A secura

(In Blog O Jumento, 23/05/2018)

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 Portugal tem algum tema que mereça a preocupação dos cidadãos ou que mereça ser alvo de um debate público? A resposta é não, os canais de informação das televisões dedicam-se a tempo inteiro ao balneário de Alcochete e os três pontos na testa do Bas Dost são mais importantes do que os problemas do SNS, que foi notícia porque morreu António Arnaut.
Qual foi a última intervenção de António Costa de que nos lembramos? Foi a comentar o pedido de reunião que lhe foi endereçado pelo Sporting. Qual foi a último grande gesto de Marcelo? Foi  sua presença corajosa em Oeiras e a forma como forçou a ausência de Bruno de Carvalho. Qual foi o último cometário de Rui Rio de que nos lembramos? Foi sobre Alcochete.
Resumindo, Portugal tem um único e grande problema, os acontecimentos de Alcochete onde os muitos feridos e mortos se sintetizam nos três pontos na testa de Bost e um cagaço promovido a atentado terrorista pela Dra. Maria José Morgado. As eleições mais importantes do país deixaram de ser as legislativas e as europeias para passarem a ser as do Sporting. A próxima reunião a acompanhar não é o congresso do PS mas sim o próximo encontro entre Marta Soares e Bruno de Carvalho. O Novo Banco deixou de ser problema e as atenções estão no boné do Ricciardi com a inscrição GAJ, Grupo de Apoio a Jesus. Não importa se Centeno continua no Eurogrupo, a dúvida é se Jesus cumpre ou não o contrato.
O país é isto, uma merda de comunicação social que vive da sua cultura de pasquim e que sem incêndios, assaltos a Tancos ou falsos atentados terroristas em Alcochete não sabe como sobreviver. O país está condicionado pelos telejornais e os próprios políticos vivem para os jornais, as prioridades do país deixaram de ser os seus problemas para serem os que dominam a agenda. Em vez de elegermos políticos para pensarem no país, elegemos políticos que assistem ao telejornal da manhã para saberem o que vão dizer no da hora de almoço e depois esperam pelo da noite para saberem o que se diz do que eles disseram.

ESPETÁCULO DE HIPOCRISIA

(In Blog O Jumento, 21/05/2018)
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Quando Bruno de Carvalho tentou renovar o vínculo contratual com André Carrilo em condições parecidas às que conseguiu impor aos jogadores agora mais revoltados pelas dificuldades em sair para outros clubes, fez-se um silêncio. Ninguém reparou que Bruno de Carvalho usou os poderes da relação contratual com o jogador para o chantagear.
Práticas, como retirar o jogador dos treinos, convocá-lo para uma reunião e mantê-lo numa sala durante uma tarde e outros tratamentos de que Carrillo foi alvo são crimes de assédio laboral em muitos países. Mas ninguém se levantou em defesa do trabalhador, e até vimos ilustres deputados virem elogiar Bruno, referindo-se à personagem como o “meu presidente”. Como ninguém se incomodou por um jogador como o Bryan Ruiz, com 33 anos, ter sido forçado a treinar com os juniores.
Até poderia fazer aqui uma lista de personalidades de esquerda que, na ocasião, se mantiveram em silêncio e que não hesitaram em apoiá-lo nas últimas eleições. O Bruno de Carvalho sem regras não é uma novidade, não resulta de um desvio que levou Daniel Sampaio a afastar-se da criação, nada mudou em Bruno de Carvalho.
Só que, desta vez, o comportamento de Bruno de Carvalho ocorreu num contexto em que as boas consciências já voltaram a ter bons valores e os mesmos comportamentos que no passado eram tolerados, ou mesmo elogiados, passaram a ser considerados condenáveis. Ainda por cima parece que a brilhante gestão de Bruno de Carvalho foi mais longe e envolveu o recurso a jagunços para meter os trabalhadores na ordem.
Onde estavam os deputados defensores dos direitos laborais quando André Carrrilho foi maltratado? Não deixa de ser curioso que aqueles que parece defenderem que o mundo do futebol é um mundo com leis à parte, elogiando os métodos de Bruno de Carvalho, tenham agora mudar de opinião e já defendem que um assalto com roubos de relógios e provocando três pontos numa testa já é terrorismo.
A verdade é que Bruno de Carvalho é a melhor das produções da hipocrisia nacional, da cobardia e da falta de valores. Da cobardia porque agora que o monstro perdeu o controlo ninguém quer assumir a paternidade.
Alguns mais espertalhões dizem que só agora Bruno resvalou para a asneira; estão esquecidos do que ele fez ao Carrillo. Vá lá, na ocasião os “adeptos” não bateram no jogador peruano, e se tal tivesse sucedido, talvez muitas dessas boas pessoas tivessem vindo em defesa dos jagunços, sugerindo que tinha sido um pequeno exagero e que tudo não tinha passado de uns tabefes.

