Uma coisa extraordinária acerca da diplomacia britânica é que ela procura continuamente maneiras de ficar à frente da curva e proporcionar valor acrescentado ao seu cliente do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos. Isto é o que torna altamente significativas as observações do primeiro-ministro Boris Johnson acerca do conflito na Ucrânia, na sua conferência de imprensa em Nova Delhi.
Johnson recordou a linhas evocativas do poema Dover Beach, de Matthew Arnold, sobre a “melancolia, longa, do rugido que se afasta” quando a fé está em recuo. Ele estava em completa discordância com o fulcro das observações na Casa Branca do Presidente dos EUA Joe Biden , no dia anterior, onde prometeu:
“manter Putin responsável pela sua guerra brutal e sangrenta”;
“aumentar ainda mais a capacidade da Ucrânia para combater no leste – na região do Donbass”;
“repelir a agressão da Rússia na Ucrânia, para vencer a selvajaria de Putin”;
“enviar uma mensagem inequívoca a Putin: Ele nunca conseguirá dominar e ocupar toda a Ucrânia. Não conseguirá – isso não acontecerá”;
“aumentar a pressão sobre Putin e isolar ainda mais a Rússia na cena mundial”;
“negar ainda mais à Rússia os benefícios do sistema económico internacional de que tanto desfrutaram no passado”;
“continuar ao lado do bravo e corajoso povo da Ucrânia”.
Biden conseguiu empacotar toda esta retórica belicosa num único discurso! De facto, ele chegou a concluir exalando optimismo que “Ainda não há evidência de que Mariupol tenha caído completamente”.
Mas Johnson, em contraste agudo, tendeu a seguir a previsão da Inteligência Militar britânica de que os russos poderiam vencer na Ucrânia. Sem quaisquer acrobacias verbais, ele foi directo ao ponto:
“Penso a coisa triste de que (a vitória russa) é uma possibilidade realista. Sim, naturalmente, Putin tem um enorme exército, ele tem uma posição política muito difícil … a única opção que ele tem agora é continuar a tentar usar a sua abordagem aterradora, de trituração, conduzida pela artilharia, tentando triturar os ucranianos. Está agora em vias de assegurar uma ponte terrestre em Mariupol. A situação é, receio, imprevisível. Temos de ser realistas acerca disso”.
Durante a sua visita recente à Ucrânia, Johnson confirmadamente aconselhou o presidente Vladimir Zelensky a efectuar uma retirada e formar uma nova linha de defesa, mas Zelensky não tem outra opção senão seguir o conselho americano.
Para o presidente Biden, é claro, há muito boas razões para a guerra continuar como uma guerra para sempre. A guerra une a Europa por trás da enfraquecida liderança transatlântica dos EUA. Além disso, Biden tem agora um álibi para explicar a elevada inflação na economia dos EUA. Ele está a aplacar o complexo militar-industrial num ano de eleições. Biden anunciou na quinta-feira um novo pacote de US$800 milhões em ajuda militar para artilharia pesada, 144.000 munições e drones, os quais serão enviados “directamente para as linhas da frente da liberdade” no Donbass.
Contudo, a grande questão permanece: Por quanto tempo será mantida a unidade do ocidente por trás da liderança americana se Biden procura um conflito arrastado com a Rússia? As sucessivas derrotas em Mariupol e no Donbasse não só romperiam as costas do exército ucraniano e afectariam seriamente a credibilidade dos EUA como desacreditariam toda a narrativa triunfalista do ocidente.
Se bem que as sanções ocidentais tenham prejudicado a economia russa, de acordo com indicações actuais Moscovo está a ajustar-se a um “novo normal”. Ao contrário das expectativas ocidentais, as sanções não puseram a opinião pública russa contra o governo. O teste com êxito quarta-feira passada da geração seguinte do míssil balístico intercontinental Sarmat – o qual “não tem análogos no mundo e não haverá durante um longo tempo” (palavras de Putin) – é sem dúvida uma afirmação desafiadora.
Enquanto isso, tentativas ocidentais de “isolar” a Rússia não têm êxitos a relatar. Na reunião de ministros das Finanças do G20 em Washington, o “boicote à Rússia” não teve outros apoiantes além do bloco ocidental. Os EUA não conseguiram persuadir a Arábia Saudita a desvincular-se do seu cartel da OPEP+ com a Rússia. Acima de tudo, na área chave que mais importa – petróleo e gás – a Europa é incapaz de concordar com um embargo. Vários países da UE ameaçam vetar qualquer iniciativa deste tipo por parte da Comissão.
As economias europeias estão em variadas etapas de colapso, quando o ricochete das sanções começa a atingi-las. O banco central da Alemanha advertiu sexta-feira que um embargo total às compras de energia russa poderia custar 180 mil milhões de euros, o que equivale a retirar 5% do PIB previsto para a Alemanha neste ano e fazer a economia voltar a cair numa grave recessão. Advertiu que mesmo a necessidade de encontrar fontes de energia de substituição dispararia um foguete sob inflação, adicionando mais de 1,5% pontos percentuais ao índice de preços ao consumidor neste ano e mais de 2 pontos percentuais ao do próximo ano.
O chanceler Olaf Scholz disse à Spiegel na sexta-feira que um embargo do gás ao gás em última análise “cavaria uma crise económica dramática, a perda de milhões de empregos e de fábricas que nunca mais voltariam a abrir”. Ele disse que, dadas tais “enormes consequências para o nosso país, para toda a Europa,… é minha responsabilidade dizer: ‘Não podemos permitir isso (o embargo)'”.
Os europeus estão a aperceber-se mais cedo do que tarde que eles são os grandes perdedores. Para além das perturbações nas cadeias de abastecimento que dificultam a produção industrial, que com o fardo de 5 milhões de refugiados (até agora) e o grande impacto na segurança alimentar devido à guerra no “cesto do pão da Europa”, combinado com o escasso fornecimento de fertilizantes que são utilizados para aumentar o rendimento das colheitas, a Europa está a sentir o peso da subida dos preços.
Mesmo antes da guerra na Ucrânia, os preços dos fertilizantes estavam a aumentar rapidamente devido ao aumento do custo do gás, com os fertilizantes azotados a custarem quase cinco vezes mais do que neste momento do ano passado. Peritos advertem que tudo isto poderia levar a uma crise alimentar. Agricultores agitados têm efectuado protestos apelando a concessões.
Inquéritos de opinião da Gallup International mostraram que as maiores preocupações dos cidadãos da UE neste momento são a ascensão de preços, o medo da ampliação da guerra na Ucrânia e possível escassez na oferta de energia. Mais da metade dos cidadãos da UE acredita que a Europa já proporcionou apoio suficiente à Ucrânia.
É aqui que a derrota no Donbass se transforma num acontecimento climático que põe em causa toda a narrativa dos EUA sobre a Ucrânia – a expansão da NATO, a segurança europeia e o diálogo com a Rússia – e, claro, a obsessão com a liderança da Rússia por Vladimir Putin.
Uma sondagem publicada quinta-feira pelo The Associated Press-NORC Center for Public Affairs Research mostra que o desejo dos americanos de se envolverem desvaneceu-se um pouco. Apenas 32% dizem que os EUA deveriam ter um papel importante no conflito, abaixo do 40% no mês passado. Outros 49% afirmam que os EUA deveriam ter um papel menor.
