Ite missa est. Estes celebrantes riem de quê?

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 26/06/2022)

Vendo as fotos dos líderes da cimeira do G 7, em Munique, penso em religião. Nos acasos do nascimento.

Vendo as fotos dos nossos chefes penso num conclave da Igreja dos Senhores dos Últimos Dias (foto dos profetas) – Julgo que existe uma organização religiosa com esta designação. E penso que ainda bem que há quem preste culto a quem nos trata dos últimos dias (eu sou a favor do direito a escolher a eutanásia,) que julgo que é o que essa igreja, digamos, me parece defender.

Pelo facto de ter nascido em Portugal sou, queira ou não, membro desta igreja que tem estes pastores. Serei uma ovelha ranhosa, mas foi um acaso que assim me incorporou.

Os pastores e profetas parecem gente como nós. Estão sorridentes. Daqui a dias, os que estão à volta da mesa, com uma senhora de frente, estarão assim, com mais alguns comparsas, em Madrid, para uma reunião da NATO.

Esta é a terceira reunião do dito G7 este ano. Presencial. Nada de teletrabalho nem de videoconferências.

O conclave de Munique, cuja fotografia não se distingue da de uma reunião de conselho de administração, ou de uma mesa de póquer, – que decidiu não comprar mais ouro à Rússia – vai transferir-se para Madrid, para a cimeira da NATO, para tratar de outro ramo do negócio: vender armas ao grupo de Zelenski na Ucrânia, para sacar aos ucranianos do futuro o ouro que eles irão, fatalmente comprar à Rússia, para pagar a atual invasão desta, provocada pelo G1 em manobras de há anos, o chefe do G7.

Este conclave de cardeais do G/, com o seu papa, faz-me então pensar na Igreja dos Santos dos Últimos Dias, a que pertenço por imposição geográfica. Tivesse nascido uns 400 quilómetros a sul, em Tânger, por exemplo, e andaria a dar vivas e prestar respeitos a Alá e ao seu profeta. Tivesse eu nascido 1300 quilómetros a norte, em Plymouth, por exemplo e seria anglicano, fiel da família Windsor, segundo julgo.

Por fim, penso que esta Igreja dos Santos dos Últimos Dias está em estado catatónico, uma bela palavra para terminar e aqui fica também uma recordação dos seus profetas, que já terminaram os seus dias, num caso, julgo e estão em vias de nos levarem para a barca do auto do Gil Vicente, noutro.

Ite missa est. Estes celebrantes riem de quê?


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A ciência política e a fé

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/05/2022)

Um misto de firmeza e moderação é, porventura, a melhor forma de caracterizar a postura de Raymond Aron em relação à política internacional, mas cabe também referir a plena consciência que tinha das complexidades e da necessidade de agir e de fazer escolher, ciente de que, tal como aliás já o referira na sua tese «Introduction à la Philosophie de l’Histoire», uma decisão é sempre tomada entre a ignorância e a incerteza. Contudo, o primeiro princípio do método de Aron consiste em nunca perder de vista a complexidade, mesmo quando se age, nem nunca esquecer a necessidade de efetuar escolhas, inclusivamente quando se analisam essas complexidades. Outros princípios ficaram bem patentes no final da sua sessão inaugural na Sorbonne. E a eles sempre se manteve fiel, fosse qual fosse a polémica: respeito pelos factos e respeito pelos seus interlocutores, disposição para admitir os casos, raros, em que fizera um juízo errado e para alterar a sua postura em consequência. Pierre Hassner.


O que distingue, no atual contexto, um cientista político, indígena luso e televisionável, e das «breaking news» da TVI, da SIC ou da RTP de um pastor religioso da IURD, das Testemunha de jeová ou dos Talibans? Nada!

Pelo que me tem sido dado a ouvir aos “cientistas políticos” com graus de “professores universitários” e a ler o que escrevem nas redes sociais, nas análises sobre a guerra na Ucrânia, o guerra, o fenómeno social mais total e antigo da Humanidade é por eles, “cientistas”, explicado em termos de fé! As mesas dos estúdios são altares, os seus sites nos FB são publicidade patrocinada! Aguardam na Ucrânia a repetição do milagre das muralhas de Jericó! Estamos perante meninos de Deus que vendem bíblias, mas surgem identificados nos rodapés como “cientistas sociais”!

Há, por parte dos ditos “cientistas sociais”, uma proposição de partida: ou se acredita neles e se pertence ao reino dos bons e se vai para o Paraíso, ou se duvida, questiona e pertence-se aos satânicos e vai para um Inferno. Quem já viu televisão num país islâmico percebe bem o que são hoje as sessões de análise do conflito pelos “cientistas políticos”.

Há muitos anos que sou um crítico da atribuição do estatuto de ciência aos estudos sociais. A epistemologia das ciências sociais funda-se em 3 linhas: positivismo, fenomenologia e marxismo. Mas a questão que nenhuma das escolas resolve é a questão de fundo: O cientista das ciências exatas está separado do fenómeno. Newton estava separado da maçã. Uma velha e nunca resolvida questão: O “cientista político” e social está inserido no objeto que analisa, na sociedade, com os seus preconceitos, as suas experiências anteriores. Ele é parte do fenómeno. Está dentro da maçã que cai na cabeça do Newton. É a água que fez o Arquimedes flutuar.

O bombardeamento de análises de uma multidão de “cientistas políticos” chamados aos púlpitos para explicar o fenómeno desta guerra na Ucrânia revelou a ausência de qualquer método científico na abordagem do fenómeno. A ciência assenta da dúvida. A tal dúvida metódica, ou cartesiana que é (era) o beaba da entrada na ciência. Só tenho ouvido certezas. Quando um cientista tem certeza passa, para mim, à categoria de delegado de propaganda. É o que temos, que bonda.

