Quando os valores passam a medir-se em sangue

(Adriano Pires, in Facebook, 15/07/2026)


As palavras de Emmanuel Macron, proferidas em França no Dia da Bastilha, merecem ser refletidas com serenidade, precisamente por terem sido pronunciadas por um Presidente da República, Comandante Supremo das Forças Armadas de uma potência nuclear e um dos protagonistas principais da política europeia, partindo do pressuposto de que estava plenamente consciente do alcance das suas declarações.

Afirmar que a Europa está preparada para defender a liberdade, o Estado de Direito e os seus valores «mesmo que seja necessário derramar sangue» levanta uma questão de natureza ética e política: até que ponto a defesa dos valores democráticos pode assentar numa retórica que normaliza a guerra e o derramamento de sangue como instrumentos privilegiados da ação política?

A História da Europa deveria aconselhar maior prudência. O continente conheceu duas guerras mundiais, dezenas de milhões de mortos e uma devastação sem precedentes. Dificilmente se poderá acreditar que os franceses guardem saudades da humilhação sofrida durante a Segunda Guerra Mundial.

Aliás, foi precisamente desse trauma que nasceu o projeto europeu, concebido para substituir a lógica da força pela força do direito, da diplomacia e da cooperação entre os povos.

É, por isso, paradoxal que a Europa, criada como um projeto de paz, passe hoje a construir uma parte significativa da sua identidade política em torno do rearmamento, do aumento contínuo das despesas militares e da preparação psicológica das populações para a eventualidade de novos conflitos.

Não se trata de negar o direito dos Estados à legítima defesa, nem de ignorar as ameaças existentes. Trata-se, isso sim, de questionar se uma liderança política deve privilegiar uma linguagem que parece colocar a guerra no centro da estratégia europeia, alimentando o receio entre os cidadãos, em vez de insistir na negociação, na diplomacia e na prevenção dos conflitos.

Ao apresentar a Ucrânia como uma «lição espetacular» para a Europa, Macron parece esquecer que essa «lição» representa igualmente centenas de milhares de mortos e feridos, milhões de refugiados, cidades destruídas e uma geração inteira marcada pela violência. Uma guerra nunca deveria constituir um modelo inspirador, mas antes um fracasso coletivo da política internacional.

Também merece reflexão a insistência no aumento dos orçamentos militares. A segurança de uma nação não depende exclusivamente do número de tanques, mísseis ou aviões de combate. Depende igualmente da sua coesão social, da solidez das suas instituições, da qualidade da educação, da estabilidade económica e da sua capacidade diplomática. Uma Europa verdadeiramente forte não se mede apenas pelo poder das armas, mas também pela autoridade moral das suas decisões.

Existe ainda uma evidente contradição. Enquanto os líderes europeus afirmam defender a paz, o discurso público vai sendo progressivamente dominado por conceitos de confronto, preparação militar e inevitabilidade da guerra. Não será, porventura, alheia a este tipo de discurso a reduzida popularidade de Emmanuel Macron em França e a deterioração da imagem da França em muitas das antigas colónias francesas em África.

A paz e a cooperação deixam de surgir como prioridades políticas para passarem a ser apresentadas como consequência da força armada.

Ora, quando a paz passa a depender apenas da capacidade de fazer a guerra, corre-se o risco de transformar o conflito numa profecia autorrealizável.

As democracias distinguem-se precisamente por atribuírem à vida humana um valor absoluto. Por isso, qualquer referência ao derramamento de sangue deveria ser acompanhada da mesma determinação em evitar que esse sangue venha a ser derramado.

 Quando um líder político recorre com aparente naturalidade a este tipo de linguagem, é legítimo questionar o sentido, a prudência e a responsabilidade política das suas palavras.

A verdadeira grandeza da Europa nunca residirá na sua capacidade para mobilizar exércitos, mas na sua capacidade para evitar guerras.

Defender os valores europeus significa, antes de mais, defender uma civilização que aprendeu, à custa de um sofrimento incomensurável, que nenhuma vitória militar compensa plenamente a derrota da paz.

Tenho dito.

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5 pensamentos sobre “Quando os valores passam a medir-se em sangue

  1. Dantes, brincava-se com soldadinhos de chumbo. Progressivamente, o material passou a ser o plástico, hoje utilizado praticamente em exclusivo. O material de que é feito este patético Manu Morcon não é uma coisa nem outra. Trata-se simplesmente de um soldadinho de merda! E burro, ainda por cima. Falar na necessidade (e ao que parece inevitabilidade) de “derramar sangue” numa próxima guerra é uma estupidez. Uma guerra com a Rússia será inevitavelmente nuclear, e numa guerra nuclear pouco sangue haverá, seja de que lado for, porque depois dos cogumelos laranja o que teremos é, com “sorte”, carne assada, carne grelhada e bem passada. Na maioria dos casos, porém, nem isso, porque carne, sangue, pele e ossos serão simplesmente vaporizados e deles não sobrarão vestígios.

  2. Ainda me lembro do tempo em que ingenuamente se acreditava que a União Europeia era um seguro de vida contra a guerra, justamente por juntar no mesmo saco os inimigos de outros tempos.
    O que talvez ninguém esperasse era que viessem a eleger outro inimigo e se juntassem na intenção de fazer guerra contra ele.
    França e Alemanha unidas contra a Rússia. Nem nos seus maiores delírios Hitler sonhou com uma coisa destas.
    E assim a União Europeia se tornou um seguro de morte para nos garantir a guerra.
    Que grande bostada.

  3. Disse e disse muito bem!
    A qualidade dos artigos do Adriano Pires (que sigo no Facebook há algum tempo) merecem este destaque da Estátua.
    Obrigado à Estátua pelo “batismo” e obrigado ao Adriano Pires pelas suas publicações!

  4. Bem vindo ao Estátua, Adriano Pires.
    Espero que este excelente artigo seja o prenúncio da difusão de muitos.
    Obrigado.

  5. Um para compensar outro. Estas palavras deviam ser ouvidas pelos grunhos que acham que a Rússia quer isto para alguma coisa e que precisamos mesmo gastar em armamento o que temos e o que não temos para evitar que marchem no Terreiro do Paço.
    Duvido e que entendessem alguma coisa.
    Raios partam a Ucrânia.

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