Um Governo desesperado em busca da “subversão”

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 29/10/2026)

Cara leitora, caro leitor

O leitor quer uma subversão? Não quer, pois não? A esmagadora maioria das pessoas, nomeadamente quem se tem manifestado nas praças pelo direito à habitação, também não quer as suas cidades a ferro e fogo.

Quem viu a manifestação em frente à Assembleia da República percebeu que ninguém queria subversão nenhuma e se a “extrema-esquerda” valesse aquilo estaria representada com certeza na Assembleia da República a ocupar muitos gabinetes e cadeiras na sala do plenário.

O que sabemos é que o Governo quer a subversão. Está empenhado nisso, com a ajuda de algumas pessoas que não estão no Governo, de comentadores variados e de alguns militantes do PS agora úteis para engordarem a narrativa da subversão e que passaram a viver mentalmente no PREC.

Mário Soares, neste momento, saberia onde deveria estar. Sempre soube. Esteve contra a Terceira Via de Tony Blair (prevendo com muita antecedência a miséria que iria acontecer aos partidos socialistas na Europa) e esteve contra as políticas da troika que tratou a crise financeira como uma forma de humilhação dos países mais frágeis.

Se fosse vivo, Mário Soares teria saído da sede da sua fundação, mesmo em frente à Assembleia da República, e aparecia a saudar os manifestantes. Conheci muito bem Mário Soares para saber que era exactamente isso que ele faria. Quem o conheceu de perto sabe isto perfeitamente.

No estado em que as sondagens colocam o PSD, uma subversãozinha vinha a calhar. Se houver subversão, o Governo cumpre o papel da “ordem” e o povo vai, agradecido, dizer aos estudiosos de opinião que vai votar PSD nas próximas eleições.

Esta é a única explicação com o mínimo de lógica política, embora seja imoral e irresponsável, para a escalada do discurso contra os manifestantes feita pelo Governo e pelo PSD e que visa semear o ódio.

A estratégia do ódio tem imediato sucesso junto do Chega (veja-se o deputado que disse sobre os manifestantes “encostem-nos à parede”, entre uma quantidade enorme de ignomínias que vieram daquele lado). Só que o Chega não precisa do PSD e do CDS para espalhar ódio e se o PSD julga que vai buscar um voto ao Chega com isso está a viajar na maionese.

É provável que o eleitorado social-democrata que não se revê em discursos de demonização do outro pense numa alternativa — talvez o PS, que é mais próximo e que tem tido, globalmente e através da sua direcção política, uma atitude em defesa da democracia.

Talvez parte do eleitorado do PSD vá votar na Iniciativa Liberal, cuja líder, Mariana Leitão, mostrou que não é só defensora do liberalismo económico, mas também defensora do liberalismo político.

Mariana Leitão não está de acordo com todas as reivindicações dos manifestantes — uma é o chumbo da lei do arrendamento que a Iniciativa Liberal aprovou. Mas teve uma declaração de decência política na sequência da inominável carga policial que poderá fazer o eleitor mais à direita que não gosta de ver a polícia a dar “porrada” em pessoas pacíficas (na grande expressão de João Maria Jonet) a identificar-se com o seu partido: “A repressão não é aceitável nem resolve nada. A única solução de um Estado que falha em quase tudo, perante quem protesta o falhanço nas políticas públicas de habitação, não pode ser usar a sua força repressiva sob a forma de cassetete.” Estes discursos à direita têm feito falta.

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Estamos numa situação grotesca em que um Governo está acossado, a morrer nas sondagens, e a desejar ardentemente uma “subversão” que o traga de volta à vida. Se calhar é a única coisa que resta a um Governo muito fragilizado. Se o caos não vier, como não veio até agora, resta-lhe a morte lenta.

A outra tentativa de explicação já entra no domínio da psicanálise, a pulsão de morte freudiana — o conceito é complexo, mas a auto-sabotagem é uma das formas em que se pode manifestar.

Neste debate do Orçamento, a táctica gizada pelo Governo teve um momento alto com um discurso radicalizado do primeiro-ministro que evitou ao máximo tentar apaziguar o ambiente político (só a guerra lhe interessa agora).

