Jubileu da Velha Ordem — Desce o pano em Buckingham

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 04/06/2022)

Na política não há acasos. Os acontecimentos têm uma finalidade. Os ingleses são mestres na encenação dos poderes e na transmissão da mensagem dos poderosos aos súbitos. A Royal Family inglesa é uma montra de manequins de plástico devidamente aparelhados para transmitirem uma imagem de segurança ao povo. (Podiam estar nos armazéns de Oxford Street ou no Harrods — este de má memória, dadas as liberalidades de princesa Diana, dita do povo, com o filho do dono).

O terceiro Jubileu do reinado da Rainha Isabel II foi encenado como um grande espetáculo do West End para acalmar as turbas das ilhas britânicas num tempo de grande incerteza e de ameaças de tempestade, o Brexit, a crise económica, um primeiro-ministro apalhaçado e sem tino, a sujeição de vassalagem sem dignidade aos Estados Unidos, agora a guerra na Ucrânia, as ameaças de sessão da Irlanda do Norte e da Escócia, o desemprego, criaram o amargo caldo de decadência que está a ser servido aos britânicos.

Mas há uma geração de ingleses e de europeus para quem Londres foi uma lufada de ar fresco cultural e um espaço de liberdade individual e coletiva. Anos 60: A Londres do Soho e de Carnaby Street, a Londres dos musicais, do Cats, por exemplo, dos bares e das caves, a Londres da Twiggy da mini- saia, a Londres e a Inglaterra dos Beatles e dos Monty Phiton, a Londres dos Hara Krishna.

Essa Londres e essa Inglaterra desapareceram às mãos de Margareth Tatcher, de Blair, de Cameron. A fotografia da varanda de Buckingham do terceiro jubileu do reinado de Isabel II podia servir de anúncio a uma troupe de circo, com os domadores de dólmenes vermelhos e faixas azuis, as partenaires de chapéu à banda. Faltará, talvez, o som de bombos e gaitas de foles, mas a fotografia é muda. Houve, ao que se sabe, disparos de pólvora seca dos artilheiros de sua majestade.

O friso que surge na varanda de Buckingham, transposto em breve para o museu de cera de Madame Tussauds, têm, no entanto, outra leitura, que se percebe nas entrevistas que os repórteres de televisão enviados para cobrir o espetáculo fazem aos ingleses: “Esta malta da varanda, com a nossa querida rainha à frente, é o que nos resta do nosso passado e é o único ponto de luz na escuridão do futuro. Estão a dar as últimas e viemos despedir-nos!”

Este Jubileu foi a representação de uma grandeza passada e que todos sabem não ser ressuscitável, foi uma ilusão idêntica à das reconstituições históricas com carros alegóricos e personagens mascaradas. Foi um apelo à reunião do grupo — dos ingleses — em torno da velha ordem e dos seus próceres.

O funeral da rainha será outro momento de toque a reunir, mas marcará o início de uma nova época. Estes “manequins na varanda” não mais serão levados a sério. Serão um empecilho.

Julgo que em Inglaterra existe um sentimento de dias do fim de uma época e que por isso houve tanta emoção e participação popular no último jubileu.

O Teatro-Circo de Buckingham vai entrar em decadência acelerada, os domadores de dólmen vermelho vão sair de cena com as suas senhoras de fatos cintilantes. Numa das fotos vê-se uma criança a chorar e com as mãos nos ouvidos: É o futuro, e por esse gesto foi repreendido. Há que manter as aparências até ao fim!


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A Moral e o Petróleo — Nova Vida com Elegância

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 01/06/2022)

As sanções ao petróleo e ao gás da Rússia têm sido apresentadas pelos seus defensores como tendo uma base moral. Somos povos de bem, dizem-nos de Bruxelas e de Washington. A Rússia é uma ditadura, não respeita os direitos humanos, e invadiu um estado soberano.

O que vale para a Rússia, devia valer, se fosse verdade que as sanções são por motivos morais, para os outros grandes produtores de petróleo e gás mundiais. É aqui que a moral começa a abrir fissuras de hipocrisia.

Os 15 maiores produtores de petróleo são (Wikipedia):

1 EUA 13.55%

2 Rússia 11.67%

3 Arábia Saudita (OPEP) 10.23%

4 Canadá 4.96%

5 Iraque (OPEP) 4.59%

6 China 3.97%

7 Irã (OPEP) 3.90%

8 Brasil 3.02%

9 Emirados Árabes Unidos (OPEP)3.01%

10 Kuwait (OPEP) 2.78%

11 México 2.29%

12 Noruega 2.02%

13 Venezuela (OPEP) 2.02%

14 Angola (OPEP) 1.68% 2017

15 Cazaquistão 1.64%

Os 10 países com maiores reservas de gás: (Wikimedia Commons)

1 — Rússia 21,4%

2 — Irão 15,9%

3 — Catar 12%

4 — Turquemenistão 11,7%

5 — Estados Unidos 4,1%

6 — Arábia Saudita 3,9%

7 — Emirados Árabes 2,9%

8 — Venezuela 2,7%

9 — Nigéria 2,5%

10 — Argélia 2,2%

Em resumo, e sem introduzir critérios de custos de produção, transporte e ambientais, para comprar petróleo a fornecedores moralmente aceitáveis temos os EUA (embora com um currículo como estado invasor bem mais preenchido que o da Rússia, por exemplo, mas são os nossos senhorios), o Canadá, o Brasil, o México, a Noruega e Angola. Isto é, no máximo e com boa vontade democrática, 27,5% da produção. O resto são ditaduras, estados invasores, estados párias. Para comprar gás a situação moral ainda se agrava. Apenas os Estados Unidos (com a boa vontade de esquecer as invasões, os golpes sujos e os embargos) são moralmente aceitáveis. Representam 4,1% das reservas. O resto é gás perverso e moralmente abjeto.

