E uma comissão de inquérito ao assalto ao gabinete de Ventura?

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 24/09/2026)


Cara leitora, caro leitor,

Imagine que o gabinete de Luís Montenegro na residência oficial de São Bento tinha sido assaltado e de lá tinham sido roubados papéis fundamentais sobre o ministro Luís Neves (ou qualquer outro).

Imagine que o gabinete de José Luís Carneiro na Assembleia ou no Largo do Rato tinha sido vandalizado? O que acha que estes dois políticos iriam fazer? Tentar fingir que aquilo não tinha acontecido?

Estava em causa o regular funcionamento das instituições e acredito que tanto Montenegro como Carneiro estariam disponíveis para falar com a Polícia Judiciária – e não depor por escrito. Em qualquer destas situações hipotéticas, o país ficaria em transe e o Governo (ou o PS) também. No Chega e com o Chega no pasa nada.

André Ventura e os outros deputados chamados a depor no inquérito da PJ ao assalto ao gabinete vão depor por escrito. É muito mais difícil, já se sabe, do que depor ao vivo e ter que responder na mesma hora a perguntas feitas por polícias. Ventura não costuma ter problemas e é muito rápido a responder a perguntas directas, desde que não sejam sobre o assalto ao gabinete, como se viu na entrevista no canal Now.

Esta semana, saiu uma notícia na revista Sábado muito interessante. A Polícia Judiciária confessa a sua impotência em resolver um assalto (costumava ter grandes resultados na criminalidade comum) e admite que pode mesmo ter havido “encenação”, o que é crime. Ao mesmo tempo avisa que a investigação pode não dar em nada e o caso do assalto ao gabinete de Ventura pode ficar em águas de bacalhau – uma grande derrota para a justiça, a somar ao escândalo desta semana da investigação a escutas ilegais.

A notícia, da autoria de Alexandre Malhado e João Amaral Santos, tem passagens muitíssimo interessantes e reveladoras do estado das coisas dentro do Chega relativamente ao assalto ao gabinete.

Passo a citar: “No Chega o assunto é o elefante na sala. Não se discute o tema, embora este seja comentado em surdina. O Chega não fez a sua própria diligência interna para apurar os factos (…) Em alguns deputados existe a incompreensão por não se cavalgar um tema tão grave”. E agora uma citação deliciosa de um deputado à Sábado: “Se fazemos barulho por umas coisas, por que motivo não fazemos para isto?”. A notícia acrescenta que a Sábado enviou perguntas ao grupo parlamentar do Chega sobre o tema do assalto ao gabinete mas não obteve resposta.

Sinceramente, não consigo perceber o silêncio quase geral perante um caso desta gravidade que aconteceu num órgão de soberania. Houve pessoas que falaram, nomeadamente o PSD e o Livre que, por terem trazido o assunto para a primeira linha, foram acusados por Ventura de terem sido os culpados pelo assalto.

Apesar de aqui e ali alguns políticos falarem do assalto, o tema tem sido genericamente desvalorizado, em muitos casos porque se dá de barato que André Ventura vandalizou o gabinete, ou mandou alguém fazer para arranjar umas imagens para o TikTok, e que isso é normal e é alguma coisa com que temos que “lidar”, como com o sol ou a chuva.

Não pode ser assim. Se se encolhe os ombros à possibilidade de um gabinete de um dos partidos que mais deputados tem no Parlamento poder ser vandalizado e roubado (nomeadamente, como disse Ventura a 28 de Julho e nunca mais repetiu, “documentos relevantes” sobre Luís Neves que iriam servir para a comissão de inquérito que vai agora avançar), estamos mesmo perante a decadência moral das instituições. O mesmo é válido para o caso, ainda não provado, de ter sido Ventura a mandar vandalizar o gabinete.

Porque é que nenhum partido ainda propôs uma comissão de inquérito à segurança no Parlamento e em outros órgãos de soberania, já que o que aconteceu ao Chega pode acontecer em qualquer lado? Seguramente, uma comissão de inquérito parlamentar sobre a segurança no Parlamento com enfoque no assalto ao gabinete de Ventura seria um serviço à dignidade das instituições. Nada do que envolve este tema dá vontade de rir.

Ao pé da cama

Acabou de me chegar o livro de Mário Centeno com Filipe Santos Costa, Contas Certas. Vou começar a lê-lo esta noite com imensa curiosidade. As pré-publicações que saíram no PÚBLICO e também no Expresso são muito reveladoras de que Mário Centeno, como dissemos no podcast Soundbite, está a fazer a “rodagem do carro” – a expressão que Cavaco Silva usou como argumento para se ter deslocado ao congresso da Figueira da Foz em 1985, onde foi eleito líder do PSD.

Nos últimos tempos, tenho andado entretida com uma monumental biografia do general De Gaulle A Certain Idea of France do historiador britânico Julian Jackson. Foi-me “recomendada” num artigo que li na New Statesman e passo a palavra – a biografia é excelente e o autor tem uma escrita fantástica e não utiliza aquela seca que às vezes ataca alguns historiadores.

Até para a semana.

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