Ao falar em Delhi, Johnson descartou a narrativa de Biden. Em vez disso, apelou ao “estabelecimento de uma visão para o futuro da Ucrânia na arquitectura de segurança da Europa”. Onde é que a Ucrânia se encaixa agora”?
Johnson disse que a Ucrânia precisa finalmente de ser capaz de responder à pergunta – “afinal de contas o que querem os ucranianos?”. Curiosamente, ele não utilizou as palavras “governo ucraniano”.
Johnson dilatou-se acerca de “uma colecção de garantias de segurança de países com os mesmos interesses – compromissos de segurança acerca do que podemos fazer para os apoiar com armamento, com treino e com partilha de inteligência”. Mas ele rapidamente acrescentou que isto não pode ser “como uma garantia do Artigo 5 (NATO)”. Ao invés, disse ele, a Ucrânia deveria ter “dissuasão por negação”.
Na visão de Johnson, a Ucrânia como membro da NATO é inconcebível. A Grã-Bretanha antecipa novos factos sobre o terreno. Johnson pareceu reconhecer as realidades políticas emergentes quando o carro de guerra russo implacavelmente “tritura” a máquina de guerra de Kiev reduzindo-a em pó.
23/Abril/2022
[*] Antigo membro do corpo diplomático indiano, analista político
Relativamente ao conflito militar na Ucrânia, eis uns quantos pontos pelos quais, em minha opinião, se deve começar, ou pelo menos se deve considerar atentamente numa qualquer tentativa de debate informado.
Em primeiro lugar: começou o conflito no passado mês de Fevereiro, sendo a Rússia a agressora? Resposta: obviamente, não. O conflito armado vem pelo menos desde 2014, quando, na sequência do golpe da praça Maidan, as regiões ucranianas predominantemente russófonas se manifestaram massivamente em protesto, não raro reclamando mesmo a secessão, e pediram a ajuda russa. Todavia, só nas chamadas Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk o protesto adquiriu dimensão produtora de revolta armada e secessão efetiva. A repressão pelo governo de Kiev destas repúblicas secessionistas provocou, desde então, perto de 15 mil mortos. A Rússia, a França e Alemanha supostamente operaram como mediadoras, apadrinhando os “acordos de Minsk”, que todavia a Ucrânia nunca cumpriu. Os mortos referidos correspondem, na sua imensa maioria, a civis das repúblicas de Lugansk e Donetsk.
Segundo aspeto: o governo de Kiev preparava-se para levar a cabo um assalto em força contra as duas repúblicas, tendo concentrado no Leste do território ucraniano, segundo alguns comentadores (como Scott Ritter, nomeadamente), cerca de 60 mil homens armados, ou mesmo mais. A “Operação Z”, como os russos lhe chamaram, constituiu assim, antes de mais, um movimento de antecipação, que impediu este assalto mortal preparado pelo governo de Kiev.
Terceiro, mas pode a Rússia apoiar abertamente as pretensões secessionistas das duas referidas repúblicas? Sim, pode; e tem, quanto a isso, indiscutivelmente razão em matéria de direito internacional, pelo menos desde as deliberações do Tribunal Internacional de Justiça que em 2010 formalmente indeferiram a queixa da Sérvia relativa à proclamação da independência pelo Kosovo (aqui: en.wikipedia.org/wiki/Advisory_opinion_on_Kosovo%27s_declaration_of_independence). Recordemos, quanto a este assunto, o seguinte. Aquando do desmembramento da ex-Jugoslávia, a Croácia e a Bósnia, por exemplo, fizeram secessão legalmente, porque a própria Constituição jugoslava reconhecia esse direito às repúblicas que a compunham. Todavia, depois a Krajina fez também secessão da Croácia, e a Srpska da Bósnia. A resposta generalizada foi então: estas secessões são diferentes e são ilegítimas, porque se trata aqui apenas de regiões, ao passo que a Bósnia e a Croácia eram repúblicas. O problema, nesse caso, é que também o Kosovo era só uma região. E todavia, depois de a NATO ter (com os bombardeamento de Março-Junho de 1999) imposto à Jugoslávia a saída daquele território, o Kosovo veio a proclamar a sua independência em 2008: reconhecida pela maior parte dos membros da NATO, tal como Portugal, por exemplo, embora significativamente não pela Espanha. A Jugoslávia restante decompôs-se entretanto em Sérvia e Montenegro. A Sérvia, república à qual o Kosovo pertencia, levou o problema até às mais altas instâncias jurídicas, designadamente o referido Tribunal Internacional de Justiça. E este deu a resposta mencionada acima. A secessão do Kosovo seria ilegal do ponto de vista interno da Sérvia, sem dúvida; mas em matéria de direito internacional, opinaram os doutos juristas, dever-se-ia permanecer agnóstico, porque se de um lado estava a pretensão da integridade territorial da Sérvia, do outro estava o propósito de autodeterminação dos kosovares – mesmo sem no Kosovo ter sido feito qualquer referendo sobre a independência, note-se bem. Assim, o Tribunal decidiu-se pelo referido parecer ‘agnóstico’, reconhecendo aliás, do mesmo passo, o caráter predominante político (por oposição a jurídico) da questão.
Quarto, pode dizer-se que, depois deste acórdão do TIJ, as portas ficaram na verdade abertas para praticamente tudo? Que internacionalmente passa a valer tudo, desde que se tenha a força (política, e antes de mais militar) suficiente para fazer prevalecer um qualquer ponto de vista? Bom, se calhar pode mesmo. Aliás, a mencionada sentença assemelha-se estranhamente a um ‘suicídio coletivo’ jurídico, com a admissão pública de que este assunto está muito acima da cabeça dos juízes – e isso segundo os próprios.
Mas é bom que toda a gente tome nota de que é este o mundo em que vivemos, mesmo de acordo com aqueles que, supostamente, estão encarregados de pôr um mínimo de ordem jurídica neste mundo… Em todo o caso, a Rússia sem dúvida registou devidamente esse importante ponto de viragem em teoria e doutrina das relações internacionais, os seus responsáveis máximos, incluindo Putin, tendo-o explicitamente referido em público mais duma vez.
Quinto, para além da questão da secessão das repúblicas do Donbass, há o problema da neutralidade da Ucrânia. E, quanto a isso, voltamos a embater no facto iniludível da predominância da pura e simples força. Noutros termos: podem a Rússia ou a China, por exemplo, se Cuba concordar com isso, despejar mísseis hipersónicos seus de última geração naquela ilha, indiferentes ao que os EUA pensem ou não pensem? Não parece muito crível. E, de resto, na década de 1960, JFK (que Oliver Stone fez, com alguma plausibilidade, passar por político ‘pomba’) disse-o claramente a Khrushev. Basicamente: “ou vocês tiram os mísseis de lá, ou tiramos nós”. E os soviéticos tiraram: em troca, acrescentemos e precisemos, de os norte-americanos também tirarem mísseis seus da Turquia (neste caso algum dispositivo mental de ‘simetria’ parece fazer sentido) e de prometerem não invadir Cuba – embora tenham continuado a estrangulá-la economicamente, claro, mas isso é outro assunto. Regressemos à Europa. Imagine-se uma Rússia um pouco menos pacholas do que foi até ao passado mês de Fevereiro, dizendo: “ou vocês garantem a neutralidade da Ucrânia, e tiram os vossos mísseis dos vários países nossos vizinhos onde eles estão, ameaçando-nos demasiado perto, ou tiramos nós; e trataremos também de ‘neutralizar’ a Ucrânia”. É abusivo? É belicoso? É arrogância e ferocidade russa? É violação da Carta da Nações, designadamente da soberania da Ucrânia? Em parte talvez seja, mas, se quisermos produzir um juízo completamente honesto acerca deste grupo de problemas, teremos obviamente de admitir: não foi só Brejnev a argumentar pelo caráter “limitado” da soberania dos países. E, quando o fez, o seu defeito principal foi, talvez, o da franqueza excessiva.
