(Continuamos na alucinação e a brincar com o fogo. Queremos mesmo uma guerra que destrua o mundo. Estamos nas mãos de loucos.Na sequência dos últimos acontecimentos relativos ao conflito na Europa entre a Ucrânia e a Rússia, o especialista em segurança e defesa Major-General Agostinho Costa analisa os factos mais marcantes de 2025, além dos principais detalhes dos mais recentes acontecimentos, nomeadamente o ataque de drones contra a residência de Putin, supostamente com a conivência de Trump.
• Assim, o processo de paz – por muito tímido que fosse -, está morto.
• A guerra vai escalar, não se sabe até onde e quando.
• Sim, 2026 promete vir a ser o “ano de todos os perigos”.
Hoje, 1 de janeiro de 2026, celebra-se o Dia Mundial da Paz. Uma data instituída pela Igreja Católica em 1967 e adotada por muitos como momento de reflexão sobre a harmonia entre povos. No entanto, ao olharmos para o mundo real, a pergunta impõe-se com ironia cruel: onde anda ela, essa paz tão proclamada?
A geopolítica atual expõe, sem pudor, como os interesses económicos e estratégicos alimentam conflitos permanentes. A guerra na Ucrânia continua a sua marcha lenta, com avanços russos mas custo de vidas, sustentada por equilíbrios de poder em que se envolve o ocidente. No Médio Oriente, apesar de cessar-fogo frágeis, as cicatrizes de Gaza permanecem abertas, com reconstruções que se transformam em oportunidades de negócio para empresas de armamento e construção, enquanto milhões vivem em precariedade. O Sudão mergulha numa guerra civil ignorada, onde recursos minerais e influências regionais (Emirados Árabes, Egito) prolongam o sofrimento. Em Myanmar, na Síria pós-Assad, no Sahel, gangs na América Latina – a violência fragmentada multiplica-se.
Estas lutas não são meros acidentes históricos. São, em grande parte, produto de um “estado realista” da natureza humana e das relações internacionais: a visão de que o mundo é uma arena de competição permanente, onde a segurança de uns exige a insegurança de outros. Recursos escassos – petróleo, terras raras, rotas comerciais, água – tornam-se pretextos para dominação. A indústria armamentista lucra com a instabilidade, vendendo armas a todos os lados. Potências emergentes desafiam o status quo não por justiça, mas por quota de poder. E os interesses económicos – contratos de reconstrução, acesso a mercados, controlo de cadeias de abastecimento – disfarçam-se de “estabilidade estratégica”.
Neste realismo cínico, a paz torna-se incómoda. Exige renúncia ao lucro imediato, ao controlo absoluto, à narrativa de inimigo eterno. Exige reconhecer o outro como irmão, não como ameaça. Mas o ser humano, na sua condição caída, inclina-se para o conflito como forma de afirmação. A história repete-se: impérios caem por excesso de ambição, povos sofrem por decisões tomadas em salas distantes.
Contudo devemos recordar que a paz não é ausência de conflito, mas presença ativa de bondade que desarma. Há sentinelas da paz: ativistas que arriscam a vida, diplomatas que tecem acordos frágeis, comunidades que reconstroem em meio às ruínas. A verdadeira questão não é se a paz existe – ela existe onde há perdão, diálogo, partilha. A questão é se estamos dispostos a desarmar os nossos próprios corações para a acolher.
Neste Dia Mundial da Paz, que a contradição nos desperte: enquanto o mundo se arma mais, escolhamos nós o caminho desarmante. Porque, no fim, a paz não se impõe pela força – vence pela persistência humilde de quem acredita que outro mundo é possível.
(Em resposta a um comentário de um visitante mais ou menos frequente deste blog, Carlos Marques, em que acusava a Estátua de, digamos, “falta de coerência ideológica” – seja lá o que isso for -, por publicar textos de autores que ele incinera por proscritos – no caso era o Pacheco Pereira, ver aqui -, esclareci que a Estátua não ostraciza ninguém pelo seu currículo ideológico e publica os textos pela sua valia em si, não atendendo aos hipotéticos “pecados mortais” passados dos seus autores.
