Atos de ignorância e intransigência cognitiva

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 02/01/2025)

É angustiante continuar a assistir, passados quase três anos de guerra, à insistência de dirigentes europeus na adesão da Ucrânia à NATO, mesmo diferida no tempo.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Antecipando uma possível interrupção nos combates que se travam em território ucraniano, após a tomada de posse de Donald Trump, tem vindo a germinar na comunicação social do velho continente a irrealista, inútil e perigosa ideia de colocar forças de manutenção de paz em território ucraniano para monitorizar o cumprimento de um eventual cessar-fogo entre forças russas e ucranianas. A sua apresentação tem-se revestido de algumas variantes, mas todas elas incorporando a premissa de que com Trump na presidência e Washington a preparar-se para abandonar o barco, serão os europeus quem carregará com o fardo do apoio à Ucrânia.

Caso estivéssemos distraídos, o candidato a chanceler alemão Friedriech Merz lembrou-nos que o envio de forças de manutenção da paz europeias para a Ucrânia deve ser coordenado com a Rússia, como se fosse possível ser de outra maneira.

O que fará a próxima Administração americana relativamente à Ucrânia tem sido objeto de abundante especulação. Há soluções para todos os gostos. Se Kiev não estiver disponível para se sentar à mesa das negociações, Trump cessará o apoio à Ucrânia, mas se a indisponibilidade for da parte russa, então o apoio a Kiev continuará incessantemente enquanto for necessário.

O “Financial Times” veio com outra ideia, bastante plausível que, a concretizar-se, deixará os europeus com os cabelos em pé. Trump poderá forçar a Ucrânia a aceitar a paz sem lhe proporcionar garantias de segurança, aliviando simultaneamente as sanções à Rússia. A América vai concentrar-se em dominar o hemisfério ocidental, coaptando o México e o Canadá, e colocando o Canal do Panamá e a Gronelândia debaixo da sua asa, ressuscitando, assim, a doutrina Monroe.

Segundo Lavrov, numa entrevista à agência noticiosa russa TASS, a sempre fiel e leal diplomacia francesa, que instigou o envio de tropas europeias para a Ucrânia, que preparou e continua a preparar as forças armadas da Ucrânia no seu território, que afirma ser necessário atacar a Rússia na sua profundidade, e que defende a preparação da Ucrânia para negociar com a Rússia numa posição de força, teria vindo propor-lhe, pela calada e violando o princípio de que o Ocidente não debaterá o futuro da Ucrânia sem a Ucrânia, que “ajudemos [Rússia e França], que estabeleçamos um diálogo sobre a questão ucraniana.”

Enviar tropas de manutenção da paz da União Europeia (UE) para a Ucrânia com o objetivo de monitorizar o cumprimento de um cessar-fogo é, por variadas razões, uma ideia disparatada. Não só desafia o senso comum, como corre também o risco de agravar o conflito, transformando a Europa num campo de batalha por procuração.

Os seus promotores não percebem porque é que essa ideia não faz sentido. Presumem que haverá um cessar-fogo e que os russos, apesar de terem recusado repetidas vezes essa possibilidade, a vão aceitar, não entendendo que os russos não estão na disposição de perder à mesa das negociações aquilo que ganharam no campo de batalha. Não darão aos países da NATO, de mão beijada, aquilo que eles não conseguiram no campo de batalha, isto é, colocarem contingentes militares em território ucraniano.

Há semelhança de outras congeminações estapafúrdias, esta dificilmente deixará de ser um nado morto. Alguns países já declararam abertamente a sua oposição. Enviar tropas europeias para “morrer na e pela Ucrânia” não é apenas um suicídio, mas uma catástrofe política, sobretudo quando as opiniões públicas europeias se afastam cada vez mais do envolvimento militar no conflito.

O ceticismo sobre o envolvimento militar na Ucrânia é particularmente elevado na Polónia e na República Checa. Até a França promotora da ideia, parece relutante em entrar neste campo político minado. São estes mesmos proponentes que não percebem porque é que a direita, sobretudo a designada extrema-direita, está em ascensão na Europa e os povos rejeitam o neoliberalismo globalista abraçando, em alternativa, projetos de direita nacionalista que se coloca contra a guerra e o impacto que esta tem na vida das pessoas.

