Acender o rastilho do futuro

(Bruno Amaral de Carvalho, in Manifesto74, 19/10/2026, Revisão da Estátua)


(Magnifico. A Estátua não se coibe de deixar aqui uma menção pública à qualidade deste texto, quer no aspeto formal, quer quanto ao desenho das causas que conduziram o mundo atual ao caos larvar em que se encontra, e ceifaram rente o futuro e a esperança das gerações novas. Parabéns, Bruno.

Estátua de Sal, 19/10/2026)


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Depois do fim da União Soviética, tentaram convenceram-nos de que a História havia acabado. Restava-nos o capitalismo para o resto da nossa existência enquanto Humanidade. Como uma doença silenciosa, fizeram-nos acreditar que os sindicatos eram nossos inimigos, que as colectividades eram algo fora de moda e que os partidos comunistas estavam ultrapassados. Fomos domesticados e as cidades foram higienizadas. Passámos a gostar de ruas cheias de anúncios publicitários, das praças vazias e do silêncio.

Achamos que progresso é ter um McDonalds ou um KFC. Os lugares onde vivemos, a pouco e pouco, perderam a identidade e passaram a ser todos iguais. Deixámos de ver manifestantes como gente de bem que luta por todos nós e deleitámo-nos com piquenicões do Continente ou com mega feijoadas na Ponte Vasco da Gama. A pouco e pouco, a arte e a cultura foram-se esvaziando de conteúdo. Os cinemas fecharam e passámos a gastar os nossos dias a ver Netflix.

Enquanto nos esvaziavam a alma, traímos a memória dos nossos pais e avós. Começámos a desdenhar de quem vive do seu trabalho e a celebrar os vendedores de banha da cobra. Primeiro foram os empreendedores e o mito de que sozinhos e com muito trabalho conseguíamos ser melhor que os outros. Dantes, o filho do operário, do sapateiro, da padeira, da costureira sabia que a união fazia a força e havia orgulho em ser-se parte dos que trabalham. Agora, está na moda a cultura criptobro, os que vivem fascinados com a bolsa, as criptomoedas e as apostas online. Deixámos de ser trabalhadores e passámos a ser colaboradores.

Já se sabe, tudo o que vem de fora é bom. Desde que venha dos Estados Unidos. E que não sejam imigrantes. Importa muito pouco que os nossos avós fossem migrantes descalços quase mortos de fome do Alentejo ou de Trás-os-Montes. Ou que vivessem em barracas. Agora, odiamos quem vem trabalhar e viver nessas condições e até nos ajoelhamos se for preciso quando se trata de um americano louro que vem dar-nos uma gorjeta. Fomos colonizados. Vendemo-nos. Eles ficam com as nossas casas e com as nossas praias. E não, não são os pretos e os indianos.

Deixámos que os bancos e os fundos imobiliários tivessem no governo os seus representantes. São eles que traçam o nosso destino. E chegámos ao ponto em que não nos podemos revoltar porque a violência é sempre má, menos quando é a polícia a violentar-nos. Aí encontramos todas as justificações. “Não querem trabalhar”, “são arruaceiros”, “a lei é para cumprir”. Neste tempo do team building, querem-nos calados, sem dignidade, sem coragem. Escravos. Só nos resta um futuro colectivo com a ruptura do actual estado de coisas.

Não, não és colaborador. És trabalhador e vives fodido para pagar a casa, o colégio do puto e as compras do mês. Na era das percepções, querem vender-te a ilusão de que sozinho podes tudo e de que calado vais longe na empresa. Talvez um dia, sentado na poltrona às portas da morte, te dês conta da cobardia do que fomos e de que juntos poderíamos ter sido tudo. É o medo. O medo é a mordaça que nos põem todos os dias para que sintamos que melhor assim do que num lugar desconhecido.

Preferimos não arriscar do que pensar que talvez haja mesmo uma forma de vivermos todos melhor e que não haja um filho da puta a comprar iates e uma nova casa na Comporta com o dinheiro do nosso suor. Agora imagina que um dia incendiamos o horizonte e descobrimos que o riso das nossas crianças será um dia a nossa vingança, como escreveu um dia Bobby Sands.

Imagina um país de gente digna, com a coluna vertebral intacta, que não prefere enfrentar o colega ou o vizinho a enfrentar os poderosos. Imagina o combustível colectivo que seríamos para queimar de uma vez por todas o sistema que permite que um ser humano possa ter centenas de casas e outro não tenha nenhuma, que permite que uma pessoa possa ganhar tanto num mês como milhares numa vida inteira, que permite que um primeiro-ministro, à frente de um governo, olhe para todos nós e diga, sem medo, que somos egoístas.

Fonte aqui

5 pensamentos sobre “Acender o rastilho do futuro”

  1. Imagina um país em que milhões de vontades juntas são o combustível que te/nos faz voar, em bandos de Passarolas a perder de vista, como a de Bartolomeu de Gusmão imaginada por José Saramago.