A CRISE NO SPORTING VISTA POR UM BENFIQUISTA

(In Blog O Jumento, 19/05/2018)
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Tudo o que está a acontecer no Sporting estava escrito nas estrelas e esta crise é muito mais do que um processo de suicídio de um maluco, é uma luta sem quartel por causa de dinheiro.
De um lado, os que não hesitam em mandar o jogo abaixo para se livrarem de Bruno de Carvalho, do outro um presidente que percebeu a estratégia do treinador e dos jogadores e parece ter-se esquecido de que vive num estado de direito e que o Sporting tem uma SAD cotada na bolsa.
Há poucos meses era felicidade: a possibilidade de destruição do rival da Segunda Circular unia todos os sportinguistas em torno de Bruno de Carvalho. Ganhava eleições por mais de 90%, inaugurava o pavilhão e até tinha direito a algo que ninguém tinha tido na história de Lisboa: Medina deu-lhe uma rotunda da cidade para nela inscrever as suas próprias citações. O Sporting respirava felicidade e o treinador ignorava os vínculos laborais para passar a ser ele a estar na comissão de honra do presidente candidato.
Só que nem tudo corria bem: à medida que se aproximava o fim da época os jogadores começaram a ter de novo o sonho de irem para o estrangeiro, o treinador percebia que não conseguia o título e começava a questionar-se o seu futuro. Começou uma luta surda entre treinador e presidente: um queria despedir sem indemnizar, o outro queria sair sem indemnizar e se saísse com uma indemnização melhor ainda.
A solução dos que queriam sair em vantagem começava a passar pelo derrube do presidente. Para este, a saída do treinador e dos jogadores era inevitável, mas teriam de dar lucro ao clube. Daí a Bruno de Carvalho ter visto nas derrotas uma tentativa de o pressionar foi um pequeno passo, não se conteve e foi o que se viu: o presidente do SCP perdeu o seu auto-controlo e a sequência de acontecimentos foi imparável, levando à cena vergonhosa de Alcochete.
A notícia do dia é que Jesus tem provas e vai usá-las se Bruno de Carvalho lhe exigir uma indemnização, os jogadores querem negociar com outros clubes mas preferem ter um presidente dócil no Sporting e fazem chantagem com rescisões por justa causa, Bruno de Carvalho receia o desemprego e faz chantagem com a oposição atirando o SCP para a falência.
No meio dos bons valores aquilo que alimenta a guerra no Sporting é apenas uma coisa, os milhões que todos querem ganhar. Agora que há jogadores que valem milhões, que um treinador custa milhões e que tem uma clausula de rescisão igualmente de milhões, todos disputam esses milhões antes que desapareçam de novo.
Ver Ferro Rodrigues quase a chorar, ler as citações de Bruno de Carvalho na rotunda do leão, ouvir Marcelo a deixar na dúvida se vai ao jogo, ouvir a berraria do Barroso insinuando que o caso do andebol é uma invenção do outro lado da estrada, quase só pode dar vontade de rir, o que está em causa são uma dúzia de milhões e por causa de uma dúzia já destruíram mais de uma centena. E tudo isto se precipitou porque o Benfica, sem saber como, ficou em segundo lugar no campeonato.