O acordo impossível

(João Gomes, in Facebook, 25/03/2026)


Há propostas que nascem para ser assinadas. E há propostas que nascem para ser recusadas. O chamado “plano de 15 pontos” apresentado por Trump ao Irão pertence à segunda categoria.

À superfície, parece diplomacia: uma lista ordenada, numerada, racional de exigências e concessões. Um exercício de engenharia política com aparência de equilíbrio. Mas basta um olhar minimamente atento para perceber que não se trata de um acordo. Trata-se de um ultimato disfarçado de negociação.

O núcleo da proposta é simples: o Irão deve abdicar de tudo o que constitui a sua capacidade de dissuasão – nuclear, militar e regional – em troca de promessas económicas cuja solidez já foi anteriormente testada… e falhou. Desmantelar instalações, entregar stock, aceitar inspeções totais, limitar mísseis, abandonar aliados, abrir mão da sua influência geopolítica e ainda permitir mecanismos automáticos de punição futura. Tudo isto em troca de sanções que podem regressar ao sabor de um ciclo político em Washington. Não é um acordo. É uma reconfiguração forçada.

Ora, a teoria clássica dos conflitos ensina-nos algo elementar: negocia-se quando não se pode vencer – ou quando o custo de vencer é demasiado elevado. Mas aqui começa o verdadeiro paradoxo. Se é Trump a apresentar este plano, não é ilegítimo perguntar: o que estão, de facto, a reconhecer?

Não uma incapacidade militar – essa continua a ser enorme. Mas algo mais subtil e mais relevante: a impossibilidade de controlar as consequências de uma escalada. Uma guerra com o Irão não é apenas um teatro militar. É um evento sistémico. Energia, comércio global, estabilidade regional – tudo entra em colapso por arrasto. Não há vitória limpa num tabuleiro onde cada movimento provoca ondas de choque globais.

E é precisamente por isso que este “acordo impossível” levanta outra leitura, mais cínica – e talvez mais realista. E se isto não for para ser aceite? E se for, simplesmente, uma manobra dilatória? Ganhar tempo. Testar intenções. Criar narrativa. Posicionar forças. Preparar o terreno – político, mediático e militar – para um cenário alternativo. Porque, historicamente, negociar e preparar conflito nunca foram caminhos opostos. Pelo contrário: são frequentemente paralelos.

A hipótese de uma operação militar mais agressiva não pode ser descartada. Um ataque aéreo massivo, concentrado em infraestruturas críticas, centros urbanos costeiros, sistemas de defesa e logística. Uma tentativa de controlo de pontos estratégicos – ilhas, corredores marítimos, zonas costeiras. Um choque rápido, de alta intensidade, desenhado para desorganizar antes de consolidar.

Mas aqui entra o detalhe que raramente cabe nos planos: o “depois”. Desembarcar tropa é uma coisa. Sustentar é outra. Controlar território hostil, com profundidade estratégica, redes locais e capacidade assimétrica, é um problema de outra ordem. E é nesse momento que o custo humano deixa de ser abstração e passa a contabilidade política. Quantos homens são necessários para transformar um mapa em realidade? E quantos regressam? A história recente oferece respostas pouco animadoras.

É neste ponto que a ironia se torna inevitável. Um plano apresentado como alternativa à guerra pode, na verdade, ser o seu prólogo. Uma proposta impossível pode ser apenas o argumento necessário para justificar o inevitável: “tentámos a diplomacia”. E, no entanto, há um elemento que não pode ser ignorado: o outro lado também lê o jogo.

O Irão não é um ator passivo. Sabe que aceitar este plano seria abdicar da sua própria lógica de sobrevivência. Mas rejeitá-lo implica navegar um espaço perigoso, onde cada recusa pode ser reinterpretada como provocação. A margem de erro é mínima.

O “acordo impossível” cumpre assim a sua função essencial: não resolver, mas enquadrar. Não pacificar, mas preparar. Não construir confiança, mas gerir perceções. E talvez seja essa a sua maior eficácia. Porque, no fim, não se trata de chegar a um entendimento.

Trata-se de definir quem será responsabilizado pela sua ausência ou quem reconhecerá primeiro que não tem hipótese de continuar.

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8 pensamentos sobre “O acordo impossível

  1. De tudo o que aconteceu até agora no Médio Oriente desde o início da agressão americano-sionista ao Irão, há conclusões tão evidentes que é impossível, até para um mentecapto, não as ter já tirado. Os gatos gordos dos países do Golfo têm muitos e conhecidos defeitos, mas parece-me que mentecaptos não faz parte do pacote.