Ora, é exatamente esse debate que este texto desenvolve, trazendo a terreiro os casos conhecidos de grandes vultos da literatura, da pintura, da música e do cinema. E fá-lo com a qualidade a que o seu autor já nos habituou. É que a Estátua prefere usar o currícculo apenas como pista indiciadora de qualidade à partida – que, em concreto, pode vir a ser infirmada – do que como um ferrete de perpétuo banimento. Aqui fica, pois, dedicado e à atenção do nosso crítico comentador.
Sempre que um artista morre – sobretudo quando foi grande – há um ritual quase inevitável: o elogio vem acompanhado do inventário moral. Não basta perguntar o que fez; exige-se saber quem era, como pensava, em quem votava e, se possível, que pecados carregava. A obra já não chega. É preciso a ficha completa.
Foi isso que aconteceu quando evoquei recentemente Brigitte Bardot enquanto artista. O elogio ao seu papel no cinema, à ruptura estética que representou, à influência cultural que exerceu, foi rapidamente confrontado com o outro lado: a cidadã politicamente controversa, a militante de causas discutíveis, a mulher que proferiu declarações racistas e foi justamente criticada por isso. E então surge a pergunta implícita, mas insistente: pode alguém assim ter feito grande arte?
A resposta curta é: pode. A resposta longa é: a história da arte inteira prova que sim.
A tentação contemporânea é exigir que a arte seja uma extensão da virtude do artista, como se o talento fosse um prémio atribuído apenas a cidadãos exemplares. O problema é que, se aplicarmos esse critério com rigor, ficamos com museus vazios, bibliotecas amputadas e salas de concerto em silêncio respeitoso.
Louis-Ferdinand Céline foi um escritor genial e um antissemita convicto. Ezra Pound escreveu alguns dos poemas mais influentes do século XX e foi um entusiasta do fascismo. Richard Wagner foi um compositor monumental e um antissemita militante. Caravaggio revolucionou a pintura ocidental e matou um homem. Roman Polanski é um cineasta maior envolvido num caso ético grave e perturbador. Picasso reinventou a arte moderna e teve comportamentos pessoais que hoje são, no mínimo, inaceitáveis. Nenhum destes factos anula o outro. Convivem, desconfortavelmente, mas convivem.
Brigitte Bardot pertence a esta galeria das contradições humanas. A artista que marcou o cinema europeu nos anos 50 e 60 – símbolo de uma nova linguagem do corpo, da sensualidade, da libertação feminina (ainda que involuntária) – trabalhou com artistas de todas as origens, integrou um cinema internacional e nunca fez da sua arte um veículo de exclusão. As suas posições políticas surgem mais tarde, já fora do cinema, num contexto pessoal, social e ideológico distinto. Julgar a obra à luz dessas escolhas posteriores é um exercício de retroprojeção moral que diz mais sobre o presente do que sobre o passado.
Isto não significa branquear, desculpar ou relativizar. Significa distinguir. A crítica à cidadã é legítima. A análise da artista também. Confundir as duas é empobrecer ambas.
A arte, ao contrário do que hoje se exige, não é um catecismo. Não nasce de seres humanos moralmente irrepreensíveis, mas de seres humanos complexos, contraditórios, falíveis. Exigir pureza ideológica aos criadores é transformar a cultura num concurso de boas intenções, onde vence quem menos incomodou – e não quem mais criou.
A arte pode ter ideologia, claro. Mas não é obrigada a coincidir com a ideologia do seu autor em todos os momentos da sua vida. E, muitas vezes, é precisamente essa distância que a torna universal, duradoura e maior do que quem a fez.
Reduzir uma carreira artística a um rótulo político tardio é confortável, moralmente higiénico e intelectualmente preguiçoso. Reconhecer a grandeza da obra sem absolver a pessoa é mais difícil – mas é aí que começa o pensamento crítico.
Talvez o verdadeiro incómodo não esteja em Bardot, Céline, Wagner ou Picasso. Talvez esteja em aceitarmos que a arte não é um prémio de bom comportamento. É, antes, o resultado imperfeito de seres humanos imperfeitos. E isso, gostemos ou não, é o que a torna humana.