Em sexto lugar, a própria violação da Carta das Nações é, em todo o caso, muito discutível, porque a Rússia tem indiscutivelmente do seu lado, para além do importante princípio da “segurança coletiva” enquanto bem comum indivisível, também o princípio da “responsabilidade de proteger”, normalmente usado (e mesmo muito abusado) pelos norte-americanos. Em essência, quanto ao primeiro: um qualquer país não pode, impunemente, pretender ameaçar outro. Se o fizer, arrisca-se e fica por sua conta, colocando-se fora da alçada da proteção da Carta da ONU, a qual visa primordialmente a defesa da paz.
Pode a NATO, portanto, pretender expandir-se indefinidamente para Leste, fazendo perigar a segurança da Rússia, dizendo proceder assim em nome da soberania irrestrita dos países seus membros? Da perspetiva do princípio da “segurança coletiva”, não pode. Em definitivo, que isso fique claro: não pode. Se o quiser fazer, arrisca-se, deixando de ficar sob a proteção da Carta e do espírito constitutivo da própria ONU.
Ora, quanto a isso, a Rússia tem infinitamente mais razão em 2022 do que os EUA, quando invocaram abusivamente estas ideias, por exemplo, contra o Afeganistão em 2001 (a suposta “ameaça terrorista”) e contra o Iraque em 2003 (as famosas “armas de destruição massiva”). Nenhum destes países ameaçava outros, menos ainda os próprios EUA.
Mas a expansão indefinida da NATO para Leste, incluindo a eventual adesão da Ucrânia (acrescida, para cúmulo, da rescisão do protocolo através do qual esta aceitara, aquando da dissolução da URSS, permanecer militarmente não-nuclear!), constituiria uma ameaça mortal e direta, um clear and present danger para a Rússia, impondo a esta uma reação com caráter de urgência.
Em sétimo lugar, quanto a “responsabilidade de proteger” (responsibility to protect, ou R2P, como é habitualmente conhecido), idem aspas. Os EUA usaram e abusaram grosseiramente disso, por exemplo, a respeito do Kosovo. Alguém se lembra ainda dos célebres killing fields de Slobodan Milosevic, apressadamente fabricados em 1999 pelos media ocidentais? Alguém recorda Carla Del Ponte, a superlativamente prostibular procuradora do “tribunal especial”, mandando prender Milosevic precisamente quando a Jugoslávia estava a ser bombardeada?
Os killing fields do Kosovo nunca vieram a ser encontrados, é claro (porque obviamente nunca existiram), mas o facto é que Milosevic acabou por ser preso e vir a morrer na prisão, sendo depois disso pronunciado inocente pelo próprio tribunal que o mandara prender.
Nada disso acarretou, note-se, quaisquer consequências para Carla Del Ponte. Todavia, sublinhemo-lo agora, isto não significa que o R2P seja de todo um princípio inválido, ou que a sua invocação constitua sempre uma impostura. Foi uma impostura no caso do Kosovo, sim, onde a ex-Jugoslávia nunca praticou as atrocidades mentirosamente alegadas. Mas isso não quer dizer que não haja atrocidades desse calibre e maior por esse mundo fora. Mais recentemente tem havido, sim, e muitas, designadamente na Ucrânia oriental. Ora, perante esta população russófona, que de resto em boa medida se percebe mesmo como russa (a designação de “ucraniana” constituindo, do ponto de vista daquela, um mero topónimo, tratando-se de russos que residem numa periferia geográfica, tal como há espanhóis que são “estremenhos” pela singela razão de viverem na “Extremadura”), face aos sofrimentos infligidos à mesma, pode a Rússia continuar perpetuamente indiferente? Viu-se recentemente que não – mas era mais ou menos percetível há muito que isso acabaria, tarde ou cedo, por acontecer.
Oitavo, isso leva a outro aspeto importante desta história, que é o facto de Rússia ter procedido lentamente, e até muito tarde apenas a contragosto, apenas depois de muitíssimo pressionada pelos acontecimentos. O conflito presente pode pois, com facilidade, ser identificado não tanto como um conflito primordialmente Rússia-Ucrânia, mas enquanto conflito da Rússia com a NATO, ou mesmo com o Ocidente Coletivo, que usou a Ucrânia como instrumento para ‘açular o urso’.
Tem, quanto a isso, toda a razão Diana Johnstone (middle-east-online.com/en/us-foreign-policy-cruel-sport): a política dos EUA face à Rússia é sobretudo um desporto, e um desporto cruel. O conflito, repita-se e sublinha-se pois, não começou agora nem foi iniciado pela Rússia. Esta limitou-se a defender-se, no contexto da Drang nach Osten da NATO, ocorrida apesar das promessas mentirosas, feitas em 1990/91, de que não haveria “nem uma polegada” de expansão da aliança para Leste.
Em nono lugar, merecem igualmente menção, quanto ao panorama atual, a absoluta, radical exclusão dos russos do imaginário Ocidental, a expulsão simbólica daquela nação de tudo o que possa indicar civilidade (ou, pelo menos, a sua enfática irradiação da Grande Irmandade dos Povos Brancos): de Tchaikovsky e Turgueniev ao atletismo e à patinagem artística, passando pelos concursos de gatos… Apesar de já ter sido sublinhado por vários autores, isso deve ser mencionado aqui, como importante sintoma do estado de saúde mental do Ocidente Coletivo: em ocasiões anteriores de conflitos, mesmo conflitos muito acirrados – e isso desde a Guerra da Crimeia até à chamada Crise dos Mísseis dos anos 1960 – nunca um certo número de enormidades como as que hoje presenciamos foi obviamente cometido. Já se disse, e com razão: o próprio Hitler, no meio do combate às Hordas Orientais que pretensamente teria sido a “Empresa Barbarossa” (Unternehmen Barbarossa), não chegou a proibir a música russa, ou o ballet…
Em décimo lugar, é merecedor de registo o elevado nível de enlouquecimento coletivo dos europeus (a Ocidente e a Oriente) também quanto aos seus interesses materiais diretos, bem como o abjeto servilismo dos mesmos face aos EUA. Tal como Michael Hudson há muito sublinhou, esta é sobretudo uma guerra de separação económica radical da Europa e da Rússia, criando dificuldades de curto prazo a ambas, decerto, mas num prazo mais dilatado sobretudo aos europeus, que vão ficar muito mais ainda nas mãos dos EUA do que até agora (aqui: thesaker.is/americas-real-adversaries-are-its-european-and-other-allies-the-u-s-aim-is-to-keep-them-from-trading-with-china-and-russia/). Para usar a expressão do mesmo Hudson, em situação subsequente de dificuldades para ambas as moedas, o dólar vai rapidamente “devorar o euro”: resistir.info/m_hudson/dolar_devora_euro.html.
