Sagrada Eurovisão da Canção

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 02/03/2018)

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Sempre pensei que o festival seria uma oportunidade para, por exemplo, as Testemunhas de Jeová concorrerem com uma canção. Seria uma hipótese para poderem passar a mensagem sem que alguém lhes feche a porta na cara.


Diogo Piçarra desistiu do Festival da Canção depois da suspeita de plágio de uma música da IURD (que, afinal, parece que não é bem da IURD). O que me faz confusão é que a IURD teve a oportunidade de pôr um cântico seu no Festival Eurovisão da Canção e ganhar milhares de seguidores e deitou tudo borda fora. Devem estar fartos de crianças.

Por acaso, sempre pensei que o festival seria uma boa oportunidade para, por exemplo, as Testemunhas de Jeová concorrerem com uma canção. Seria uma das poucas hipóteses para poderem passar a mensagem sem que alguém lhes feche a porta na cara.

Para mim, o Festival Eurovisão da Canção sempre foi uma coisa à qual eu teria vergonha de levar os meus filhos. É uma feira dos enchidos da música. O Festival da Eurovisão sempre foi uma bodega, mas oficialmente acabou quando inventaram as cotonetes.

Em minha casa, não se falava de Festival da Canção enquanto os miúdos estavam acordados. E nomes como Capitão Duarte Mendes, “Neste Barco à Vela”, dos Nevada, ou Tó Cruz e “Baunilha e Chocolate” eram ditos em código. Respectivamente, o – 28, 39 e o 3100 – a chave do código tinha por base a classificação obtida na Eurovisão.

Foram anos da habitual humilhação: Portugal ficava nos três últimos lugares e só o júri francês votava em nós, demonstrando que, afinal, os nossos emigrantes não estavam em França apenas a trabalhar nas obras e a lavar escadas. Alguns, com menos escolaridade, andavam lá fora como júris do Festival Eurovisão da Canção.

Durante muito tempo, a nossa participação resumia-se a enviar todos os anos um fado, ou semifado, sempre acompanhado de letras com caravelas e mar. Cheguei a pensar que um dia enviariam ao festival a Torre de Belém acompanhada à viola. Percebam uma coisa: ser Património Imaterial da Humanidade em termos musicais não significa muito e não dá votos. Lá porque o Douro Vinhateiro é Património Mundial da Unesco, ninguém se vai lembrar de inscrevê-lo nos ídolos.

De repente, os portugueses começaram a ligar ao Festival Eurovisão da Canção. A culpa é em grande parte, ou toda, do Salvador Sobral que, ao vencer no ano passado, deu cabo do saudável desprezo que tínhamos por aquilo.

No ano passado, aconteceu um milagre e vencemos a Eurovisão. Confesso que nunca imaginei. Até porque, desde a queda do Muro de Berlim, a competição passou a ser mais um jogo do risco do que um festival de música. É só estratégia e os votos são dados em função da letra da música e do equilíbrio geopolítico. Os votos variam entre a xenofobia e o bairrismo. Muitos países votam exactamente da mesma forma que votaram no ano anterior. Tanto faz, são países vizinhos ou alianças estratégicas, e eles votam nesses mesmo que, em vez de música, enviam um papa-formigas a bater chapa em calções.

Percebo que ter vencido a Eurovisão, de certa forma, nos obrigue a ser mais rigorosos nas escolhas das músicas que enviamos: queremos ficar bem vistos, mas não queremos vencer outra vez porque não temos dinheiro para organizar tudo de novo. Temos de escolher entre o sucesso no festival ou o regresso da troika. Pensem nisso.


TOP-5

Faz-me um plágio

1. Paula Teixeira da Cruz disse à Sábado que Passos Coelho também dará um bom candidato a Presidente da República – não disse de que país seria. Esperemos que não seja do nosso.

2. José Eduardo Martins quer ser candidato à CML nas próximas eleições – o problema de José Eduardo Martins é que sempre que começa a falar parece um “sketch” dos Gato Fedorento.

