Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXIV

(Por Carlos Marques, in Estátua de Sal, 25/11/2022)

A Ucrânia mergulhou na escuridão – Na manhã de 24 de novembro, mais de 70% de Kyiv permanecia sem eletricidade. Não há água em metade da capital. Os cortes de energia continuam em todas as partes do país.


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos do General Carlos Branco ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 26/11/2022)


Quando a boca lhes foge para a verdade, para lá de toda a propaganda:

“O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas dos EUA, general Mark Milley, veio afirmar publicamente que, por ser altamente improvável que a Ucrânia tenha capacidade para recuperar o território sob controlo russo, seria conveniente iniciar-se um processo de negociações de paz neste inverno, assinalando que a Rússia dispõe ainda de um poder de combate significativo.”

Ele sabe que a Rússia não foi expulsa de Kherson. Evacuou civis para evitar que os lunáticos explodissem a barragem de Nova Kakhovka. E tiraram a tropas para uma zona também protegida disso.

Não tenho dúvida que se tivesse já capacidade para tal, a Rússia teria ido até Nikolaev, mas não a tem.
Vai agora colocar novos mobilizados a ganhar estaleca na margem esquerda do Rio Dnieper, e só em 2023, finalmente com igualdade numérica, irá mais para Oeste.

Até lá, vai continuar como até aqui, com avanços lentos mas significativos nas zonas de alta densidade de bunkers em redor de Donetsk, e com as suas defesas a “limpar” todas as tentativas Ucranianas de avançar para Ligando a partir da frente de Kharkov, entre os rios Oskil e Zherebets.

Vou mais longe e pego nas palavras de Scott Ritter: a razão pela qual vemos cada vez mais ataques desesperados dos ucranianos, inclusive o de falsa bandeira em território polaco, e este paleio todo de “paz” vindo de quem andou meio ano a prometer mais guerra e derrota total da Rússia, é porque sabem o que aí vem a seguir, sabem que a seguir serão esmagados.

O que vem a seguir é o que acusaram a Rússia de fazer, mas esta não fez, pois não estava preparada para tal: uma invasão de facto. Estamos agora a ver os dias finais da intervenção em nome do povo do Donbass e em defesa preemptiva da Crimeia. Estamos s começar a ver novos mobilizados a ganhar experiência (ou a relembrar).

De uma situação de 250 mil ucranianos (cerca de 1 em cada 3 ultra-naZionalistas) frescos e preparados pela NATO ao longo de 8 anos mas que perderam quase 4 oblasts mesmo tendo a Rússia apenas 150 mil tropas, vamos passar para uma situação em que o exército da Ucrânia está de rastos, o povo está insatisfeito, e do outro lado está uma Rússia finalmente preparada e mentalizada para derrotar totalmente os lunáticos.

No resto da Europa, a inflação, o cansaço, talvez até recessão, o agravar da crise de refugiados, as mentiras cada vez mais descaradas e desmascaradas de Kiev, a hipocrisia de quem sanciona isto mas compra aquilo, e os zigue-zagues de quem (vassalos de Washington na Europa) não fala de factos nem faz o que tem sentido, apenas obedece a cada momento à vontade da oligarquia USAtlantista.

No início de 2023 a Rússia estará novamente em Kherson e Kharkov, irá a caminho das fronteiras da República de Donetsk e a caminho de Zaporojie e de Nikolaev, de modo respetivamente a que os lunáticos deixem de estar à distância de bombardear a central nuclear de Energizar e a barragem que protege Kherson da destruição.

É por isso que se fala agora em “paz”. Porque agora dá a sensação que a vitória geoestratégica dos EUA está no papo, que a UE deixou de ter qualquer autonomia, que a Rússia sofre muito com sanções, e que a Ucrânia tem alguma hipótese de recuperar mais territórios.
Só mesmo lunáticos acham que faz sentido querer roubar o Donbass, a Taurida e a Crimeia a quem lá vive, gente que é esmagadoramente pró-Russa ou Russa de facto.

