A crise planetária e o resgate da democracia

(António Sales Ribeiro Neto, in Outras Palavras, 24/04/2022)

(Este artigo, cujo título original é A crise planetária e as crises da democracia, é o segundo de uma série que se propõe a investigar as raízes das dificuldades enfrentadas pelas tentativas de governança democrática pela humanidade até hoje e, ao mesmo tempo, buscar uma compreensão ampliada acerca do acelerado e preocupante declínio dos regimes democráticos na contemporaneidade e dos possíveis desdobramentos da onda autoritária num futuro próximo.
Leia o primeiro artigo da série aqui: A nova democracia e a abolição do patriarcado.)


“O progresso na ciência e na tecnologia é um fato, ao passo que o progresso na ética e na política é uma ficção. (…) Os velhos demônios regressam, geralmente com novos nomes. O que vemos como características inalteráveis da vida civilizada se desvanece em um piscar de olhos.”
John N. Gray


Para qualquer observador que não seja tão apegado às suas mais petrificadas convicções acerca do que move o mundo, e que tenha um conhecimento mínimo dos crimes e das loucuras que acompanharam a longa e penosa aventura humana – desde quando o Homo sapiens começou a se conformar à condição de uma vida civilizada, após a revolução neolítica ocorrida há cerca de 12 mil anos –, os acontecimentos deste alvorecer de milênio nos dizem de forma inequívoca que estamos, novamente, deslizando para uma profunda crise. No entanto, desta vez, ela se apresenta como uma crise de alcance global e, assim, indica ter desdobramentos cujos reflexos poderão perdurar por milhares e milhares de anos, ou até mesmo nos induzir a imaginar que inauguramos uma fase terminal para a conflituosa história da civilização. Porém, as raízes dessa crise, sobre as quais refletiremos adiante, já estava inscrita na própria dinâmica do processo civilizatório, que nos arrastou até a atual perspectiva de um colapso social e ambiental iminente com o qual nos defrontamos no presente, prenúncio de uma insondável agonia planetária já para os próximos 10 a 20 anos.

Nas cinco décadas mais recentes, afloraram, pelo menos, quatro principais fenômenos imbricados que confirmam esse prognóstico de matiz apocalíptico, representando os catalisadores de uma tragédia global anunciada e evidenciando a total incompatibilidade e inviabilidade do sistema-mundo capitalista – que sustentou a Era Industrial inaugurada 250 anos atrás – frente ao já gravemente perturbado metabolismo do sistema Terra. São eles:

1) a superpopulação que alcançou os 7,9 bilhões, em boa medida decorrente do axioma econômico do desenvolvimento e crescimento ilimitados, que, aliada ao superconsumo, gerou, a partir de 1970, um déficit ambiental (pegada ecológica superior à biocapacidade da Terra – a humanidade passa a consumir mais do que o planeta é capaz de regenerar) no qual a civilização vem consumindo, a partir de 2021, segundo o Global Footprint Network (GFN), 74% a mais do que o que os ecossistemas da Terra podem suportar, e com tendência de mais crescimento dessa taxa;

2) as mudanças climáticas irreversíveis, cujos alertas emitidos sistematicamente desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, considerada a primeira grande reunião de líderes de Estado organizada pelas Nações Unidas (ONU), foram ignorados, e que, segundo relatórios mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), representam irrefutavelmente um fenômeno de origem antrópica;

3) a escassez de recursos naturais, especialmente aqueles que estão na base da matriz energética global e que são indispensáveis à dinâmica que move a sociedade capitalista do consumo e da acumulação, tais como petróleo, carvão, gás natural, urânio, minérios e água potável, e que têm alimentado e exacerbado as tensões geopolíticas, já bem conhecidas de todos, representando o principal vetor de desencadeamento de guerras e conflitos desde o final do século XX;

4) o capitalismo de vigilância – utilizando aqui a denominação para as novas conformações do capital, denunciadas pela filósofa e psicóloga social estadunidense Shoshana Zuboff –, principal responsável pelo declínio dos regimes democráticos, em escala global, pela desagregação do tecido social e pelo advento da Vigilância (que considero a última expressão da cultura patriarcal milenar, assunto que abordaremos mais adiante e sobre o qual já refleti aqui no Outras Palavras), a qual vem destronando o principal alicerce da modernidade, o Estado, assim como este destronou o cristianismo, alicerce da Idade Média.

Este é o nosso dramático contexto global, a revelar um cenário extremamente adverso e desalentador para a humanidade, em que se desdobram as múltiplas crises da atualidade. E ele está intimamente associado ao recorrente declínio das várias experiências democráticas ao longo do tortuoso percurso civilizatório. É fácil fazer essa inferência com uma rápida incursão na história. Desde o surgimento dos primeiros espaços públicos da política nas antigas Grécia e Roma, os regimes democráticos experimentaram distintos momentos e situações – umas poucas aparentemente promissoras e no geral violentamente regressivas –, em diversos lugares, dentre os quais vale destacar:

1) momento de fecundidade, na sua inauguração com a democracia direta nas ágoras atenienses (séc. V a.C.);

2) de enraizamento, com a fundação da República Romana (509 a.C. a 27 a.C.);

3) de total suspensão, durante toda a Idade Média, com o Sacro Império Romano-Germânico e com as monarquias absolutas;

4) de restauração, na Renascença, com as cidades republicanas italianas (Florença, Milão, Pisa, Veneza), com a Revolução Holandesa (1581) e com a Revolução Inglesa (1648);

