Do mal, o menos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/11/2021)

Miguel Sousa Tavares

A retoma da pandemia — que, aliada a outros factores, vem pôr em causa a retoma da economia — não podia deixar de ser atacada pelo Governo. Graças ao sucesso da vacinação, estamos hoje em muito melhor situação para o fazer do que estávamos há um ano, com números que, em todos os indicadores, são cinco vezes inferiores ao que eram na mesma altura de 2020. Mas, tendo presente as trágicas consequências do laxismo havido no Natal passado, não havia forma de voltar a arriscar. As novas medidas agora anunciadas parecem razoáveis e adequadas, saudando-se particularmente (e se for levado a sério) o fim da incom­preensível bandalheira nas fronteiras aéreas.

Do ponto de vista político, o regresso ao estado de calamidade é uma má notícia para toda a oposição, e espe­cialmente para o PSD: António Costa e o seu Governo de gestão vão estar em foco e em destaque todos os dias e, se não cometerem erros aqui, colherão os frutos disso a 30 de Janeiro. Caso contrário…


2 E logo à noite saber-se-á, enfim, que PSD vai a votos contra o PS de António Costa. Vendo de fora e apenas pelo que aparece relatado ou defendido pelos apoiantes de ambos os lados, estranhamente não consta que esteja em causa nada de essencial a separar os dois candidatos no que respeita a programa económico, reformas propostas, políticas agrícolas, ambientais, energéticas, laborais, etc. Não, o que distingue Rangel de Rio parece ser apenas a origem dos seus apoios e a forma de se posicionar à frente do partido — venha ele a sair vencedor ou vencido das eleições.

<p class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</p>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Rangel tem consigo o “aparelho” e Rio as “bases”, o que significa que Rangel tem a maioria dos “notáveis” e Rio os “militantes” rasos. E o que implica que Rangel tenha os votos cacicados e Rio os votos “livres”: 1-0 para Rio. Rangel recusa-se a dizer o que fará se ganhar sem maioria absoluta ou que lhe permita governar em coligação à direita ou o que fará se o mesmo acontecer ao PS; Rio diz que o interesse do país e da governabilidade está à frente do interesse do partido e, portanto, facilitaria um Governo do PS minoritário, esperando que o PS fizesse o mesmo a um Governo PSD minoritário: 2-0 para Rio. Rangel não se compromete a sair se tiver uma derrota clara em 30 de Janeiro; Rio diz que sairá se a derrota for indiscutível: 3-0 para Rio. Na oposição, Rangel e os seus apoiantes prometem uma luta sem tréguas ao Governo que estiver, ao contrário da “branda” oposição de Rio, que diz que não é por gritar mais alto que se ganha mais votos ou mais ganho de causa: aqui, os votantes do PSD é que sabem. Enfim, no que pode ser uma rara diferença de políticas, alguns apoiantes de Rangel, como Paula Teixeira da Cruz, acusam Rio de ser antidemocrata por, entre outras coisas, insistir no controle dos desmandos do Ministério Público: 4-0 para Rio.

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Os 46 mil votantes do PSD dirão hoje de sua justiça. Felizmente, não sou um deles. Limito-me a observar de fora as guerras fratricidas nas concelhias de Bragança, Barcelos, Ovar, Aveiro e por esse país laranja adentro, onde em alturas destas é tão fácil confundir o conforto pessoal de cada um com o conforto pessoal de todos nós. Mas, apesar de tudo, este é o menos mau de todos os sistemas.