A Rússia teve de facto uma derrota humilhante no oblast de Kharkov, onde perdeu território de Balakleya até Izium, e depois também até Lyman e mesmo até às fronteira da República de Lugansk, de forma muito rápida, sem conseguir proteger os seus civis pró-Russos, e deixando até muito material para trás, tal foi a pressa.
A Ucrânia aproveitou muito bem, e o tal exército, já com menos nazis, mas mais mercenários da NATO, deu uma lição de humildade à Rússia.

Mas desde então muito mudou, e o erro foi tal que duvido que se atrevem a repetir. Na próxima fase terão mais 300 mil mobilizados, já com alguns meses de experiência em situação defensiva ou de combates de artilharia posicionais. Já para não falar dos milhares de voluntários para além desse número. Os referendos estão feitos, dos territórios oficialmente no mapa da Rússia. E acham os palermas que era agora, antes da hora H, e após mais umas quantas provocações em Belgorod e Sevastopol, que a Rússia ia atirar a toalha ao chão?

Não sei se acompanham os mapas diariamente. Eu faço-o em várias fontes, algumas com o pormenor até de dizer onde está cada batalhão. Aquilo que vemos em Kharkov, após a derrota humilhante, foi um exército Russo em inferioridade numérica a corrigir o erro e a travar os UcraNazis+NATO na linha que definiu. No Donbass é a Rússia que avança e ainda não parou de destruir naZionalistas, material e bunkers. Em Zaporojie a linha da frente está onde a Rússia a quer nesta fase.

E nas várias grandes movimentações de Kherson, a linha da frente foi definida pela Rússia onde a Rússia muito bem entendeu. Até os lunáticos de Kiev tiveram dificuldade em chamar vitória ao seu avanço, pois este aconteceu sobre os corpos dos milhares que morreram na tal “contra-ofensiva”, e a Rússia é que foi escolhendo a seu bel-prazer onde era a linha da frente em cada momento.
Agora, devido à questão da barragem, decidiu que passará o Inverno na margem leste do Dnieper, mas já antes tinha decidido que a linha da frente era de Oleksandrivka até Snigurivka, e de Andreevka até perto de Dudchany. A Ucrânia foi “lutando” (morrendo) onde a Rússia decidiu.

Os EUA, em particular o senhor que citei, sabe o que eu sei. Sabem muito mais. Sabem que estes meses de Inverno são a última hipótese do regime de Kiev assinar um acordo de paz em que salve minimamente a face e em que a NATO não seja totalmente tornada inútil (na questão Ucraniana).
E o pior é que os lunáticos também sabem, mas insistem na propaganda do “forte resistente” que ainda vai re-conquistar a Crimeia toda não tarda nada… É que é já a seguir. Prova disto é que perante a esperada invasão de facto, já colocam bunkers pré-fabricados na fronteira a Norte de Kiev, em toda a extensão desde a Polónia até à Rússia.

Sabem o que aí vem, mas em vez de fazerem a paz, agora com o menor número de concessões territoriais possível (perante a derrota Russa de Kharkov até Lyman), e perante o recuo estratégico na cabeça-de-ponte de Kherson, em vez disso vão continuar de peito feito, a prometer derrotar a Rússia, eles nos palácios de Kiev (ou mansōes compradas aqui e ali), enquanto os desgraçados estão a morrer na linha da frente, ou já com data marcada para o enterro na fase 3…

E aqui, confesso, tenho o coração dividido. A paz, mesmo paz, era o ideal, sempre, e evitava-se mais mortos civis e de soldados comuns. Mas só com a continuação da guerra, até à derrota total da ditadura de Kiev, é que será feita justiça, é que será possível a liberdade de todos os pró-Russos, é que será possível a desnaZificação completa (como a imposta pela URSS à Finlândia, ou pelos Aliados à Alemanha), é que será possível a humilhação da NATO, é que será possível dar início a todo o vapor à Nova Ordem Mundial Multipolar, e quiçá será possível dar mais alguma dor à Europa de maneira a que está abra os olhos e comece a deixar a droga dos EUA, e dê início ao longo e penoso caminho de normalização das relações com a restante Eurásia, Rússia e China obviamente incluídas.

