Solidão e poder

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/03/2026)

Com Marcelo, sem dúvida que o poder desceu à rua. Sem ter de descer ao nível da rua.


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Assisti em directo aos últimos, pungentes e quase dramáticos, minutos dos dez anos de presidência de Marcelo Rebelo de Sousa — ou, mais correctamente, aos primeiros minutos da sua anunciada travessia do “deserto eterno”. Depois de descer a escadaria da Assembleia da República ainda institucionalmente escoltado, depois de olhar à esquerda e à direita, procurando os últimos abraços, os últimos beijos, as últimas despedidas, Marcelo, já despido da aura do cargo, dirigiu-se para o seu carro particular, cujo volante agora lhe cabia. Poderia ter estacionado previamente o carro nas traseiras da Assembleia ou mesmo em frente à escadaria. Mas isso seria quase uma chegada e saída clandestinas. Marcelo optou antes por deixá-lo bem longe, para que à chegada pudesse arrastar os street journalists atrás de si, mais uma vez embasbacando-os com os seus gestos “fora da caixa”: entrou num supermercado, numa papelaria e num antiquário, seguramente para compras inadiáveis, enquanto aproveitava e adiava até ao fim o inadiável. E no final, disputando até ao limite as atenções mediáticas com o novo Presidente num ecrã dividido ao meio entre os dois, Marcelo empreendeu a subida da íngreme Calçada da Estrela, arrastando atrás de si e de bofes de fora um miniesquadrão dos tais street journalists, de ora avante órfãos de sujeito e de objecto. Cha­peau, Marcelo, só não foi de mestre porque, com dez anos em cima, de tão previsível só conseguiu, e esforçadamente, colher de surpresa o tal triste jornalismo de rua! Ali, naqueles instantes, vi espelhadas as duas principais marcas do consulado de Marcelo Rebelo de Sousa: a boa, a sua intimidade com a rua e as pessoas, e a má, o seu excesso de protagonismo, o seu quase desespero pelas atenções alheias. Mas então, meditando no destino daquele homem que saía do poder tal como tinha entrado dez anos antes — sozinho e a pé —, confesso que me impressionou a sua solidão: não havia mesmo ninguém — um familiar, um amigo, um colaborador — que fosse recolher e acompanhar o homem que passara uma década no topo do poder? Ou aquilo seria uma espécie da autoflagelação pública a que ele, católico militante e coerente, se entregava voluntariamente?

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Partilho aqui a mesma perplexidade de que Maria João Avillez deu conta quando, no início da sua magistratura, o entrevistou, ainda ele morava na sua casa de Cascais, e no final da entrevista Marcelo lhe confessou que a seguir iria para casa, sozinho, “jantar uma salada”. Se imagino que o poder seja um exercício bastas vezes solitário, não imagino que ele possa ser exercido em solidão pessoal a acrescentar à solidão institucional. Mário Soares foi também um Presidente da rua — e dos abraços, beijos e até estaladas —, mas Soares derramava vida pelas ruas e pelos outros, enquanto Marcelo precisava da rua e dos “afectos” para ter uma vida. Para o bem e para o mal, para o que fez de certo e o que fez de errado, ao longo destes longos dois mandatos, o seu registo terá de ser analisado à luz dessa solidão pessoal. Que, queira-se ou não, desvirtua o olhar e o juízo de quem tem poder — mesmo que, como foi sempre o caso, a sua integridade pessoal e a sua honestidade funcional nunca tenham estado em causa.

Solidão e poder

Para o bem, muito haveria para dizer e já quase tudo foi dito. Para o que fez de errado, recordo sobretudo o episódio com João Galamba, quando Marcelo, o professor de Direito, embarcou na execução sumária, pública e totalmente injustificada de um ministro cujo crime fora o de ter sido assaltado no seu ministério por um assessor tresloucado e sedento de ridículo protagonismo, secundado por um Ministério Público que até hoje investiga o gravíssimo crime de suposta corrupção que consistiu em o ministro ter autorizado um investimento essencial ao país, mas que ocupava parte de um charco provisório onde, em noites de lua cheia, consta que se avistavam por vezes uma rã e um lagarto ainda mais essenciais ao país. E, claro, a aceitação sumária da demissão de António Costa, com base noutro devaneio político do Ministério Público. Aí, o Presidente Marcelo, nem sequer aceitando a substituição do primeiro-ministro, fez tábua rasa da estabilidade que apregoava e da vontade expressa pouco antes por uma rara maioria absoluta de eleitores. Mas, pior: ele, o guardião do regular funcionamento das instituições democráticas, caucionou um autêntico golpe de Estado institucional da magistratura sobre o Governo democraticamente eleito. E com isso assegurou o regresso do seu PSD ao poder e, de caminho, a ascensão às nuvens da extrema-direita, que ora nos ameaça. Não sei o que lhe terá passado pela cabeça então, mas talvez a tal solidão em que vivia e pensava possa explicar, sem o justificar, tamanha inversão de consequências.