3 E, por falar em concelhias e cidades que as abrigam, vou fazer um breve relato do que tenho andado a ver pelo país fora, gozando uma nova disponibilidade e juntando neste relato visitas recentes com outras menos recentes. O Porto, que — fora do triângulo Boa­vista, Foz, Campo Alegre — eu já não via com olhos de ver há uma boa dúzia de anos, está deslumbrante. É absolutamente fantástico o que a cidade mudou nestes anos, o número inacreditável de habitações decadentes recuperadas, de novos hotéis grandes e pequenos, de esplanadas, cafés, lojas, praças arranjadas, tudo com um gosto e um orgulho que, muito devendo ao turismo, porém nada perdeu da sua autenticidade e da sua incomparável forma de receber. É a minha terra, que me habituei a ver cinzenta, suja e desleixada e hoje me deixa embasbacado. E o mesmo direi de Guimarães, linda de morrer, ou de Braga, onde fui duas vezes num mês para me certificar de que tinha visto bem: incrível a manutenção exemplar dos monumentos, os jardins, as lojas, as pequenas esplanadas encavalitadas em todo o lado no centro, nada parecendo ao abandono e com um meio segredo que guardo para mim: aqui mora o melhor restaurante de comida portuguesa de Portugal, cujo nome não pronunciarei mas que faz corar de vergonha todos os estrelados chefes do país. Aveiro foi outra descoberta inesperada, uma cidade a renascer, para a ria e para o mar, e que soube recuperar o centro (infelizmente, faz-me lembrar Setúbal, que era há 30 anos, mesmo há 20, talvez a cidade de Portugal com maio­res potencialidades naturais para ser uma terra maravilhosa e que foi indecorosamente vandalizada por um poder local para além de incompetente). No centro, visitei agora Coimbra, onde também já não ia há um par de anos. Para tudo resumir brevemente, direi que é verdade o que diz a canção: “Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.” A cidade “capital da medicina” e dos mestres de direito, a grande cidade universitária, é um catálogo de horrores arquitectónicos espalhados ao deus-dará sem qualquer esboço compreensível de plano de urbanização: Coimbra é de fugir, senhores doutores! No Alentejo, outra descoberta recente e surpreendente foi Elvas, um caso notável de modernização com respeito pela monumentalidade e pelo espaço envolvente. Inversamente, Évora, a magnífica Évora, desde que a UNESCO a elevou a Património Cultural, não tem feito outra coisa, a meus olhos, que não degradar-se, dentro e fora da muralha. Dentro, são evidentes os sinais de descuido e desleixo; fora, a cidade está a ser cercada por uma cintura de centros comerciais e bombas de gasolina sem sombra de planeamento urbanístico ou de respeito pelo casco histórico, que vai sufocando. Descendo para sul, Mértola é minha paragem obrigatória e frequente, uma vila mágica, encantada, seja qual for a estação do ano: é para ver, sentir e ficar. E lá em baixo, Tavira é a fabulosa excepção que resta de um Algarve devastado pela cupidez e estupidez humanas — se bem que ali ao lado, Vila Real de Santo António, a cidade pombalina, esteja a emergir de um longo sono para uma nova luz. Mas Tavira é capaz de ser a terra mais bonita de Portugal, e eu só espero que haja muito cuidado e muita contenção com ela e imaginação suficiente para resolver os seus problemas de crescimento sem ser pelo método da agressão. E deixo para o fim Lisboa e uma homenagem devida a Fernando Medina: Lisboa está também incomparavelmente melhor do que estava quando ele a recebeu. Só lamento que o melhor de Lisboa seja coutada quase exclusiva dos turistas e, sobretudo, daqueles milhares de passantes dos navios de cruzeiro que nada acrescentam à cidade a não ser poluição e caos no trânsito. E a Carlos Moedas deixo um desafio e um pedido: por favor, acabe com aqueles guarda-sóis e cadeiras berrantes da Super Bock e da Sagres que enxameiam as nossas esplanadas e que não vi nem no Porto, nem em Braga, nem em Guimarães. Quem tem o privilégio de ocupar o espaço público dos passeios e praças para estender o seu negócio tem pelo menos a obrigação de o manter vi­sualmente limpo.