A alternativa é a derrota de tudo, até da verdade dos factos e da decência, a normalização do Nazismo, e a vitória de quem só merece desaparecer do mapa: o regime autoritário imperialista genocida dos EUA. Isso, a derrota da Rússia perante a NATO, é o pior que pode acontecer ao Mundo em 2023.
Seria usado como motivação para repetir a pouca-vergonha em Taiwan e quiçá com uma NATO Mundial, como os belicistas e corruptos USAtlantistas já se atreveram a dizer. Esta gentinha já matou milhões suficientes, isto tem de acabar em Kiev. Nem mais um metro para a NATO, os assassinos do regime genocida de Washington e seus idiotas que prestam vassalagem na Europa.

A diferença é esta, nas nossas vidas em Portugal, daqui por exemplo a 10 anos:
– ou adormecer com medo que o nosso governo vá censurar mais alguém, e cobrar-nos impostos para ajudar os EUA a invadir mais algum país, com Nazis como aliados e ameaça de guerra nuclear permanente, e só com FakeNews na TV;
– ou acordar com orgulho, soberania, progresso, cooperação, paz, e o dinheiro bem usado para o bem de todos e o desenvolvimento humano, preocupados só em votar em quem nos representa, com confiança renovada em jornalistas que falam dos factos sem medo de lhes acontecer uma perseguição como ao Bruno Amaral de Carvalho ou ao Julien Assange.

É esta a escolha. Eu já fiz a minha. Quero lá saber se é com Putin ou se foi com Stalin. Interessa é não estar do lado dos nazis originais ou dos Azov actuais. Mas sei que estou em minoria, e sei que a maioria está completamente manipulada, treinada como o cão de Pavlov, mas agora para abanar o rabo de alegria perante as insígnias militares dos EUA, e para espumar de raiva perante o que não seja ocidental, em particular se russo ou chinês.

Sei ainda mais uma coisa: para que o futuro da Europa seja risonho e decente, a UE (agora revelada às claras como o braço financeiro da NATO, que por sua vez é o braço armado do império) não pode continuar a existir… Mas isso é outra conversa, e fica para outra oportunidade.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXIII

(Por José André Campos Ferreira, in Estátua de Sal, 31/10/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Strategic Culture Fondation ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 31/10/2022)


 Império russo:

– Russo, muito pouco falado no estrangeiro.
– O Pacto de Varsóvia dissolveu-se em 1991, na crença de que já não havia um inimigo americano.
– Sem porta-aviões (não são necessários, pois permanecem em casa a maior parte do tempo)

O Império Americano:
– Numerosas bases em todo o mundo, incluindo áreas que são territórios dos EUA.
– Com a omnipresença da língua inglesa no mundo, (mesmo no Parlamento Europeu quando já não há inglês)
– Satélites Starlink permanentemente aéreos.
– Controlo dos exércitos de outros países através da NATO
– 11 porta-aviões necessários para o controlo militar global

Há angústia do decrescimento imperial está mais do lado das multinacionais financeiras anglo-saxónicas, basta seguir as curvas da estagflação da economia ocidental, do declínio do nível de vida per capita, do desemprego, da agitação social e de várias crises de identificação.

No contexto desta guerra, existe obviamente um conflito de civilizações: entre um homem completamente desconstruído (“ocidental” para simplificar) e um homem “tradicional” ligado a uma história, uma família, uma religião, um território… No Ocidente, ainda há propaganda sobre uma democracia que permanece, no máximo, num horizonte distante. A europa, está dependente da energia. Poderíamos continuar e continuar… As alternâncias políticas não mudam nada. Em suma, quando ouço que “a Ucrânia está a defender a democracia” sinto-me como se estivesse a ser tomado por um tolo, ou burro.

Os valores ocidentais são aplicáveis apenas na Ucrânia.
Porque é que os valores ocidentais não são aplicados à Arménia, um país que está a ser atacado por outro país que está cheio de gás, o Azerbaijão, que está a aguçar o apetite dos países ocidentais. O agressor aqui é apoiado e armado por Israel, pelos EUA e pela Turquia. Os valores europeus não são senão uma hipocrisia.