5) de retrocesso, com o surgimento e desenvolvimento do capitalismo mercantil (séculos XVII e XVIII);

6) de recrudescimento, com a Revolução Francesa (1789-1799) e com a revolução industrial inglesa do século XIX que inaugurou e impulsionou o sistema capitalista;

7) de profunda privação, durante a primeira metade do século XX, com os regimes nazista e fascista, que chegaram bem perto de suprimir a democracia em âmbito global;

8) de compensação, durante o curto período da democracia social instalada no pós-guerra (1947-1973), nas principais nações europeias devastadas pela conflagração mundial;

9) até chegar à situação atual de acelerado declínio, com o desmoronamento do Estado e de suas instituições, iniciado a partir dos anos 1970, provocado pelo surgimento da mais sofisticada forma de totalitarismo, o chamado neoliberalismo.

Em linhas gerais, foi esta a tortuosa trajetória da democracia pela história, que, submetida a diversos obstáculos, apresentando espasmos de vitalidade e ajustando-se aos contextos de cada momento histórico, conseguiu se sustentar e, nos dias atuais, experimenta talvez o seu pior drama, que aparenta apontar para um colapso irrefreável.

Uma das melhores análises acerca de como a democracia vem definhando na atualidade está no livro Como as democracias morrem (Zahar, 2018), dos professores de ciência política em Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Segundo eles, o novo meio pelo qual os regimes democráticos estão declinando é muito diferente dos métodos tradicionais, que invariavelmente se davam por meio de golpes de Estado sob forte coerção militar. Levitsky e Ziblatt desvendam, tomando como principal referência as circunstâncias (criadas desde os anos 1980) que permitiram a ascensão de Trump nos EUA, uma “outra maneira de arruinar uma democracia. É menos dramática, mas igualmente destrutiva.

Democracias podem morrer não nas mãos de generais, mas de líderes eleitos – presidentes ou primeiros-ministros que subvertem o próprio processo que os levou ao poder”. Trata-se, segundo eles, de um processo muito sutil, em que “as democracias decaem aos poucos, em etapas que mal chegam a ser visíveis”.

Esse fenômeno vem se alastrando rapidamente pelo mundo. Uma das avaliações que o identifica está consignada no relatório do Global State of Democracy (documento produzido pelo International Institute for Democracy and Electoral Assistance – IDEA, uma organização intergovernamental voltada ao fortalecimento da democracia no mundo), publicado em novembro de 2021. O relatório é inconteste ao afirmar que “a democracia está em risco. Sua sobrevivência está ameaçada por uma tempestade perfeita de ameaças, tanto internas quanto de uma maré crescente de autoritarismo”. Conforme mencionado nesse relatório, a erosão democrática nos últimos anos foi avassaladora, ao constatar que “43% das democracias sofreram declínios nos 5 anos anteriores; os padrões nos 10 anos anteriores foram semelhantes, afetando mais da metade das democracias”. O fenômeno alcança mais de dois terços da população mundial, ameaçando, de um lado, as grandes potências econômicas regionais como Estados Unidos, Brasil e Índia, cujas democracias eram aparentemente muito vigorosas até bem pouco tempo e, de outro, o avanço de regimes políticos tradicionalmente autocráticos, que inclui China e Rússia (a análise aqui não deve ser confundida com as riquíssimas tradições culturais das comunidades desses países) como protagonistas relevantes na nova configuração geopolítica multipolar da atualidade.

Outro estudo global sobre a democracia que vem obtendo resultados similares ao realizado pelo IDEA é o projeto Variedades de Democracia (V-Dem), coordenado pela Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Ele adota uma abordagem para medir a democracia por meio de pesquisas realizadas junto a 3.700 especialistas de vários países, a partir das quais é montada uma base de dados que tenta mensurar o nível de democracia em cada país, considerando que a democracia está circunscrita aos seguintes princípios: eleitoral, liberal, participativo, deliberativo e igualitário.

Vale ressalvar, no entanto, que há um aspecto relevante que pode tornar reducionista esse método de avaliação do V-Dem, assim como a do relatório do IDEA, se levarmos em conta a noção de democracia em Maturana, que é a “democracia vivida”, aquela associada a uma nostalgia do modo de viver pré-patriarcal, chamado de matrístico. Nela se aceitava naturalmente a legitimidade do outro e a coexistência da diversidade de modos de vida, isto é, “os povos matrísticos europeus não tinham nada a defender, tanto porque viviam na consciência da harmonia da diversidade, quanto porque não viviam em apropriação”. Abordaremos este aspecto com mais profundidade nos textos subsequentes.

Esses dois modelos de avaliação de regimes democráticos (IDEA e V-Dem) não captam em sua análise o pluralismo de valores que são inerentes à diversidade de formas de convivência humana. O filósofo político John Gray foi um dos que estudou a fundo as sociedades liberais quanto a esse aspecto, chegando à conclusão paradoxal de que “uma sociedade pode ser civilizada sem reconhecer direitos, enquanto uma baseada em direitos pode ser contaminada pela barbárie”. Nesse caso, as duas avaliações podem se revelar muito limitadas por assumirem uma concepção ocidental de democracia que seria a melhor para todos, portanto, apropriável, universalizável e defensável (não raro, pela força das armas).

Por outro lado, o melhor diagnóstico que evidencia com mais consistência a crise global da democracia talvez esteja refletido na falta de percepção do fenômeno por parte do mercado, que é quem no final das contas conduz toda a dinâmica civilizacional, sobretudo após o laissez-faire global ter se instalado a partir dos anos 1980.