Como sempre, o segundo mandato do Presidente Marcelo foi pior do que o primeiro. Como sempre, perdeu-se tanto em esforços para outorgar um legado que todos admirassem que deixou de ver claro e de conseguir indicar caminhos. Provou, se dúvidas ainda houvesse, que dez anos é demais, seja para quem for. E sai sem conseguir o resumo que certamente desejaria e que provavelmente merecia: deixar um país melhor do que aquele que encontrou. Mas, com ele, sem dúvida que o poder desceu à rua. Sem ter de descer ao nível da rua.

2 Eis algumas coisas que já podemos ter como certas ao fim de 13 dias do ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irão:

— Ninguém sabe quando é que a guerra vai acabar. Do lado americano, os seus líderes contradizem-se entre si, e Trump contradiz-se a si próprio ao longo dos dias ou das horas do dia.

— Não se sabe quantos mais mísseis balísticos terá o Irão disponíveis, pois também não se sabe quantos silos de lançamento terá Israel (sobretudo) conseguido destruir. E, enquanto tiver capacidade de atingir os inimigos, o Irão não se renderá.

— Não se vê como é que as forças atacantes conseguirão desimpedir o estreito de Ormuz sem desembarcarem tropas que o ocupem e sem destruírem todas as lanchas rápidas iranianas. E, enquanto isso não acontecer, a guerra estará longe de poder ser declarada “completa”, como o fez Trump com a sua habi­tual prosápia como animador dos voos a bordo do Air Force One.

— Enquanto o mundo inteiro — e a Europa particularmente — vive dias de angústia com a perspectiva de uma crise energética desencadean­do uma crise económica global, mais de 90% dos israelitas sondados ­apoiam a continuação da guerra, supõe-se que até à aniquilação total do Irão — seja isso o que for e quando for.

— Israel é que comanda as operações do ponto de vista militar, de intelligence e político. Apesar de toda a sua imensa superioridade de meios e dos seus fornecimentos de armas a Israel serem determinantes, os Estados Unidos limitam-se basicamente a acompanhar a estratégia israelita. Trump está às ordens de Netanyahu — o que não admira, pois, como está à vista, ele não sabia o que era o Irão.

— A declaração de Donald Trump de que quem destruiu com um míssil a escola onde morreram 170 crian­ças irania­nas foi o próprio Irão ficará nos anais da história como a mais estúpida mentira jamais dita por um líder mundial, só alcançável por quem há muito perdeu a vergonha de mentir à vista de todos sem se importar.

Mas episódios como esse têm tendência a fazer crescer a opinião contra a guerra entre os americanos. Isso, mais o afundamento de uma fragata iraniana por um submarino americano em águas internacionais ou o ataque a petroleiros civis em alto-mar, seguido de tiros sobre os náufragos no mar — as proe­zas de que se orgulha o secretário da Guerra, Pete Hegseth —, é uma nódoa sem remissão no curriculum das Forças Armadas americanas.

— Em toda a Europa, só Espanha parece ter percebido que os Estados Unidos de Donald Trump e dos MAGA não têm nada a ver com os Estados Unidos da Normandia ou do Muro de Berlim a que a Europa ficou a dever a sua libertação da besta nazi e posteriores 50 anos de paz face ao urso soviético. A desilusão vai-se instalando, mas, por ora, o discurso dos líderes europeus ainda assenta na ficção de que os Estados Unidos são um país aliado — quando o único aliado que eles têm e querem ter é Israel.

— Joe Biden impôs à Europa a proibição de comprar petróleo e gás à Rússia sob pena de sanções, e, para que não houvesse tentações, a Ucrânia, com a conivência da NATO, tratou de fazer explodir os dois gasodutos russos que traziam a energia para a Europa Central. Entretanto, os Estados Unidos aproveitaram e substituíram-se à Rússia na exportação do gás liquefeito para a Europa — só que bastante mais caro. E agora, com os preços da energia fora de controlo devido à guerra levada por americanos e israe­litas ao golfo Pérsico, a senhora Von der Leyen teve de ir dizer aos deputados europeus que a solução de voltar a importar gás e petróleo da Rússia era inaceitável, mesmo que todos acabem a ganir. Putin deve estar a rebolar-se de gozo.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

22 pensamentos sobre “Solidão e poder

  1. “Em toda a Europa, só Espanha parece ter percebido que os Estados Unidos de Donald Trump e dos MAGA não têm nada a ver com os Estados Unidos da Normandia ou do Muro de Berlim a que a Europa ficou a dever a sua libertação da besta nazi e posteriores 50 anos de paz face ao urso soviético.”
    É aqui que “a bota não bate com a perdigota”! Ou, como o MST sabe muito bem “andar no arame”, e safar-se!

