Cegueira Deliberada

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/03/2025)


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Está a decorrer uma alteração radical da estratégia americana para a redefinição dos centros de poder mundial que estava em vigor desde os anos 80 do século passado. Esta estratégia foi gizada por Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos durante a presidência de Jimmy Carter, entre 1977 e 1981 e que ele publicou numa uma obra hoje clássica: «Grand Chessboard — American Primacy and Its Geostrategic Imperatives», que marcou a estratégia americana até à administração Biden.

Esta estratégia assentava no conceito de hegemonia americana, no cerco ofensivo contra a URSS, o inimigo principal e na importância decisiva do que ele designou «Eurásia» e que corresponde grosso modo à Ucrânia. Para o desenvolvimento dessa estratégia os EUA necessitavam da Europa como base de retaguarda ou de ataque.

A nova administração Trump abandonou esta conceção do mundo típica da Guerra Fria, e passou a definir a sua estratégia de acordo com as novas realidades fruto da emergência de novos poderes e da decadência de outras, da globalização das tecnologias de ponta e do seu desenvolvimento exponencial e da disputa pelas zonas das matérias primais de alto valor. Neste redesenho, que está a ocorrer, a Ucrânia é uma peça do xadrez que perdeu o valor que lhe tinha vindo a ser atribuído, tal como a Europa.

Perante as transformações, os dirigentes europeus e os seus produtores e distribuidores de opinião encontraram-se (e encontram-se) na situação dos cães abandonados pelos caçadores após o final da época de caça e que vagueiam perdidos, reunindo-se em alcateias que procuram sobreviver. Continuam no passado. A esta atitude de recusa de “ler” uma situação nova foi dado o nome de teoria da cegueira deliberada, importada do direito anglo-saxónico da Common Law, da Inglaterra e dos Estados Unidos da América. A teoria serve como fundamento para explicar a atitude dos que se colocam em situação de ignorância com a finalidade de obter uma vantagem ou para a manter.

A utilização da teoria da cegueira deliberada para analisar as atitudes, decisões e até comportamentos erráticos por parte de políticos e de produtores de opinião coloca a velha questão do conflito entre a ética e a ciência.

Os produtores europeus de opinião — titulados nos rodapés dos ecrãs das TV como especialistas em ciência política, estratégia, relações internacionais, defesa, refletem o atarantamento dos políticos, que abdicaram da ética na sua ação política e recusam a analisar a realidade segundo princípios de rigor científico.

O rigor científico conduz ao respeito pelas causas do conflito, as longínquas, com origem nos objetivos estratégicos dos Estados Unidos dos anos 80 de utilizar a Ucrânia como base de ataque e como ameaça à Rússia, recuperando o seu papel histórico de corredor ou eixo para atingir Moscovo, de, através da Ucrânia, provocar a intervenção da Rússia numa guerra com o objetivo de a “sangrar”. Como causa próxima os Estados Unidos utilizaram grupos nacionalistas/nazis contra as populações russófobas do Donbass e o clássico processo de desestabilização política que culminou com os incidentes da Praça Maidan (2014) e a substituição do presidente Yanukovich, que por sua vez motivou a ocupação da Crimeia pela Rússia. A história e os processos são conhecidos.

Desde os anos 80 à administração Biden, durante quarenta anos, os dirigentes europeus adotaram a estratégia dos Estados Unidos e serviram de seus agentes auxiliares. Os seus produtores de opinião adaptaram a narrativa da guerra fria do perigo russo, da invasão russa e de a Europa ser uma pedra essencial ao objetivo dos Estados Unidos de vencerem a Rússia colocando-lhe bases de misseis na sua fronteira.

A estratégia de Trump derrubou as pedras que durante quarenta anos americanos e europeus haviam colocado no seu tabuleiro de jogo de poder. Para Trump o primeiro objetivo estratégico é fortalecer a economia americana, ganhar músculo, re-industrializar, competir pelas tecnologias de ponta e ganhar essa competição à China. A Europa é, nas palavras de Trump, um sugador, um parasita que compra pouco aos EUA e lhes vende muito e caro e que, em termos estratégicos é completamente dependente, um custo. Na perspectiva dos estrategas de Trump, a Ucrânia é uma inutilidade como elemento de interesse militar e tem valor apenas como fonte de matérias-primas. Para a administração Trump a Europa é um perturbador da sua estratégia: alguns dos seus dirigentes mais excitados pretendem ter um papel e podem tomar decisões que os EUA não controlam. São os/as irresponsáveis que podem atirar uma pedra e partir uma vidraça.