Para termos petróleo e gás passamos nós, os bons, a admitir ditaduras boas e ditaduras más, invasões boas e invasões más? Dinheiro bom e dinheiro mau? Gasolina boa e gasolina má? Ou assumimos as consequências dos nossos firmes princípios morais?

Quem sai melhor nesta amoralidade política são os chineses, os maiores ciclistas mundiais até há poucos anos, os japoneses que continuam a comer alimentos crus e não necessitam de gás, ou os indianos, que usam como combustível a bosta das vacas, ou os pigmeus africanos que comem insetos e são de baixo consumo, ou os esquimós que pescam focas à linha num buraco de gelo.

A União Europeia e os Estados Unidos, faróis da moralidade política, mas gordos e luzidios de hamburgueres e pizzas, a acreditar nas proclamações dos seus virtuosos próceres, vão regressar aos veleiros, à trotineta e à dieta vegetariana? Vamos voltar a recolher bagas e amoras? A roer castanhas?

Se sim, vamos ficar elegantes, musculados e bronzeados! Exatamente como nos folhetos da publicidade.


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Hanôver — a cerimónia da despedida

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 30/05/2022)

Wrap up — as reuniões (os meetings) da Europa terminam habitualmente com uma cerimónia de despedida — uns copos, umas tapas e umas palavras de circunstância — que se designa wrap up.

António Costa vai à Hannover Messe a maior feira de tecnologia industrial do mundo, em que que Portugal será, pela primeira vez, país parceiro. Não é difícil ser suficientemente realista para considerar que vai a uma wrap up pelo papel que a Alemanha desempenhou na Europa e no mundo após o final da Segunda Guerra.

A Feira de Hanôver realiza-se desde o fim da II Guerra Mundial e a sua importância acompanhou o papel da Alemanha como locomotiva europeia e grande potência industrial. Este papel deve-se a condições de organização interna da Alemanha (RFA e depois unificada), à opção pela indústria pesada e pelos produtos de alto valor acrescentado, mas também à sua localização geográfica, no centro da Europa, fazendo de placa giratória entre a Europa Ocidental e a Oriental.

A Europa do pós-guerra assentou numa parceria franco-alemã. Em que, de forma muito simples, a Alemanha fazia de formiga e a França de cigarra. Após o fim da Guerra Fria a Alemanha também tomou os novos países “democráticos” do Leste a seu cargo, em particular a Polónia. Em parte o sucesso e o vigor da Alemanha deve-se a uma relação de mútuas vantagens com a Rússia, que fornecia a energia para a Alemanha a baixo custo e também matérias-primas essenciais, materiais ferrosos e cereais. A Alemanha é (era) o maior parceiro da UE com a Rússia (o maior investidor), a Rússia fornecia 41% do gás e 34% do petróleo. O novo gasoduto Nordstream permitiria a Alemanha importar gás da Rússia sem passar pela Ucrânia, nem pela Polónia, nem pelos Estados Bálticos (curiosamente os mais agressivos contra a Rússia).

A guerra da Ucrânia destruiu esta estratégia alemã e russa de criar um novo espaço económico e político no centro da Europa, entre a China e os Estados Unidos. Só motivos exteriores muito fortes podem justificar a intervenção — a invasão — da Rússia na Ucrânia e a morte no ovo desta nova entidade. Esta guerra só aproveita aos Estados Unidos e, por tabela, à China. Cherchez la femme.

A Ucrânia, os ucranianos, estão a pagar com a sua própria destruição a destruição da Alemanha e até da França — o eixo franco-alemão que foi o pilar da EU — como atores relevantes no mundo no médio-prazo. Os oligarcas ucranianos e a sua marioneta serviram e estão a servir de quinta coluna para entregarem a soberania do seu povo e do seu território. A intensidade da campanha de manipulação na comunicação social a que assistimos revela a dimensão do logro de que a invasão da Ucrânia resultou de um espasmo do maldito Putin a que os ucranianos estão a resistir heroicamente! (Estão a ser sacrificados!)

Esta Feira de Hanôver como a maior feira industrial mundial será, infelizmente e com elevada probabilidade, uma das últimas, isto porque a Alemanha, sem energia barata, ameaçada a Este e Oeste, vai deixar de ser o dínamo que produzia riqueza para a Europa, vai deixar de ser competitiva com a China ou com a Índia. O afundamento da Alemanha arrastará o da França e o de toda a Europa Ocidental, Itália incluída. A destruição do modo de viver europeu (o estado de bem-estar) causará inevitáveis convulsões sociais em toda a Europa.

Não deixa de ser surpreendente que os mesmos políticos que se deslocam a Hanôver de sorrisos de orelha a orelha e os empresários que os acompanham sejam os mesmos que estão a destruir (ou já destruíram) as bases em que assentou a elevação de Hanôver a maior feira industrial do mundo. Portugal foi convidado para a cerimónia que nas celebrações europeias se designa como wrap up, a da despedida. Presumo que para a próxima será convidada a Polónia… o novo estado vassalo dos EUA na região.


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