Todavia, décima primeira observação, esta trajetória deverá acabar por criar problemas também aos próprios EUA, os quais têm até agora extraído consideráveis vantagens de senhoriagem da posição obviamente privilegiada em que encontram, desde que Nixon, há 50 anos, suprimiu a convertibilidade dólar-ouro.
Em síntese, só mesmo um país cuja moeda goze das vantagens de senhoriagem que o dólar possui pode continuar a ter simultaneamente um enorme défice orçamental e um brutal défice externo, sem que isso conduza rapidamente à sua ruína. E tal acontece, em essência, porque a procura de dólares continua a ser alimentada, em todo o mundo, pela necessidade de usá-los para transacionar um certo número de produtos essenciais, em particular petróleo. São estes fluxos que fundamentalmente seguram o dólar como ‘super-moeda’ mundial.
Em paralelo, claro, os EUA transformaram-se também em ‘protetor’ ou ‘padrinho militar’ dos produtores de petróleo do Médio Oriente, embora se trate aqui, de facto, de racketeering, ou duma variedade de ‘serviço’ típico dos famosos Sopranos… Mas isso é conversa mais longa. O importante é que, mesmo sem o reequilíbrio das suas exportações assim parcialmente adquirido, os EUA podem permanecer indefinidamente deficitários, o resto do mundo continuando implicitamente a comprar dívida norte-americana, na medida em que o dólar continue a operar como ‘super-moeda’.
Entretanto, décimo segundo, a prática repetida das chamadas “sanções” (configurando uma completa ilegalidade, um total desrespeito pelo direito internacional, o equivalente do sitiar da cidades nas guerras medievais para as forçar pela fome a render-se, como repetidamente notado por vários autores, entre outros o famoso jurista Alfred de Zayas), o correspondente abuso grosseiro, pelos EUA, das vantagens que lhes são dadas pela sua posição excecional, tem induzido vários agentes económicos à escala global a procurar alternativas. A verdade, porém, é que se tem ‘empastelado’ muito nessa matéria. Todavia, aparentemente não mais, depois da recente vaga das chamadas sanctions from Hell que o Ocidente Coletivo quis (como intenção criminosa, claramente genocida e oficialmente declarada) impor a toda a sociedade russa. Decididamente, não mais.
As alternativas estão a chegar: desta vez, podemos estar certos disso, é mesmo para levar muito a sério. Também quanto a isto a Rússia terá demorado a reagir (e o resto dos BRICS ainda mais), mas também quanto a isto se poderá decerto aplicar o princípio do “não perdes pela demora”… O novo mundo económico e financeiro incluirá a indexação do rublo ao ouro, ao gás e/ou a outros recursos naturais, bem como tentativas de construção duma moeda-cabaz alternativa ao dólar, para o comércio internacional entre países exteriores ao Ocidente Coletivo. Tudo isto tenderá, previsivelmente, a criar pressões deflacionistas na Rússia e inflacionistas (talvez mesmo de hiperinflação) a Ocidente. Pode ir-se conjeturando, quanto a isso, na linha desta entrevista: resistir.info/p_escobar/glazyev_14abr22.html.
Décima terceira observação, o grotesco congelamento dos créditos russos pelos EUA e pela UE obriga imediatamente ao refazer dos contratos Rússia-Europa, passando os pagamentos desta a serem feitos em rublos. Não há nisso qualquer ‘retaliação’ russa, sublinhe-se, mas apenas sensatez elementar.
Se a Rússia vende um bem e o seu comprador reconhece o crédito russo (em dólares ou euros), mas ato contínuo o ‘congela’, isso significa evidentemente que o comprador está a proceder de má-fé, pretendendo continuar a consumir, na prática, à borla. Ora, como devia ser evidente para quem não estivesse totalmente ensandecido, a Rússia pode não desejar mal ao Ocidente, mas não tem inclinação para se constituir em instituição caritativa de que aquele fosse o beneficiário.
Sendo assim, doravante (depois das famosas “sanções” que são, de facto, um enorme tiro no pé dos europeus…), ou há pagamentos em rublos, ou fecho da torneira. A Europa pode, em alternativa, vir a consumir gás liquefeito transportado por navios transatlânticos, proveniente dos EUA, produzido por fracking em circunstâncias ambientalmente mais agressivas e muito mais caro? Lá isso pode, embora seja coisa para ainda demorar. E, pelos vistos, os dirigentes europeus querem tão bem às suas populações que é mesmo para aí que nos encaminhamos…
Décima quarta observação: este facto, só por si, evidencia bem que na Europa (Ocidental e Oriental), onde se tornou oficialmente objeto de escárnio público e de vergonha ser-se patriota, ou “nacionalista”, é todavia um imperativo absoluto ser ‘patriota-dos-EUA’, aceitando colocar os interesses dos EUA (tal como definidos pelo governo daqueles) à frente dos interesses do país de cada um; e obviamente à frente também dos interesses de cada um.
Os europeus, pode dizer-se, deixaram de reconhecer uma qualquer Pátria (terra do pai), ou ‘Mátria’, mas foram e são educados (por todo um universo mental que vai de Hollywood à Comissão Europeia) a reconhecer espontaneamente uma ‘Fília’: uma Tochterland, terra-filha, ou terra dos nossos ‘filhos simbólicos’ que seriam os norte-americanos. Se necessário, cada europeu (que deixou entretanto de ter Pátria, a favor da UE e de Bruxelas) deve sacrificar-se em tudo o que for necessário a favor da Tochterland, ou seja, dos EUA. É Bruxelas que o impõe.