Nos anos mais recentes, o Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial de Davos começou a tangenciar as profundas contradições e incompatibilidades do sistema-mundo capitalista. Suas conclusões estão lastreadas nas opiniões de mais de 12 mil líderes nacionais, responsáveis por identificar e monitorar riscos críticos a curto prazo para os seus 124 países. O relatório que foi publicado agora em janeiro de 2022 constatou que as ameaças mais preocupantes para suas sociedades nos próximos dois anos são: “erosão da coesão social”, “crise de subsistência” e “deterioração da saúde mental”.

No entanto, esse relatório de Davos não faz nenhuma menção a risco associado ao declínio de regimes democráticos pelo mundo, mesmo o “capitalismo democrático” do Ocidente estando num irrefreável processo de decadência, frente à ascensão do capitalismo iliberal asiático. Esse dado confirma aquilo que a longa história da conflituosa e contraditória dinâmica política da democracia liberal, também conhecida por “democracia de mercado”, tem demonstrado: no fundo, mercado e democracia nunca foram parceiros, mas concorrentes.

Diante desse cenário de acentuado declínio dos regimes democráticos, cabe-nos indagar o que estaria por trás dessa dificuldade dos seres humanos em conviver de forma democrática. Por que, após 2.500 anos de tantas experiências democráticas, não foi possível trilhar um caminho diferente do que nos fez chegar à emblemática e perigosa situação atual? É possível vislumbrar uma volta à estabilidade civilizatória sem que haja um resgate mais abrangente e capilarizado da democracia, que considere a necessidade de sua realização também no cotidiano, nos espaços micropolíticos e, sobretudo, em relação ao meio ambiente com o qual o animal humano tem uma dependência umbilical para viver? Mesmo que aquela parcela de 0,003% da população mundial, que compreende os proprietários e os administradores das megacorporações – os chamados Ultra high-net-worth individual (UHNWI), os multimilionários que em 2020 acumularam US$ 35,5 trilhões – que ditam os descaminhos da civilização, se convença a tempo da inadaptabilidade do sistema-mundo capitalista em relação aos ecossistemas da Terra, qualquer novo arranjo pós-capitalista não passaria necessariamente por uma forma democrática irrestrita de convivência inclusiva, tolerante e plural entre o homem e o sistema Terra, do qual ele é parte integrante e inseparável?

Essa reflexão precisa também olhar para as premissas filosóficas que sustentaram o longo processo histórico, a partir das quais a civilização foi sendo moldada. Após o fracasso dos absolutismos sustentados na fé cristã, da lógica de mercado que canaliza as subjetividades para o consumo e a acumulação, dos excessos e equívocos do Estado-nação fundado nas fantasias iluministas do progresso, da razão e do individualismo e, mais recentemente, da Vigilância desencadeada pela revolução tecnológica, ainda há imaginação política e, sobretudo, tolerância ambiental por parte da Terra para comportar novas formas imperiais de convivência que, mesmo combinada com mecanismos democráticos retóricos e de baixa intensidade, possam estabilizar os impulsos humanos autodestrutivos?

Enfim, o que explicaria essa fragilidade da democracia e a inevitabilidade dos totalitarismos, das degenerações, da barbárie e da crescente perspectiva de autodestruição da humanidade?

Embora estas questões, aparentemente tão insolúveis, possam nos induzir a pensar que não há alternativas à civilização, isso só é verdade enquanto ainda estivermos presos ao padrão de pensamento que tem gerado o déficit de democracia e o consequente estado permanente de mal-estar civilizatório. O notável filósofo francês Edgar Morin, que celebrou seu centenário em 2021, em seu livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (Cortez – UNESCO/ONU Brasil, 2000), nos dá algumas pistas para repensarmos o ideal de democracia. Para Morin, “a democracia fundamenta-se no controle da máquina do poder pelos controlados e, desse modo, reduz a servidão. A democracia é mais do que um regime político; é a regeneração contínua de uma cadeia complexa e retroativa: os cidadãos produzem a democracia que produz cidadãos.”

Ao que parece, a tarefa mais urgente de nossa época será questionarmos nossas mais incrustadas certezas, sobretudo aquelas que fundamentam o que entendemos por democracia. Um bom começo é refletirmos até que ponto nós somos cidadãos que produzem a democracia, como sugere Morin, isto é, em que medida realmente a vivemos em nosso dia a dia, e não nos dobramos à servidão das tiranias que a capturam e impedem a sua realização.

Enfim, o que explicaria essa enorme contradição do comportamento humano, que só alimenta cada vez mais a relação patológica da servidão voluntária? Iniciaremos essa investigação no próximo texto.

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A guerra nuclear como o sintoma mórbido último

(Ruben Bauer Naveira, in Outras Palavras, 14/04/2022)

Uma análise do tabuleiro geopolítico, a partir de Gramsci. Hegemonia dos EUA agoniza, mas nova ordem mundial, talvez liderada por China e Rússia ainda não foi parida. Crise civilizatória aprofunda-se nesse interregno e pode culminar em catástrofe.


A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece” (Antonio Gramsci)


Sintoma mórbido 1. As pessoas já detêm toda a informação e o conhecimento de que necessitam para saber que o clima do planeta está sendo arruinado e os seus recursos naturais consumidos a um ritmo insustentável para a conservação da vida; não obstante, a devastação ambiental prossegue, acelerando em vez de arrefecer.

