A maré baixa da extrema-direita e os festejos precipitados

(Francisco Louçã, in Expresso, 22/06/2021)

A virulência de Bolsonaro contra a Rede Globo, que tinha acompanhado com simpatia a sua eleição em 2018, é um sinal da mudança de maré, mais do que das idiossincrasias do presidente que se faz aclamar pelo seus apoiantes ao grito tribal de “Mito”. Percebe-se a razão do seu medo.


Percebe-se a razão do seu medo. Desgastado pela sua indiferença por meio milhão de vítimas de Covid, Bolsonaro ficou recentemente sem vários dos seus aliados mais poderosos: Trump foi derrotado, Netanyahu caiu, Macri foi varrido na Argentina. Vem ainda pior: no Chile, as eleições para a Constituinte comprovaram o isolamento do governo de Piñera, o Peru foi “perdido” para um sindicalista, como o presidente brasileiro se queixou, Duque está confrontado com uma sublevação popular na Colômbia, a oposição de direita na Venezuela dividiu-se e não se ouviu falar mais dela. O mapa dos poderes da extrema-direita está a empalidecer, o que faz da disputa brasileira o centro da política na América Latina. Assim se compreende que os chefes da direita tradicional, a começar por Fernando Henrique Cardoso, pelos ex-aliados de Bolsonaro no “centrão” do parlamento e até por algumas lideranças neopentecostais, se distanciem deste desastre e procurem alternativas, mesmo que alguns já pareçam resignados à bipolarização que pode levar Lula de novo ao poder.

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Na Europa, Orban está confrontado com uma convergência das oposições húngaras, o apoio ao governo da Eslovénia descambou de 56% para 26%, na Polónia o governo ensaia uma viragem económica em desespero de causa, em França Le Pen estagnou, em Itália Salvini é perseguido tanto pelo ascenso de outro partido de extrema-direita como pela recuperação do centro e da velha direita, que procuram recompor-se com Draghi, em Espanha o Vox perde para o Partido Popular.

O que há de comum entre todos estes casos de desgaste eleitoral é o exercício do poder. Sempre que puseram pé em governos, mesmo quando suportados por vagas xenófobas que garantiram a opacidade da sua autoridade, estas forças atacaram direitos fundamentais, condicionaram tribunais, fecharam jornais e televisões, proibiram atividades sindicais, perseguiram opositores, em alguns casos criaram milícias e, sempre, exponenciaram os discursos de ódio. Virou-se contra eles, como não podia deixar de ser. Nos casos de Trump e Bolsonaro, desprezaram a pandemia, multiplicaram o negacionismo genocida, promoveram curandices irresponsáveis, afastaram cientistas e correram a proteger privilégios económicos. Mas, sem exceção, foram todos atropelados pela realidade, provando que há uma diferença entre as tonitruantes promessas anti-sistema e os efeitos que são capazes de produzir na vida do dia a dia das populações. Vive-se pior com estes governos e essa é a prova dos factos.

Por isso, conhecer a realidade destas governações, a panóplia dos seus ministros e os jogos que movem tornou-se um instrumento essencial das lutas democráticas atuais. A bufonaria é deslumbrante, até ser vista; os bufões são esfuziantes, até serem percebidos; e a elevação de uma companhia de rufias e corruptos deixa danos profundos e duradouros, mas mostra quem eles são e o que fazem. Os heróis da extrema-direita, Bolsonaro, Trump, Salvini, Orban, Modi, mudaram a política mundial ao chegarem ao poder e têm desde então criado a sua própria desautorização.

Essa mudança ainda se prolonga e prolongará, não estamos livres dela. Le Pen beneficia do apodrecimento do poder de Macron, confirmando que o centro nunca é uma barreira contra o autoritarismo social da extrema-direita, e ainda tem pela frente uma campanha presidencial com maiores chances do que no passado. A radicalização da direita histórica espanhola é um efeito da contaminação pelo Vox e ficará, tudo nos nossos vizinhos será disputado ao som da memória e da linguagem da Guerra Civil do século passado. Bolsonaro, no seu desespero, tentará os militares, e Trump anda por aí. A semente está plantada.

No nosso caso, ainda só está a começar a festa. Moedas, em Lisboa, copia Ayuso, de Madrid; Rio compete com Ventura; Figueiredo organiza uma festa Covid; uma convenção junta os aristocratas da direita e o que resulta é uma polémica infindável sobre o saudosismo salazarista, e estão por verificar os efeitos duradouros de uma direita que deixou de disputar o centro e se limita a estralhaçar-se.