Para a Rússia o valor da Ucrânia aumenta de dia para dia e tanto mais quanto a Rússia não se mexer e deixar as despesas de resolução aos EUA. Nem aos EUA nem à Rússia interessa uma Ucrânia armada, soberana, de território inviolável, membro de duas organizações desconsideradas pela Rússia e pelos EUA, a U E e a NATO, porque para ambos nenhum regime ucraniano merece confiança e é fiável.

O regime pós Zelenski será uma união da fações corruptas que conduziram a Ucrânia à guerra, e será um sorvedouro de fundos e um promotor de conflitualidade que é sempre má para os negócios. Resta o rearmamento da Europa à voz de vêm ai os russos que enfraquecerá a Europa, porque nem os russos estão interessados em atacar este “asilo”, nem a Europa mesmo com armamentos e fardamentos novos chegará a Moscovo e ultrapassará o campo de minas da Ucrânia. O rearmamento da Europa, ao enfraquecê-la no que ela tem de específico, o estado social, é vantajoso tanto para os EUA como para a Rússia. Os dirigentes da U E andam excitadíssimos com estes tiros nos pés!

Os russos conhecem a história dos rearmamentos da Europa. Significa rearmamento da Alemanha, rearmamento da França e desenvolvimento da Armada Britânica. O rearmamento da Europa deu sempre origem a uma guerra civil europeia. A versão ano dois mil do rearmamento da Europa resultará em aumento das despesas militares, diminuição dos apoios sociais, descontentamento, enfraquecimento da já frágil identidade europeia, que deixará de ser um anão militar para passar a ser um anão económico e social.

A saída clássica do dilema entre a resposta à conflitualidade social e a utilização da força armada onde os europeus foram, ou vão ser obrigados a injetar 800 mil milhões é: vamos para a guerra! Foi assim na Grande Guerra e na II Guerra. Resta saber se essa guerra será entre a Alemanha e a França, porque estas duas potências são mais para se guerrear do que para se aliar.

Numa pequena nota: Em tempo de conflito, a Europa, mesmo em economia de guerra, não tem possibilidade de repor em tempo útil as perdas do seu potencial de combate numa guerra de atrito com a Rússia. A dificuldade de substituição de stocks é uma das lições da guerra da Ucrânia.

Penso ter sido Karl Popper que disse que os dirigentes políticos e os seus pregadores tratam os cidadãos como “Baldes mentais”. Isto para não dizer outra coisa. Não acredito na cegueira deliberada dos funcionários superiores de Bruxelas, os da UE e os da NATO.

Defesa da Europa e o Dom Quixote de La Mancha

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/03/2025)


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“Precisamos de uma mentalidade de defesa europeia a todos os níveis na Europa”, disse António Costa durante a 164.ª sessão plenária do Comité das Regiões Europeu.

António Costa repetiu o “mantra” da Europa ameaçada pela Rússia para justificar as colossais despesas em material de guerra previstas para os próximos anos e que, na verdade, servem para compensar a perda de lucros dos grandes grupos resultantes da perda de competitividade dos produtos europeus no mercado mundial, resultante em boa parte da política de substituição da energia barata importada da Rússia pela energia cara dos EUA, e da perda de mercados do antigo Terceiro Mundo para a China.

“A guerra da Rússia contra a Ucrânia tem sido um ato de agressão, causando sofrimento humanitário. Mas também ameaçador para a segurança europeia”, alertou, ao defender que “nada sobre a guerra contra a Ucrânia pode ser decidido sem a Ucrânia” e que é necessário “intensificar os esforços para construir uma Europa da Defesa”, acrescentou.

António Costa considerou que é necessária a “confiança dos cidadãos” na capacidade de a Europa os defender. Mas defender de quem?

Este mantra assenta num conjunto de sofismas — isto é, de deturpações grosseiras. O primeiro é o da ameaça russa. A Rússia nunca atacou a Europa, e Europa é um conceito muito plástico e utilizado segundo as conveniências do pregador. A Rússia faz parte da Europa e da sua história e esteve envolvida nos conflitos europeus como todas as outras potências, da Suécia aos império austro-húngaro, e franco-prussiano, da França à Espanha e à Polónia.