Não deixa de ser curioso, para não dizer insano, que os impulsionadores desta ideia não tenham pejo em esconder que um cessar-fogo não passará de um artifício temporário para a Ucrânia ganhar tempo, lamber as feridas e preparar-se para confrontar militarmente a Rússia, quando devidamente recuperada, entenda-se treinada e equipada, tendo como subjacente a este raciocínio a menoridade mental do oponente. Não sendo o caso, é altamente improvável que Moscovo alinhe na repetição de um acordo do tipo “acordos de Minsk” patrocinados pela França e Alemanha e ratificados pela Resolução do Conselho de Segurança 2022 (2015), em que a monitorização da sua implementação ficou a cargo da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa.

É angustiante continuar a assistir, passados quase três anos de guerra, à insistência de dirigentes europeus na adesão da Ucrânia à NATO, mesmo diferida no tempo. Não perceberam nada do que está em jogo! Não perceberam que os russos não vão alinhar num cessar-fogo, mas somente num acordo de paz de âmbito alargado, para além dos problemas colocados pela guerra na Ucrânia. O acordo de paz ocorrerá antes do cessar-fogo e a ordem dos fatores não será arbitrária.

Para terem um entendimento do que está em causa, seria conveniente que estas pessoas revisitassem, entre outros acontecimentos, o discurso de Putin na Conferência de Segurança de Munique, em 2007; que procurassem explicações lógicas para a invasão da Geórgia, em agosto de 2008, quatro meses após a Cimeira da NATO em Bucareste, em que a Ucrânia e a Geórgia foram convidadas para se tornarem membros da Aliança; que entendessem a proposta do então presidente russo Medvedev, quando propôs, em 2008, um tratado de segurança europeia que tornaria juridicamente vinculativo o princípio da indivisibilidade da segurança e o princípio do não reforço da segurança à custa dos outros; que se lembrassem das iniciativas diplomáticas de Moscovo, no final de 2021, poucos meses antes da invasão da Ucrânia, para se criar conjuntamente com os EUA e a NATO uma plataforma de entendimento no domínio securitário, nomeadamente, sobre a expansão da Aliança as quais não tiveram resposta. Tal como agora, a Rússia procurava obter do Ocidente garantias de segurança.

Se tivessem efetuado o trabalho de casa, teriam percebido que Moscovo está a travar uma guerra na Ucrânia para conseguir aquilo que não conseguiu pela via diplomática, ou seja, definir uma nova arquitetura de segurança na Europa que lhe dê garantias de segurança e aos seus vizinhos, através de uma formulação jurídica que dificulte/impossibilite a violação dos acordos estabelecidos e onde tenha um estatuto condizente com a sua importância na nova ordem multipolar em construção. Seguramente que isso não passará pela colocação de mísseis na Polónia e na Roménia (capazes de atingir Moscovo e S. Petersburgo, em cinco/sete minutos) com a justificação de um ataque do Irão à Europa; pela promoção de operações de mudança de regime no “near abroad” russo; ou pela renúncia à implementação de medidas de construção de confiança.

Se tivessem entendido o racional por detrás das preocupações securitárias russas, antigas de séculos, não teríamos de assistir ao espetáculo ridículo e deprimente da primeira-ministra dinamarquesa dizer que tem rações na despensa para sobreviver durante três dias em caso da agressão russa; ou das autoridades suecas distribuírem à população manuais de sobrevivência em caso do país ser atacado.

Perante o iminente revés estratégico e como já tive oportunidade de explicar, os dirigentes europeus optaram por meter medo às suas populações agitando o papão de um ataque russo à Europa: “… uma vez ganha a guerra na Ucrânia (uma admissão implícita de que a guerra está ou vai ser ganha pela Rússia), a Rússia não parará nas suas novas fronteiras, e entrará pela Europa dentro! …”, sem explicarem porquê e para quê, quando historicamente foram as potências ocidentais que, em diversas ocasiões, ao longo dos séculos, invadiram a Rússia e não o contrário.

Cavalgando a onda dessa implausível invasão, estes dirigentes vêm propor, com vista à preparação de uma futura guerra com a Rússia, o aumento dos encargos com a defesa (fala-se agora em contribuições nacionais de 3% do PIB e Trump veio falar de 5%) em detrimento da economia, do estado social e das despesas com a saúde, habitação, educação, pensões, etc.