Eis o que vi, andando por aí. Para quem, como eu, passou anos a fustigar o poder local das rotundas e centros de congressos para vivalma, confesso que foram bem mais as boas surpresas do que as confirmadas decepções. Que grande pequeno país que podíamos fazer daqui!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Este partido é perigoso

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 03/09/2021)

Miguel Sousa Tavares

Esta semana entrevistei para a TVI Inês Sousa Real, a “porta-voz” (líder) do PAN. Ao contrário de André Silva, o seu antecessor no cargo, que não conseguia nem fazia um esforço para disfarçar uma postura de talibã desta nova religião disfarçada de nova política, Inês Sousa Real é calma e simpática, aparentemente disposta ao diálogo e ponderada. Além de inteligente e combativa. Só posso agradecer-lhe aceitar ser entrevistada por quem sabe não comungar de quase nenhumas das ideias dela. Isto posto, depois de a ter ouvido e depois de ter lido tudo o que encontrei sobre ela e o PAN, mais tudo o que retinha de memória, fiquei de tal maneira assustado que me vejo forçado a escrever isto, preto no branco: este partido é perigoso.

E é perigoso por três razões: porque são perigosas as suas ideias, fruto de um misto de ignorância, fanatismo e intolerância; porque o seu discurso e o seu método de arregimentação de fiéis, assente na demagogia e na sedução do submundo urbano e ignaro das redes sociais, lhe garante um futuro, infeliz e fatalmente, auspicioso, e, finalmente, porque a sobrevivência do actual poder socialista, anualmente dependente de um leilão de feira sem sombra de grandeza ou de verdadeiro interesse público, lhe assegura uma importância e influência que chega a ser pornográfica quando contrapomos os 174 mil votos do PAN aos 1.980.400 do PS.

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A primeira coisa que nos devia assustar no PAN é que é um partido que, antes de tudo, adora proibir. E isso para quem viveu parte da sua juventude num regime em que quase tudo era proibido faz soar logo uma campainha de alarme. O PAN não quer convencer, quer proibir quem não consegue convencer. Não quer entender outros modos de vida, quer bani-los. Não quer sequer fazer um esforço para conviver com outras culturas ou tradições, respeitar os hábitos de vida e os prazeres de vida das populações locais, quer varrê-los por lei do Parlamento ou alínea do Orçamento. Se, porventura, existisse na Amazónia, o PAN proibiria os índios de caçar e pescar — o seu modo de vida desde sempre — e condená-los-ia a comer hambúrgueres de soja, aditivada e cultivada em milhares de hectares todos os anos roubados à floresta tropical pelo seu insuspeito aliado Jair Bolsonaro. Mas como existe apenas em Portugal — onde não há índios, mas apenas velhos abandonados num interior despovoado —, é fácil aos demagogos do PAN conquistar adeptos entre uma população urbana que desconhece tudo sobre o campo (como escreveu alguém que conheci de perto, “As pessoas sensíveis não são capazes/ de matar galinhas/ porém, são capazes/ de comer galinhas”). Mas no PAN nem isso: são todos, sobretudo os dirigentes, forçosamente vegans — comem soja, curgetes, cogumelos e pasta de dentes. (E eu, pessoalmente, só lhes posso agradecer: quantos mais houver assim, mais salmonetes, sardinhas ou rodovalhos sobram, mais carapaus alimados eu hei-de comer e perdizes de escabeche ou estufadas, mais canjas de pombo-bravo, mais cabritos assados ou leitões da Bairrada, mais perus da bolota pelo Natal, mais lulas cheias, mais caracóis com orégãos, mais galinhas pica-no-chão. E comerei todos os legumes, os vegetais, as ervas e as algas que eles comem, mas misturados com o peixe, o marisco, a carne, a caça e os ovos, porque tenho atrás de mim 2 mil anos de civilização e cultura de que a cozinha é um expoente absoluto e que seria um imbecil se não aproveitasse. E assim, quanto mais eles sofrerem, mais eu gozarei, quanto mais eles precisarem de vitamina B12, mais eu serei saudável e feliz à mesa. Que Deus conserve os queridos vegans com o mesmo desvelo com que os alentejanos conservam os seus enchidos de porco no fumeiro!)