E o patriotismo-por-transferência dos europeus para com aquela é, pelo seu lado, obviamente transitivo para Washington. Isto permite tudo o que o patriotismo ‘clássico’ permitia: da censura da cadeia televisiva Russia Today à compra forçada de combustíveis mais caros, passando por mais despesas na aquisição de material militar norte-americano e (preparemo-nos) reintrodução do serviço militar obrigatório, com monitorização direta pelos militares EUA e, no fim da linha, ‘juramento de bandeira’ dos recrutas às Stars and Stripes, com música de fundo do John Philip Sousa…
Em décimo quinto lugar (e agora fora de brincadeiras), destaque-se que quem continua a ver nisto tudo sinal da “loucura de Putin”, que o teria levado a reatar com a tradição de “imperialismo russo” remontando ao tempo dos czares – decididamente não percebeu mesmo nada. E continua a ler a situação completamente ao contrário do que devia. Relativamente à vida política na Rússia, deve sublinhar-se que existe neste país, quando comparado com os EUA, um muito maior pluralismo político efetivo. Putin, ao contrário de Biden, defronta oposições políticas muito reais, oposições substantivamente muito diversas em orientação ideológica-programática do seu partido, a Rússia Unida, o qual corresponde a uma espécie de Gaullismo à russa. Esta formação partidária dispõe duma larga maioria na Duma, onde defronta basicamente o PC da Federação Russa, o partido da Rússia Justa (mapeável algures entre os dois anteriores) e os nacionalistas conservadores do chamado Partido Liberal de Vladimir Jirinovski. Os neoliberais pró-ocidentais à la Navalny, que os há também, são basicamente uma insignificância neste panorama. Pois bem, nesta Duma, onde o partido de Putin tem maioria absoluta, foram em Fevereiro debatidas duas teses quanto ao possível reconhecimento oficial das repúblicas do Donbass: a primeira, mais ‘suave’, fazia o assunto correr primeiro pelo governo; a segunda, mais ‘dura’, deixava a Putin margem para o reconhecimento oficial imediato das repúblicas secessionistas. O partido de Putin era mais ‘suave’ na linha sugerida, o PC mais ‘duro’ e rápido na reação proposta. Pois bem, apesar da maioria da Rússia Unida, a verdade é que ganhou na Duma a ‘linha dura’; isto é, a proposta do PC russo. O que diz muito do estado de espírito geral da população russa, no contexto do qual (e muito ao contrário do que é propalado no Ocidente), Putin é, também ele, predominantemente percebido como um político ‘pomba’. Ver, quanto a isto, o artigo de Gilbert Doctorow: original.antiwar.com/gilbert_doctorow/2022/02/16/meet-the-new-proactive-russia-the-kremlin-moves-on-to-plan-b/
Décimo sexto, deve admitir-se que este grupo de questões fica, de certo modo, mapeado confrontando a posição do PC da Federação Russa com a do PC grego. Resumidamente, enquanto este último optou por uma posição de “nem-nem” (nem NATO nem intervenção militar russa), o PC russo contrapôs que autodeterminação do povo ucraniano sim senhor, mas, desde logo, como pode essa tal autodeterminação dos ucranianos exercer-se nas condições resultantes do golpe de 2014 e da completa infestação da Ucrânia por grupos neonazis? Primeiro terá, portanto, de vir a operação de desnazificação. E, ainda em matéria de autodeterminações, faz sentido pensar na secessão da Ucrânia não apenas das duas repúblicas do Donbass, mas em boa verdade de toda a chamada Novorrússia, aproximadamente os 2/5 sudeste do território. A Ucrânia coloca ou sugere questões sem dúvida muito mais amplas ainda, mas recorde-se aqui pelo menos, quanto a isso: a) o país tem, ainda hoje, um PIB per capita que continua a ser só metade do que era em 1991, aquando da dissolução da URSS, estando longe de completar o enorme U que foi a trajetória económica da maior parte das ex-repúblicas soviéticas; b) a esperança média de vida afundou-se drasticamente e ainda não recuperou; c) perto de 10 milhões de ucranianos abandonaram o país, quer para Ocidente quer para a Rússia; d) a autoridade do estado, já muito ameaçada antes pelo domínio dos oligarcas (maioritariamente enfeudados por sua vez ao Ocidente), colapsou completamente depois do golpe de 2014. Admitamo-lo: a Ucrânia é basicamente um imenso território Mad Max, controlado por oligarcas/senhores-da-guerra e milícias nazis. O possível exercício da autodeterminação pelos 2/5 sul-orientais pode ser pensado como a operação de salvamento daquela gente e daquele território – embora, reconhecidamente, mesmo isso deixe de lado a questão da desnazificação e neutralização militar dos 3/5 centrais e norte-ocidentais.
Décimo sétimo, há antecedentes vários de intervenções militares, às quais a história portuguesa esteve aliás diretamente ligada, que podem contribuir para nos ajudar (por analogia apenas, evidentemente) a tentar compreender a presente situação. Desde logo, o caso de Goa, Damão e Diu, invadidas pela União Indiana em 1961, em aparente violação da carta da ONU, ainda antes das deliberações anticoloniais desta na década de 1960. Nessa altura Portugal levou o caso à ONU, e a cabeça da União Indiana, pode dizer-se, só foi tirada do cepo pelo veto soviético no Conselho de Segurança. Ainda assim, a decisão “temerária”, “agressiva” e mesmo “imperialista” de Nehru apressou uma descolonização que, feita ‘como devia ser’, nunca mais aconteceria no “Estado da Índia” – e desencadeou mesmo um movimento mais amplo, que se prolongou a seguir para o início das sublevações anticoloniais nos atuais PALOPs. Vale a pena perguntar: alguém discute ainda, hoje em dia, a legalidade da decisão indiana? Alguém se queixa do “novo Hitler” que, segundo a propaganda portuguesa de então, seria Nehru? Salazar, recorde-se igualmente, ordenou então, ‘à la Batalhão Azov’, um combate até ao último homem – mas não foi obedecido, o comandante militar português de então escolhendo uma via ‘à la von Paulus’, que evidentemente salvou muitas vidas portuguesas mas lhe valeu, na altura, uma exautoração e uma humilhação públicas ‘à la Dreyfus’… Toda a oposição portuguesa de então (da semi-oposição ou quase-oposição católica até aos republicanos, Cunha Leal e António Sérgio incluídos), com a óbvia exceção do ilegal PCP, foi na altura beijar publicamente o traseiro de Salazar, protestando sinceramente patriotismo e lealdade. É obviamente impossível não pensar nisto, a poucos dias do “Big Show Zelensky” na AR portuguesa — e também, acrescente-se, a poucos dias do 48º aniversário do 25 de Abril…
Décimo oitavo, a história portuguesa pode e deve, no momento presente, ser trazida à colação não só por causa do assunto Estado da Índia (deliberação oficial de lutar até ao último homem), mas também pelo caso de Timor-Leste, onde se assistiu, em finais de 1975, a uma reação portuguesa diametralmente oposta à de 1961, mas então face à invasão indonésia (que recebera prévia ‘luz verde’ de Henry Kissinger). Recorde-se que Portugal, neste outro caso, não somente se comportou com suprema mansidão aquando da invasão, como meteu completamente ‘a viola no saco’ quanto ao assunto em todas as instâncias internacionais, só se interessando de novo pelo tema de Timor-Leste quando muito pressionado pela opinião pública internacional, já nos anos de 1990. Estas duas reações ‘simétricas’ de Portugal devem ainda ser complementadas pela consideração da atitude portuguesa em 1999, a respeito do Kosovo, sendo então primeiro-ministro António Guterres e apoiando Portugal a intervenção da NATO, e pelo reconhecimento subsequente do Kosovo como estado soberano. E enfim (but not the least…), pela memória da infame ‘Cimeira dos Açores’ de 2003, ligando para sempre o nome de Portugal à criminosa chacina do povo iraquiano, quer pelo nome primeiro-ministro de então, Durão Barroso, quer pelo próprio território, assim (ai de nós) tornado tristemente célebre de forma indelével… Chamemos a tudo isso “alimentação para o pensamento” – e tratemos de confrontar esses casos com a reação presente da República Portuguesa.
Décimo nono, nem todas as intervenções militares são necessariamente más, mesmo as que ocorrerem contra os interesses dos EUA – aliás, sobretudo essas. E menos ainda quando se prolonga infindavelmente a série das intervenções bélicas por parte dos próprios EUA: Jugoslávia, Somália, Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iémen, Ucrânia…
As respostas ‘simétricas’ não podem, neste panorama global, ser alvo de condenação. Não é justo nem sensato proceder assim. A intervenção russa na Síria, por exemplo, será “imperialista”? Ou é antes a resposta adequada ao apelo legítimo dum governo igualmente legítimo, dum país que pretende continuar independente? Será agressivo e condenável a Síria tentar retomar o terço nordeste do seu território, hoje ocupado pelos EUA a pretexto do combate ao ISIS, mas com o propósito descarado de roubar petróleo?