Claro que a Rússia e a China não são democracias, mas será que nós próprios continuamos a ser democracias?
Desde que os principais meios de comunicação social estão nas mãos dos oligarcas e influenciam grandemente as eleições para manter uma casta de tecnocratas que têm pouca preocupação, ou nenhuma com o bem público e os interesses daqueles que os colocam no poder, mas que são servidores de um sistema financeiro internacional, podemos perguntar a nós próprios.

É realmente a vontade do povo Português ser dissolvido num mundo globalizado, dividido em comunidades e finalmente escravizado por interesses fora do seu controlo?

O problema com o discurso dos europeístas é que eles pensam sempre que sabem qual é o melhor sistema de governação para os outros em vez de reverem o funcionamento da sua própria democracia. É engraçado ouvi-los dizer cada vez que Putin é aprovado por 70-80% da sua população e que é um ditador autocrático, enquanto em casa na Europa não sabemos quem elege os seus líderes e como chegaram a estas posições!

Os líderes ocidentais podem ter métodos diferentes, mas não são diferentes daqueles a que chamam ditadores.

Na UE não há democracia mas sim idiocracia. Não gosta de ter a guerra na Europa perto de si e prefere exportá-la para outro lugar, Iraque e Líbia sabem muito sobre ela. Não têm vergonha, matando dois presidentes de países soberanos com impunidade, os assassinos continuam a monte.

A Europa continua a seguir a política dos EUA apesar da crise energética que a está a abalar seriamente e a ameaçar a sua economia. A guerra na Ucrânia é sobretudo um assunto para a Europa como um todo e não para os EUA, especialmente no caso da utilização de armas nucleares ou químicas, que deve ser acordada com a Rússia. É portanto mais que tempo de a Europa decidir por si própria sobre o futuro das suas populações que viveram as atrocidades das duas guerras mundiais!
Os europeus não sabiam como fazer as suas escolhas após o colapso da URSS, onde era necessário na altura, após a implementação da perestroika por Gorbatchov, reformar o sistema, sim, a Europa teria iniciado mesmo um convite da nova Rússia para a integração da marcha que foi feita para a criação da futura comunidade europeia em 93.

É certo que a Rússia deve encontrar o seu lugar na comunidade europeia da qual faz parte geograficamente, o que levará ao derretimento da NATO, que é apenas um conjunto de problemas para os países europeus e para o mundo inteiro, e é assim que a ameaça russa terminará com a sua integração.

“Vladimir Putin, acaba de explodir a era dos combustíveis fósseis.
Ele desencadeou um movimento global e determinado na Europa, apoiado pelos EUA, para se afastar dos combustíveis russos e acelerar a eficiência e as energias renováveis.
Era para lá que a Europa se dirigia de qualquer forma, mas agora está a avançar muito mais depressa.
Então a guerra na Ucrânia é um o jogo da transição energética?

Esta guerra pôs em prática um imposto global sobre o carbono muito maior do que os economistas queriam pôr em prática para proteger o clima.

É claro que não é exatamente um “imposto”, não é aplicado da forma correta e está a causar muitos problemas. Mas como um “sinal de preço” [o custo mais elevado da energia e o seu impacto nos transportes, por exemplo], dará um grande estímulo à mudança para a eficiência e as energias renováveis.
E se a Europa continuar a afastar-se do petróleo, gás e carvão com a visão e determinação que tem demonstrado até agora, então o grande sofrimento infligido por Vladimir Putin não terá sido inteiramente em vão.”

Seja intencional ou não, este tipo de informação não é dada: O ganho territorial mineral russo na Ucrânia é estimado em 13 triliões de dólares e este aumentará com a captura de Odessa. Fonte: Washington Post. Quanto ao declínio do dólar, este foi desvalorizado em 95% e o euro em 85% em relação ao ouro. Todos os economistas sabem disto.

A Rússia não está sozinha e os países amigos não são como os países ocidentais. O mundo sabe que o Ocidente é um continente com o qual não se pode contar, e eles escolheram o seu lado.