Sintoma mórbido 2. Por mais que as sociedades e os governos saibam que o empobrecimento generalizado é socialmente insustentável, com os conflitos decorrentes somente podendo ser administrados, ao invés de mitigados, por meio de maiores repressão e brutalidade policial, a concentração de renda nas mãos daqueles já demasiadamente ricos continua a aumentar.

Sintoma mórbido 3. A crença na democracia representativa se exaure, e as sociedades deixam de vê-la como caminho para construção do futuro; os parlamentos são crescentemente aparelhados para servir aos interesses do grande capital, e para bloqueio das mudanças.

Sintoma mórbido 4. O esquema fundador do Estado-nação moderno, de subdivisão em três poderes independentes e separados, é degradado na medida em que um desses poderes, o judiciário, justamente aquele mais imune a controle externo (de modo a que haja isenção nos julgamentos), vai em diversos países se tornando colonizado (aparelhado) pelas instituições de um país dominante, os Estados Unidos, a pretexto de se “combater a corrupção”; o exemplo mais acabado é a Ucrânia, que instituiu leis atribuindo aos EUA o poder de nomear diretamente várias dentre suas altas autoridades judiciárias – coisa que, não obstante, não evitou que o país assumisse a pecha de “mais corrupto do mundo”.

Sintoma mórbido 5. O direito à livre manifestação vigora apenas em sentido formal, o Estado lhe impõe limites de acordo com as suas conveniências (vide como o Estado francês liquidou com o movimento dos gilets jaunes, ou, mais recentemente, como o Estado canadense liquidou com o movimento dos freedom convoys).

Sintoma mórbido 6. Pessoas estão indignadas e enfurecidas contra a Rússia, por esta ter iniciado uma guerra contra um país vizinho, e chocadas com as cenas de crianças mortas, mutiladas, órfãs, refugiadas e traumatizadas para o resto das suas vidas, sem atentar para que, neste exato dia de hoje, crianças estão também sendo mortas, mutiladas, ficando órfãs, refugiadas e traumatizadas em outros quatro países, por guerras nas quais os Estados Unidos têm responsabilidade: Iêmen (já faz sete anos), Síria (dez anos), Líbia (onze anos) e Somália (trinta anos);

Sintoma mórbido 7. Praticamente tudo a que se possa chamar imprensa no mundo ocidental (mais de 1.500 jornais, mais de 1.100 revistas, mais de 9 mil estações de rádio e mais de 1.500 canais de televisão) são controlados por somente seis conglomerados globais de mídia os quais operam de forma absolutamente coordenada, alçando aquilo que não passa de narrativas de interesse do assim chamado “1%” (na verdade 0,01%) à condição de verdade absoluta – a demonização da Rússia presentemente em curso como o exemplo maior.

***

Essa lista poderia ser estendida, mas os casos acima bastam para afirmar que sintomas mórbidos vão deixando de ser pontuais para se tornarem norma.

A um mundo em que sintomas mórbidos cada vez mais se alastram e agravam se poderia dar o nome de distopia. Não se pode afirmar que já vivamos em um mundo distópico porque ainda desfrutamos de espaços de “normalidade” estabelecidos pelo processo civilizatório dos últimos trezentos anos – mas se pode sim afirmar que a distopia avança a passos largos, invadindo e ocupando cada vez mais esses espaços.

No célebre postulado de Gramsci, esse “interregno distópico” somente poderá ser superado quando o “velho” tiver finalmente morrido e o “novo” finalmente nascido. Para todos aqueles que almejem essa morte do velho com o nascimento de algo novo, é a distopia em si (e não a nostalgia do velho que agoniza) o que se impõe, na prática, como quadro de referência. Assim, medir as ações militares da Rússia pela régua moral daquele que julga, em termos absolutos, que “guerra é errado, ponto” traduz um apego a um quadro de referência que na prática já não opera mais (no caso, o direito internacional – como se, por exemplo, a invasão americana do Iraque já não tivesse se dado contrariamente ao Conselho de Segurança da ONU).

Expresso de forma mais crua, nos termos da dualidade civilização/barbárie: uma vez que a morbidez e a distopia são a barbárie em si, você, por mais civilizado que procure ser, tem que saber quando do outro lado está a barbárie.

É claro que guerra é errado (e sempre será). É claro que crianças serem mortas, mutiladas, tornadas órfãs, refugiadas e traumatizadas é errado, odioso e repugnante, e sempre será. Mas, deveria então a Rússia, já depois de ter esgotado as negociações diplomáticas para que a OTAN não viesse a instalar novos mísseis de ataque junto às suas fronteiras bem como removesse aqueles já instalados (nas bases militares de Deveselu na Romênia e Redzikowo na Polônia), simplesmente aguardar até ser aniquilada por um ataque de surpresa de mísseis capazes de atingir Moscou em apenas três minutos? Deveria a Rússia, após assistir ao longo de oito anos a toda uma população de russos étnicos do outro lado da sua fronteira ser alvo de perseguições, discriminações, prisões arbitrárias e até assassinatos, aguardar passivamente até que a Ucrânia invadisse as repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk para reintegrá-las à força e massacrar as suas populações, sendo que os russos dispunham de informações de que essa invasão estava para ser deslanchada? Deveria a Rússia, sabedora de que os americanos vinham desenvolvendo armas biológicas sob medida para o povo russo em uma rede de laboratórios clandestinos na Ucrânia, fechar os seus olhos a isso? Deveria a Rússia, após Zelensky declarar que a Ucrânia devesse buscar desenvolver armas nucleares, permitir que isso viesse a ocorrer? Em suma, deveria ela aguardar passivamente até que crianças russas viessem a ser mortas, mutiladas, tornadas órfãs, refugiadas e traumatizadas?