  2. A Europa já está toda a arder, de Paris a Marselha, em Bruxelas, de Berlim a Munique, em Milão e Roma, na Albânia, nas ruas dos EUA, nas ruas de Espanha, e não só.

    Em França já se grita que o ditador Macron merece acabar na guilhotina.
    Quantos jovens terão de perder olhos com as balas de borracha, e perder mãos com as granadas de atordoamento, para chegar a hora H, o momento histórico que colocará fim a este regime?

    O regime da “democracia liberal”, onde um clube de banqueiros e especuladores decide o modelo económico, um clube de oligarcas da produção de armas e do petróleo decide o grau de militarismo e agressão imperial, um clube de nerds em Silicon Valley decide o que vemos e pensamos e ajuda a CIA/Mossad a vigiar tudo e todos, e um clube de PRESStitutas manipulam e lavam os cérebros da esmagadora maioria.

    E, claro, onde o teatro da eleições apenas serve para alternar entre o fascista que acaba o mandato com 10 a 15% de apoio popular, e o woke que acaba o mandato com 10 a 15% de apoio popular, e sem uma única mudança de política no essencial.

    E nem vou falar das colossais dívidas, nem da des-dolarização em.aceleração, nem dos enormes défices externos/comerciais, nem da des-industrialização, nem da inflação descontrolada, nem dos exércitos de pobres e precários.

    O regime do ocidente coletivo está à beira do colapso. Da DERROTA.

    E a Rússia e China e companhia não tiveram de disparar uma única bala na nossa direcção.
    Basta sentarem-se no seu sofá, de pernas esticadas, a comer pipocas.

    “É preciso mais não sei quantas centenas de milhares de milhões para os nazis da ucrânia, e mandar mais não sei quantos aviões e tropas para proteger o BNetahyanu e o MbSalman, e mais não sei quantos barcos de guerra para o mar do sul da China, e mais sanções contra o gás e petróleo barato da Rússia, e mais não sei quantas leis do tipo Chat Control para vigiar bem a populaça, e mais não sei quantas viagens diplomáticas lara legitimizar a al-Qaeda no poder na Síria, e mais bloqueio para matar Cubanos à fome, e mais fronteiras abertas para ver se a extrema-direita cresce mais a tempo de salvar este Capitalismo com as botas cardadas, e leis para chamar “terrorista” a quem se opõe ao sionismo genocida, e mais não sei quantas formas de transferir a riqueza dos de baixo para os de cima, e mais não sei quantos offshore para os de cime fugirem aos impostos. E champanhe e caviar para todos nós, antes de irmos de avião a jacto privado voltar aos nossos palácios para escolher ambos os principais candidatos para as “eleições” seguintes nos nossos respectivos países.”

    Eis o sumário de uma reunião em Davos ou Doha ou no clube Bilderberg.

    Nem Paz, nem Direitos Humanos, nem Igualdade, nem Habitação, nem Direitos Laborais, nem Saúde, nem Educação, nem Segurança Social, nem sequer um pingo de decência.

    Basta umas bandeiras LGBT+ aqui, umas bandeiras anti-imigração ali, e a populaça distrai-se e divide-se facilmente numa guerra de trincheiras completamente inútil.
    Junta-se uns pozinhos do desporto preferido da malta, uma colher de sopa de novelas e reality shows, uns quantos conteúdos virais nas redes da moda para as os filhos da populaça, e está o assunto resolvido.

    E pergunta assim o típico alarve privilegiado da populaça (que apesar de ser populaça, ainda não foi atingido em cheio pelas consequências do regime em que vivemos):
    “mas esta gente está a protestar contra quê? não se admite a violência contra autoridades tão legítimas e fofinhas. vão mas é trabalhar, ou voltem para a vossa terra!”

    No dia da revolução, inevitável, também esta parte do povo, convencida que é parte da “elite” (= escumalha do regime), irá para as ruas fazer de conta que a LIBERDADEA também é deles… quando na realidade eles são a garantia da PRISÃO e da OPRESSÃO para o resto do povo. Um crime de que são cúmplices sempre que vão ao boletim de voto colocar um X.

    Quanto aos franceses que têm virado lojas de multinacionais do avesso, e roubado tudo o que estava à venda: PARABÉNS pela coragem, e OBRIGADO! Cada iPhone roubado representa menos 900 € de dinheiro a sair da Europa para ir financiar as balas e bombas com que o império assassina crianças e mulheres indefesas e homens inocentes um pouco por todo o Mundo.
    Cada iPhone, cada Nike, cada Levi’s, cada Coca-Cola, cada PC com Windows+Intel+Nvidia, etc.
    Se ladrão que rouba ladrão, tem 100 anos de perdão. Então protestante que rouba PORCO CAPITALISTA IMPERIALISTA GENOCIDA NAZI TERRORISTA, tem uma eternidade da minha admiração.

    E em Portugal?
    Só burros e mansos…

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.