É preciso pensar sempre nos recursos naturais que cada país possui. Isto muda completamente o padrão e os números ‘ocidentais’. A Rússia, o Cazaquistão, a Mongólia, vários países da África Central, e claro o Médio Oriente, podem muito rapidamente recuperar, apagar as suas dívidas e esmagar o seu poder em 3 anos. Isto é o que os BRICS+ e a OPEC+ estão a demonstrar.
O petrodólar já não será a única referência num futuro próximo, nem mesmo na América do Sul e Venezuela (na OPEP+).

Este Inverno será duro: a Europa desfrutará de banhos frios, refeições cruas e longos passeios de bicicleta à chuva, neve e mísseis de algum lado.

Penso que se o México quisesse entrar numa aliança militar com a Rússia e a China, os americanos não a aceitariam. Cuba ainda está sob um embargo americano, e isso do ponto de vista do ocidente é lógico. Mas o que o ocidente acha lógico não acham lógico da Rússia. O que me perturba é que temos a impressão de que o nosso mundo está a ruir diante dos nossos olhos, que o nosso poder de compra está a cair e que tudo isto poderia ter sido evitado. A diplomacia poderia ter evitado esta guerra.

Por falar em diplomacia…
A diplomacia ocidental é falar muito para finalmente não dizer nada, confundir o interlocutor para tirar vantagem sem partilhar o ganho…

A diplomacia é a encarnação da arrogância ocidental… tem de pensar como ocidentais, falar como ocidentais, atualizarmo-nos como ocidentais, governar o país como ocidentais… e no dia em que já não queremos tudo isso, é o exército que tem de intervir para acrescentar tempero à diplomacia ocidental.
As colónias desapareceram, mas os colonos ainda estão presentes.

Esta guerra é de facto entre os EUA e a Rússia e é provocada pelos EUA para enfraquecer o progresso russo e o da Europa como consequência. É necessário reconhecer que o império americano está em declínio e que, por este facto, procura manter a sua posição por todos os meios, como todos os impérios anteriores, incluindo a guerra de enfraquecimento dos emergentes.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XXII

(Por José Neto, in Estátua de Sal, 16/10/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de André Campos ver aqui, e a um artigo de Garcia Pereira, ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 17/10/2022)


Oi, cá estou eu outra vez.

Honestamente, não li o texto de Garcia Pereira.

O que ele escreve não me interessa porque a pessoa não me interessa e certamente não disse nada que eu não esteja farto de saber. Sei que muito do que ele depositou é verdade, porque ele se baseia no Marxismo-Leninismo-Maoismo, mas todo o percurso político deste triste personagem reflete um esforço resiliente focado na divisão dos trabalhadores para melhor os enfraquecer, e consubstanciado num ódio não disfarçado à única força coerente que desde sempre combateu o Fascismo e o Capitalismo em Portugal, que foi (e continua a ser) precisamente o Partido Comunista Português.

É um dos truques mais queridos do Grande Capital, este de usar fantoches como Garcia Pereira, com linguagem esquerdista muito “prá frentex”, do tipo “vamos fazer a Revolução hoje, abaixo o Revisionismo, Mao é que é bom”, etc. Todo o percurso desse patético indivíduo foi no sentido de destruir a unidade e a luta dos trabalhadores, e é preciso esta pobre criatura não ter nenhuma vergonha na cara para vir agora, que a obra em que ele foi humilde participante, está praticamente acabada, vir para os media dar lições de moral revolucionária.

Nos dias de hoje esse mesmo trabalho é da responsabilidade dos trotskistas do BE, que com um palavreado mais meloso e socialmente equilibrado, foram gerados no seio do PS e existem justamente para retirar influência e apoio eleitoral ao PCP. “Dividir para conquistar” é a máxima que sempre norteou o Capital na sua luta incessante para manter o seu gado humano submisso e controlado. Isso nunca muda.