Para que se possa julgar de forma minimamente adequada as ações da Rússia se deve ter em mente que a guerra entre Rússia e Ucrânia é secundária (no sentido de derivada, subsidiária) relativamente a uma guerra maior, a guerra (até o momento informacional, econômica e apenas indiretamente militar) entre de um lado os Estados Unidos e de outro a Rússia mais a China.

Não se pode alcançar uma compreensão dessa guerra em curso entre Estados Unidos e Rússia sem entender como ela começou (desde o final dos anos 1990) e, principalmente, sem entender porque ela é até hoje apenas indiretamente militar (travada em lugares como o Kosovo, a Síria, o Donbass e, agora, a Ucrânia toda).

Há duas décadas essa guerra vem sendo apenas indiretamente militar porque tanto americanos como russos sabem que, a partir do momento em que entrarem numa confrontação direta, ela rapidamente escalará para guerra nuclear. E ambos sabem que guerra nuclear não tem vencedores, ambos acabarão destruídos.

Dito de modo mais direto, a única forma de se evitar a guerra nuclear é nunca haver guerra direta entre Estados Unidos e Rússia.

Então, estarem travando americanos e russos uma guerra não-declarada já por duas décadas é sem dúvida um sintoma mórbido que poderia ser chamado o sintoma mórbido penúltimo, pelos riscos que implica em se converter em guerra direta e, na sequência, em guerra nuclear (esta, o sintoma mórbido último, porque erradica abruptamente o velho dando lugar a um tipo de novo absolutamente insondável).

Após mais de duas décadas de escalada gradual (expansão da OTAN, incitação ao separatismo checheno, guerra do Kosovo, guerra da Geórgia, revolução colorida de Maidan, anexação da Crimeia, imposição de sanções econômicas, descumprimento dos acordos de Minsk, ações nas redes sociais para influir nas eleições dos EUA, guerra da Síria, abandono unilateral pelos americanos do tratado de proibição de mísseis de alcance intermediário, incitação à revolução colorida na Bielorússia, gasoduto Nord Stream 2, ultimato russo à OTAN, incitação à revolução colorida no Cazaquistão, ataques cibernéticos de parte a parte, expulsão de diplomatas de parte a parte etc.) atingimos agora um ponto de escalada militar vertiginosa, não apenas pela ação russa na Ucrânia como pela reação americana a ela, com o envio de armas aos ucranianos e com o aumento da presença militar da OTAN em países como a Polônia e os países bálticos – a despeito de os russos já terem anunciado que não tolerarão nem uma coisa nem outra, e que retaliarão.

Essa escalada ruma para uma guerra direta entre americanos e russos, em apenas uma questão de tempo.

Os americanos não podem recuar, porque estão presos a uma armadilha que eles mesmos criaram, a da necessidade de perpetuar a sua hegemonia sobre o resto do mundo. Os americanos são o único país no mundo (e na História) que pode se dar ao luxo de ter um déficit público tendente ao infinito, porque podem simplesmente imprimir mais dinheiro (dólares) para refinanciá-lo. Para tanto, precisam que o restante do mundo necessite adquirir dólares, o que por sua vez requer que praticamente a totalidade do comércio entre os países seja feito em dólar. Para garantir que ninguém questione esse estado de coisas os Estados Unidos precisam ter forças armadas que sejam temidas pelo restante do mundo (chegam a mil as bases militares dos EUA no exterior, espalhadas por todo o planeta). Os gastos militares do governo americano respondem por mais da metade do gasto público total (tanto quanto a indústria de armamentos carrega nas costas o PIB dos EUA), e é por isso que o déficit público é cada vez mais estratosférico, com o que o círculo se fecha.

A essa altura, os americanos simplesmente não têm como “ceder aos russos, em nome da paz mundial”. O ponto de não-retorno já foi ultrapassado há décadas, abrir mão hoje da hegemonia mundial significaria para os EUA um colapso econômico, com empobrecimento profundo e abrupto da população americana o que levaria ao fim das atuais instituições do país, senão ao fim do próprio país.

Está à vista de todos que esse colapso acabará por suceder, mais cedo ou mais tarde, porém as elites americanas estão dispostas a lutar até o fim para tentar evitá-lo (por isso essa guerra não-declarada de mais de duas décadas contra a Rússia). O colapso virá porque a hegemonia americana apoia-se em dois pilares, o dólar como reserva universal de valor e o poderio militar inconteste, e ambos estão ruindo, e de forma associada (uma eventual humilhação militar dos americanos perante o mundo poderia lhes ser desmoralizante a ponto de fazer disparar o processo de abandono do dólar).

Um país que se pretenda hegemônico não tem como tolerar a soberania de terceiros, e, ao buscarem caminhos próprios e independentes, tanto a Rússia quanto a China (além de mais alguns, como o Irã) colocaram-se em rota de colisão com os EUA. Assim, a OTAN começou a expandir-se em direção às fronteiras da Rússia ainda na década de 1990 de modo a buscar subjugá-la. No ano de 2007 (já faz quinze anos, portanto) em um discurso em uma conferência em Munique, Vladimir Putin alertou ao mundo que aquela expansão da OTAN em desconsideração aos requisitos de segurança nacional da Rússia iria levar à crise atual – mas ninguém lhe deu ouvidos.

