mas não façamos confusão: estamos no domínio do que mais interessa na política: a governação de proximidade, o planeamento e preservação paisagística do país e o combate à corrupção onde ela começa e mais danos causa. A votação na Assembleia da República será um raro momento de verdade ou de máscaras.
2 Assim, sem que ninguém possa presumir a sua vontade, José Maria Eça de Queirós, o maior romancista português de sempre, e não apenas romancista, foi pela terceira vez mudado postumamente de morada, do cemitério de Santa Cruz do Douro — onde, como constava da lápide, estava “entre os seus” — para o Panteão Nacional, onde estará entre os ilustres da Pátria. Decisão maioritária de bisnetos e trinetos que, assim para todos os efeitos práticos, presumiram ser essa a vontade dele. Também passei por este processo, tendo votado vencido entre os filhos na decisão de consentir a ida da minha mãe do anónimo cemitério onde estava para o Panteão. Confesso que as minhas dúvidas na matéria são muitas. Desde logo, porque uma coisa são filhos, outra são bisnetos ou trinetos. Uma coisa é a aceitação, e também o orgulho, de ver a Pátria reconhecer os seus melhores, outra coisa é ter alguém que se amou depositado num armazém de ilustres, mais turístico do que patriótico. Longe do conforto da terra chã que se pisou e junto ao frio mármore dos monumentos. Mas, no caso de Eça de Queirós, ele estava efectivamente entre os seus, junto à casa de família da sua mulher, onde, embora, ao que se sabe, só tivesse ido em vida duas vezes, foi o bastante para lhe inspirar a escrita do soberbo “A Cidade e as Serras”, um livro que contém partes imortais do nosso imaginário de leitores. E numa pequena freguesia onde se preserva essa casa, os seus objectos pessoais e memorabilia, e se partilhava o orgulho de ter ali em descanso eterno Eça de Queirós. Estava, pois, desde 1989, onde naturalmente pertencia, como em nenhum outro lugar.
3 Nos primeiros nove meses do ano, a indústria do jogo online facturou €15 mil milhões, tendo 70% de utilizadores jovens. Em contrapartida, pagou €360 milhões de impostos ao Estado: 2,4%. Fui eu que ouvi mal ou alguém se enganou nas contas?
4 Guerra é guerra, e logo no primeiro ano de guerra a Ucrânia sabotou os gasodutos Nordstream I e II, que bombeavam o gás russo a preços acessíveis para a Alemanha e centro da Europa. Os Nordstreams eram uma joint-venture entre empresas estatais e privadas da Alemanha e da Rússia e a sua sabotagem em águas da Dinamarca — com a cumplicidade da NATO e Estados Unidos — foi, para efeitos jurídicos, um acto de pirataria internacional e não apenas uma operação contra interesses do inimigo bélico. Por isso, deu origem a uma comissão de investigação, de que a Rússia foi excluída, e que, dois anos decorridos, obviamente nada concluiu ainda. A Rússia ficou privada de fontes de receita — que, em parte, diversificaria —, mas a Alemanha ficou privada de energia barata, entrando em crise económica que persiste até hoje, e a Europa entrou num processo de inflação que só agora dá mostras de estar controlado. Em contrapartida, os Estados Unidos substituíram a Rússia no fornecimento de GNL (gás liquefeito) à Europa a um preço três vezes superior aos dos russos. Tudo bem, guerra é guerra, dirão. Só que, entretanto, nestes quase três anos decorridos desde o início da guerra, a mesma Ucrânia que havia liquidado os Nordstreams continuou silenciosamente a deixar passar gás russo para a Moldávia, Áustria e Eslováquia através de um terceiro oleoduto que atravessa o seu território. E, pelo direito de passagem, cobrava mil milhões de dólares por ano, afinal ganhando dinheiro com o gás russo que cortara aos seus ‘aliados’ na Europa. Agora, expirado o prazo contratual, a Ucrânia não renovou o acordo, de caminho deixando a Transnístria, a região pró-russa da Moldávia, a seco. A guerra é uma caixinha de surpresas.
5 O futuro dos palestinianos de Gaza, explicou um dos ministros do Governo de Netanyahu, só consente duas alternativas: ou emigram ou ser-lhes-ão cortados todos os meios de subsistência: terras cultiváveis, água, comida, assistência médica. E isto é apenas o primeiro passo, pois que, acrescentou ele, toda a Palestina foi dada por Deus ao povo judeu e os palestinianos não fazem lá nada, ocupantes em terra alheia. Em pleno século XXI, Deus ainda é argumento e instrumento de legitimação do terror. E falávamos nós do terrorismo islâmico em nome de Alá, a maior ameaça à nossa paz e às nossas democracias! Lord Balfour deve estar aos saltos no túmulo, mas talvez seja o único: nesta Europa dos direitos humanos e do respeito pela lei internacional, ninguém mais se incomoda.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