Quanto ao texto de André Campos, é difícil não nos solidarizarmos com o seu estilo humanista e com as preocupações sinceras que ele apresenta, mas está repleto de erros de análise cuja desmontagem me levaria mais tempo do que disponho neste momento e ter de ficar para outra ocasião. Deixarei por isso aqui apenas umas linhas gerais:

1. O já famoso “Great Reset” é uma “teoria de conspiração” sem nenhum fundamento e muito provavelmente criada e alimentada pelos ideólogos do próprio Grande Capital. Ela apenas nasceu para justificar a enorme crise global do Capitalismo que ele hoje atravessa e impedir a sua real compreensão pelas populações. Procura-se atribuir as culpas de uma situação que resulta da evolução natural do sistema capitalista, e que já aconteceu duas vezes no passado no espaço de um século, tendo os seus momentos culminantes coincidido com as guerras mundiais de 14/18 e 39/45.

O que se tenta fazer é atribuir as culpas deste desenlace inevitável a uma espécie de seita obscura que se terá revelado em Davos, assim uma espécie de história de ficção ao nível dos livrinhos de banda desenhada juvenis.

O Grande Capital não tem interesse absolutamente nenhum em reduzir a população mundial como um propósito em si mesmo. Menos pessoas significam menos consumidores, menos mercados e consequentemente um agravamento da crise da qual o Capitalismo já enferma. Uma redução dessa população poderá ocorrer em consequência da fome e de uma guerra de destruição massiva, mas ela não é um objetivo em si mesma.

Claro que uma redução da população global poderia ser um acontecimento “benéfico” para a raça humana, basicamente porque dentro de cem anos o planeta simplesmente não terá condições para a sustentar e a continuarmos assim muito mais gente terá então de morrer, e morrer muito rapidamente, mas a ecologia planetária não é um objetivo do Capitalismo. Ele vive no momento.

E de resto ninguém que não seja um maldito psicopata iria querer promover hoje um holocausto global em nome da preservação de Gaia. Esse problema terá de ser resolvido pelas gerações vindouras, mas para que a Humanidade seja capaz de mudar os seus atuais padrões de vida destrutivos, será absolutamente necessário que o Capitalismo seja destruído.

É isso, ou a extinção pura e simples de toda a vida no planeta. E bem podem continuar a vender-nos fantasias estúpidas como a aquela da “colonização” de Marte.

2. O que realmente se passa, como foi muito bem colocado num recente texto publicado aqui, é que os Estados Unidos já estão em guerra com a Europa, representada no texto em questão pela Alemanha.

Trata-se de conquistar mercados e destruir concorrentes diretos num momento em que os mercados existentes já não são suficientes para alimentar as oligarquias existentes. Mais uma vez recordo as duas guerras mundiais. Tal como sucedeu na II Grande Guerra, a Rússia só está em palco devido às suas riquezas naturais e pela sua recusa em aceitar submeter-se ao Império Americano, e pelo facto de a sua proximidade geográfica e interesses comuns com a Europa poder colocar em causa a hegemonia de Washington. A segunda parte desta equação foi aparentemente resolvida no curto prazo com recurso a europeus traidores. Mas outros episódios se seguirão.

As verdadeiras causas da crise terminal que assola o capitalismo no Ocidente, elas prendem-se com o encurtamento dos mercados como resultado da ascensão das novas potências asiáticas, do expectável fim das excecionais condições favoráveis à economia liberal, nomeadamente a permanência do dólar como única moeda de referência mundial, e do próprio processo entrópico que está na génese do sistema capitalista e que termina sempre da mesma maneira.

A atual crise, e como já alguém disse não é uma crise, mas sim o fim de uma era, só difere das duas anteriores pela sua elevada componente financeira. A “financeirização” das economias é um fenómeno relativamente recente e posterior à II Guerra Mundial. Basicamente as sociedades ocidentais estão a pagar pelas toneladas de dinheiro falso que têm vindo a imprimir e ao longo dos anos e da gigantesca dívida pública que esse fenómeno gerou. Alguns analistas claramente confiáveis dizem que “a crise programada vem aí”, mas isso não deve ser mal interpretado.