E, já agora, alguém se lembrará de condenar essa agressão/ocupação militar norte-americana na AR portuguesa? Mas consideremos mesmo casos em que a intervenção militar foi contrária aos apelos dos governos então reconhecidos. Como se separou o Bangladesh, então Paquistão Oriental, do Paquistão? Graças em parte a uma intervenção militar da União Indiana. Como se libertou o Camboja do domínio dos Khmers Vermelhos? Graças a uma invasão pelas tropas do Vietname. Condenaremos estas intervenções/invasões indiana e vietnamita? Apesar de feridas de inegáveis aspetos de ilegalidade, reprovaremos estas outras “operações especiais”? Condenaremos outrossim a invasão/libertação indiana de Goa? É claro, repito, que se deve ter muito cuidado no uso historiográfico das analogias. Finalmente, “cada caso é um caso”, como se diz. Mas vale a pena, parece-me, meditar aqueles exemplos, tanto mais quanto é evidente estar o nosso mundo a mudar muito depressa, e parecendo definitivamente ultrapassadas as três décadas de ‘unipolaridade norte-americana’ imediatamente subsequentes ao final da Guerra Fria.
Vigésimo, e último. Quanto a isso, deve também considerar-se o que lucidamente escreve Dayan Jayatilleka (aqui: www.resistir.info/russia/guerra_justa.html), e antes de mais a questão fundamental que ele nos deixa: qual a Rússia que merece verdadeiramente ser recordada pelo resto-do-mundo ou pelo Sul Global com nostalgia? A Rússia Imperial pré-1917? Decerto que não. Mas outro galo cantará, certamente, se pensarmos na Rússia soviética que, depois de esperar e desesperar pela Europa (que nunca mais se lhe juntava, nem juntou alguma vez, na mítica revolução proletária dos países “mais desenvolvidos”), decidiu virar-se em vez disso para sudeste, apelando aos “escravos das colónias” e levantando com isso a chama e a bandeira da libertação do Vasto Mundo do domínio do Ocidente.
A história não se repete, claro; mas, como por vezes também se acrescenta, frequentemente rima. É sobretudo adentro desse quadro global, de disputa do domínio do “Rest” pelo “West”, que em minha opinião a Rússia pode talvez ainda ‘reformatar-se’ de forma decisiva, e inquestionavelmente para melhor. E é nesse âmbito que a “Operação Z” deve pois ser julgada.
(Entrevista a Sergey Glazyev, por Pepe Escobar, in Resistir, 16/04/2022)
Sergey Glazyev é um homem que vive bem no olho do nosso vulcão geopolítico e geoeconómico atual. Um dos economistas mais influentes do mundo, membro da Academia Russa de Ciências, ex-assessor do Kremlin de 2012 a 2019, desde outubro de 2019 ele está estrategicamente posicionado como o ministro responsável pela Integração e Macroeconomia da União Econômica da Eurásia (EAEU).
A recente produção intelectual de Glazyev tem sido impressionante, sintetizada em seu ensaio Sanções e Soberania [versão traduzida ao português disponível aqui ] e uma extensa discussão o novo paradigma geoeconômico emergente, em uma entrevista a uma revista de negócios russa.
“Cresci em Zaporozhye, perto de onde lutas pesadas acontecem agora para destruir os nazistas ucranianos, que não existiam em minha pequena pátria. Estudei em uma escola ucraniana e conheço bem a literatura e a língua ucraniana, que do ponto de vista científico é um dialeto do russo. Não notei nada russofóbico na cultura ucraniana. Nos 17 anos da minha vida em Zaporozhye, nunca conheci um único banderista”.
Glazyev foi extremamente gentil em reservar algum tempo na sua agenda frenética para fornecer respostas detalhadas a uma primeira série de perguntas, que esperamos que se torne uma conversa contínua e especialmente focada no Sul Global. Esta é sua primeira entrevista com um analista estrangeiro desde o início da Operação Z. Muito obrigado a Alexey Subottin pela tradução do russo ao inglês.
Você está na vanguarda de um desenvolvimento geoeconômico revolucionário: o projeto de um novo sistema monetário e financeiro por meio de uma associação entre a EAEU [União Econômica EuroAsiática] e a China, contornando o dólar americano, o rascunho do projeto a ser concluído em breve. Você poderia antecipar algumas das características deste sistema – que certamente não é um Bretton Woods III – mas parece ser, finalmente, uma alternativa clara ao consenso de Washington, muito próxima das necessidades do Sul Global?
Em um ataque de histeria russofóbica, a elite dominante dos Estados Unidos jogou seu último “trunfo” na guerra híbrida contra a Rússia. Ao “congelar” as reservas cambiais russas em contas de custódia de bancos centrais ocidentais, os reguladores financeiros dos EUA, UE e Reino Unido minaram o status do dólar, do euro e da libra como moedas de reserva global. Esse passo acelerou drasticamente o desmantelamento em curso da ordem econômica mundial baseada no dólar. Há mais de uma década, meus colegas do Fórum Econômico de Astana e eu propusemos a transição para um novo sistema econômico global baseado em uma nova moeda de negociação sintética baseada em um índice de moedas dos países participantes [1]. Mais tarde, propusemos expandir a cesta de moedas subjacentes adicionando cerca de vinte commodities negociadas na bolsa. Uma unidade monetária baseada em tal cesta expandida foi modelada matematicamente [2] e demonstrou um alto grau de resiliência e estabilidade.
Por volta da mesma época, propusemos a criação de uma ampla coalizão internacional de resistência na guerra híbrida pelo domínio global que a elite financeira e política dos EUA desencadearam sobre os países que permaneceram fora de seu controle. Meu livro “The Last World War: the USA to Move and Lose”[3], publicado em 2016, explicou cientificamente a natureza dessa guerra vindoura e defendeu sua inevitabilidade – uma conclusão baseada nas leis objetivas de desenvolvimento econômico de longo prazo. Com base nas mesmas leis objetivas, o livro defendia a inevitabilidade da derrota do antigo poder dominante.
Atualmente, os EUA lutam para manter seu domínio, mas assim como a Grã-Bretanha anteriormente, que provocou duas guerras mundiais, mas não conseguiu manter seu Império e sua posição central no mundo devido à obsolescência de seu sistema econômico colonial, estão destinados a falhar. O sistema econômico colonial britânico baseado no trabalho escravo foi ultrapassado pelos sistemas econômicos estruturalmente mais eficientes dos EUA e da URSS.
Tanto os EUA quanto a URSS foram mais eficientes na gestão do capital humano em sistemas verticalmente integrados, que dividem o mundo em suas zonas de influência. A transição para uma nova ordem econômica mundial começou após a desintegração da URSS. Essa transição está agora chegando ao fim com a desintegração iminente do sistema econômico global baseado no dólar, que forneceu a base do domínio global dos Estados Unidos.