    Conclusão 1 — As bases americanas que aceitaram e acarinharam nos seus países, com o objectivo (e álibi) de os defender de agressões externas, principalmente do Irão, não só foram incapazes de os defender como tiveram o resultado exactamente oposto, ou seja, provocar contra eles precisamente o fogo do “inimigo” convenientemente eleito pelos donos das bases e sua tropa de choque sionista.

    Conclusão 2 — Dirigindo-se aos ditos gatos gordos, tudo o que os responsáveis iranianos até agora disseram aponta, sem margem para dúvidas, para que a insegurança real que as bases americanas afinal lhes “oferecem” desaparecerá quando elas deixarem de existir.

    Conclusão 3 — Perceberam também certamente os gatos gordos que ao Irão não interessa, tal como não interessa a ninguém que não seja um mentecapto infantilóide (como o fanfarrão aldrabão da Casa Preta) ou um psicopata assassino insaciável (como os bandidos supremacistas de IsraHell), um estado de conflito permanente na região, que se traduz em destruição, mortes e sofrimento permanentes para todos os seus habitantes, gastos absolutamente desnecessários em material de guerra, prejuízos enormes no plano económico (desde infra-estruturas destruídas e negócios que fogem para outras paragens a turistas que desaparecem e optarão, durante muitos anos, por destinos diferentes), desastres ambientais colossais, etc.

    Conclusão 4 — Correlativamente, concluirão que, tendo embora uma enorme capacidade para lhes infligir gravíssimos e perduráveis danos, não tem o Irão interesse nem capacidade para os conquistar militarmente e dominar, sendo do seu interesse, pelo contrário, comerciar em paz com os seus vizinhos e o resto do mundo, tal como acontece com os países controlados pelos gatos gordos.

    Conclusão 5 — Não será igualmente difícil aos gatos gordos concluir que do muito avançado desenvolvimento técnico e científico do Irão, cujas universidades formam, anualmente, 3,5 vezes mais engenheiros do que o país dos seus “protectores” americanos, poderão resultar em clima de paz, dada a proximidade geográfica, sinergias de que eles próprios beneficiarão.

    Conclusão 6 — Fácil de entender será igualmente o facto de que qualquer acordo ou arranjo com o Estado bandido e país ladrão conhecido como IsraHell não lhes dará qualquer benefício real ou mesmo potencial, já que a agenda própria dos governantes e habitantes do Estado bandido não contempla o respeito por qualquer compromisso com gentes, povos e países que não tenham, como eles, sido escolhidos pelo Altíssimo para reinar sobre os gentios inferiores, cuja única função, neste planeta, é servir os seus interesses e objectivos.

    Conclusão 7 — Assim, se não tiverem os neurónios irremediavelmente avariados, não resta aos gatos gordos outra conclusão e outro caminho que não seja convidar os seus “protectores” para um lanchinho e dizer-lhes, muito educadamente, que, depois de cuidadosa reflexão, decidiram poupar-lhes os avultados custos de manutenção da “protecção” conferida pelas generosas bases e que, de agora em diante, tratarão eles próprios da sua protecção. É altamente improvável que os generosos protectores, sentindo-se eventualmente ofendidos, lhes apliquem o mesmo tratamento que ao Irão, bombardeando-os em retaliação.

    Não lhes faltando à data de hoje (ou mesmo ontem), elementos mais do que suficientes para tirar as avisadas conclusões acima referidas (entre outras), ouvir este representante iraniano no Conselho para os Direitos Humanos das Nações Unidas ajudá-los-á certamente nessa “tarefa”:

    https://youtu.be/zt1yBzq1O24?si=9ZZWFXY1XeFzrIc3

  2. Claro que há também a questão de que um acordo assinado por Trump e Netanyahu não valera o papel em que forem escritos.
    O Irão foi atacado por duas vezes enquanto estava a negociar porque raio e que haveria de acreditar que á terceira e de vez.
    Depois, pategos de todo o mundo, entendam de vez uma coisa.
    O projecto Grande Israel inclui todo o território do Líbano, todo o território da Jordania, dois terços do território da Síria, e um terço dos territórios da Síria, Iraque, Irão e Arábia Saudita.
    Israel e o centro de um culto de morte, que despreza todos os que não forem judeus e que têm um total desprezo pelas suas vidas.
    O sionismo e um nazismo que coloca os judeus no lugar dos arianos.
    E que tal como o nazismo pretende um grande espaço vital para essas judeus e não se importa de matar todos os que agora vivem nesse espaço.
    E quando nos tentam convencer que Israel não é o único vilão dessa história por conta do conflito religioso entre xiitas e sunitas como se isso ilibasse ou atenuasse os seus hediondos crimes lembrem-se de que a Arábia Saudita e um dos países ameaçados pelo projecto Grande Israel.
    Se os países do Golfo não querem um Irão forte dispensariam mais ainda um bando de assassinos messiânicos que os despreza profundamente.
    Dava lhes jeito que Israel desaparecesse. Como dava jeito a todos os que querem um mundo sem guerra.
    As suas relações com tal gente são puro pragmatismo.
    O que e que fazemos se temos como vizinhos um bando de assassinos messiânicos que não respeita a vida de ninguém, que tem armas poderosas e letais, que e protegido pelo maior poder letal do mundo se o seu não chegar?
    Ser pragmático. Para não acabar a ser bombardeados, a ver escolas e hospitais destruídos, a ter dirigentes assassinados, enfim ter o destino das populações de Gaza e agora do Irão.
    Porque sabem que se estao a haver com os novos nazis.
    Já o Irão resiste porque sabe que o que esta gente quer para o país e a sua destruição.
    E mesmo que o pais aceitasse todos os termos de Trump em breve seria atacado por estes assassinos messiânicos a pretexto de alguma coisa ou sem pretexto nenhum pois que o povo eleito de Deus não precisa de se justificar ante os gentios, tendo o trabalho muito mais facilitado.
    Claro que a Europa cobarde não pode perceber a resistencia e va de chamar fanáticos aos resistentes.
    Se calhar os membros da resistencia na Europa ocupada, que atacavam tropas nazis mesmo sabendo das represálias letais que seriam exercidas contra civis também eram só uma cambada de fanáticos. Tenham vergonha no focinho.
    Vão ver se o mar da Kraken.

  3. Mas que valor tem um acordo proposto por um megalómano maníaco pantomineiro, que diz uma coisa e faz o seu contrário, e desmente-se e desdiz-se a si próprio algumas horas depois? Que assassina enquanto negoceia, usando as negociações institucionais como emboscadas?
    Só no mundo encantado dos pategos.
    O Trump diz que não confia em ninguém, mas alguém confia nele?

  4. Guerra Irão -Iraque. Os EUA nas condições de sempre, carne para canhão sem restrições , material de guerra quanto se quizesse, Durão Barroso a apadrinhar, meretrizes a abençoar o “ocidente”, as colegas caladas como ratazanas . O Iraque da altura valia bem o Israel de hoje.
    Lembrem como essa guerra acabou.
    Não digam que já se esqueceram.

  5. Excelente artigo do João Gomes.

    Acresce relembrar que o Irão pouco depois do início do conflito, apresentou aos EUA as suas condições para o término do conflito.
    Nas posições oficiais e mensagens diplomáticas, o Irão focou-se sobretudo em:
    – cessar imediato dos ataques dos EUA;
    – garantias de não agressão futura;
    – respeito pela sua soberania (incluindo o programa nuclear).

    Com a arrogância de sempre, Trump ignorou completamente as condições iranianas e apresenta agora as suas exigências que, de facto, não refletem o quadro atual do conflito, mas seguramente pretendem funcionar como ultimato do tipo apresentado ao Nicolas Maduro.

  6. Esta proposta visa apenas justificar crimes futuros aos pategos de todo o mundo que ainda acreditam que aquilo e sobre livrar os iranianos do “terrível regime clerical”.
    Pategos e um pouco menos pategos como aquela malta que acredita mesmo que não pode condenar um crime e uma grosseira violação das regras de convivência entre nações civilizadas sem condenar o “terrível regime clerical” iraniano. Como aquelas enguias do Bloco de Esquerda.
    Faz se uns proposta de paz que e deixar o pais completamente desprotegido frente a uma nação que se julga eleita de Deus e promove a crueldade bíblica e que só seria aceite se os iranianos quisessem morrer todos esturricados e quando não for aceite e o alíbi perfeito para lhes caírem em cima com tudo.
    Quando escolas e hospitais forem obliterados haverá quem diga “Trump estendeu o ramo de oliveira, eles não aceitaram quando não podiam vencer, são uma cambada de fanáticos e merecem o que lhes está a acontecer”.
    Já vimos o mesmo filme em Gaza.
    Acredita na canalha ianque quem quiser.

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