3. Polícia Judiciária deteve astrólogo suspeito de burla – vamos jogar ao “detecte o pleonasmo”.

4. Ontem comemorou-se o Dia Internacional da Protecção Civil – mas o SIRESP esqueceu-se de ligar a dar os parabéns.

5. Miguel Esteves Cardoso e Bruno Nogueira vão publicar livro baseado no programa “Fugiram de casa de seus pais” – espero que a Fernanda Câncio não proíba este livro.

Passaram ainda além da Traquitana

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 23/02/2018)

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Tudo leva a concluir que o PSD é um partido aos pedaços. (…) Se alcunharam o actual Governo de Geringonça, o mínimo é dar o nome de Traquitana a este PSD.


O PSD pós-congresso não é um saco de gatos, é um ninho de vespas aziadas. Dos apupos à ex-braço-direito de Marinho Pinto, agora vice-presidente do PSD, passando pela voz não tão grossa, mas grosseira, de Montenegro – que afirmou no congresso: “Não deixe que o PSD se transforme no grupo de amigos de Rui Rio ou na agremiação dos amigos de Rui Rio”, enquanto se preparava para formar um PSD de inimigos de Rui Rio – até à falta de Hugo Soares a uma reunião da Comissão Política, justificada por Rio e absolutamente injustificável segundo o ainda líder da bancada parlamentar, tudo leva a concluir que o PSD é um partido aos pedaços. Se a chamada Geringonça tivesse um dia assim, seria o fim. Se alcunharam o actual Governo de Geringonça, o mínimo é dar o nome de Traquitana a este PSD.

Enquanto Rui Rio se reúne duas horas e meia com António Costa para iniciar uma espécie de diálogo educado, a vice-presidente diz, em entrevista à SIC Notícias, que o actual Governo lhe “repugna por ser de esquerda”. Deduzimos que Rio terá ido para a reunião com Costa munido de um daqueles sacos para vomitar que há nos aviões. Sendo esta crónica sobre o Congresso do PSD, não poderia deixar de recordar Sá Carneiro. Esta frase da ex-bastonária da Ordem dos Advogados faria Sá Carneiro dar voltas no caixão; o que seria terrível porque poderia dar origem a mais uma comissão de inquérito ao caso Camarate. Penso que o próprio Passos não chegaria tão longe. Ou seja, Elina foi além do Passos, proeza difícil se relembrarmos que o primeiro foi além da troika.

Escrevo esta crónica na noite de quarta-feira, na verdade já é quinta e, para bem de Rui Rio, suponho que quando o estimado e esbelto leitor estiver a ler, já Fernando Mimoso Negrão será o novo líder parlamentar do PSD. Não quero fazer trocadilhos com o apelido do recém-eleito, mas sempre achei que dava um excelente nome para actor de filmes porno. Dá jeito porque vai ser esse o ambiente na bancada que vai gerir.

Acrescentando a tudo isto, que descrevi nas linhas anteriores, Santana Lopes, que no Congresso foi quem protegeu Rui Rio como se fosse o seu bebé, talvez por solidariedade ao que teve de passar enquanto ainda estava na incubadora, veio avisar, e cito, não vão pensar que sou eu que uso uma linguagem popular: “Se Rio disser que vai para um Governo do PS, temos o caldo entornado.” Santana, desta vez, não anda por aí, está aqui, em cima de Rio.

Entretanto, o denominado, com algum exagero, líder do PSD aparece sorridente na televisão, fazendo um sorriso às polémicas, e afirma: “Vai haver mais histórias. Cá estou para elas. É disso que eu gosto.” Espero que Rui Rio não seja daquelas pessoas piegas que gosta de histórias com um final feliz.


TOP 5

Partido aos pedaços

1. Carrilho paga €2.400 para evitar prisão devido a agressões a pedopsiquiatra – Freud explica.

2. O Parlamento discutiu na quarta-feira uma resolução do PCP que apela à desvinculação do acordo ortográfico – O Jerónimo escreve segundo o português antigo e pensa segundo um português ainda mais arcaico.

3. Segundo a ciência, o sol deixa-nos mais felizes – Até descobrires que tens um melanoma.

4. Rui Rangel recebeu 270 depósitos em notas – Este Jacinto Leite Capelo Rego é um gastador.

5. Censurada na ARCO obra sobre “presos políticos” em Espanha – Só o facto de “presos políticos” estar entre aspas já é uma forma de censura.