Imaginem uma grande barragem. Já está? Agora imaginem que as águas estrondeiam com violência contra as paredes da estrutura e ameaçam desfazê-la em pedaços. O que se faz? Simples, abrem-se gradualmente as comportas para aliviar a pressão e permite-se uma inundação mais ou menos controlada das terras limítrofes para evitar um desastre maior. É exatamente o que os economistas do FED estão a fazer com a sua gigantesca e super inflada “barragem virtual”. Vai causar muitos problemas e bastante miséria, sim, mas o rebentamento brusco da economia seria mil vezes pior. Seria as pessoas matarem-se nas ruas de Nova Iorque por uma côdea de pão. Também é verdade com os níveis de criminalidade ali existentes que já pouco falta para isso.

Então, podem parar de atirar as culpas para os velhos de Davos. Eles são apenas os bodes expiatórios.

3. O André Campos diz que “a maioria da população não compreende nada”, e isso só é verdade em parte. Eu irei escrever sobre esse tema quando tiver tempo e disposição num texto que tenho na ideia, em que irei falar “de coisas que não existem”. Mas, apesar de ter muita simpatia pela candura do André, tenho que dizer que isso só é meia verdade. Claro que o Povo é ignorante, e é-o por culpa própria, O conhecimento está disponível e se o André e eu próprio, tal como muitos outros aqui, lá conseguem chegar, as outras pessoas com um volume semelhante de massa encefálica também o poderiam fazer. Na minha idade, não penso por nenhuma cartilha e já não tenho pachorra para pieguices.

A questão basilar aqui é que o Capitalismo singrou no mundo porque ele está em conformidade com a natureza humana, egoísta, agressiva e impiedosa. A raça humana sempre foi grande predadora ao longo de toda a sua existência e isso está no código genético. Na sua natureza. Foi o que impediu a sua extinção em confronto com outras espécies animais fisicamente mais poderosas nos tempos primordiais, e é também o que lhe irá ditar o fim.

Há pessoas boas no mundo, claro, mas por cada uma dessas pessoas existem cem que “não prestam”, como eu disse há dias aqui sem papas na língua, provocando algumas ondas de choque que muito me divertiram. A maioria das pessoas aceita o capitalismo porque vive na esperança de ser rica um dia, sabe-se lá por que sopro de sorte, e tornar-se ela própria um tiranete dos outros. Vivem a pensar nisso até que morrem abandonadas num lar miserável. São essas pessoas que elegem os governos.

Um bom exemplo da “solidariedade europeia” e da verdadeira natureza humana pode ser encontrado por exemplo nas manifestações de agricultores espanhóis para pressionar o governo espanhol a fechar as barragens que deixam passar ainda alguma água para Portugal. Outro, é o genocídio de todo um povo no continente americano levado à prática por imigrantes dos mais variados países europeus. Mas eu poderia citar muitos mais, e em todos os continentes. Vamos deixar os Tutsis e os Rohingyas em paz por agora.

Por outro lado, o Socialismo não singrou até hoje nas sociedades ocidentais porque ele fala de partilha e igualdade, e isso é coisa que não interessa a ninguém. Os orientais estão mais suscetíveis a estas ideias pelo seu passado em que foram colónias vítimas da brutalidade ocidental, mas tudo pode mudar no futuro com as “rotas da seda” e as riquezas que elas vão produzir e concentrar nas mãos de alguns. Isto, claro, partindo do princípio de que a Humanidade tem futuro, o que não é líquido de maneira nenhuma.

Alguém aqui acredita que o capitalista é de uma raça diferente da raça humana, como naquele divertido filminho de série B “They Live” (1988) de John Carpenter, e que os trabalhadores atualmente explorados não fariam exatamente a mesma coisa se, por artes mágicas trocassem de lugar?

Abra os olhos, André…

Claro que as coisas podem sempre mudar, basicamente porque, como eu já disse aqui várias vezes, o estômago pensa melhor do que o cérebro. Nada como uma boa dieta para mudar rapidamente a mentalidade das pessoas.

4. Finalmente, onde foi que você sonhou com “uma guerra nuclear” limitada à Europa, André?

Pensa que os russos são parvos assim? Sonhe outra vez…


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