Leitão Amaro, o ministro que usou a palavra “subversão”, reconheceu, vá lá, que não se aplicava à maioria dos manifestantes. “Não confundimos quem discorda ou se manifesta pacificamente com os poucos que usam a subversão e incitam à violência”. Ora, onde existiu esse incitamento à violência? No vídeo propagandístico que a PSP pôs a circular depois do Presidente Seguro ter dito que “não gostou do que viu”, percebe-se que só depois da polícia de choque se ter atirado sobre os manifestantes houve reacções de violência. Foi depois, não foi antes.

Nuno Melo, o ministro que não quer pessoas com sotaque brasileiro nas manifestações, sonha com a revolução francesa e o PREC – Processo Revolucionário em Curso. Podemos percebê-lo, a nostalgia é uma coisa tramada. Nas eleições legislativas de 1976, o CDS teve quase 16% dos votos e elegeu 42 deputados. A diferença é que agora não há PREC nenhum nem CDS quase nenhum.

Nuno Melo acha que a Praça de D. Pedro IV, em Lisboa, e a Praça D. João I, no Porto, são agora cenários para a “tomada da Bastilha” — “Há quem queira a praça D. João I no Porto ou o Rossio em Lisboa transformados na Bastilha em Paris e nós queremos Portugal poupado à loucura”. “Não faltou quem ali não queira outra coisa que não seja a democracia popular, com a turba a decidir em assembleias de rua à volta de jargões trotskistas”, disse ainda Nuno Melo. Que Nuno Melo diga estas coisas é compreensível. Agora, ver uma quantidade enorme de pessoas com vendas nos olhos, algumas delas inteligentes, a achar que as “assembleias populares” das manifestações significam que o “poder popular” do PREC está quase a tomar o poder em Portugal mostra que já há muitos cidadãos deste país a viver numa realidade paralela.

Se calhar, tal como Nuno Melo, também têm genuínas saudades do PREC, não pelo processo em si, mas pelo que significou na época, politicamente, nas suas vidas, ainda que fossem crianças. Mesmo entre os cidadãos à direita dos “revolucionários” de 1975, o PREC pode também ter sido um “sonho lindo que acabou”, como cantava José Mário Branco. A nostalgia, mesmo do que não se gosta, pode levar-nos a compulsões esquisitas.

E acabei de entrar na psicocracia…

Aqui há dias, no festival Fólio de Óbidos, gravei um episódio isolado do podcast do PÚBLICO O que fazer quando tudo arde com José Manuel dos Santos, director da revista Electra. O José Manuel dos Santos é um dos homens mais inteligentes e cultos que conheço, antigo assessor cultural dos Presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio, e nunca quis ser ministro da Cultura, apesar de ter sido convidado, para nosso mal (e bem dele provavelmente).

Um dos últimos números da Electra é dedicado à “psicocracia” e a conversa andou sobre o crescente abandono de conceitos de classe, de bem e de mal, para concepções psicológicas. Dizer “Trump é louco” não tem o mesmo valor político de “Trump é malvado”. A conversa está disponível no site do PÚBLICO, em áudio e em vídeo, e pode ser ouvida nas plataformas habituais de podcasts.

Falo disto aqui porque nesta newsletter, parcialmente, alinhei na psicocracia para descrever o comportamento de alguns actores políticos. Talvez, de facto, nos devamos ficar pela distinção entre o bem e o mal.

Obrigada por me ler! Até para a semana.

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3 pensamentos sobre “Um Governo desesperado em busca da “subversão””

  1. Diabos os carreguem a eles e mais a Ucrânia.
    Uma família ucraniana radicada cá perto recebeu há dois dias em festa o filho homem.
    O desgraçado esteve mais de dois anos prisioneiro da própria casa porque se saísse era caçado como um cão pelos “recrutadores”.
    Mais de dois anos que quase o fizeram dar em doido.
    A família desembolsou aos traficantes um total de 20 mil euros durante mais de dois anos.
    E a este terror que a maldita União Europeia da dinheiro sem fazer perguntas na esperança de um dia pilhar os recursos da Rússia.
    Vale tudo em nome da pilhagem que a acontecer só beneficiará estas elites.
    Entretanto a conta continuaremos a ser nos a pagar.
    Nos e ucranianos como os recrutados a força ou o desgraçado que se safou porque a família fez das tripas coração para pagar a passadores que os tirem de lá.
    E pela forca que o fez aguentar mais de dois anos em prisão domiciliaria total.
    E enquanto a Europa acreditar na possibilidade de pilhar o vizinho os nossos problemas podem esperar.
    As nossas vidas nunca valeram para essa gente uma casca de alho, tal como as ucranianas, agora valem menos ainda.
    Raios partam a Ucrânia. Ou melhor, o barbaro regime ucraniano que estes trastes decidiram apoiar até ao último europeu.