Enfim, o que está em jogo é o destino da humanidade. Estão em disputa dois modelos civilizatórios (em termos econômicos, políticos, sociais e culturais) distintos e em muitos aspectos antagônicos, o modelo ocidental (predominante até aqui) e o modelo chinês-russo, o qual vem rapidamente abarcando outras nações asiáticas (o Irã já estava alinhado faz tempo, mas agora aliados dos Estados Unidos até recentemente como a Índia e mesmo a Arábia Saudita começam a trocar de barco). Apenas um dos dois modelos poderá sobreviver a essa disputa (claro, se não sobrevier a guerra nuclear).

Parêntesis: que não haja ilusões, uma eventual suplantação do modelo ocidental pelo russo-chinês não significaria uma superação do capitalismo, e sim uma substituição do atual turbocapitalismo financeirizado e absolutamente desumano por um capitalismo de viés produtivo “menos desumano” (e com muito mais conservadorismo nos costumes).

Para que consigam vencer sem que haja guerra direta (nuclear), a estratégia dos americanos é levar à queda do governo russo, com a instauração de um novo governo subserviente, ou ao menos mais cordato, ao Ocidente. Por isso as sanções econômicas terríveis (que já estão prejudicando as economias ocidentais tanto quanto, ou mais, que a economia russa), por isso os oligarcas russos têm sido pessoalmente atingidos (para que se rebelem contra Putin), por isso a demonização midiática sem paralelo e sem precedentes, e por isso o esforço para fazer com que a guerra na Ucrânia se prolongue o mais possível, buscando desgastar Putin – quando todos já sabem que não há mais qualquer chance de a Ucrânia vir a derrotar militarmente a Rússia; a Ucrânia no entanto acata a pressão dos americanos para que não se renda apenas de modo a estender o desgaste russo, assumindo assim o papel deplorável de bucha de canhão.

Essa estratégia americana até funcionou bem nos primeiros dias da guerra, em que a população russa titubeou frente às perspectivas de empobrecimento em função das sanções econômicas impostas pelo Ocidente. Mas a mídia ocidental não soube dosar o veneno, e a russofobia que se seguiu (com atletas, artistas e até estudantes russos passando a alvo de “cancelamentos” e constrangimentos, quando não assédio, nos países ocidentais), juntamente com a glorificação de neonazistas ucranianos na qualidade de “heroicos defensores do Ocidente”, acabaram por levar a população russa a cerrar fileiras em torno de Putin.

Uma vez dado esse resultado da disputa pelos corações e mentes na Rússia, o Ocidente já não se atém mais a quaisquer limites para impregnação de ódio à Rússia e aos russos nos corações e mentes dos seus povos, requisito a um delenda est. O mais novo capítulo nessa estratégia é o cometimento de atrocidades contra civis ucranianos, atribuídas aos russos a despeito de quaisquer evidências (false flags), em magnitude crescente que tende a chegar a estágios químicos ou radioativos.

Já a estratégia dos russos é ir empurrando o perigo (os mísseis da OTAN apontados para Moscou) para longe das suas fronteiras (todas elas; os russos não irão parar na Ucrânia), enquanto prestam a sua contribuição (gás por rublos, por exemplo) para acelerar o colapso americano, na esperança de que aconteça antes de uma guerra direta. Nesse contexto, Putin não repetirá o erro cometido por Saddam Hussein, que assistiu passivamente por meses a fio à implantação de bases e contingentes militares americanos “de natureza puramente defensiva” do outro lado da sua fronteira, até que a denominação “Operação Escudo do Deserto” fosse reciclada para “Operação Tempestade no Deserto” – quando já era tarde demais. Se os americanos passarem a mover forças maciçamente para junto das fronteiras russas elas serão atacadas preventivamente, que não reste a menor dúvida quanto a isso.

A Rússia tomou a iniciativa militar de forma reativa, porque se viu obrigada a fazê-lo, para frustrar a invasão iminente pela Ucrânia das repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk. Porém, a Rússia tomou a decisão de enfrentar militarmente a OTAN (por entender que do contrário acabaria subjugada) há mais de duas décadas, e vem desde então se preparando diligentemente para isto.

A essa altura, vai ficando claro que as chances de não haver guerra nuclear não são boas – mesmo que, pelas óbvias razões do risco absurdo envolvido, isso possa ainda vir a demorar.

Àqueles que ainda apostam na racionalidade dos tomadores de decisões, cabe voltar ao alerta de Gramsci quanto à morbidez. Ademais, a guerra jamais foi um assunto racional entre os homens. A irracionalidade sempre se fez presente tanto ao nível macro dos governos e estados-maiores (para tomarmos apenas as duas guerras mundiais havidas, a primeira se paralisou na matança militarmente inútil das trincheiras, enquanto que a segunda elevou à condição de substantivos para o horror nomes de lugares como Auschwitz e Hiroshima) quanto ao nível micro das atrocidades e covardias invariavelmente cometidas por indivíduos contra civis e contra prisioneiros de guerra.

Enfim, mesmo contra todas as evidências, que a razão prevaleça, e que jamais haja guerra nuclear.


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Os motores económicos da III Guerra Mundial

(Michael Hudson, in Outras Palavras, 11/04/2022)

Agora está claro que a atual escalada da nova Guerra Fria foi planejada há mais de um ano, como uma estratégia séria associada ao plano norte-americano de bloquear o gasoduto Nord Stream 2. Isso, por sua vez, era parte do objetivo de Washington, de bloquear a busca, pela Europa Ocidental (“OTAN”), de prosperidade por meio de comércio e investimento mútuos com a China e a Rússia.