Os princípios da ciência são neutros, tenho visto “cientistas políticos” a cientificarem com base na moral! (E sorridentes!!!)

Alguns chegam ao ponto de considerar bons os projéteis ocidentais e maus os projéteis russos!

A ciência baseia-se na comparação de um dado fenómeno com outro idêntico: por isso podemos fazer tabelas de marés, de eclipses, de terramotos… Os “encartados” “cientistas políticos” e sociais desta guerra, como de outras, diga-se, incluindo a das colónias portuguesas, nunca referem, nunca os ouvi referir, a não ser a alguns militares chamados a colocar alguma racionalidade na algazarra, os princípios da guerra, os tratadistas da guerra, de Sun Tze a Clausewitz, de Napoleão, a Mckinder, não falam de estrategas políticos, de Kissinger a Brzezinski, nem de pensadores políticos, de Platão, Machiavel, Montesquieu, Hobbes, Kant, Sartre, ou ao muito ocidental e atual e felizmente ainda vivo Raymon Aron.

Sobre o pensamento a propósito da guerra, os “cientistas políticos” dizem: Nada! Estão em branco! Presume-se que os desconheçam e que se tomem eles próprios como manancial de saber e conhecimento. Gritam Deus salve a Ucrânia! Acreditam num deus que sabe onde é a Ucrânia e que a Ucrânia tem um Deus, não sei de Biden, se Zelenski! Mas eles sabem. Ciência pura!

Cientistas políticos portugueses (existe um estranho fenómeno de provincianismo que faz os cientistas políticos portugueses ainda mais marginais a qualquer teoria aceite do que noutros países com outras tradições intelectuais) surgem em público a garantir que não admitem quem ponha em causa qualquer outra posição sobre a guerra na Ucrânia que não seja a da condenação. Uma atitude moral, mas que destrói o fundamento de a ciência ser por natureza, materialista (i.e. neutra) e que transforma a análise política em teologia.

Estes cientistas morais (desculpem a contradição) não têm consciência da existência de várias «modalidades do Juízo», vivem em pousio (ou vazio) intelectual, não distinguem entre diversas categorias de juízos: assertóricos ou afirmativos; juízos apodíticos, os que proclamam o carácter necessário ou incontestável de um juízo.

Eles, os “cientistas políticos” televisionáveis e sociáveis, são pela imposição do juízo hipotético: o seu! Para eles, se algo é possível e lhes convém, passa a ser a realidade! Oiçam-nos a falar (divagar), leiam-nos sobre as intenções de Putin, da NATO, de Biden, da China , da Índia, até das Ilhas Salomão!

Como respeitar uma ciência cujos “cientistas” não poem em causa o que vêm? Que são adivinhos e feiticeiros que leem a realidade em búzios e tripas de galinha? Que jamais duvidariam que é o Sol que roda à volta da Terra. Ou que, vendo cair flocos de neve e pedras de granizo, concluiriam que a neve é mais leve que o granizo, pois cai a uma velocidades menor!

Como respeitar “cientistas políticos” que tratam esta guerra como se fosse a primeira guerra de que têm conhecimento na História da Humanidade? E se arregalam de espanto com o que veem?

Acredito que esses “cientistas empíricos” e assentes na investigação com base na moral (na sua), se afastariam de Newton, e até de Arquimedes, não porque a um tenha caído uma maçã na cabeça e o outro surgisse nu a gritar Eureka!, mas porque contrariavam o que se está mesmo a ver que é assim. As maçãs caem e a água serve para o banho!


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O futebol, o violino, o Hamlet e a invasão da Ucrânia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/05/2022)

No romance “Bons Amigos” (The Good Companions, 1929) o autor, o escritor inglês J. B. Priestley, escreveu uma frase célebre (citada por Ricardo Araújo Pereira num texto sobre Eusébio): «Definir o futebol como 22 mercenários a correr atrás de uma bola equivale a dizer que um violino é madeira e corda de tripa, e que o Hamlet é papel e tinta».

Reduzir o que está a acontecer na Ucrânia a uma invasão, um invasor e um invadido, a um forte e um fraco, a um mau e a um bom é o mesmo que reduzir o futebol aos tais 22 mercenários atrás de uma bola, um violino a madeira e corda de tripa e o Hamlet a papel e tinta.

É uma opção muito respeitável que tenho visto ser defendida não só pelos grandes órgãos de manipulação, mas por respeitáveis cidadãos, que, se professores de História, ou de Filosofia, poderiam reduzir a história do Mundo às primeiras linhas Génesis. “Deus, aborrecido, acordou e decidiu: — Vou invadir o Universo com a minha gente e as minhas armas! — Demorou seis dias a invasão! E deixou este caos que substituiu o caos primordial.”

Os distintos professos desta explicação entendem que nem eles, nem o vulgo, tem nada que procurar saber as causas da má disposição de Deus, nem das consequências dela. Ámen.

J. B. Priestley, como se percebe, referia um outro célebre profeta, Jesus Cristo, que há dois mil anos já manifestava a sua compaixão por quem expressa e aceita explicações empíricas, do Deus mal disposto que invade universos livres: “abençoados os simples de espírito, porque deles será o reino dos céus.”

Os senhores que estão por detrás desta guerra confiam no desejo dos simples irem para o céu, nos que promovem e que insultam quem faça perguntas. Já houve tempo de os queimar, de os lapidar!


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