Torna-se cada vez mais claro que as opiniões públicas europeias foram enganadas pelos seus líderes quando lhes venderam uma vitória fácil: “… um passeio na praia no confronto com uma estação de serviço com armas nucleares”. Afinal, em vez do cordeiro manso saiu-lhes um urso. Perante isto, fará, pois, mais sentido a Europa mudar de rumo, moderar os seus apetites revanchistas e pensar seriamente em adotar uma estratégia de soma positiva.

As encruzilhadas de Zelensky

(Major-General Carlos Branco, in Diário de Notícias, 11/12/2024)

Para a história ficam os líderes ocidentais e um presidente ucraniano que optaram por empurrar um país para a desgraça em vez de negociar no devido tempo. Por tudo isto, o futuro de Zelensky e da Ucrânia não será promissor.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Em duas entrevistas recentes, uma delas à Sky News, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky mostrou-se disponível para ceder temporariamente os territórios ucranianos sob controlo russo, sem deixar de sublinhar a intenção de os recuperar posteriormente pela via diplomática, mas em troca pela admissão da Ucrânia na NATO, com as áreas atualmente sob o controlo de Kiev. A apresentação desta proposta foi feita com algum sentido de urgência, “temos de atuar rapidamente”. O cessar-fogo é essencial para “garantir que Putin não se apodere de mais território ucraniano”. Num assombro de realismo, Zelensky admite, portanto, que Moscovo se encontra em vantagem.

Não exatamente alinhado com Zelensky, mas numa onda semelhante, o seu Chefe de Gabinete, Andriy Yermak, numa entrevista à publicação sueca Dagens Industri afirmou que as negociações com a Rússia poderiam começar se a situação no terreno regressar à de 23 de fevereiro de 2022. Ou seja, mostrava-se aparentemente disponível para deixar cair a Crimeia. Esta aparente mudança de posição mostrando abertura para uma concessão temporária de território tem sido apresentada como uma “evolução significativa” da posição ucraniana. Na verdade, assim não é. Procuraremos perceber porquê.

Ao contrário daquilo que a comunicação ocidental nos tem vindo a fazer crer, por exemplo, ao comparar Zelensky com Churchill, o presidente ucraniano tem pouca margem de manobra, limitando-se a fazer o que lhe mandam, cedendo às pressões de atores exteriores, com os EUA e o Reino Unido à cabeça, e internos, às alas ultranacionalistas da sociedade, que apesar de não disporem de uma expressão eleitoral significativa, exercem uma enorme influência na vida política do país, devido ao controlo das forças armadas e de segurança. Por outras palavras, Zelensky não dirige, é dirigido. As suas contradições levam-no frequentemente a afirmar uma coisa e o seu contrário.

Foi assim quando incumpriu a promessa eleitoral de resolver o problema do Donbass, que lhe permitiu obter uma vitória eleitoral avassaladora sobre Petro Poroshenko, em 2019. A sua “determinação” esfumou-se quando os militantes ultranacionalistas o encostaram à parede e ameaçaram fisicamente, se prosseguisse com o projeto de reconciliação com as duas repúblicas secessionistas, inscrito no topo da sua agenda eleitoral.

Foi assim, também, durante as negociações de Istambul, em março de 2022, quando deu um passo atrás, depois de ter renunciado publicamente ao grande objetivo estratégico de integrar a NATO, posição que alterou devido à forte pressão norte-americana e britânica.

Zelensky sabe que a questão central na guerra que trava com Moscovo prende-se com a neutralidade estratégica de Kiev e a sua renúncia definitiva às armas nucleares. Este foi o leitmotiv que levou ao conflito. A questão territorial só se veio a colocar de modo veemente após o falhanço das citadas conversações em Istambul, onde o estatuto das duas regiões autónomas Donetsk e Lugansk ficou para ser discutido posteriormente.