O novo sistema econômico convergente que surgiu na RPC [República Popular da China] e na Índia é o próximo estágio inevitável de desenvolvimento, combinando os benefícios do planejamento estratégico centralizado, da economia de mercado, do controle estatal da infraestrutura monetária e física e do empreendedorismo. O novo sistema econômico uniu vários estratos de suas sociedades em torno do objetivo de aumentar o bem-estar comum de uma forma substancialmente mais forte do que as alternativas anglo-saxônicas e europeias. Esta é a principal razão pela qual Washington não será capaz de vencer a guerra híbrida global que começou. Esta é também a principal razão pela qual o sistema financeiro global atual, centrado no dólar, será substituído por um novo, baseado no consenso dos países que aderirem à nova ordem econômica mundial.
Na primeira fase da transição, esses países voltam a usar suas moedas nacionais e mecanismos de compensação, apoiados por trocas de moedas bilaterais. Neste ponto, a formação de preços ainda é impulsionada principalmente pelos preços de várias transações, denominados em dólares. Essa fase está quase no fim: depois que as reservas russas em dólares, euros, libras e ienes foram “congeladas”, é improvável que algum país soberano continue acumulando reservas nessas moedas. Sua substituição imediata são moedas nacionais e ouro.
A segunda etapa da transição envolverá novos mecanismos de precificação que não referenciam o dólar. A formação de preços em moedas nacionais envolve despesas gerais substanciais, no entanto, ainda será mais atraente do que precificar em moedas “não ancoradas” e traiçoeiras como dólares, libras, euros e ienes. O único candidato a moeda global restante – o yuan – não tomará seu lugar devido à sua inconversibilidade e ao acesso externo restrito aos mercados de capitais chineses. O uso do ouro como referência de preço é limitado pela inconveniência de seu uso para pagamentos.
A terceira e última etapa da transição da nova ordem econômica envolverá a criação de uma nova moeda de pagamento digital fundada por meio de um acordo internacional baseado em princípios de transparência, justiça, boa vontade e eficiência. Espero que o modelo dessa unidade monetária que desenvolvemos desempenhe seu papel nesta fase. Uma moeda como essa pode ser emitida por um pool de reservas monetárias dos países do BRICS, do qual todos os países interessados poderão participar. O peso de cada moeda na cesta poderia ser proporcional ao PIB de cada país (com base na paridade do poder de compra, por exemplo), sua participação no comércio internacional, bem como a população e o tamanho do território dos países participantes.
Além disso, a cesta poderia conter um índice de preços das principais commodities negociadas em bolsa: ouro e outros metais preciosos, metais industriais importantes, hidrocarbonetos, grãos, açúcar, bem como água e outros recursos naturais. Para fornecer suporte e tornar a moeda mais resiliente, reservas internacionais de recursos relevantes podem ser criadas oportunamente. Esta nova moeda seria utilizada exclusivamente para pagamentos transfronteiriços e emitida para os países participantes com base numa fórmula pré-definida. Os países participantes usariam suas moedas nacionais para a criação de crédito, a fim de financiar investimentos e indústrias nacionais, bem como para reservas de riqueza soberana. Os fluxos transfronteiriços da conta de capital continuariam a ser regidos pelos regulamentos da moeda nacional.
Michael Hudson pergunta especificamente, tendo em vista que esse novo sistema permite que as nações do Sul Global suspendam a dívida dolarizada e é baseado na capacidade de pagamento (em moeda estrangeira), se esses empréstimos podem ser vinculados a matérias-primas ou, no caso da China, à propriedade de capital tangível na infraestrutura de capital financiada por crédito estrangeiro não-dólar?
A transição para a nova ordem econômica mundial provavelmente será acompanhada pela recusa sistemática de honrar obrigações em dólares, euros, libras e ienes. Nesse sentido, não será diferente do exemplo dado pelos países emissores dessas moedas que julgaram apropriado roubar reservas cambiais do Iraque, Irã, Venezuela, Afeganistão e Rússia, na ordem de milhões de milhões (trillions) de dólares. Uma vez que os EUA, a Grã-Bretanha, a UE e o Japão se recusaram a honrar suas obrigações e confiscaram riquezas de outras nações que eram mantidas em suas moedas, por que outros países deveriam ser obrigados a pagá-los de volta e a pagar seus empréstimos?
Em qualquer caso, a participação no novo sistema econômico não será restringida pelas obrigações do antigo. Os países do Sul Global podem ser participantes plenos do novo sistema, independentemente de suas dívidas acumuladas em dólares, euros, libras e ienes. Mesmo que eles não cumprissem suas obrigações nessas moedas, isso não afetaria sua classificação de crédito no novo sistema financeiro. A nacionalização da indústria extrativa, da mesma forma, não causaria disrupção. Além disso, caso esses países reservassem uma parte de seus recursos naturais para o suporte do novo sistema econômico, seu respectivo peso na cesta de moedas da nova unidade monetária aumentaria na mesma proporção, proporcionando a essa nação maiores reservas de moeda e capacidade de crédito. Além disso, linhas de troca bilaterais com países parceiros comerciais forneceriam financiamento adequado para investimentos conjuntos e financiamento comercial.
Em um de seus últimos ensaios, The Economics of the Russian Victory, você sugere “a formação acelerada de um novo paradigma tecnológico e a formação de instituições de uma nova ordem econômica mundial”. Entre as recomendações, você propõe especificamente a criação de “um sistema de pagamentos e liquidação nas moedas nacionais dos estados-membros da EAEU”, e o desenvolvimento e implementação de “um sistema independente de liquidações internacionais na EAEU, SCO [Organização para a Cooperação de Xangai] e BRICS, que poderia eliminar a dependência crítica do Sistema SWIFT controlado pelos EUA”. É possível prever um esforço coordenado da EAEU e da China para “vender” o novo sistema para membros da SCO, outros membros do BRICS, membros da ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático] e nações da Ásia Ocidental, África e América Latina? E isso resultará em uma geoeconomia bipolar — o Ocidente versus O Resto?
Na verdade, esta é a direção para onde estamos indo. Lamentavelmente, as autoridades monetárias da Rússia ainda fazem parte do paradigma de Washington e seguem as regras do sistema baseado no dólar, mesmo depois que as reservas cambiais russas foram capturadas pelo Ocidente. Por outro lado, as recentes sanções levaram a uma extensa busca de consciência entre o resto dos países que não são do bloco do dólar. Os “agentes de influência” ocidentais ainda controlam os bancos centrais da maioria dos países, forçando-os a aplicar as políticas suicidas prescritas pelo FMI. No entanto, tais políticas neste momento são tão obviamente contrárias aos interesses nacionais desses países não-ocidentais que suas autoridades estão ficando justificadamente preocupadas com a segurança financeira.
Você destaca corretamente os papéis potencialmente centrais da China e da Rússia na gênese da nova ordem econômica mundial. Infelizmente, a atual liderança do CBR [Banco Central da Rússia] permanece presa no beco sem saída intelectual do paradigma de Washington e é incapaz de se tornar um parceiro fundador na criação de uma nova estrutura econômica e financeira global. Ao mesmo tempo, o CBR já teve que encarar a realidade e criar um sistema nacional de mensagens interbancárias que não dependa do SWIFT, e abriu-o também para bancos estrangeiros. Linhas de troca de moeda cruzada já foram estabelecidas com as principais nações participantes. A maioria das transações entre os estados-membros da EAEU já são denominadas em moedas nacionais e a participação de suas moedas no comércio interno está crescendo em ritmo acelerado.