Em todo o caso, a lei é implacável: se os partidos de direita se imitam, têm que se agredir para que alguma coisa os diferencie. O efeito é pesado, um espaço político com um partido de 20% e dois outros de 5% ou algo mais torna-se radicalmente inviável. Alguns concluirão que, assim sendo, Ventura é o melhor aliado de Costa e que Rio será somente uma ponte para Passos Coelho. Ora, muita água ainda passará debaixo das pontes até conhecermos o desenlace desta tragédia à direita, mas fica um aviso para as esquerdas: se há quem pense que basta esperar sentado para assistir ao espetáculo, é melhor perceber como o mundo tem mudado. Não tem sido para tornar a vida mais feliz.


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Noites de verão

(José Gameiro, in Expresso, 18/06/2021)

José Gameiro

Há uma anedota clássica que se conta a propósito dos portugueses. Estavam quatro maduros, de diferentes nacionalidades, à beira de um precipício. Se se atirassem para uma rede de proteção, teriam um prémio chorudo. Todos o fizeram menos o português. Apesar de todas as garantias, não saía do mesmo sítio. Até que alguém lhe disse que era proibido e ele atirou-se…

Não sei fruto de quê, mas gostamos muito da pequena transgressão. Somos pouco frontais, grandes adeptos do ‘nin’, se alguém é mais direto é porque tem mau feitio. Temos fama de passivos, pouco interventivos civilmente, adoramos dizer mal dos políticos, é verdade que alguns se põem a jeito e são confrangedoramente fracos. Mas a maior parte tem todo o interesse em fazer o melhor que pode e sabe. A pandemia mostrou-nos quem era capaz de ser humilde e verdadeiro e quem falava do alto das suas certezas, muito incertas.

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Vem tudo isto a propósito do novo aumento de casos positivos de covid, na geração entre os vinte e os quarenta anos. Há uns dias alguém preocupado dizia-me: “Pergunta aí em casa se há ideias em como inverter isto, mas não vale oferecer uma bejeca a cada jovem que aceite fazer um teste… Seria bem pensado, mas politicamente incorreto…” Cá em casa, consigo ter muita informação direta do terreno, sobre o que se passa nos fins de tarde e nas noites longas da malta nova.

Alguém acredita, ou acreditava, que quando os bares fechassem cedo a malta dispersava? Ou que seria possível manter a distância social ou usar máscara num bar? Ou já não se lembram que um, não o único, dos objetivos de ir para a noite é o engate? Não se dão beijos na boca de máscara, não há toques com luvas… O que tem acontecido desde há semanas são encontros, festas, sunsets — não conheço um único jovem que diga pôr do sol — com dezenas de rapazes e raparigas que não podem ir para as discotecas e que têm de abandonar os bares quase ao início da noite. Se há fase da vida em que a imaginação é florescente é esta. Não têm faltado ideias para ultrapassar as proibições. Uma das mais originais de que tive conhecimento, foi alugar um barco e fazer a festa no mar, pela noite fora. Noite calma, sem serem incomodados pela polícia.

Com as discotecas fechadas, a necessidade premente de “abanar o capacete” e, ao fim da noite, tentar a sorte, tornava óbvio que a clandestinidade surgiria. E o resultado está à vista. Felizmente não muito grave em termos de internamentos e óbitos, ainda que estejam a aumentar, mas potencialmente severo em termos turísticos. No futebol foi possível fazer testes rápidos a todos os que quiseram e puderam assistir à final da Champions. Não me pareceu que fosse operacionalmente muito complicado. Claro que este tipo de testes vale o que vale, na sua incompleta fiabilidade. Mas a alternativa é pior.

Qual é a dificuldade em exigir às discotecas e aos bares, tal como acontece numa série de eventos, a testagem à entrada? Seguramente que se iriam encontrar alguns positivos, que seriam confirmados, ou não, com um PCR. O verão está a chegar, o cansaço dos jovens é evidente, o acatar as regras está já para lá dos limites. Para eles, viver sem música é impensável. Até estarem todos vacinados o verão acaba… Não entendo como é que no Natal alguns sugeriam o teste rápido para uma festa que dura dois a três dias, com os resultados que se conhecem, e agora não exigem o mesmo para umas horas… Nem pensem que os jovens vão desistir de se encontrarem nas noites quentes do verão. E cada vez que o fizerem vão-se lembrar do Natal e do futebol…


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O argumento soviético da loucura

(Pacheco Pereira, in Público, 19/06/2021)

Pacheco Pereira

Os mecanismos do radicalismo hoje em curso à direita do espectro político são bem visíveis em textos de articulistas, nas páginas das redes sociais e nesse espelho das cabeças que são os comentários em caixas de comentários sem moderação ou pouco moderadas, seja no Observador, no Sol, e mesmo no PÚBLICO. Aliás, a prática de uma mesma publicação ser moderada no corpo principal e permitir tudo nas páginas do seu Facebook favorece a degradação da opinião, com o falso argumento da sua democratização.