Zelensky não foi capaz de se desenvencilhar do novelo de contradições em que está enredado. Apesar de saber ser impossível derrotar militarmente as forças russas e de ser carne para canhão numa guerra por procuração, o que agora é admitido despudoradamente no ocidente, com o objetivo de “debilitar o nosso inimigo [a Rússia] sem nos envolvermos diretamente com ele… com os resultados mais extremos e trágicos dos jogos de poder que têm sido jogados impiedosamente em solo ucraniano pelas grandes potências,” Zelensky fez as suas escolhas.

Numa entrevista, em março de 2022, reconheceu haver “no ocidente quem que não se importe com uma guerra prolongada, porque isso significaria a exaustão da Rússia, mesmo que representasse a morte da Ucrânia à custa de vidas humanas.” Não obstante, alinhou nesse projeto sabendo o sacrifício que isso traria ao seu povo.

O acolhimento vibrante que lhe foi dado em grande areópagos da política internacional – Parlamento Europeu, Congresso norte-americano, G20, etc. – devem tê-lo deslumbrado e levado ingenuamente a acreditar ser o centro do universo a quem todos se iriam curvar, ignorando que a política, em particular a internacional, é muito volúvel e que se reformula em permanência para satisfazer os interesses das grandes potências. Esse tratamento ter-lhe-á dado a sensação de ter o mundo a seus pés. A relação próxima com os grandes líderes mundiais tê-lo-á convencido de que era um deles. As palmas e os holofotes convenceram-no de que era o ator principal, como na sua vida anterior. Mas não era.

Essa perceção poderá justificar a tomada de posições irredentistas – a Ucrânia só se sentará à mesa das negociações quando se encontrar em vantagem, repetindo aquilo que lhe foram dizendo e em que passou a acreditar. Como afirmou numa entrevista, “a Ucrânia é um país independente e os EUA não podem forçar o regime de Kiev a “sentar-se e ouvir” à mesa das negociações”, o que levou Elon Musk a responder-lhe no “X” dizendo que Zelensky tem um “sentido de humor incrível”. Zelensky parece não perceber o caldeirão em que está metido.

Só haveria uma possibilidade de vencer a Rússia, que passava, não pelo apoio político, financeiro e militar, mas pelo envolvimento militar direto do Ocidente com contingentes em território ucraniano para fazerem aquilo que as tropas ucranianas não eram capazes. E isso foi claramente tentado em muitas ocasiões. Por exemplo, quando um míssil da defesa aérea ucraniana caiu na Polónia.

As ameaças explícitas dos ultranacionalistas no que se refere a soluções políticas e cedência de território contribuíram seguramente para que prevalecessem as visões irredentistas, impedindo-o de encarar os factos com realismo.

A apresentação do “Plano da Vitória”, insistindo num triunfo que lhe fugia no campo de batalha, cada dia que passa, foi mais um fiasco que não galvanizou os seus patrocinadores. A insistência na adesão à NATO mostrava o seu alheamento da realidade. O tempo corre contra ele e o tapete foge-lhe debaixo dos pés.

A eleição de Donald Trump para presidente dos EUA e perceção de que poderá ser reduzido o apoio à Ucrânia veio acelerar os acontecimentos. Zelensky veio reconhecer o óbvio e introduziu nuances no seu discurso: “As Forças Armadas da Ucrânia não dispõem de forças suficientes para recuperar os seus territórios por meios militares” afirmou Zelensky.

Mesmo assim, não alterou a sua posição em matéria de “cedência territorial”. Por saber que não será admitido na NATO, tem a noção de que o discurso sobre cedências territoriais temporárias é uma falácia. Se, por um lado, isso o defende dos ultranacionalistas, por outro, faz com que se tenha tornado num obstáculo à resolução do conflito, em vez de ser um elemento facilitador.

Com o comprometimento do projeto que visava derrotar estrategicamente a Rússia, Zelensky deixou de ser útil. Segundo o Economist existem movimentações para o afastar em 2025, e o substituir por alguém com a flexibilidade necessária para dirigir um processo de paz que envolva a aceitação de cedências territoriais.

O antigo comandante-chefe das forças armadas ucranianas Valery Zaluzhnyi, presentemente embaixador em Londres, parece encontrar-se bem posicionado para tal. Zelensky “já não é visto como o líder de guerra indiscutível que foi em tempos.” Segundo uma pesquisa realizada pelo Centro de Controlo Social de Kiev, apenas 16% votariam para o reeleger para um segundo mandato, e quase 60% nem sequer querem que ele concorra novamente. No topo da sondagem, à frente de Zelensky, com 27%, aparece Valery Zaluzhny.