A grande diferença é que eu não quero proibir nem os vegans nem o PAN, apesar de saber que nem aquilo nem este são uma dieta, ou uma filosofia, ou um partido político, mas uma seita religiosa assente no fanatismo e no sofrimento auto-infligido. Mas paciência: parece que na Opus Dei também gostam de se chicotear a si próprios e infligir-se outros padecimentos para redimir o mundo do pecado. O que há-de fazer alguém que aprendeu no Novo Testamento que somos todos filhos do pecado e aprendeu no marxismo que as religiões são o ópio do povo? O que há-de fazer alguém que acredita que a democracia ainda é o menos mau de todos os sistemas e que a única religião que faz sentido é a natureza e as suas leis? Pois, tolerá-los e, como dizia o Hemingway, “tratá-los com ironia e compaixão”.

A primeira coisa que nos devia assustar no PAN é que é um partido que, antes de tudo, adora proibir

Ironia e compaixão — eis tudo que está ausente do discurso e do projecto político do PAN. O PAN nasceu apenas como partido animalista — essa era a sua única causa e matriz, o partido dos donos dos cães e gatos de companhia vivendo nas marquises das cidades e indo mijar à rua embrulhados em fatinhos de flanela. Depois, na segunda eleição a que concorreu, o PAN percebeu que podia alargar o seu espectro de aderentes declarando-se também partido ambientalista e aproveitando o vazio deixado nesse campo pelo PSD (que, com o PPM, que deixou de contar, era o único partido com pergaminhos na matéria), pelo desprezo que o PS sempre votou a essas questões e pelo embuste do chamado partido Os Verdes. Mas, não obstante algumas tomadas de posição acertadas em matéria de ambiente, o PAN nunca mostrou o mesmo empenho em impor ao PS medidas concretas nesta área equivalentes às que impôs para defesa dos animais. E ultimamente, numa jogada táctica destinada a facilitar as negociações com os socialistas, o PAN descobriu-se uma costela social, preocupado com os trabalhadores, o SNS, etc. — tudo o que o PS gosta de ouvir e em troca do que estará disposto a ceder ao PAN aquilo que ele verdadeiramente quer: mais direitos dos animais contra os direitos das pessoas normais.

O PAN já conseguiu acabar com os animais nos circos, que fizeram maravilhar-se gerações de crianças e que em muitas vilas e aldeias do país eram a única possibilidade de as crianças verem ao vivo animais que só conhe­ciam dos livros. Condenou à morte e ao desemprego companhias familiares de circo, cujas histórias inspiraram romances, e extinguiu uma arte e uma profissão, a dos amestradores, onde existia uma relação única entre os homens e os animais. E gaba-se disso.

O PAN está a caminho de banir as touradas, de condenar milhares de pessoas que vivem disso ao desemprego, centenas de milhares de aficionados à clandestinidade ou aos pogroms como o do Campo Pequeno, ameaçados e insultados como assassinos, e, no final, condenar os próprios touros bravos à extinção da raça, porque inúteis. E gaba-se disso.

O PAN quer proibir a caça (embora, para já, apenas proponha uma lei em que, por exemplo, os cães devem caçar presos por uma trela e açaimados — o que revela a escabrosa ignorância que eles têm sobre o que seja uma caçada ou um cão de caça). De caminho, e como não podem proibir os animais de se caçarem uns aos outros — pois essa é a lei da natureza — e como o homem é o último elo da cadeia de caçadores, restarão apenas a raposa e o javali, que extinguirão todas as outras espécies. E extinguir-se-ão as raças de cães de caça, também tornadas inúteis, e extinguir-se-á uma das poucas actividades, sociais e económicas, que ainda dá algum emprego, algum prazer e algum sentido aos que vivem no interior e no mundo rural. Mas há a paisagem, diz Inês Sousa Real. Pois há: eucaliptos e indianos a colher os frutos da agricultura superintensiva. E gente subsidiada, vestida de negro e sentada na sombra das casas, à espera que venham ver a paisagem.