  2. Notícia de hoje:

    “União Europeia acelera desembolso de 45 mil milhões de euros para a Ucrânia”.

    Qual é o montante que a UE prevê desembolsar para acudir ao problema da habitação?

  3. O Mario Soares teria saudado os manifestantes?
    Valha a Deus.
    O “bochechas” pode ter na velhice abandonado alguma coisa do pro-americanismo primário que o caracterizou no tempo em que estava no lugar do Montepardo.
    Condenando como devia a campanha de latrocínio que foi a chamada Segunda Guerra do Golfo.
    E tretas como a Terceira Via do criminoso de guerra Tony Blair.
    Onde aliás foi acompanhado por Freitas do Amaral, o seu adversário de direita nas presidenciais de 1980.
    Mas foi um dos mais violentos primeiros ministros que tivemos.
    As desocupacoes de terras da Reforma Agrária começaram no seu consulado e não foi com beijinhos que a força tarefa dos velhos latifundiários, a GNR, foi desalojar os camponeses que pela primeira vez na vida tinham podido comer a vontade coisas como leite, carne e ovos.
    Também aí o Governo garantia que a GNR era cuidadosa. Disparava sempre para o ar e se alguém era atingido a tiro era certamente porque andava a voar como um passarinho.
    Em Lisboa as manifestações a porta de São Bento eram muitas porque começava também o desmantelamento do sector industrial nacionalizado e o Processo de Miserabilizacao em Curso causado pelas primeiras intervenções do F(o)M(e)I.
    Que em regra acabavam com a Polícia de Choque, mais tarde rebaptizada Corpo de Intervenção mas com os mesmos tiques, a malhar como quem malha centeio.
    Também sempre com todo o cuidado.
    E, claro, quem protestava era subversivo e comunista.
    Isto chegava ao cúmulo de uma história contada por um antigo autarca da então APU.
    Era o tempo em que na Polónia havia confrontos entre o Governo e os sicarios de Lech Valessa, que mais tarde admitiu que o seu Solidariedade queria simplesmente acabar com o comunismo e não melhorar as condições de vida dos trabalhadores.
    Pois o homem tinha ido a São Bento e pela janela podia avistar se uma manifestação e a polícia a começar a malhar.
    E chega a Maria Barroso e diz em tom de provocação “então camarada, o que acha do que se passa na Polónia?”.
    Ao que o homem respondeu, “olhe pela janela, aqui tem a Polónia”.
    Era assim que funcionava e vem esta senhora, sabendo que se dirige a jovens manifestantes que não eram vivos nesse tempo e não teem talvez avós que tivesse vivido nesse tempo e o possam contar dizer que houve um dirigente socialista melhor que este traste do Carneiro ou que o bandalho do Vital Moreira.
    Não minha senhora.
    Se esse Mário Soares fosse primeiro ministro hoje também mandaria a polícia bater. Também diria que a polícia tinha sido cuidadosa no rescaldo de cabeças e bracos partidos e mulheres arrastadas pelo chão.
    E também culparia pelos protestos a extrema esquerda, focando se certamente no seu inimigo de estimação, o PCP.
    E quanto aos votos no CDS vieram dos que viam os seus privilégios ameaçados mas também de muitos ingénuos que acreditavam que dali viria alguma coisa de bom, nomeadamente aos milhares que vieram das ex colónias estropiados. O apoio aos antigos combatentes mutilados era uma das bandeiras levantadas por esses trastes e nessa altura isso calava fundo em milhares de famílias.
    Como o apoio aos velhos da reforma curta a custa dos malandros do Rendimento Mínimo rendeu 12 por cento ao traste do Paulinho das Feiras nas eleições de 2011.
    Mas esta artista pensa que somos todos filhos de uma chocadeira e já não podemos saber nada sobre esse tempo longínquo.
    A última coisa de que precisamos e de gente que tenta explicar o terrível momento presente transformando a história.

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