Zelensky, ao apresentar exigências obviamente impossíveis de satisfazer, pode estar a perseguir o objetivo de apresentar o Ocidente como um “traidor” da Ucrânia, escreve a revista britânica The Spectator, e assim livrar-se da ira dos ultranacionalistas, que consideram que o problema ucraniano tem de ser resolvido agora, e não protelado para ser dirimido pelas gerações vindouras.

Mas, por outro lado, o seu irredentismo pode facilitar a vida a Trump. Como referia o Financial Times, perante a recusa em assumir compromissos, Trump poderá habilmente encenar uma tentativa para acabar com a guerra, atribuindo o insucesso à teimosia e intransigência de Zelensky, deixando a gestão do conflito para os europeus, livrando-se assim de um processo complicado.

Zelensky assume agora que “com as políticas da equipa que vai liderar a Casa Branca, a guerra vai acabar mais cedo. Esta é a sua posição [Trump] e a sua promessa à opinião pública”. Sem pudor, assume, tardiamente, que quem vai determinar o futuro do conflito é Washington e que Kiev não tem voto na matéria. Mas, mesmo assim, fala como se estivesse na mó de cima e a poder impor condições.

Mostrando-se incapaz de avaliar a realidade e de a projetar no futuro, Zelensky não percebeu qual o papel que as grandes potências lhe tinha sido atribuído neste drama. Não obstante, dava indícios, volta não volta, de saber que estava a condenar o seu povo a um sacrifício inglório e nada fazer para o evitar, preferindo a cumplicidade com agiotas.

Para a história ficam os líderes ocidentais e um presidente ucraniano que optaram por empurrar um país para a desgraça em vez de negociar no devido tempo. Por tudo isto, o futuro de Zelensky e da Ucrânia não será promissor.

Qual o significado do Plano da Vitória de Zelensky?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 24/10/2024)

Ao final de dois anos e meio de guerra, a fórmula do “deem-nos mais armas que nós resolvemos a guerra” está esgotada. Não funcionou no passado e muito menos funcionará no presente com a Federação da Rússia muito mais capaz militarmente.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O presidente Zelensky apresentou publicamente, com grande pompa e circunstância, primeiro no parlamento ucraniano (16 de outubro) e, posteriormente, aos dirigentes europeus (17 de outubro) um documento que apelidou de Plano da Vitória (daqui em diante, Plano), cuja implementação permitirá, segundo ele, terminar a guerra na Ucrânia, no máximo em 2025.

O documento é composto por 5 pontos e 3 adendas secretas. O primeiro ponto de natureza geopolítica; o segundo e o terceiro de âmbito militar; o quarto do foro económico; e o quinto dedicado a aspetos de segurança. Os quatro primeiros pontos são para serem implementados durante a guerra, e o quinto após o seu términus, de relevância difícil de descortinar num documento com esta finalidade.

Para além de declarações vagas e ambíguas, não é claro qual o ‘end state’ de Kiev: recuperar os territórios ocupados pela Federação da Rússia, ou fazer cedências territoriais? E com que configurações? Afinal o que significa vitória para Kiev? Esta indefinição inviabiliza, à partida, uma discussão sobre o alcance do “Plano”.

Com estas e outras apresentações, Zelensky procurou ganhar adeptos para a sua causa. A tentativa de avançar agora com um “Plano” para ganhar a guerra levanta-nos dúvidas sobre qual é o atual plano de ação ucraniano, e sobre o que vier a ser adotado caso este agora proposto não venha a ser implementado, dada a sua dependência de fatores exógenos, que fogem à decisão e ao controlo de Kiev. São mais as perguntas do que as respostas.

Na prática, o “Plano” de Zelensky não é um plano, mas sim uma lista de desejos já conhecidos que não tiveram do antecedente recetividade, mas que se espera poder concretizar recorrendo à insistência. Das muitas medidas, algumas sem sentido – assinar acordos para a extração de minérios com a UE e os EUA; utilizar soldados ucranianos para substituir os norte-americanos na defesa da Aliança – salientam-se, à cabeça, a adesão da Ucrânia à NATO e a utilização do armamento ocidental para atacar a profundidade estratégica da Federação da Rússia. Por outras palavras, levar a guerra para território da Rússia e fazer sentir à população russa a dor causada pela guerra, na esperança de conseguir com isso provocar uma revolta e a deposição de Putin.