Uma transição semelhante está ocorrendo no comércio com a China, Irã e Turquia. A Índia indicou que está pronta para mudar para pagamentos em moedas nacionais também. Muito esforço é feito no desenvolvimento de mecanismos de compensação para pagamentos em moeda nacional. Paralelamente, há um esforço contínuo para desenvolver um sistema de pagamento digital não bancário, que seria vinculado ao ouro e a outras commodities negociadas em bolsa – stablecoins.
As recentes sanções americanas e europeias impostas aos canais bancários causaram um rápido aumento desses esforços. O grupo de países que trabalham no novo sistema financeiro só precisa anunciar a conclusão da estrutura e a disposição da nova moeda comercial, e o processo de formação da nova ordem financeira mundial acelerar-se-á ainda mais a partir daí. A melhor maneira de realizá-lo seria anunciá-lo nas reuniões regulares da SCO ou do BRICS. Estamos trabalhando nisso.
Esta tem sido uma questão absolutamente fundamental nas discussões de analistas independentes em todo o Ocidente. O Banco Central russo estava aconselhando os produtores de ouro russos a vender seu ouro no mercado de Londres para obter um preço mais alto do que o governo russo ou o Banco Central pagariam? Não houve qualquer antecipação de que a próxima alternativa ao dólar dos EUA terá que ser baseada em grande parte no ouro? Como você caracterizaria o que aconteceu? Quanto dano prático isso infligiu à economia russa a curto e médio prazo?
A política monetária do CBR, implementada de acordo com as recomendações do FMI, tem sido devastadora para a economia russa. Desastres combinados do “congelamento” de cerca de US$ 400 mil milhões em reservas cambiais e mais de um milhão de milhões de dólares desviados da economia por oligarcas para destinos offshore ocidentais, vieram com o pano de fundo de políticas igualmente desastrosas do CBR, que incluíam taxas reais excessivamente altas combinadas com uma flutuação controlada da taxa de câmbio. Estimamos que isso causou um subinvestimento de cerca de 20 milhões de milhões de rublos e uma subprodução de cerca de 50 milhões de milhões de rublos em mercadorias.
Seguindo as recomendações de Washington, o CBR parou de comprar ouro nos últimos dois anos, efetivamente forçando os mineradores domésticos a exportar volumes totais de produção, que somaram 500 toneladas de ouro. Agora, o erro e o dano que isto causou são muito óbvios. Atualmente, o CBR retomou as compras de ouro e, espera-se, continuará com políticas sólidas de interesse da economia nacional, em vez de “metas de inflação” em benefício dos especuladores internacionais, como havia sido o caso na última década.
O Fed e o BCE não foram consultados sobre o congelamento das reservas estrangeiras russas. A palavra em Nova York e Frankfurt é que eles se teriam oposto se tivessem sido consultados. Você pessoalmente esperava o congelamento? E a liderança russa esperava isso?
Meu livro “The Last World War” que já mencionei e que foi publicado em 2016, argumentava que a probabilidade de isso acontecer eventualmente é muito alta. Nesta guerra híbrida, a guerra econômica e a guerra informacional e/ou cognitiva são os principais teatros de conflito. Em ambas as frentes, os Estados Unidos e os países da OTAN têm uma superioridade avassaladora e eu não tinha dúvidas de que eles tirariam o máximo proveito disso no devido tempo.
Há muito venho defendendo a substituição de dólares, euros, libras e ienes em nossas reservas cambiais por ouro, que é produzido em abundância na Rússia. Infelizmente, agentes de influência ocidentais que ocupam papéis-chave nos bancos centrais da maioria dos países, bem como agências de classificação e publicações importantes, conseguiram silenciar minhas ideias. Para dar um exemplo, não tenho dúvidas de que altos funcionários do Fed e do BCE estiveram envolvidos no desenvolvimento de sanções financeiras anti-russas. Essas sanções têm aumentado consistentemente e estão sendo implementadas quase instantaneamente, apesar das conhecidas dificuldades com a tomada de decisões burocráticas na UE.
Elvira Nabiullina foi reconfirmada como chefe do Banco Central da Rússia. O que você faria diferente, em comparação com suas ações anteriores? Qual é o principal princípio orientador envolvido em suas diferentes abordagens?
A diferença entre nossas abordagens é muito simples. Suas políticas são uma implementação ortodoxa das recomendações do FMI e dogmas do paradigma de Washington, enquanto minhas recomendações são baseadas no método científico e nas evidências empíricas acumuladas nos últimos cem anos nos principais países.
A parceria estratégica Rússia-China parece estar cada vez mais firme – como os próprios presidentes Putin e Xi reafirmam constantemente. Mas há rumores contra ela não apenas no Ocidente, mas também em alguns círculos políticos russos. Nesta conjuntura histórica extremamente delicada, quão confiável é a China como um aliado da Rússia em todas as estações?
A base da parceria estratégica russo-chinesa é o bom senso, os interesses comuns e a experiência de cooperação ao longo de centenas de anos. A elite dominante dos EUA iniciou uma guerra híbrida global com o objetivo de defender sua posição hegemônica no mundo, mirando na China como o principal concorrente econômico e na Rússia como a principal força de contrapeso. Inicialmente, os esforços geopolíticos dos EUA visavam criar um conflito entre a Rússia e a China. Agentes de influência ocidental estavam amplificando ideias xenófobas em nossa mídia e bloqueando qualquer tentativa de transição para pagamentos em moedas nacionais. Do lado chinês, agentes de influência ocidental pressionavam o governo a se adequar às demandas dos interesses norte-americanos.
No entanto, os interesses soberanos da Rússia e da China levaram logicamente à sua crescente parceria e cooperação estratégica, a fim de enfrentar ameaças comuns que emanam de Washington. A guerra tarifária americana com a China e a guerra de sanções financeiras com a Rússia validaram essas preocupações e demonstraram o perigo claro e presente que nossos dois países estão enfrentando. Interesses comuns de sobrevivência e resistência estão unindo China e Rússia, e nossos dois países são em grande parte economicamente simbióticos. Eles complementam e aumentam as vantagens competitivas um do outro. Esses interesses comuns persistirão a longo prazo.
O governo chinês e o povo chinês lembram-se muito bem do papel da União Soviética na libertação do seu país da ocupação japonesa e na industrialização da China no pós-guerra. Nossos dois países têm uma base histórica sólida para a parceria estratégica e estamos destinados a cooperar estreitamente em nossos interesses comuns. Espero que a parceria estratégica entre a Rússia e a RPC, que é reforçada pelo acoplamento do One Belt One Road com a União Econômica da Eurásia, se torne a base do projeto do Presidente Putin da Grande Parceria Eurasiática e o núcleo da nova ordem econômica do mundo.
Referências: 1- TO SUSTAINABLE GROWTH THROUGH A FAIR WORLD ECONOMIC ORDER // Report edited by S. Yu. Glazyev to the Astana Economic Forum, 2012. 2- Minchenkov M., Vodyanova V., Zapletin M. Methodology for constructing the sustainability cost center index on dual group goods. GUM Bulletin. 2016, N 11, p.141-147. 3- Glazyev S. THE LAST WORLD WAR: The US to Move and Lose. Defend Democracy Press (site da iniciativa Delphi) – 18 de março de 2018.