A nova Europa é uma entidade criada pelos dirigentes europeus perdidos entre o final da administração Biden e o início da administração Trump e que ficaram na situação das moscas que caíram numa mancha de óleo se agitam muito sem sair do mesmo sitio. Esta Europa sem formas definidas é Bruxelas e é um produto dos funcionários de Bruxelasque andam em palpos de aranha para justificarem a existência e, mais difícil ainda, a sua utilidade.

Em desespero de perdas, a oligarquia europeia recorreu à velha solução da guerra e dos armamentos e colocou os seus agentes nos mais altos cargos da União Europeia a vender a ideia da invasão russa, da reconversão das fábricas de automóveis em tanks e das de latas de conserva em cartuchos dos operários em soldados.

A ideia seria boa, se não obrigasse os europeus a comprar um pacote de burlas tão valiosas como garrafas de ar de Fátima e a assumirem serem mentecaptos ou peregrinos chegados a um santuário de realidade virtual. Em Dom Quixote de La Mancha, Cervantes antecipou este delírio de ver castelos em moinhos, legiões em procissões, mas não chegou à desfaçatez de impor o pagamento do Rocinante, nem da lança de combate!

Na realidade, a Rússia, após três anos de invasão da Ucrânia, avançou 200 quilómetros e segundo informações ocidentais está próxima de atingir o máximo de potencial militar sustentável pela sua economia. A distância de Kiev a Paris é de 2400 quilómetros. O que significa que a este ritmo a Rússia necessitaria de 36 anos para atingir o centro da Europa. É evidente que esta contabilidade apenas serve para realçar o absurdo do tipo de argumentos dos armamentistas.

A desonestidade dos dirigentes europeus revela-se no que omitem e manipulam: a Ucrânia deixou de ter interesse enquanto objetivo militar e económico. Para a Rússia não serve de corredor de ataque à “Europa”, como revelam as dificuldades em avançar, mas também não serve para a “Europa”, mesmo rearmada, invadir a Rússia e conseguir o que nem Napoleão nem Hitler conseguiram, como o falhado contra ataque ucraniano apesar do maciço apoio ocidental demonstrou. Economicamente, as matérias-primas, os terrenos valiosos e infraestruturas já foram negociados pelo Reino Unido e principalmente pelos EUA. A Rússia, pelo seu lado, possui em quantidade todas as matérias-primas existentes na Ucrânia e basta-lhe o controlo dos portos do Mar Negro. O saque da Ucrânia está negociado entre os EUA e a Rússia. Assistimos apenas a cenas de disfarce que permitam à Ucrânia e à nova Europa saírem de cena sem humilhação. O anúncio do rearmamento da Europa faz parte da comédia de enganos com que os dirigentes europeus estão a iludir os europeus. Acontece que é um caríssimo número de ilusionismo.

Também não se vislumbra o interesse da Rússia em “invadir” a nova Europa que não dispõe de matérias-primas, que é um anão nuclear, que não domina tecnologias exclusivas, caso da Inteligência Artificial, que não tem presença significa no espaço nem nas redes de informação e comunicação, que é vista pelo resto do mundo como uma antiga potência colonial, um anexo dos EUA ou um resto abandonado por estes, o que ainda é mais humilhante, o que ainda torna mais absurda a despesa em armamento para se defender de quem não vê vantagens na sua conquista, a Rússia, que compraria um saco de gatos historicamente causadores de perturbações locais e mundiais.

O rearmamento da Europa faz tanto sentido como comprar uma armadura e um arreio de prata para um burro velho e convencer os pagantes de que têm ali um cavalo de batalha que os defenderá de um inimigo imaginário. O Dom Quixote de La Mancha antecipou este cenário.

Rearmar a Europa. Heil.

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 05/03/2025)


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Rearmar significa voltar a uma situação anterior. O último armamento da Europa ocorreu nos anos 30 do século XX, conduzido pela Alemanha, com o objetivo de derrotar a União Soviética e custou 60 milhões de mortos, a derrota da Europa, a sua divisão em duas zonas de sujeição.

Quer isto dizer que a presidente da Comissão Europeia segue e repete os passos da sua Alemanha dos anos 30? Quer! Mais, quer dizer que ela se propõe hipotecar duas ou três gerações com o endividamento de 800 mil milhões de euros para o dito rearmamento e que o faz numa situação muito mais desfavorável do que a Alemanha o fez no século passado.