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Embora seja fácil perceber que uma multiplicidade de nomes falsos e pseudónimos pertencem à mesma pessoa, para se criar a ilusão da quantidade, não é irrelevante conhecer esta forma ficcional de vox populi, intencional e pretendendo obter objectivos políticos. Do mesmo modo, é possível perceber outros mecanismos deliberados, como seja enviar opiniões pejorativas ou no início ou numa fase já avançada dos comentários, de modo a que estes sejam ou os primeiros ou os últimos e, de algum modo, condicionarem a leitura do conjunto. Há gente que faz isto como quem respira, verdadeiros militantes das caixas de comentários, e há profissionais de agências de comunicação ou grupos organizados nos partidos políticos, semelhantes aos que existem nos programas de rádio, os fóruns em directo de opiniões, a actuarem escondidos.

Muitos dos mecanismos deste tipo não são exclusivos da direita radical, existem também à esquerda, mas a maré tribal que está a subir é a da direita radical, associada ao populismo antidemocrático, exacerbado pelo sentimento de impotência face à situação política actual e às sondagens. Os temas e o modo de os apresentar e discutir são tão semelhantes entre si, do Observador ao Diabo, que representam um elenco que pode ser identificado e discutido.

Noutros artigos voltarei a esta questão, com os retratos do “argumentário”, quase todo associado a ataques pessoais, que desde o início do século XX foi identificado e estudado como um modus operandi do jornalismo de ataque populista radical. Hoje fico-me por aquilo que é o uso do argumento soviético do período de Brejnev para usar a interpretação psicológica, psicanalítica e psiquiátrica para explicar a dissidência. A dissidência era considerada uma doença mental, e vários opositores ao regime soviético como Vladimir Bukovski, Leonid Pliushch e Grigorenko foram perseguidos como doentes. A ideia apresentada de forma simplista era esta: como é possível, sem padecer de uma qualquer doença mental, pôr em causa um regime perfeito de sociabilidade política como o socialismo soviético, fonte de felicidade e bem-estar? Como era possível, sem diminuição das faculdades mentais, estar “contra o povo”?

Este argumento soviético é hoje muito usado no mundo do ataque pessoal da direita radical. Pode parecer estranho pela aparente oposição política, mas não é: há uma similitude na vontade de destruir o outro e os mecanismos para o fazer são idênticos. Este tipo de ataques muito comuns nas margens cinzentas da política está cada vez mais a emigrar para as zonas “respeitáveis” da opinião. Como é possível sem se ser doente, demente, senil, “maluquinho”, lunático, sem se ter as faculdades mentais diminuídas, pôr em causa o discurso da direita radical sobre o “ditador” Costa, sobre o “socialismo autoritário” que nos rege, como não é possível ver a essência corrupta da democracia, descrita como o “sistema”, como é possível não se aceitarem as teses “científicas” sobre a realidade, como, em suma, se pode discordar sobre o mundo do Mal que nos governa sem se ser ou servil ou doente ou as duas coisas?

Os termos que usei e que repito – demente, senil, “maluquinho”, lunático, sem as faculdades todas – foram todos usados por cá nos dias de hoje, e são uma espécie de upgrade da redução das posições políticas a traços e comportamentos psicológicos, seja a inveja, seja o ressentimento, os dois mais comuns, que são centrais nos ataques pessoais. É um estilo cada vez mais vulgar, que acompanha a crescente incapacidade de aceitar posições numa conversação democrática, ou sequer admitir que ela possa existir porque isso é aceitar o “sistema”. O melhor exemplo são os republicanos pró-Trump, e os seus imitadores nacionais.

Se retirarmos o psicologismo, e a sua forma superior no argumento da dissidência ou da discordância como doença mental, não sobra quase nada. Espreme-se e sai vazio, o que significa que não se trata de debater ou discutir, mas de considerar que o outro não pode nunca ser ouvido ou ser um interlocutor, porque está diminuído nas suas faculdades mentais, como se vê pelas suas posições…


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