Como fora anunciado por Joe Biden e pelos relatórios de segurança nacional dos EUA, a China é vista como o principal inimigo. Apesar de seu papel útil, em permitir que as empresas norte-americanas reduzissem os salários trabalho, desindustrializando a economia estadunidense em favor da industrialização chinesa, o crescimento da China passou a ser visto como o maior terror: prosperidade pela via do socialismo. A industrialização socialista sempre foi percebida como o grande inimigo da economia rentista que tem dominado a maioria das nações no século transcorrido desde o final da Primeira Guerra Mundial, e especialmente desde os anos 1980. O resultado hoje é um choque dos sistemas econômicos: a industrialização socialista contra o capitalismo financeiro neoliberal.

Isto torna a nova Guerra Fria contra a China um ato de abertura implícita para o que ameaça ser uma III Guerra Mundial a longo prazo. A estratégia dos EUA é tirar da China seus aliados econômicos mais prováveis, especialmente a Rússia, Ásia Central, Sul da Ásia e Ásia Oriental. A questão era onde começar a dividir e isolar.

A Rússia foi vista como a maior oportunidade para começar a isolar tanto a China quanto a Zona Euro da OTAN. Uma sequência de sanções cada vez mais severas – com a expectativa de serem fatais – contra a Rússia foi construída para impedir que a OTAN negociasse com Moscou. Tudo o que faltava para deflagrar o terremoto geopolítico era um casus belli.

Isso foi facilmente arranjado. A escalada da nova Guerra Fria poderia ter começado no Oriente Médio, a partir da resistência à captura dos campos de petróleo do Iraque pelos EUA, ou contra o Irã e os países que o ajudam a sobreviver economicamente, ou na África Oriental. Planos de golpes, “revoluções coloridas” e mudanças de regime foram elaborados em todas essas áreas, e as forças armadas norte-americanas na África foram reforçadas de modo particularmente rápido nos últimos dois anos. Mas a Ucrânia vive uma guerra civil apoiada pelos EUA há oito anos, desde o golpe de Maidan em 2014, e ofereceu a oportunidade para tentar uma primeira vitória neste confronto contra a China, a Rússia e seus aliados.

As regiões de língua russa de Donetsk e Luhansk foram bombardeadas com intensidade crescente e, como a Rússia continuou a não responder, foram elaborados planos para um grande confronto que teria início no final de fevereiro, com uma blitzkrieg da Ucrânia ocidental organizada por conselheiros americanos e armada pela OTAN.

A defesa preventiva pela Rússia das duas províncias ucranianas orientais, e a subsequente destruição militar do exército, marinha e força aérea ucraniana nos últimos dois meses tem sido usada como pretexto para impor o programa de sanções projetado pelos EUA que vemos em marcha hoje. Em vez de comprar gás, petróleo e grãos de alimentos russos, a Europa Ocidentel vai comprá-los dos EUA. E acrescentará a isso um forte aumento na importação de armas norte-americanas.

A possível queda na taxa de câmbio euro/dólar

Vale a pena examinar como isso pode afetar a balança de pagamentos da Europa Ocidental e, portanto, a taxa de câmbio do euro em relação ao dólar.

O comércio e os investimentos europeus antes das sanções prometiam crescente prosperidade para a Alemanha, França e outros países da OTAN em suas relações com a Rússia e a China. A Rússia forneceu energia abundante a um preço competitivo, e esse processo deveria dar um salto quântico com o Nord Stream 2. A Europa deveria obter divisas para pagar este crescente comércio de importação por meio de uma combinação de exportação de mais produtos industriais para a Rússia e investimento de capital no desenvolvimento da economia russa – por exemplo, por empresas automobilísticas alemãs e na forma de investimento financeiro. Este comércio e investimento bilateral está agora paralisado – e permanecerá paralisado por muitos anos, dado o confisco, pela OTAN, das reservas cambiais russas em euros e libras esterlinas, e a russofobia europeia alimentada pela mídia de propaganda dos EUA.

Em vez disso, os países da OTAN comprarão gás natural liquefeito (GNL americano, mas terão que gastar bilhões de dólares na construção da capacidade portuária necessária, o que pode estender-se talvez até 2024. (Boa sorte até lá!) A escassez de energia aumentará acentuadamente o preço mundial do gás e do petróleo. Os países da OTAN também aumentarão suas compras de armas do complexo militar-industrial dos EUA. As compras quase instantâneas também aumentarão o preço do armamento. E os preços dos alimentos também aumentarão, como resultado da escassez desesperada de grãos resultante da cessação das importações da Rússia e da Ucrânia, por um lado; e da escassez de fertilizantes à base de amônia, por outro.

Estas três dinâmicas comerciais fortalecerão o dólar em relação ao euro. A questão é: como a Europa irá equilibrar seus pagamentos internacionais com os EUA? O que é possível exportar para a economia norte-americana, contaminada por seus próprios interesses protecionistas, agora que o “livre comércio” mundial está morrendo rapidamente?

A resposta é: não muito. Então, o que a Europa vai fazer?