A recetividade ao “Plano” pelos Aliados de Kiev não foi efusiva, nem a resposta foi consensual. No que respeita à adesão à NATO, os EUA, pela voz da sua embaixadora no Conselho do Atlântico Norte, deixaram claro que “não estamos [a NATO] numa fase em que a Aliança esteja a falar em convidar [a Ucrânia] no curto prazo”. A possibilidade da admissão rápida na Aliança foi descartada. Pelos motivos aduzidos em várias circunstâncias, esta possibilidade não é exequível. Para além da ausência de consenso no seio da NATO, os EUA não estão, nesta altura, para aí virados.

A Casa Branca afirmou não haver consenso entre os Aliados sobre o convite à Ucrânia e sobre o “plano” de Zelensky. Tanto o primeiro-ministro polaco como o chanceler alemão Olaf Scholz vieram manifestar o seu desacordo com alguns pontos-chave do “Plano” devido ao receio de uma nova escalada da guerra. Por seu lado, Budapeste apelou à NATO para que limite a sua intervenção aos “meios diplomáticos”. Não é o momento adequado para falar no assunto.

Sobre a atribuição de armas de longo alcance, o secretário da Defesa Lloyd Austin esclareceu que “a Ucrânia deve confiar nos seus drones de longo alcance em vez dos mísseis ocidentais.” De acordo com Lloyd Austin, o custo de um míssil guiado, em alguns casos, aproxima-se de 1 milhão de dólares, sugerindo que Kiev produzisse grandes quantidades de drones por serem menos onerosos. Contrariando as expetativas, Zelensky não mencionou no Parlamento ucraniano cedências territoriais para terminar a guerra, mesmo que provisórias. O seu discurso foi de intransigência, como se tivesse o mundo a seus pés.

França veio juntar-se à Holanda e à Dinamarca na lista dos países que autorizam a Ucrânia a empregar armamento por eles fornecido para atingir a profundidade estratégica da Rússia. Paris foi mais longe e voluntariou-se para apoiar o “plano de vitória” e ganhar o apoio de outros países para a proposta ucraniana.

Ao final de dois anos e meio de guerra, a fórmula do “deem-nos mais armas que nós resolvemos a guerra” está esgotada. Não funcionou no passado, muito menos funcionará no presente com a Federação da Rússia muito mais capaz militarmente. A insistência numa solução perdedora, reveladora da ausência de soluções, não parece ser a receita para a vitória, seja o que isso for.

Zelensky insiste de forma míope numa fórmula requentada convicto de que poderá derrotar as forças russas se receber mais apoio do Ocidente, como se o Ocidente fosse um poço sem fundo de recursos, esquecendo-se que do outro lado estão forças armadas capazes de lhe causar danos.

Não há soluções novas no “Plano” de Zelensky. Mediante a constatação, não assumida, que começa a grassar na sociedade ucraniana, da incapacidade de vencer militarmente a Rússia apenas com a ajuda externa, Kiev continua a procurar novos pretextos para envolver a NATO e/ou potências amigas na contenda, uma vez que os métodos utilizados até agora não produziram efeito. Apesar das forças russas já terem destruído armamento militar equivalente ao utilizado por dois exércitos, o grande problema ucraniano não reside na escassez de armamento.

A sua grande vulnerabilidade está na carência de recursos humanos, agravada pelo cada vez maior número de deserções e fugas ao serviço militar. “O Gabinete do Procurador-Geral ucraniano afirmou, em outubro, que se registaram cerca de 100 mil casos de deserção. Mais de metade este ano (2024), o que equivale a cerca de 10% de todo o pessoal das forças armadas.”

A ideia de incluir território russo como moeda de troca em futuras negociações parece gorada. A operação militar em Kursk está a revelar-se um revés com consequências políticas desastrosas. O desvio das melhores unidades, munições e armamento do Donbass para Kursk está a ter consequências muito nefastas para as hostes ucranianas, previsíveis para um observador atento.