E o PAN também quer proibir a pesca desportiva, para evitar o sofrimento dos peixes. Pela mesma ordem de razões, em breve estará a propor a proibição da matança tradicional do porco, da galinha de cabidela, da venda de mariscos vivos e da pesca profissional. Para já, são só os amadores da Marginal de Lisboa e do Porto, os pescadores de achigã do Guadiana ou de lampreia do Minho, os velhotes que vão à noite ou ao final da tarde entreter-se com a sua cana e os seus iscos para a beira Tejo ou Douro, talvez o seu último prazer, quem tem de se assustar: o PAN quer-vos a todos recolhidos num lar, a jogar dominó e a comer esparguete de tofu em nome dos direitos dos peixes.

Um partido, dito animalista, cujo fanatismo e ignorância podem conduzir à extinção de espécies animais e ao empobrecimento do mundo rural, podem afastar as pessoas da natureza como ela é, tornar as suas vidas mais pobres e mais tristes, é um partido perigoso.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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O Benfica não é uma nação, é uma lição

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/07/2021)

1 Muito a contragosto, acreditem, não me resta outra atitude que não a de dar os parabéns a essa grande instituição que é o Sport Lisboa e Benfica. O Benfica (peço licença para abreviar o nome da instituição) é, de ciência jornalística, a coisa mais importante que existe e acontece em terras lusas. Pode o Sporting ser campeão uma vez a cada 19 anos ou o Porto uma vez a cada dois, que o Benfica é sempre a notícia principal, em termos futebolísticos. Pode o Glorioso chegar ao fim de uma época sem ser campeão em modalidade alguma, nem sequer ao bilas, e nem por isso deixa de ocupar as manchetes de toda a imprensa desportiva. Se não há triunfos nem glórias para celebrar, há sempre o Jesus, o Rui Costa e o Vieira para ouvir, ou os fantásticos jogadores que vão chegar e o mais do que certo e indisputável sucesso na época que se vai seguir, como notícia. E se não há nada, mesmo nada de que falar na frente desportiva e apenas notícias vexatórias (que chegam por via da justiça e jamais da imprensa), então ainda mais o Benfica se torna objecto incontornável, obsessivo, omnipresente, de toda a imprensa, pois que — di-lo um exército de entendidos, em tom pesaroso — “está em causa o maior clube português, uma das mais prestigiadas instituições do país”.

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Branson, Bezos e Musk vão todos partir para o Espaço? O que é isso ao pé da situação de Vieira e do Benfica? A China ameaça explicitamente invadir Taiwan e os talibãs ameaçam reconquistar o Afeganistão num ápice? Isso não interessa nada, o Benfica é que é. As multinacionais vão finalmente ser taxadas? Oh, o que interessa isso ao povo? Por acaso, até estávamos na semana em que ia acontecer a final do Europeu, que ainda há pouco parava o país e fazia as mais altas instâncias da República andarem num virote por essa Europa fora? Mas isso o que interessa agora, comparado com a situação do Benfica, capaz de fazer esperar 20 minutos todos os jornais televisivos da noite para transmitir em directo o palpitante ‘discurso de Estado’ de Rui Costa, tomando posse como director interino do Benfica e abrindo caminho para horas a fio de comentários dos ‘espertos’ sobre os decisivos quatro minutos de discurso do presidente de todos os portugueses?

Durante 12 gloriosos dias (e continua…), Portugal e o mundo não existiram: existiu apenas o glorioso Sport Lisboa e Benfica. Ditosa pátria que tal possibilidade tens!

Mas, não desesperemos: a boa notícia é que, provavelmente, atingimos o ground zero. A partir daqui é de esperar que só se possa subir.