    Mas, o homem nem repara nas suas contradições, escarrapachadas no mesmo texto:

    “— Joe Biden impôs à Europa a proibição de comprar petróleo e gás à Rússia sob pena de sanções, e, para que não houvesse tentações, a Ucrânia, com a conivência da NATO, tratou de fazer explodir os dois gasodutos russos que traziam a energia para a Europa Central. Entretanto, os Estados Unidos aproveitaram e substituíram-se à Rússia na exportação do gás liquefeito para a Europa…”

    Pergunta:

    Aqui, a América de Biden era aliada da Europa?

    A sério, há mesmo duas Américas politicas, uma boa e outra má?!

  2. A Hungria e Checoslováquia faziam parte do Pacto de Varsóvia e podes estar descansado que também os Estados Unidos invadiram quem bem lhes apeteceu quando países na sua esfera de influência quiseram seguir outros caminhos.
    Sem contar essa capacidade de escolher o pior filho de puta que uma terra já deu e apoiar a sua chegada ao poder no meio de um banho de sangue.
    Foi o destino que teve a Indonésia onde mais de um milhão de pessoas foram chacinadas.
    Foi o que aconteceu, em menor escala, no Chile.
    E podia estar a desfilar bons exemplos do amor a democracia desses trastes e da proteção que nos deram, nomeadamente treinando a PIDE mas amanhã e dia de trabalho.

    • Então, não se passa nada.
      Os poderosos fazem o que querem, os fracos o que podem.
      Começamos-nos a entender.
      O resto é como nas letras das músicas, é só para rimar.

  3. A propósito, alguém já viu o Papa Leão a condenar esta criminosa guerra levada a cabo pelos sionistas israelitas e americanos? O Papa Francisco não teria tido tantos pruridos em chamar os bois pelos nomes… mais a mais com o assassinato do mais alto representante xiita do Islão.

    Ou será que a CS anda a abafar o que não interessa ou não está alinhado com a “narrativa oficial” do Estado Profundo, com o seu Sistema Corrupto Instituído? Há muitas armas para comprar e vender, muitos contratos por realizar, muita clientela por satisfazer, muitos “empórios” por estabelecer…

    …alguém tem de comer as migalhas…

  4. “(…) mais de 90% dos israelitas sondados ­apoiam a continuação da guerra, supõe-se que até à aniquilação total do Irão — seja isso o que for e quando for.”

    Sondados por quem, Miguel? Informação muito duvidosa, digna do aparelho de Estado sionista, que até, imagine-se, condena em tribunal e pune quem publicar imagens de alvos e infra-estruturas israelitas atingidas pelas retaliações iranianas! Se eles se dão ao trabalho de ocultar os danos visíveis da guerra, será que também não manipulam essas “sondagens” de opinião pública?

    Já nem vou às responsabilidades que tiveram no 7 de Outubro e tudo o que se passou de lá para cá para justificar bombardeamentos de campos de refugiados, hospitais, escolas, instalações da ONU, etc…

    Quando querem disfarçar a brutalidade evidente dos seus métodos e os fins justificam os meios que empregam (IA e assistência norte-americana e europeia incluídas) com peças/petas tão “suaves”, só os pategos ou os incautos acreditam nelas…

  5. Mais um a tentar vender nos a banha da jiboia de que e a Rússia quem está a ganhar com isto.
    Claro que a Rússia tem tudo a ganhar se esta gente vencer o Irão e se sentir empoderada para apanhar o prêmio final, que sempre foi a Rússia.
    A Rússia e todos nós porque se o Irão não tem armas nucleares a Rússia tem e isto pode correr muito mal.
    E os Estados Unidos não nos livraram de nada, apenas nos mantiveram 50 anos a beira da guerra por hostilizarem um vizinho.
    Tal como a Rússia de hoje, a União Soviética não precisava de nos para nada. Só precisava que não os andássemos a boicotar.
    Mas e mais que certo que foi graças a ela que alguns países europeus puderam beneficiar de solidos estados sociais que começaram a ser desmantelados assim que a União Soviética implodiu.
    Era preciso que a plebe não pensasse em alternativas a esquerda.
    Nos e os espanhóis, como estávamos longe, e que continuamos a levar com fome e chicote, com o apoio de quem segundo o articulista nos livrou do urso soviético.
    E se o MST acredita que tínhamos sido transformados em ratos de laboratório se ainda houvesse “urso soviético” e porque bateu mesmo com muita força com os cornos numa azinheira.
    Que 90 por cento dos israelitas queiram a continuação desta guerra até a aniquilação de um país de mais de 90 milhões de habitantes qual e a novidade?
    São assassinos messiânicos que acreditam que esta guerra está a cumprir uma profecia bíblica.
    Tal como muitos trastes pastores evangélicos, os mesmos porcos que por cá apelam ao voto em forças fascistas.
    Parece impossível que haja tanta gente desta e pleno Século XXI mas a verdade e que e com gente desta que estamos a levar.
    Valha lhes um cardume de tubarões brancos famintos e ao MST um burro aos coices.

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