Nos anos 30 do século passado, a Alemanha dominava as mais avançadas tecnologias da época nas áreas da aeronáutica, da construção naval, da química, da metalurgia, estava prestes a utilizar armas propulsionadas por foguetões (as V1 e V2) e estava prestes a terminar o projeto de construção de armas nucleares (foram cientistas alemães que dirigiram o Projeto Manhattan).

Hoje a Europa que a warmonger Von Der Leyen quer rearmar está na cauda do desenvolvimento tecnológico — está 10 a 20 anos atrasada relativamente aos Estados Unidos, à Rússia e à China, não domina as tecnologias do aeroespacial, nunca colocou um satélite na Lua! Não dispõe de um sistema de geolocalização do tipo GPS, ou do sistema russo (glonass) ou chinês, indispensáveis à condução dos sistemas de armas, sem os quais, aviões, tanques, navios, até combatentes estão cegos no campo de batalha. A Europa não domina as tecnologias de deceção e mistificação que permitem a luta de drones. A Europa está na cauda da utilização militar da Inteligência Artificial. Os mais poderosos computadores (quanticos) são chineses e americanos! A Europa não dispõe de um sistema de partilha de informação do tipo da internet. Está na cauda da utilização de computação quântica que dentro de dez anos dominará os sistemas de armas e de comando e controlo. A Europa de Von Der Leyen aceitou transferir as informações geradas nas redes europeias para os arquivos de dados nos Estados Unidos e à disposição das suas agências!

A Europa, sob a direção das mentes raríssimas de Bruxelas, vai reiniciar o rearmamento no momento em que as superpotências (o que Europa não é) dispõem de mais de 10 anos de avanço, o que quer dizer que, como o desenvolvimento das tecnologias é exponencial, daqui a dez anos o atraso da Europa será maior do que é hoje! Que foi o que ocorreu quando a Europa decidiu desenvolver o seu sistema de navegação Galileu (apenas para uso civil), quando o GPS americana (militar) já estava plenamente operacional.

O rearmamento da Europa prova que a ideologia que conduziu à II Guerra Mundial continua no posto de comando, que há sempre um Reich a determinar o impulso da Alemanha para o confronto com a Rússia e com isso arrastar o resto da Europa para o grande desastre, para uma situação pior do que a anterior!

O objetivo permanente da Alemanha é tornar-se o centro da Europa, o que quer dizer, dominar a Europa das penínsulas — Escandinávia, Ibérica e Itálica — a Europa central — França, Países Baixos — a Europa de Leste, até Moscovo.

É para atingir este objetivo — que vem de Bismark — que Von Der Leyen quer arrastar os europeus com as afirmações vazias de sentido e de explicação de que a Europa tem de se defender: Mas tem de se defender de quê e de quem? Qual é a ameaça que a Europa representa para as superpotências? Que valor tem a Europa para as superpotências, para que a Rússia, o estado com maior superfície no planeta, que dispõe de matérias primas em abundância, tecnologia para as transformar em produtos de alto valor, e baixa demografia invadir a Europa, envelhecida e sem matérias primas nem energia? Que valor tem a Europa para os Estados Unidos, que na estratégia da administração Trump pretende fortalecer o seu aparelho industrial interno para competir com a China e prioriza uma aliança oportunista com a Rússia para atacar a Europa, sendo certo que já avisou que poderá integrar a Groenlândia e o Canadá? Porque haveria os Estados Unidos alimentar um cão velho e dar-lhe proteção para ele realizar os seus velhos sonhos?

O outro argumento, de Von Der Leyen é do mesmo tipo do de Trump: Temos de defender os nossos valores, fazer a Europa Grande Outra vez. Mas quais são os valores da Europa apregoados em vazio por Von Der Leyen? Os do colonialismo que levou a Alemanha reunir a Conferência de Berlim? Os do nazismo e do fascismo? O da entrega da liberdade de informação aos oligarcas do regime (veja-se quem detém os grandes meios de comunicação de Portugal à Alemanha, da França à Polónia). Quem paga aos partidos políticos? Quais os valores que defende o Grupo de Bieldberg? E as universidades, as Business Schools, de onde saem os pregadores do neoliberalismo e da lei da selva do mais forte?

O rearmamento da Europa é um logro perigosíssimo, caríssimo e inútil (exceto para as oligarquias associadas às industrias de armamento) contra o qual os cidadãos europeus se devem levantar, exigindo referendos.