2 Mas, seja: rendo-me à instituição e à sua ditadura. Sobre o caso de Vieira e os outros, não me vou pronunciar quanto ao fundamento das suspeitas, tão amplamente divulgadas: deixo isso para os apressados justiceiros do costume, na imprensa e nas redes sociais. Mas destaco quatro coisas:

— Que esses não aprenderam nada nem gastaram uns minutos a reflectir sobre o iminente desfecho do caso Tancos e da inevitável absolvição do ex-ministro Azeredo Lopes, cuja sumária condenação logo subscreveram, assim que o Ministério Público avançou com as suas suspeitas, sem sustentação válida alguma.

A pressão populista inibe-os do dever de distinguir entre suspeitas, acusação, defesa, julgamento e caso julgado. Queimando etapas a mando do desejo das fogueiras populares, apoiando-se descaradamente nas violações do segredo de justiça e fazendo da presunção de inocência uma mera figura de retórica, eles são promotores determinantes dos linchamentos em praça pública;

— Que é estranho que o MP avance primeiro com aquilo que a turbamulta mais gosta — o habitual ror de crimes de catálogo — e deixe de fora as suspeitas denunciadas por Rui Pinto e não só, que remetem para os resultados desportivos do Benfica, e que há anos vegetam sem seguimento (“Mala Ciao” e outros que tais);

— Que constato, sem espanto, mas ainda assim enojado, a velocidade com que tantos que, anos a fio, incensaram Vieira, se lhe curvaram em salamaleques e venderam páginas de jornais à sua conta, logo tenham fugido a galope ou carregado contra ele assim que o viram em desgraça;

— E, finalmente, registo que alguém, um advogado — Manuel Magalhães e Silva —, fez o que há muito deveria ter sido feito por colegas seus, em circunstâncias semelhantes: romper com a estratégia que ele chamou de “comportamento padrão” do trio Rosário Teixeira/Paulo Silva/Carlos Alexandre. Ou seja, ver o seu cliente ser crucificado e previamente julgado e condenado na praça pública através de fugas de informação do processo supostamente em segredo de justiça, sem que, manietado pelo mesmo segredo de justiça que a outra parte não respeita, se pudesse defender. Falando do processo abertamente na TVI — e com razão ou sem ela, o que, para o caso, não importa —, Magalhães e Silva rompeu com a desigualdade gritante entre acusação e defesa. Repito: com razão ou sem ela quanto aos factos, o Estado de direito e o que ainda resta dos nossos direitos de cidadania contra os justiceiros instantâneos só pode agradecer-lhe.

3 Contou o Expresso da semana passada, e confirmaram depois outras fontes, que Marcelo está “céptico, crítico e mais distante” do Governo do que alguma vez esteve. Segundo os relatos, consta que o Presidente, depois de ouvir duas organizações empresariais, e destas ouvir o mesmo que os organismos internacionais já tinham dito — que vamos ser o país europeu a menos crescer este ano e o último a recuperar da crise —, estará finalmente a vacilar na firme sustentação que nos últimos cinco anos sempre deu, mais do que a esta fórmula de governo, a esta florentina cultura de sobrevivência governativa. Que estará finalmente a alimentar dúvidas de que a garantia da aprovação dos orçamentos a qualquer preço e ano após ano é mesmo sinónimo de estabilidade política. E se essa invocada e tão procurada estabilidade, a obsessão de “não somar crise à crise”, não será, afinal, o caminho para a estagnação e raiz profunda dos nossos males crónicos. Quando, por exemplo, a ministra da Agricultura se regozija por ter alcançado mais 4% de verbas da PAC para fazer aqui mais do mesmo — mais daquela política predadora e suicidária que aqui descrevi há semanas — e declara que está fora de causa uma “disrupção” da política agrícola, ela não simbolizará bem até onde vai a ambição e o horizonte deste Governo, naquilo que é determinante: deixar tudo na mesma, não mudar nada de essencial, aproveitar o dinheiro de Bruxelas enquanto vier e distribuí-lo pelos mesmos de sempre, afilhados e protegidos do Estado, e com os mesmos resultados de sempre.