A situação piora diariamente para Kiev. Isso tem sido notado pela comunicação social norte-americana e europeia, que já não o esconde. Referimo-nos ao moral das tropas, às operações de rapto de cidadãos na via pública disfarçadas de recrutamento para engrossar compulsivamente as fileiras, e à situação militar no terreno.

Reagindo ao cancelamento por Biden da reunião em Ramstein, onde Zelensky iria apresentar o seu “Plano”, não reagendada, e à ausência de convite para participar na reunião de Biden em Berlim com Scholz, Macron e Starmer, o ex-assessor do presidente ucraniano Leonid Kuchma, Oleg Soskin comentava: “Zelensky jogou a sua cartada em todos os palcos. O facto de Biden se ter recusado a reunir com ele… é um facto colossalmente sério. Assim, Zelensky já se tornou um absoluto perdedor em quem ninguém confia. Zelensky compreende que há pesos nas pernas e já tem dificuldade em andar.”

Em desespero, e na tentativa de envolver os seus patronos na guerra, Zelensky recorreu a duas novas linhas argumentativas: (1) soldados fantasmas norte-coreanos vão ajudar a Rússia a combater as tropas ucranianas em Kursk, o que justificará uma reciprocidade direta por parte dos seus patrocinadores e da NATO; (2) chantagem; ou adere à NATO, ou obtém armas nucleares. Perante o franzir de sobrancelhas nas chancelarias ocidentais, Zelensky corrigiu posteriormente o que disse.

Os dirigentes ucranianos parecem viver numa realidade paralela, desfasados do mundo: os aliados têm de colocar à sua disposição tudo o que lhes é pedido/exigido, mesmo com as dificuldades que enfrentam. Zelensky não vai conseguir ir para a mesa de negociações numa situação de força, ou mesmo de paridade. A sua posição negocial deteriora-se cada dia que passa, desde abril de 2022. Não têm a noção da correlação de forças. Apesar de se encontrar na mó de baixo, acha que vai ser ele a determinar os termos da solução.

Com a rejeição e consequente não implementação do seu “Plano de vitória”, Zelensky vai tentar transferir a responsabilidade pelos seus fracassos para a “incompetência” e traição dos seus patrocinadores. A responsabilidade pela derrota deve ser partilhada com o Ocidente. O alardear de propostas que sabe de antemão não serem exequíveis vai-lhe permitir sacudir a responsabilidade do capote, pelo menos alguma. Nas entrelinhas, começa a ser demasiado óbvio que Zelensly e o seu inner circle já não acreditam na vitória e vão ter de fazer cedências territoriais, apesar de não o admitirem publicamente.

O “Plano” serve, pelo menos, para isentar Zelensky e os seus acólitos de responsabilidade, preparando o terreno para o inevitável. Até lá, têm de teatralizar e transmitir uma força e um espírito indomáveis. Mas tiveram de ceder porque foram atraiçoados, apunhalados pelas costas pelo Ocidente. Afinal a culpa não foi deles. Será isto que dirão ao seu povo, no dia em que inevitavelmente lhe tiverem de dar as más notícias, e explicar porque é que os ucranianos andaram a morrer para afinal terem de ceder território, algo que poderia ter sido evitado, pelo menos na dimensão em que está a ocorrer.

Entretanto, os analistas vão imaginando possíveis configurações do que será a Ucrânia no pós conflito: duas Ucrânias, uma que adere à NATO e a outra que fica temporariamente sob domínio russo, solução tipo RFA e RDA; uma zona desmilitarizada ao estilo coreano, na atual linha de contacto, etc.

Mas, não se pode nem se deve excluir a possibilidade de Kiev optar por soluções que não equacionem o compromisso e considerem apenas a soma negativa, em que perdem(os) todos.

Embora a Ucrânia não tenha capacidade para construir uma arma nuclear, tem-na, para construir uma bomba suja e lançá-la em território russo. A retaliação russa seria nuclear. Interrogamo-nos qual seria a resposta norte-americana. A Rússia continua a dar sinais de intenções maximalistas, o que significa que a Ucrânia poderá perder muito mais do que os analistas pró-Kiev se permitem imaginar.