Um carro no espaço

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 09/02/2018)

Spaceman-Musk

A SpaceX, do multimilionário Elon Musk, lançou com sucesso o Falcon Heavy, o foguetão mais poderoso do mundo. A bordo vai um carro eléctrico da Tesla, com um manequim vestido de astronauta ao volante. Como vai com o braço de fora da janela do carro, julgo que o manequim foi feito em Portugal.

Foi necessária uma propulsão equivalente a 18 aviões Boeing 747 para pôr o foguetão no espaço. Se uma das razões desta viagem era uma campanha publicitária para o uso da energia limpa do carro eléctrico da Tesla, precisam de vender milhares de carros eléctricos só para compensar o que queimaram em combustível na viagem.

Importa referir que, antes de ter entrado nesta missão a Marte, o Tesla foi testado em ambientes extremos e no acesso ao parque de estacionamento do Corte Inglés. Já estou a imaginar o anúncio: “Vende-se Tesla impecável em segunda mão com 115 milhões de quilómetros.”; “Já fui a Marte com isto e não me deu chatices nenhumas.”

A fotografia do astronauta no descapotável com a Terra como fundo vai ser usada em milhares de piadas, montagens e palestras de motivação para as pessoas que têm de dar voltas e mais voltas para conseguir estacionar em Lisboa.

Até agora, a missão correu bem, mas para ter a certeza de que não havia perigo o Elon devia ter contratado a minha mãe. Sentavam-na na cadeira ao lado do manequim que está no volante do carro e ela faria aquilo que costuma fazer quando viaja comigo: “Vais muito depressa. Não vás tão depressa. Já vais a sessenta. Aquilo ali é uma curva, pareces um doido a guiar. ”

Estamos perante um momento histórico da conquista do espaço. Marte vai ser a grande obsessão e o destino do Homem nos próximos 20 anos. Em Marte, estão cerca de oitenta graus negativos, imaginem o que isto não daria em reportagens sobre o frio nos noticiários das nossas televisões. Elon Musk anunciou, em Setembro de 2016, que vai levar os primeiros 100 humanos a Marte em 2022 e que, até ao ano 2060, vai haver um milhão de pessoas a viver no Planeta Vermelho. Sinceramente, Marte, pelo que me apercebi das fotos do Curiosity, é um sítio sem interesse nenhum. Tem uma padaria portuguesa e pouco mais. Faz lembrar a minha viagem de finalistas ao Egipto, um dia inteiro a ver calhaus.

Importa também dizer que um ano em Marte tem 687 dias. Tenho a certeza de que, apesar de um ano em Marte ter 687 dias, acabávamos na mesma a comprar as prendas de Natal na véspera. Resta acrescentar que os dias têm 24,6 horas. Ou seja, 38 minutos a mais de um dia na Terra. Aposto que isto iria dar problemas com os sindicatos e a Autoeuropa.


TOP-5

Planeta vermelho

1. O Banco de Portugal não divulgou os dados relativos à falência da Rioforte, sociedade do universo não financeiro do Grupo Espírito Santo. – Aposto que foi falhanço do SIRESP.

2. Bitcoin acentua queda e Draghi avisa para riscos – A bitcoin e a pulseira Tucson das moedas.

3. Kim Yo-Jong, irmã do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, vai participar na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, que se realizam em Pyeongchang. – Ui, vejam lá que ele tem a mania de matar familiares. Pode ter o plano de lançar um míssil e juntar o útil ao agradável.

4. Lobo Antunes revelou ter sido assediado, por um professor de Moral, no Liceu Camões. – Posso estar a ser injusto, mas isto cheira-me a campanha publicitária da Memofante.

5. Segundo uma investigação da SIC, o Banco de Portugal escondeu um buraco de 954 milhões da Rioforte. – Está na altura de deixar de chamar Banco de Portugal ao Banco de Portugal. Chamem-lhe o que quiserem, mas não é para nós que eles estão a trabalhar.