A acrescentar a isto, “consta” igualmente que, depois de seis meses a chefiar a Europa e em contacto íntimo com os grandes da Europa, António Costa também terá sido acometido pela “síndrome de Lisboa”, que no passado tentou gente como Vitorino, Barroso, Guterres. Ou seja, o quintal luso, este conflituoso território que nem se governa nem se deixa governar, já lhe parece demasiado pequeno para os seus sonhos e talentos. Tudo isto não escapa, claro, ao perspicaz Marcelo. Nas suas longas noites de alerta, ele já antevê um país a marcar passo, os dinheiros europeus gastos a acalmar greves e a aprovar orçamentos à esquerda, António Costa a milhas, o PS entregue à turbamulta dos “verdadeiros socialistas”, o PSD balcanizado em tribos regionais de Gaia a Loulé, ele próprio apoiado apenas nessa segunda figura do Estado que é o triste Ferro Rodrigues e os portugueses incendiados e incendiando tudo nas “democráticas” redes sociais. É um pesadelo. Que, todavia, era de prever: nunca a paz podre regenerou ou, menos ainda, solucionou coisa alguma.

A situação, vista do balcão do Palácio de Belém, é de uma fina ironia e, na perspectiva de Marcelo, seguramente que de uma profunda injustiça também. Durante cinco anos, sem desfalecimentos nem estados de alma visíveis, ele caucionou e amparou a solução de poder e de governo de António Costa. Concedo que não tinha, nem constitucional nem politicamente, outra alternativa, mas tratava-se de uma questão de medida, de graduação desse apoio: de não confundir o curto prazo com o futuro, as sucessivas conjunturas que sempre serviram a Costa para manter tudo na mesma com a concordância na falta de uma perspectiva de mudança e crescimento. Também é verdade que a ausência de uma alternativa firme e credível ao governo de Costa não facilitou a tarefa a Marcelo, e não lhe cabia nem ele quis — e bem — ceder à tentação de antecessores seus de ser ele a alternativa (e esperemos que assim se mantenha). Todavia, se não lhe cabia vir em auxílio do PSD e de Rui Rio, de lhes ensinar como é que deviam ser oposição, já não me parece que, enquanto Presidente, tivesse de se manter em silêncio nas várias vezes em que Rio esboçou propostas de entendimento com o PS em questões essenciais para reformar o regime e foi desdenhosamente tratado por António Costa. Porque aí esteve em causa a saúde da democracia e o combate aos populismos, que o próprio Marcelo reconhece como um perigo crescente do regime. O Presidente não tem de assistir calado a que uma parte substancial do país político democrático seja distratado por quem ocasionalmente está no poder, que o aparelho de Estado seja preenchido paulatinamente pela gente do partido do Governo à custa de subterfúgios óbvios, que reformas essenciais sejam inviabilizadas porque o PS acarinha mais a maioria que o mantém no poder do que a maioria que pode reformar para melhor o país. E hoje é o PS, amanhã será o PSD. O que afasta as pessoas da política é exactamente isto. Não são elas que se afastam da política, é a política que as afasta de si. E os abraços de Marcelo não chegam para as reaproximar.

Agora a viver no Palácio de Belém — talvez para se sentir mais próximo do que interessa —, Marcelo deve estar a sentir o labirinto em que se deixou cair. E a ironia é que, quando António Costa voar daqui para fora, ele vai sentir-se mais sozinho do que alguma vez imaginou. Com saudades de Costa e do PS que ele domesticava, o PSD fora de jogo e o país pior do que o encontrou.

4 E agora, tréguas. A todos os meus amigos, boas férias; a todos os meus inimigos, longas férias.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Esta crónica será interrompida durante quatro semanas, regressando na edição de 20 de agosto


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