Ela poderia fazer algo modesto. Agora que a União Europeia praticamente deixou de ser um Estado politicamente independente, está começando a se parecer com o Panamá e a Libéria. São centros bancários offshore “bandeira de conveniência” que não pode ser equiparada a verdadeiros “Estados” porque não emitem sua própria moeda, usando em vez disso o dólar americano. Dado que a zona do euro foi criada com algemas monetárias que limitam sua capacidade de criar dinheiro para gastar na economia além do limite de 3% do PIB, por que não simplesmente jogar a toalha financeira e adotar o dólar americano, como o Equador, Somália e as Ilhas Turks e Caicos? Isso daria aos investidores estrangeiros segurança contra a desvalorização da moeda em seu crescente comércio com a Europa e seu financiamento à exportação.

Para a Europa, o drama é que o custo em dólares de sua dívida externa assumida para financiar seu crescente déficit comercial com os Estados Unidos (em petróleo, armas e alimentos) irá disparar. O custo em euros será ainda maior, à medida que a moeda cair em relação ao dólar. As taxas de juros subirão, atrasando os investimentos e tornando a Europa ainda mais dependente das importações. A zona do euro se tornará uma zona morta economicamente.

Os Estados Unidos já sonham com a hegemonia do dólar intensificada, pelo menos em relação à Europa.

O dólar em relação às moedas do Sul Global

A nova Guerra Fria desencadeada pela “Guerra da Ucrânia” corre o risco de se tornar o salvo de abertura da Terceira Guerra Mundial. Provavelmente durará pelo menos uma década, talvez duas, à medida em que os EUA estenderem a luta entre neoliberalismo e socialismo para desembocar em um conflito global. Além da conquista econômica da Europa pelos Estados Unidos, seus estrategistas buscam trancar os países africanos, sul-americanos e asiáticos em uma linha semelhante à planejada para a Europa.

O forte aumento dos preços da energia e dos alimentos atingirá duramente as economias deficitárias em alimentos e petróleo. Isso se dará no mesmo momento em que suas dívidas externas denominadas em dólares estão amadurecendo e a taxa de câmbio do dólar está subindo em relação à sua própria moeda. Muitos países africanos e latino-americanos – especialmente os do Norte da África – enfrentam a opção de passar fome, reduzir seu consumo de combustíveis e eletricidade ou tomar emprestados mais dólares, para cobrir sua dependência do comércio com os Estados Unidos.

Tem-se falado da emissão de novos Direitos Especiais de Saque (DSEs), uma moeda própria do FMI que poderia financiar os crescentes déficits comerciais e de pagamentos dos países do Sul. Mas tais créditos sempre vêm com compromissos. O FMI tem sua própria política de sabotar os países que não obedecem à política dos EUA. A primeira exigência de Washington será que esses países boicotem a Rússia, a China e sua emergente aliança comercial e monetária. “Por que lhes daríamos DSEs ou novos empréstimos em dólares se vocês vão apenas gastá-los com a Rússia, China e outros países que declaramos inimigos?”, perguntarão as autoridades americanas.

Pelo menos, esse é o plano. Eu não me surpreenderia de ver algum país africano se tornar a “próxima Ucrânia”, com as tropas agindo por procuração dos EUA (ainda há muitos apoiadores e mercenários Wahhabi) lutando contra os exércitos e populações de países que procuram se alimentar com grãos russos, ou sustentar suas economias com petróleo ou gás de poços russos – sem mencionar a participação na Iniciativa das Novas Rotas da Seda – que foi, afinal de contas, o gatilho para os EUA lançarem sua nova guerra pela hegemonia neoliberal global.

A economia mundial está sendo incendiada. Os EUA prepararam-se para uma resposta militar e a militarização de suas exportações de petróleo, produtos agrícolas e armas. Eles exigirão dos países que escolham de que lado da nova Cortina de Ferro desejam ficar.

Mas o que resta nisso para a Europa? Os sindicatos gregos já estão se manifestando contra as sanções impostas ao país. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orban acaba de ganhar eleições com uma visão de mundo basicamente antieuropeia e antiamericana, começando por aceitar o pagamento do gás russo em rublos. Quantos outros países vão romper as fileiras e quanto tempo vai demorar?

O que há nisso para os países do Sul Global que estão sendo comprimidos, como resultado da estratégia dos EUA de produzir uma grande divisão da economia mundial em duas? A Índia já disse aos diplomatas americanos que sua economia está naturalmente conectada com as da Rússia e da China. O Paquistão começa a fazer o mesmo cálculo.

Do ponto de vista dos EUA, tudo o que precisa ser respondido é: “O que sobrará para recompensar os políticos locais e oligarquias, por entregar seus países”?

Desde seus estágios de planejamento, os estrategistas da diplomacia norte-americana encararam a iminente Terceira Guerra Mundial como uma guerra entre sistemas econômicos. Que lado escolherão os países? Seu próprio interesse econômico e sua coesão social, ou a submissão aos líderes políticos locais instalados pela ingerência dos EUA? Em 2014, a subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland gabou-se de ter “investido” 5 bilhões de dólares nos partidos neonazistas da Ucrânia, para que iniciassem os combates que levaram à guerra atual?

Diante de toda essa intromissão política e propaganda da mídia, quanto tempo levará para o resto do mundo perceber que há uma guerra global em curso, com a Terceira Guerra Mundial no horizonte? O verdadeiro problema é que, quando o mundo perceber o que está acontecendo, a fratura global terá permitido à Rússia, China e Eurásia criar uma Nova Ordem Mundial verdadeiramente não-neoliberal. Ela não precisará dos países da OTAN e terá perdido a confiança e a esperança nos benefícios econômicos mútuos da relação com o Ocidente. O campo de batalha estará repleto de cadáveres econômicos.


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